terça-feira, 25 de agosto de 2026

Fome, falta de remédios e aumento de mortes marcam vida de aposentados sob Milei

Na Argentina de Javier Milei, as estatísticas oficiais conhecidas mostram que o aumento das mortes entre os idosos é de 5% (65 a 74 anos), 8% (75 a 84) e 10% (+85), enquanto a motosserra é aplicada à saúde pública e medicamentos e benefícios são eliminados. O tema ressurgiu nesta quarta-feira na nova marcha dos aposentados.

Desta vez, eles conseguiram ir do Congresso até o Ministério da Saúde. A resposta do governo diante das reivindicações foi a habitual: polícia de choque. O que se viu e se disse, entre tortas fritas, cartazes e até poemas.

Miriam vive com pedras (na vesícula). Ela não consegue atendimento pelo PAMI. As clínicas de Río Negro, Neuquén, Chubut e La Pampa anunciaram a suspensão total do atendimento a 300 mil beneficiários no dia 24 de agosto, por 24 horas. Nem a província de Vaca Muerta alivia a situação de seus aposentados.

Miriam Cejas se afasta da fila com uma torta frita e um mate cocido servido em um copo de isopor. Ela tem 67 anos, é de Villa Lugano e isso seria como sua sobremesa: há pouco tempo conseguiu comer um ensopado de lentilhas graças à estrutura que o sindicato dos Caminhoneiros mantém há mais de um mês nas quartas-feiras dos aposentados no Congresso.

– Pronto, com isso já não como até amanhã.

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Ela justifica isso com as pedras que tem na vesícula e que tiram seu apetite, embora seja difícil para ela se tratar – diz –, porque não consegue consultas no PAMI, a instituição dedicada a oferecer assistência integral aos idosos.

Nas últimas horas, clínicas e sanatórios privados de quatro províncias – Río Negro, Neuquén, Chubut e La Pampa – anunciaram a suspensão total do atendimento a 300 mil afiliados no dia 24 de agosto, por 24 horas, uma situação que não ocorreu nem em 2001, segundo alertavam.

No Congresso, Miriam conta que, “por sorte”, conseguiu se aposentar há dois anos, quando ainda existia a moratória para regularizar suas contribuições, hoje interrompida pela motosserra libertária. Isso lhe permite receber uma aposentadoria mínima: 419.775 pesos, mais o bônus de 70 mil. “Isso não significa que seja suficiente para alguma coisa, porque tudo aumentou”, esclarece, e conta que mora com a irmã, com quem divide as despesas.

Por isso, tenta ir à distribuição de comida ou ao centro comunitário do bairro, ou ver se o verdureiro lhe deixa alguma maçã em troca de varrer a calçada dele (“agora há pouco meu estômago estava me pedindo alguma coisa, então comi meia laranja”), ou conseguir aquela promoção em Flores da bandeja de ovos por 3.500 pesos.

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– E, se não, o que vamos fazer: mate.

Mate como alimento, mate para aguentar.

– Temos que aguentar. Se não, não chegamos.

Chegar aonde, por que vir, são as perguntas tolas antes de começar a marcha.

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– Não é apenas por mim, é também pelos outros aposentados que têm filhos, que têm netos, que pagam aluguel. Eu gostaria que tudo mudasse. Eu ouvia Norma Pla quando ela defendia os aposentados: morreu sem resposta. Mas, se o ser humano não fizer isso, o que vai esperar? O descanso é decidido por Deus. Enquanto isso, nós temos que nos movimentar e buscar o dia a dia.

Suas companheiras a chamam. Miriam abraça a bandeira do Movimento Teresa Rodríguez (MTR) 12 de Abril e entra na marcha.

Nesta quarta-feira, a mobilização começou com um aviso: seria feita a habitual volta, mas depois caminhariam até o Ministério da Saúde, na avenida 9 de Julio com a rua Moreno. A faixa da frente parte com uma mensagem sem metáforas: “Estão nos matando”.

A pauta de reivindicações inclui desde o corte de medicamentos (o governo eliminou pelo menos 44 remédios que tinham 100% de cobertura) até os benefícios que não são suficientes para cobrir a cesta básica do idoso (1.800.000 pesos, segundo a Defensoria da Terceira Idade).

Eles também exigem o fim da intervenção no PAMI e a renúncia do ministro Mario Lugones, a quem chamam de “corrupto” e “assassino”, assim como ao presidente Javier Milei.

Pela lateral passam algumas pessoas vestidas de preto e com máscaras que se assemelham a um bufão triste. Elas carregam cartazes:

  • “A mortalidade de pessoas de 74 a 85 anos cresceu 7,8% em 2024, durante o primeiro ano do governo mileísta”.
  •  “O Estado é responsável por cuidar da nossa vida”.
  •  “Comprar comida ou remédio, uma escolha mortal”.
  •  “Basta de genocídio silencioso”.

Alguns dados: a quantidade de mortes em 2024, segundo a Direção de Estatísticas e Informação em Saúde (DEIS), entre aqueles que tinham mais de 85 anos aumentou 10%. Entre aqueles que tinham entre 75 e 84 anos, o aumento foi de 8%.

Morreram 17.339 pessoas a mais a partir dos 74 anos do que no ano anterior. Causas: pneumonia e influenza (16%), septicemias (12%), doenças do coração (9%), doenças cerebrovasculares (5%) e tumores malignos (2%), tudo no ritmo da motosserra aplicada à saúde pública e ao atendimento aos aposentados.

A palavra genocídio aparece em vários cartazes.

Um aposentado do grupo 12 Apóstolos grita para os carros que passam: “Temos que nos unir contra este governo. Juntem-se a nós, porra!”. Tanto na marcha quanto em frente ao Ministério, soma-se à reivindicação pela libertação de Milton Tolomeo e Eneas Gallo, que continuam presos desde fevereiro na prisão de Marcos Paz, quando foram detidos durante o protesto contra a reforma trabalhista. “Não estamos todos, faltam os presos”, cantam os aposentados.

Tudo acontecerá em frente ao Ministério e diante de um cordão simbólico de agentes da Polícia Federal, que tentam impedir que a marcha avance para a rua. Os aposentados dão um jeito de bloquear a rua Moreno e fazer com que o ônibus turístico da Cidade de Buenos Aires, que iria virar, mude de direção. Em cima, uma senhora de ascendência asiática agita os braços e saúda o que é cantado abaixo:

“Milei, Lugones, corruptos e ladrões”.

Outro que marchou com cartazes é Ricardo, aposentado da área de telefonia: não diz a idade exata, apenas que já passou do “meio século” e tem “outros tantos anos de experiência”. Sobre seus escritos, avisa: “Um é meio grosseiro e o outro, filosófico”. Quem estiver lendo dirá qual é qual:

  •  “Onde termina a mentira começa a revolução”.
  •  “Este Governo é uma merda, é preciso dar a descarga”.

Conta que é ferreiro, morador de Quilmes – sul da região metropolitana de Buenos Aires – e que hoje trouxe um poema caso justamente lhe fizessem uma entrevista. Dizemos a ele que é seu dia de sorte. Ele o tinha dobrado ao meio no bolso, escrito à mão. Trechos:

As balas das quartas-feiras
estão livres de culpa
abençoadas pelo capelão cego.

Essas balas
pagas pelo povo
apontam para um fotógrafo agachado
para um velhinho com andador
para um veterano em cadeira de rodas
para uma empregada doméstica que já não tem
impressões digitais de tanto limpar a merda alheia
para um catador das imundícies dos ricos.

As balas das quartas-feiras
têm fome de carne patriótica
fazem buracos por onde se derrama o sangue nobre dos meus irmãos.

Tomara que algum dia as balas da infâmia
tenham o tiro saído pela culatra
então será justiça.

¨      Impopularidade de Milei e Kast faz Trump apostar em Flávio para blindar aliados na região. Por Jamil Chade

O governo dos EUA precisa de uma vitória de Flávio Bolsonaro não apenas para tirar do poder um governo que busca autonomia diante dos interesses da Casa Branca. Os cálculos norte-americanos apontam que, para além do destino político do Brasil, a eleição é fundamental para o plano de Washington de estabilizar e perpetuar o poder nas mãos da extrema direita em Buenos Aires, Quito, Santiago, Assunção e no restante da região.

Ainda que o Hemisfério esteja sendo governado em grande parte por forças conservadoras e submissas aos EUA, a realidade é que muitos dos líderes vivem situações delicadas, uma população dividida e uma profunda queda de popularidade.

O temor da Casa Branca é de que esse suposto controle sobre a região seja efêmero e que não haja tempo suficiente para permitir que a hegemonia americana seja restaurada, na dimensão que pretendem os EUA.

O que nota, em diversos países, é um despontar de forças progressistas que, nas próximas eleições, podem desafiar os aliados de Trump.

O cálculo que se faz, portanto, é que uma vitória de Flávio Bolsonaro ajudaria a desmontar a pressão sobre os demais líderes da região, já que forças de oposição e progressistas deixariam de contar com o apoio do governo brasileiro.

Neutralizar a oposição na América Latina passa, portanto, por impedir que Lula tenha mais quatro anos no poder.

Com o petista, a preocupação é de que, a cada eleição na América Latina, forças progressistas poderiam ser mobilizadas para voltar a governar. O resultado seria o esvaziamento de acordos que foram assinados entre americanos e capitais da região.

<><> Queda de popularidade de Milei, Kast

Na Casa Branca, apesar do discurso de que “controla” a região, observadores são cientes das dificuldades que seus aliados atravessam.

Javier Milei, na Argentina, vive uma situação especialmente delicada. Sua taxa de popularidade, no mês de julho, foi de apenas 31,4%, o menor nível desde setembro de 2025. O que mais chama a atenção de observadores em Washington é que Milei, apesar do apoio explícito de Trump, continua vendo sua popularidade despencar.

O ritmo da queda tem se intensificado. Em fevereiro, tua taxa de aprovação era de 45%. Mas logo caiu para 38,5% em março, 32% em maio e, agora, pouco mais de 31%.

Não por acaso, a viagem de Milei para apoiar Flávio Bolsonaro, há poucas semanas, foi vista não apenas como um gesto de solidariedade em relação a um nome da extrema direita latino-americana. O argentino também sabe que precisa de uma derrota de Lula para que, internamente, tenha maior oxigênio e reciprocidade de um eventual governo do PL para enfrentar a oposição progressista.

No Chile, a situação de José António Kast não é das melhores tampouco. 54% dos chilenos indicaram que seu governo está pior do que se esperava em termos de segurança pública, sua principal bandeira de campanha. Depois de atingir uma taxa de 50% de aprovação em março, seus índices despencaram e hoje não passam de 35%.

No cado da Colômbia, o cálculo é diferente. Apesar da recente vitória da extrema direita na eleição presidencial, nunca as forças progressistas tiveram tantos votos e tanto apoio como agora.

Abelardo de la Espriella terá de governar diante de um movimento político liderado pela esquerda, o Pacto Histórico, que se transformou na maior força no Congresso. Além disso, o candidato derrotado, Ivan Cepeda, recebeu 12,7 milhões de votos, um recorde para os movimentos progressistas.

Em Washington, o governo sabe que essa realidade fará com que a oposição tenha força política e social para barrar reformas do novo presidente.

Mesmo na Venezuela, o temor é de que uma recuperação lenta da situação econômica leve uma parcela da população a questionar os acordos estabelecidos entre os ex-líderes chavistas e Trump.

¨      Ex-mulher de Cerimedo diz que consultor de Milei revelou corrupção no governo argentino

O ataque a tiros que quase matou Nadia Beller, ex-companheira de Fernando Cerimedo — preso na Bolívia sob acusação de ser o autor intelectual do atentado — acabou tendo repercussões na Justiça argentina, especialmente na investigação envolvendo a Andis, agência responsável por benefícios e medicamentos. Segundo os jornais Página 12 e La Nacion, Beller, que está internada em uma clínica de Santa Cruz, afirmou que Cerimedo, consultor ligado ao presidente Javier Milei e à direita latino-americana, teria falado diversas vezes sobre supostos casos de corrupção no governo argentino.

De acordo com Beller, Cerimedo também teria sido responsável, junto com sua ex-mulher, Natalia Basil, pela divulgação de áudios atribuídos a Diego Spagnuolo, ex-chefe da Andis, nos quais ele supostamente mencionaria pagamentos de propina e um repasse de “3% para Karina”, em referência a Karina Milei, irmã do presidente e integrante do governo. A ex-companheira disse possuir gravações de conversas privadas com Cerimedo, algumas com mais de uma hora, armazenadas em diferentes dispositivos.

Beller afirmou que fez essas gravações como forma de proteção pessoal, alegando que vinha sofrendo ameaças e maus-tratos de Cerimedo. Ela também declarou estar disposta a entregar o material à Justiça argentina caso seja convocada. A deputada Marcela Pagano já solicitou que Beller seja ouvida como testemunha, enquanto o promotor Franco Piccardi avalia a possibilidade de convocá-la no processo, que já resultou no indiciamento de 18 empresários e ex-funcionários públicos por crimes como associação ilícita, suborno e fraude contra o Estado.

De acordo com Beller, Cerimedo descrevia o governo Milei como uma estrutura “plagada de corrupção” e dizia que Karina Milei estaria no centro do esquema. Ela também relatou ter presenciado o distanciamento entre o consultor e integrantes do governo, além de conflitos com empresários e aliados políticos, entre eles Santiago Caputo. Segundo seu relato, Cerimedo estaria preocupado com a possibilidade de o governo perder sustentação e criticava medidas adotadas por Milei, incluindo ações de repressão e determinadas leis.

A ex-companheira atribuiu ainda a Natalia Basil, ex-mulher de Cerimedo, um papel importante na divulgação dos áudios. De acordo com Beller, o próprio consultor teria dito que Basil era responsável por fazer chegar as gravações às autoridades. Basil trabalhou na Andis entre abril e dezembro de 2024, período em que, segundo a investigação, começou a ser estruturado o sistema de licitações de medicamentos de alto custo que posteriormente seria alvo das denúncias de corrupção.

O possível depoimento de Beller, porém, não acrescentaria necessariamente elementos inéditos ao processo. Em setembro de 2025, o próprio Cerimedo já havia declarado à promotoria que conhecia Spagnuolo e que o ex-chefe da Andis lhe teria relatado a existência de propinas. Na ocasião, afirmou que 3% dos valores seriam destinados à Casa Rosada e que Martín “Lule” Menem receberia mensalmente uma quantia em dólares por supostamente dar aval às licitações.

A defesa de Spagnuolo tenta utilizar o relato de Beller para sustentar a tese de que os áudios fariam parte de uma operação de inteligência destinada a prejudicar o governo. Os advogados alegam que as gravações poderiam ter sido manipuladas ou até produzidas com inteligência artificial. Paralelamente, existe uma investigação conduzida pelo promotor Carlos Stornelli sobre essa hipótese, embora o processo principal disponha de outros elementos, como documentos de licitações, mensagens e dados extraídos de celulares de empresários investigados.

O juiz federal Ariel Lijo determinou que os áudios sejam submetidos a perícia pela Gendarmaria argentina. Enquanto isso, a investigação reúne outros indícios de irregularidades nas compras de medicamentos de alto custo. Dados das licitações apontam que 93,11% das ordens de compra acabavam concentradas em duas empresas, enquanto outras companhias teriam apresentado propostas artificialmente elevadas para simular concorrência. Anotações contábeis, mensagens de WhatsApp e registros de pagamentos também fazem parte das provas analisadas. A origem da divulgação dos áudios continua sendo alvo de disputa dentro do próprio campo governista, com diferentes personagens trocando acusações sobre quem teria promovido o vazamento.

 

Fonte: Por Lucas Pedulla, no Lavaca - Tradução: Isabelle Paiva, para Diálogos do Sul Global/ICL Notícias

 

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