sábado, 7 de novembro de 2026

Vitória de Lula deixa lições para a oposição argentina enfrentar Javier Milei

A retumbante vitória de Luiz Inácio “Lula” da Silva no histórico segundo turno das eleições de domingo oferece inúmeras lições para futuros processos eleitorais na região, especialmente na Argentina.

Apesar de as pesquisas preverem um “empate técnico” e até mesmo alguns dos principais veículos de comunicação brasileiros sugerirem uma ligeira vantagem para Flávio Bolsonaro, os resultados da eleição desmentiram essas previsões tendenciosas e nada inocentes.

Lula venceu com folga: 51,8% contra 48,2% de seu rival. Em números absolutos, ele obteve aproximadamente 4,4 milhões de votos a mais que seu oponente, uma diferença equivalente a 3,45% do eleitorado. A vitória de Lula foi um feito político de proporções gigantescas, destinada a exercer uma influência que se estenderia muito além do Brasil e da América Latina.

Quais seriam essas lições? Primeiro, a de que a existência de um instrumento político-eleitoral bem organizado, com capacidade de mobilizar as pessoas, pode levar às urnas eleitores que, em outras condições, não teriam ido votar.

A taxa de abstenção neste segundo turno foi de 19,2%, uma queda de dois pontos percentuais em relação aos 21,2% do primeiro turno e o menor nível desde as eleições de 2006. Mas, para alcançar esse resultado, o Partido dos Trabalhadores (PT) precisou sair de seus escritórios e ir às ruas para conquistar o eleitorado, algo que não conseguiu fazer no primeiro turno.

Os eleitores do PT ficaram em casa, em sintonia com o triunfalismo que emanava de Brasília. Mas, diante da ameaça representada pela possível vitória de Bolsonaro no segundo turno, decidiram ir às urnas, e os resultados falam por si.

O “território” é uma arena crucial em qualquer processo eleitoral e jamais pode ser negligenciado ou marginalizado pelos estúdios de televisão ou pela mídia em geral. Esse foi um dos erros mais graves cometidos pelo PT no primeiro turno.

Segunda lição: ao contrário do que ocorria não muito tempo atrás, hoje existem “outros territórios” onde as batalhas precisam ser travadas. Refiro-me às redes sociais, um espaço crucial controlado por um punhado de magnatas reacionários da tecnologia que, por meio de seus algoritmos, comandam sofisticados aparatos de comunicação e de modificação da percepção e da vontade.

O pessimismo predominante em amplos setores da esquerda e dos progressistas em relação a esse novo desenvolvimento baseava-se em uma premissa falsa: a indefesa dos cidadãos diante das maquinações e manipulações dos algoritmos em diversas plataformas de mídia social. O retorno triunfal de Lula desmentiu a validade universal dessa premissa.

Certamente, as plataformas da Meta (WhatsApp, Instagram, Facebook, Messenger e Threads, sem mencionar a Meta AI), juntamente com o X (ex-Twitter), são fatores que podem “moldar” as opiniões de grandes segmentos do eleitorado, mas sua eficácia está longe de ser irresistível e pode ser combatida se organizações e forças populares desenvolverem uma estratégia adequada, dedicada a neutralizar essas intenções. Isso requer a formação de um grande contingente de guerrilheiros digitais dispostos a travar batalhas na galáxia digital.

O PT (e Lula) ignoraram isso no primeiro turno, mas corrigiram o rumo no segundo, com os resultados que celebramos nesta data. Essa súbita percepção da importância do outro espaço territorial, o digital, foi precipitada pelo sucesso estrondoso de Ana Elisa Santos Silva, uma brilhante afro-brasileira de apenas 21 anos que obteve a maior votação da história ao ser eleita deputada federal pelo estado de Minas Gerais.

E ela conseguiu isso sem o apoio de seu partido, mas sim por meio de um ativismo incansável e diário nas redes sociais, que resultou em quase dois milhões de seguidores no Instagram. Isso foi uma bomba que abalou profundamente a direção do PT e convenceu Lula e o partido de que esse território, o digital, havia sido imprudentemente deixado nas mãos do inimigo.

Outro jovem, o deputado federal André Janones, que vinha trabalhando arduamente nas redes sociais, mas sem grande impacto junto à direção do partido, encorajado pelo sucesso de Ana Elisa, assumiu a organização do “Exército de Lula” no WhatsApp e conseguiu, em poucas semanas, reunir uma força de impacto de dez milhões de voluntários. Duas lições claras: voltar às bases e penetrar no espaço digital. Essas são duas das chaves mais importantes que explicam a vitória histórica de Lula.

A importância crucial dessa vitória será analisada em artigos subsequentes, mas há uma lição que quero enfatizar agora, enquanto ainda está fresca na memória: o imperialismo não é onipotente, e nada seria pior do que nos resignarmos às suas ameaças ou pensarmos que não há possibilidade de resistir aos seus planos vorazes. Trump ameaçou o “regime” iraniano de mil maneiras, e até mesmo as próprias Forças Armadas estadunidenses reconhecem que perderam essa guerra. Por mais de 60 anos, tentaram destruir a Revolução Cubana, mas não conseguiram e jamais conseguirão.

No caso brasileiro, Trump gritou, chantageou, ameaçou e pressionou de todas as maneiras imagináveis para impedir a vitória de Lula, mas não conseguiu neutralizar a vontade popular. Ele apoiou os Bolsonaros, pai e filhos, com todas as suas forças e sofreu uma derrota humilhante. Não só o Brasil, mas toda a América Latina, jamais será o “quintal do império”. O império não é invencível; deixemos essa crença para o lixo que fabricam em Hollywood. Haverá momentos de maior ou menor resistência, mas, no fim das contas, o povo, mais cedo ou mais tarde, se rebelará.

A onda de extrema-direita, que parecia prestes a varrer todo o continente, foi esmagada pela vontade e pelo patriotismo do povo brasileiro. Como resultado, as duas maiores economias da região e os dois países mais populosos, Brasil e México, erguem-se como bastiões inexpugnáveis contra as ambições de Washington. Cabe a nós, na Argentina, no próximo ano, unirmo-nos a esse movimento e pôr fim ao projeto colonizador personificado pelo outrora hiperativo, agora silencioso, usuário de ecstasy, Javier Milei, e pelos malfeitores que o acompanham.

¨      Com ‘Exército do Lula’, esquerda mundial vê Brasil como referência, diz especialista espanhol

A vitória do presidente Lula nas eleições presidenciais brasileiras de 2026 deu um ar de esperança à esquerda e aos setores progressistas na América Latina e na Europa. O impacto ultrapassou fronteiras.

A histórica virada eleitoral e as estratégias usadas pela equipe do PT serviram de inspiração para outros partidos políticos fora do Brasil, que disputarão eleições nos próximos meses.

Para o analista político, Sergio Castaño, o triunfo do PT em um país tão grande como o Brasil significa que a esquerda ainda tem relevância e importância no cenário internacional.

“Essas eleições brasileiras confirmam que a esquerda ainda tem uma chance. O Brasil é uma referência entre os BRICS e um dos países que pode exercer uma maior influência nos próximos anos”, explica o espanhol.

Em um momento em que a extrema direita avança na Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez transformou a vitória de Lula em argumento político para sua própria campanha eleitoral.

Sánchez parabenizou o presidente brasileiro na rede social X: “grande vitória de Lula da Silva! O que aconteceu no Brasil acontecerá na Espanha. A virada do progressismo global acaba de começar”.

O premiê fez referência às eleições gerais espanholas, marcadas para o dia 29 de novembro, apostando que a esquerda espanhola poderia repetir a recuperação eleitoral de Lula.

“Lula e Pedro Sánchez marcaram o ritmo na última Assembleia Geral da ONU, em Nova York, com essa ideia de manter o multilateralismo e reforçar a cooperação internacional, dentro de uma linha progressista. O discurso do presidente brasileiro foi um dos que mais chamou a atenção”, diz Castaño.

<><> Campanha digital brasileira inspira

O canal do Whatsapp “Exército do Lula”, liderado pelo deputado federal André Janones, que chegou a mais de 10 milhões de seguidores e ajudou a mobilizar votos a favor de Lula é uma estratégia que está sendo replicada também em outros países.

O Partido Socialista Operário da Espanha (PSOE), do premiê Sánchez, criou o canal “La Fuerza de La Gente”, no dia 11 de outubro. Logo após a vitória de Lula, o número de seguidores subiu 250% e atualmente conta com mais de 47 mil pessoas.

Além de vídeos e informações do partido, são compartilhadas táticas para evitar interação com a extrema direita nas redes sociais. Essa mesma cartilha, conhecida como “minimanual da insurgência informativa”, foi anunciada por Janones durante as eleições brasileiras.

Em abril do ano que vem, a França terá eleições presidenciais. O canal “L’équipe de Mélenchon officielle”, foi criado um dia após a vitória de Lula. Em apoio ao candidato de esquerda radical Jean-Luc Mélenchon, do partido França Insubmissa, o canal triplicou rapidamente o número de participantes e atualmente conta com mais de 170 mil seguidores.

O canal brasileiro também inspirou o peronismo na Argentina. Com quase 70 mil participantes, o canal “Ejército del Peronismo” foi criado poucas horas depois da vitória de Lula.

Na descrição do grupo é possível ler que a inspiração veio diretamente do ¨Exército de Lula¨. O objetivo é organizar apoiadores para defender ideias e multiplicar na disputa pelas eleições presidenciais de 2027.

Para Castaño, a tendência global de avanço da direita e da extrema direita é clara. Por isso, tanto Lula como a Claudia Sheinbaum, principal líder de esquerda do México, terão um papel fundamental na América Latina.

“Se Lula conseguir que suas propostas sejam ouvidas em outros países, a esquerda vai sair fortalecida. Outro aspecto importante que temos que levar em conta são as expectativas depositadas na direita em governantes de países como Peru ou Colômbia, por exemplo. Se as suas promessas eleitorais não forem atendidas, isso também poderia ajudar a esquerda”, acredita o analista político.

¨      Cristina Kirchner cogita disputar Presidência em 2027 e recebe André Janones na Argentina

A ex-presidente argentina Cristina Kirchner voltou ao centro do debate político do país nesta semana ao conceder sua primeira entrevista a um veículo internacional desde o início da prisão domiciliar, decretada no ano passado.

Na conversa com o jornal estadunidense The Washington Post, publicada em 2 de novembro, a líder peronista abordou o cenário político argentino, criticou as políticas econômicas do presidente Javier Milei e não descartou a possibilidade de disputar novamente a Presidência nas eleições de 2027.

No mesmo dia, Kirchner recebeu em seu apartamento, em Buenos Aires, o deputado federal brasileiro André Janones (Rede-MG), que viajou ao país acompanhado dos publicitários Rafael Marroquim e Chico Kertész, integrantes da equipe de comunicação da campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O encontro teve como objetivo apresentar experiências de mobilização política e comunicação digital utilizadas na campanha brasileira, que passaram a despertar o interesse de setores da oposição argentina.

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<><> Kirchner desafia condenação e projeta retorno à Presidência

Ao The Washington Post, Kirchner afirmou considerar possível retornar à disputa presidencial caso consiga recuperar seus direitos políticos. “Quando eu recuperar meus direitos políticos, por que não?”, declarou ao ser questionada sobre uma eventual candidatura em 2027.

A ex-presidente cumpre uma condenação de seis anos de prisão domiciliar no âmbito do caso Vialidad, relacionado a um suposto esquema de contratação de obras públicas na província de Santa Cruz, durante sua presidência, que, segundo os promotores, teria beneficiado um aliado empresarial.

A sentença e sua posterior confirmação, entretanto, são contestadas pela defesa, que questiona a ausência de provas e aponta que a condenação teria se baseado em notícias publicadas pela grande mídia. A defesa também associa o processo a outros casos de perseguição judicial contra lideranças políticas na América Latina, como ocorreu com o presidente Lula durante a Operação Lava Jato. Kirchner nega as acusações e sustenta que o processo possui como motivação afastá-la da política.

Em julho de 2026, Kirchner e seu advogado, o brasileiro Rafael Valim — conselheiro jurídico de Lula durante a Lava Jato —, enviaram ao Comitê de Direitos Humanos da ONU um pedido de análise do caso. A iniciativa argumenta que foram negados à ex-presidente o devido processo legal e direitos fundamentais, seguindo um caminho semelhante ao trilhado por Lula durante seu caso.

Kirchner e Valim afirmam que a peronista foi injustamente responsabilizada por ações de seu chefe de gabinete e de outros ministros, além de alegarem que sua defesa teve o acesso negado a peças-chave do processo.

Ao abordar a conjuntura nacional, Kirchner reconheceu que o próprio movimento peronista teve responsabilidade na derrota eleitoral de 2023, quando Javier Milei chegou à Presidência em meio a uma grave crise econômica. Durante o governo de Alberto Fernández, do qual Kirchner foi vice-presidente, a inflação anual chegou a 211%, enquanto a pobreza alcançou aproximadamente 40% da população.

A deterioração econômica que marcou o governo de Alberto Fernández, entretanto, não teve origem exclusivamente naquela administração. Ao assumir a Presidência, em 2019, o peronismo recebeu o país em recessão, pressionado pelo endividamento externo acumulado durante o governo de Mauricio Macri, pela desvalorização do peso e por uma inflação que já ultrapassava 50% ao ano. A pandemia de Covid-19, iniciada em 2020, somada à escassez de divisas e a dependência das exportações agrícolas aprofundaram esse quadro, que se traduziu em perda do poder de compra, aumento da pobreza e dificuldades para estabilizar a economia argentina.

A ex-presidente também avaliou que a oposição precisa compreender os fatores que levaram parte do eleitorado a apoiar lideranças que prometem romper com o sistema político tradicional. Para Kirchner, a reconstrução do campo progressista não pode se limitar à tentativa de recuperar o poder, mas exige propostas concretas para responder às dificuldades econômicas cotidianas da população, especialmente às questões relacionadas à renda e ao endividamento.

A crítica ao governo Milei, nesse sentido, foi acompanhada pelo reconhecimento dos resultados e contradições de sua política econômica. Kirchner reconheceu que o atual presidente reduziu a inflação em relação aos níveis que herdou, mas apontou o aumento da pobreza e do desemprego como consequências sociais do programa de austeridade implementado. Segundo ela, a insatisfação com as condições de vida pode voltar a alimentar a oposição ao governo.

A entrevista também abordou a conjuntura internacional e a relação entre os governos de direita da América Latina e Donald Trump. Kirchner afirmou esperar uma derrota do presidente e dos republicanos nas eleições legislativas de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas nesta terça-feira (3), que concretizaram a expectativa da peronista. Para ela, o resultado pode representar um revés para a atuação de Trump em favor de governos de direita na região. Como declarou:

“Paradoxalmente, o homem que fez de tudo para ajudar os governos de direita a vencer na América Latina perderá as eleições em seu próprio país”, disse Kirchner. Ela espera que os eleitores dos EUA lancem uma onda progressista.

A ex-presidente também mencionou sua relação com Lula, que, segundo relatou, a aconselhou a manter uma rotina de exercícios e tentar não ficar deprimida durante o período de detenção. A experiência do presidente brasileiro, que permaneceu preso por 580 dias antes de ter suas condenações anuladas e retornar à Presidência, aparece como uma referência em sua própria disputa judicial e política.

<><> A experiência eleitoral brasileira como referência para a oposição argentina

Para além da referência no enfrentamento judicial, o Brasil também se tornou exemplo no combate eleitoral à extrema direita após a reeleição do presidente Lula. Nesse contexto, a visita de André Janones a Buenos Aires ocorre em um momento de reorganização das forças oposicionistas argentinas e de preparação para as eleições presidenciais de outubro de 2027. 

O deputado brasileiro ganhou projeção nacional pela criação do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, utilizado para organizar apoiadores, distribuir conteúdos políticos e ampliar a mobilização digital durante a campanha presidencial brasileira.

Além de Kirchner, Janones se reuniu com Sergio Massa, ex-ministro da Economia e candidato peronista derrotado por Milei no segundo turno de 2023. O encontro também contou com a participação de Rafael Marroquim e Chico Kertész, profissionais que trabalharam na comunicação da campanha de Lula.

Em declaração à CNN Brasil, Janones afirmou que a viagem tinha como objetivo compartilhar técnicas utilizadas na campanha brasileira. Segundo o deputado, a intenção era apresentar a experiência da reeleição de Lula e as estratégias que contribuíram para mobilizar seus apoiadores.

A aproximação também envolve a tentativa de construir uma frente política capaz de reunir diferentes setores da oposição a Milei. De acordo com informações obtidas pela CNN junto a integrantes da equipe de Massa, o ex-ministro pretende articular uma frente anti-Milei que incorpore outras forças políticas para além do peronismo.

A disputa pela liderança desse campo, entretanto, ainda apresenta divergências. Além de Massa e Kirchner, o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, aparece entre os nomes cotados para a disputa presidencial. A construção de uma candidatura unificada será um dos principais desafios da oposição, que busca transformar a insatisfação com o governo Milei em uma alternativa eleitoral.

Durante a passagem pela Argentina, Janones também gravou um vídeo em espanhol para o canal “Ejército del Peronismo”, iniciativa digital que busca reproduzir parte da experiência brasileira de mobilização pelo WhatsApp. Na gravação, o deputado convocou os argentinos a participarem da organização e afirmou que a vitória de Lula poderia servir de inspiração para a oposição argentina.

A visita, contudo, provocou reações no campo governista. Na quarta-feira (4), Milei compartilhou publicações nas redes sociais que acusavam setores da esquerda argentina de recorrer a atores estrangeiros para influenciar a disputa política nacional. Integrantes de seu governo também criticaram a presença do deputado brasileiro e a apresentação de estratégias de comunicação eleitoral. As manifestações recolocaram em debate as relações políticas entre Brasil e Argentina em meio à preparação para as eleições de 2027.

Entre a tentativa de reabilitação política de Cristina Kirchner, a articulação de Sergio Massa e a busca por novas formas de mobilização digital, a oposição argentina começa a desenhar suas estratégias para enfrentar a continuidade do projeto político de Javier Milei.

 

Fonte: Prensa Latina/Opera MundiDiálogos do Sul Global

 

 

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