sábado, 7 de novembro de 2026

Domingos Leonelli: O legado de Lula em 2030

Duas grandes emoções na noite de 25 de outubro. A primeira foi a virada histórica e inédita nas urnas, fruto do levante popular liderado pela juventude brasileira que derrotou de uma só vez a ultradireita bolsonarista, o imperialismo norte-americano, as bigtechs e a Faria Lima.

A segunda foram as falas de Lula sobre um novo “jeito de governar”. Esse novo jeito seria decorrência do grande movimento nas ruas e nas redes sociais que transformou o segundo turno das eleições de 2026 em algo próximo de uma verdadeira revolução democrática.

 Parece que a extraordinária articulação das ruas e das redes sociais abriram os olhos de Lula para o que Manuel Castells chama de “sociedade em rede”. E agradecendo ao “general” André Janones, ele até já adquiriu um telefone celular.

Tanto no Hotel Continental como na Avenida Paulista, Lula recorreu à palavra revolução várias vezes. Revolução na educação com a universalização das escolas em tempo integral, revolução energética, revolução do SUS, revolução tecnológica.

Lula também falou da criatividade, esse novo fator da economia do conhecimento resultante da revolução tecnológica. Ele disse que vai “exercitar o potencial criativo desse povo para o Brasil deixar de ser um país periférico. Queremos ser um país central.” Quase que enuncia literalmente a proposta do PSB absorvida no excelente Programa de 2026 do Governo Lula-Alckmin, coordenado por José Sérgio Gabrielli, que sugere o slogan “Brasil, Potência Criativa e Sustentável”.

E como que desenhando o seu quarto mandato presidencial referiu-se à economia digital, à economia verde e à economia criativa, certamente englobando nessa última a economia da cultura. Na economia verde, o aproveitamento sustentável da biodiversidade da Amazônia. E na economia digital, a transição digital da indústria e a Inteligência Artificial brasileira já iniciadas no programa Nova Indústria Brasil, tocada por Alckmin no MDIC e por Mercadante no BNDES.

O grande valor dessas referências é que foram feitas num momento de grande emoção. Prova de que estão contidas num novo repertório do Presidente. Isso é muito bom.

Juntando essas novidades aos compromissos assumidos durante a campanha com a efetiva soberania nacional (tecnológica e digital), a industrialização das terras raras, os investimentos nas indústrias de defesa, a ampliação da infraestrutura logística e do apoio ao empreendedorismo que representa mais de 90% das empresas brasileiras, teremos o desenho de um verdadeiro Projeto Nacional de Desenvolvimento. Um plano estratégico para os próximos 20 anos do Brasil.

O Projeto Nacional de Desenvolvimento é, com certeza, o maior legado que o Presidente Lula pode deixar para as próximas gerações.

Entretanto, para iniciar a sua implantação, o governo Lula-Alckmin precisará enfrentar pelo menos dois grandes obstáculos: o sistema financeiro voltado para o rentismo improdutivo e o patrimonialismo fisiologista e corrupto que deformou a política brasileira.

O poderoso sistema financeiro brasileiro precisará ser redirecionado para financiar e ganhar dinheiro com atividades produtivas e não com as maiores taxas de juros do mundo. Sabemos que isso não é fácil considerando o poder real desse sistema em relação às estruturas políticas e de comunicação. Por isso, a mobilização popular com a qual Lula deverá contar neste governo precisa se dar no terreno mais concreto e visível, que são os elevadíssimos juros sobre dívidas e, principalmente, sobre cartões de crédito.

Quanto à política e ao parlamento, eles não se autoreformarão por vontade própria. Mas o fim da jornada 6×1 já nos mostrou o caminho: pressão e mobilização.

O Exército de Lula, por exemplo, deverá evoluir da guerrilha eleitoral, ou guerra de movimento, para a guerra de posição em torno de grandes temas do desenvolvimento e da emancipação popular. 

Claro que para iniciar a implantação de um Projeto Nacional de Desenvolvimento é preciso em primeiro lugar formulá-lo com clareza e alguma precisão, estabelecendo metas e prazos. O ponto de partida dessa formulação pode ser o já referido Programa de Lula-Alckmin 2026.

Concomitante à formulação é preciso criar, criativamente, o arsenal de comunicação política em vários níveis. Desde artigos e textos, discursos de parlamentares, pronunciamentos de autoridades até os cards, recortes e vídeos curtos para redes sociais.

Assim, a soma das revoluções pacíficas e democráticas propostas por Lula para a educação, a tecnologia, o SUS, poderiam ser sintetizadas num grande slogan já criado por Caio Prado Junior: Revolução Brasileira.

O Projeto Nacional de Desenvolvimento poderia ser definido como a construção de um Brasil Potência Criativa e Sustentável.

Enfim, o principal legado que o governo Lula-Alckmin pode deixar ao fim dos próximos quatro anos é um projeto nacional de desenvolvimento. Uma revolução pacífica e democrática em curso.

•        Tereza Cruvinel: EUA e Brasil - a força da onda democrática

Embora previsíveis, a derrota de Trump e a vitória dos democratas nas eleições americanas superaram todas as projeções. Aqui, nem o mais otimista dos petistas previu que Lula derrotaria Flávio Bolsonaro com uma frente de quatro milhões de votos. Mais que feitos partidários, tais vitórias foram produzidas por “ondas eleitorais”, fenômeno que os cientistas sociais não explicam bem e que parece ajustar-se à ideia do “espírito do tempo”, que Herder lançou e Hegel aprimorou. (Obrigada, Joaquim, por me lembrar a expressão original: zeitgeist.)

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Para estes filósofos alemães, o “espírito do tempo” é amalgamado pelo conjunto de sentimentos, crenças, valores e aspirações de uma sociedade em determinado momento. Parece que ele está solto entre nós e começou sua incursão pelo Brasil, pois na metade de setembro a extrema-direita ainda foi vitoriosa em eleição regional na Alemanha. E mesmo aqui, vale sempre recordar que a direita radical elegeu boa penca de governadores e grandes bancadas no Congresso.

O “espírito do tempo” é uma força que ultrapassa fronteiras nacionais, cria vontades coletivas e parece ganhar força na medida em que se desloca. E, se assim for, a Europa democrática que aplaudiu vigorosamente o resultado brasileiro tem razões para se animar, porque lá a extrema-direita continua de dentes arreganhados.

A insurgência popular pelo voto, nos Estados Unidos, fez mais que tirar de Trump a maioria na Câmara e no Senado. Os democratas venceram em estados onde a disputa sempre é acirrada e tomaram dos republicanos alguns de seus redutos, como o Texas, onde os democratas elegeram o primeiro senador em 38 anos, um certo Talarico, derrotando o trumpista Ken Paxton.

Foram muitas as surpresas, como a da eleição de Annie Andrews para o Senado, na Carolina do Sul, derrotando a republicana Darlinbe Graham. O Kansas elegeu seu primeiro senador democrata desde 1929.

Ainda há votos sendo apurados, mas, pelos últimos dados que vi, Trump perderá a maioria que tinha no Senado, onde agora deverá contar com 44 contra 56 dos democratas, que já conseguiram a maioria de 234 cadeiras na Câmara. Ainda que não haja processo de impeachment, a vida dele agora será muito mais difícil. Ele já baixou a crista ao reconhecer o resultado.

Nas disputas por governos estaduais, a vitória democrata não foi menos luzente.

A baixa popularidade de Trump, a irritação popular com a inflação e o custo de vida e, por decorrência, com as guerras do presidente, a da Ucrânia e a do Irã, são explicações óbvias para a derrota republicana. Óbvias, mas não definitivas.

Algo mais os eleitores quiseram dizer nas urnas. Disseram estar desgostosos com o mundo oferecido por Trump e, por isso, não apenas descarregaram votos no partido de oposição. As mulheres, as minorias e os grupos raciais saíram fortalecidos e ganharam evidência para suas causas.

Até agora, já são 17 os estados que serão governados por mulheres, um recorde. Mais duas ainda podem ser confirmadas. Keisha Lance Bottoms, eleita na Geórgia, será a primeira governadora negra do país. Debra Haaland, do Novo México, será a primeira indígena. E Gina Hinojosa, do Texas, a primeira governadora latina do país. Entre os homens, cinco negros foram eleitos governadores, um marco quantitativo.

Em outra quebra de tabu, Abdul El-Sayed tornou-se o primeiro senador eleito, enquanto Chris Pappas será o primeiro senador assumidamente gay. Byron Donalds, governador eleito da Flórida, é republicano, mas será o primeiro homem negro a ocupar o posto naquele estado sulista.

E ainda temos, como novidade, aqueles sete brasileiros que se elegeram deputados estaduais.

Um resultado tão expressivo, não apenas pelos números, mas também pelo ineditismo e a qualidade da representação, terá impacto também fora dos Estados Unidos. Afetará, com certeza, as relações dos Estados Unidos com a América Latina e com o Brasil, no mínimo reduzindo as tensões.

Se todas estas coisas são obras do espírito do tempo, e se ele está solto, podemos acreditar que outras mudanças estão a caminho.

•        Lula é gigante, Lula somos todos nós. Por Pedro Maciel

Minha mãe não se reconhecia como petista. Apresentava-se, orgulhosa, como uma “lulista”, mas qual seria o significado disso.

É comum dizerem que o conceito de lulismo teria sido cunhado pelo cientista político André Singer (porta-voz do governo Lula e professor da USP) e desenvolvido principalmente em sua obra Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador, publicada em 2012. O conceito foi aprofundado em outra obra, O lulismo em crise, de 2018, contudo, antes de 2012, minha mãe já usava o termo.

Mas o que seria o lulismo?

Seria um fenômeno político e eleitoral inaugurado no final do primeiro mandato de Lula e consolidado em sua reeleição, em 2006? Há quem defenda que sim e que se caracterizaria pelo apoio popular à figura de Lula, superando a tradicional adesão ao Partido dos Trabalhadores.

Mas por que no final do primeiro mandato? Porque até 2006 o PT e Lula representavam as aspirações da classe média urbana, escolarizada e do mundo universitário, após 2006 Lula tornou-se muito maior que o PT ou qualquer partido, à esquerda ou à direita e, segundo André Singer, ocorreu uma conversão das camadas mais pobres da população ao lulismo – especialmente do subproletariado e dos eleitores de baixa renda, com destaque para a região Nordeste -, que passaram a votar em Lula.

Os mais jovens não sabem, e os mais velhos, convenientemente, se esquecem, mas o Nordeste era governado por oligarquias, por coronéis desprezíveis, até que o lulismo deu às pessoas o mínimo de dignidade, ganhando o apreço da população sofrida do Nordeste. Em contrapartida, após o mensalão setores importantes da classe média urbana afastou-se do PT e de Lula.

Singer argumenta que o eleitorado nordestino é, por natureza, conservador (no sentido de prezar pela estabilidade e temer perdas materiais bruscas), mas reconheceu a melhora substancial de suas vidas após 2003.

Ao contrário do que os incautos e os vis vocalizam, o lulismo não representa uma ruptura revolucionária ou socialista, mas, sim, uma reforma gradual combinada a um pacto conservador.

Os governos Lula procuraram conciliar programas de transferência de renda (como o Bolsa Família), valorização do salário-mínimo, expansão do crédito consignado e geração de empregos formais com a manutenção da macroeconomia liberal (superávit primário, metas de inflação, câmbio flutuante e altas taxas de juros), sem ameaçar os interesses do mercado financeiro.

Até as manifestações de junho de 2013, o conflito político tradicional entre esquerda e direita foi parcialmente deslocado para uma clivagem entre ricos e pobres.

No livro O lulismo em crise (2018), Singer analisa o período dos governos de Dilma Rousseff e os fatores que levaram à derrocada do arranjo institucional até então vigente. Teria ocorrido o “rompimento das vigas estruturantes”, pois o governo Dilma tentou empreender um “ensaio desenvolvimentista” e republicano que acabou afastando duas bases fundamentais do arranjo lulista original: (i) o capital financeiro e (ii) o chamado “partido do interior”, representado historicamente pelo PMDB e por alianças pragmáticas no Congresso.

Dilma também foi punida por uma crise que não causou. Na perspectiva dos conspiradores, liderados por Temer, Cunha e Aécio, ele cometeu erros, contudo, apesar da recessão, o desemprego e a queda de renda no segundo mandato de Dilma Rousseff, a base popular – o subproletariado que aderira ao lulismo – retirou seu apoio e “puniu” o projeto nas urnas e nas ruas, culminando no impeachment de 2016, não havia necessidade de afastá-la.

Evidentemente, a vileza de Temer, Aécio Neves, Cunha, de parte importante da classe política e da imprensa foi determinante para a derrocada de Dilma. Não havia razão honesta alguma para o impedimento da presidente, mas ele aconteceu desonestamente.

Voltando ao tema. Se o lulismo não é revolucionário e se ele fez e tenta manter um pacto conservador, o que ele é? O lulismo poderia ser reconhecido, no máximo, como social-democrata, mas creio que os governos lulistas foram, em verdade, de natureza social-liberal.

E em que momento o lulismo transcendeu seu papel em nosso país e Lula se torna uma figura de dimensão mundial?

Na realidade, Lula, ao fundar o PT, a CUT e mais tarde, já presidente, incluir os mais pobres no orçamento, tornou-se uma figura de respeitabilidade mundial, contudo, foi sua jornada de herói que deu a Lula e ao Lulismo outro significado.

A Jornada do Herói de Lula contém as doze etapas previstas por Joseph Campbell em seu livro O Herói de Mil Faces (1949), que descreve a trajetória transformadora de um protagonista.

A vida de Lula não poderia ser mais comum em seu ambiente habitual, nascido muito pobre, num nordeste abandonado pelo governo nacional e explorado pelos coronéis, Lula é chamado à Aventura por Don Lindu, sai de Pernambuco de pau-de-arara, um desafio que rompe sua paz e o convida a mudar; não tenho dúvida que essa primeira jornada gerou medo ou hesitação no menino que em abandonou compulsoriamente sua zona de conforto.

Lula teve, a meu sentir, dois mentores: Dona Lindu, sua mãe e Frei Chico, seu irmão, que ofereceram conselhos fundamentais e garantiram que sua partida definitiva para o mundo desconhecido ocorresse com virtudes e princípios bem estabelecidos. No novo ambiente, o mundo sindical, teve início a formação de vínculos e primeiros combates, que culminaram na fundação do PT e depois na sua eleição à presidência da república.

Na presidência Lula viveu o maior desafio e o ponto central da jornada, obtendo inegável sucesso, deixou a presidência com mais 85% de aprovação e elegeu sua sucessora.

Mas o impensável ocorreu: Lula viu-se, anos após deixar a presidência, envolvido numa trama, me refiro à Operação Lava-Jata, que hoje sabemos foi a maior fraude do Poder Judiciário e que, ao lado os movimentos de junho de 2013, representou a batalha de maior risco.

Lula venceu a injustiça representada pela Lava-Jato e foi recompensado: os processos foram anulados e ele elegeu-se para um terceiro mandato.

Lula hoje, após vencer mais uma vez e aos 81 anos, faz o caminho de volta, início do retorno rumo ao mundo de origem, o que representa a ressurreição e a transcendência, um último teste transformador que sela a mudança definitiva do nosso herói.

Lula volta mais sábio, cônscio do seu papel no Brasil e no mundo, e fala em fim da guerra e em paz e sua voz alcança não apenas o nosso Brasil, mas o mundo todo.

Ao sair de uma prisão injusta, ter os processos anulados e, posteriormente, declaradas as prescrições; ao enfrentar a extrema-direita no Brasil e eleger-se presidente, vencendo o então presidente Jair Bolsonaro; ao reconstruir a institucionalidade e a imagem do Brasil no exterior e, principalmente, ao enfrentar os excessos de Trump com altivez, respeito e dignidade — fez com que, ao vencer pela quarta vez as eleições presidenciais, deixasse de ser apenas nosso para se tornar de todo o mundo.

Lula não é do PT é de todos os partidos, é de todo o mundo; o lulismo somos todos nós que acreditamos em revoluções pacíficas, no progresso nacional, que atenda os interesses da nação e do seu povo.

Guilherme de Almeida, o Príncipe dos Poetas, escreveu: “como de mim a de partir uma alma, de mim partiu meu primeiro verso, Campinas adorada amada minha, deixei de ser eu, para ser nós”, Lula é isso, é significado, é mensagem, Lula vive em todos nós. Isso é o lulismo hoje.

 

Fonte: Brasil 247

 

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