Célio
Turino: Grãos para uma nova política cultural
Foi por
um triz. Mas o povo transbordou, generosamente, corajosamente,
esperançosamente. Tomou ruas e redes, conversou com vizinhos e parentes, com
caixas de supermercado, avós e avôs, com jovens e trabalhadores. Com todo
mundo. E disse: – queremos um mundo bom, belo e justo para já!
Assim
barramos o ascenso eleitoral do fascismo. Foi luta renhida, dura. Mas
enfrentamos, palmo a palmo. Sem nada pedir, mas com muito a esperançar. Não foi
vitória definitiva, o ambiente segue difícil e para enfrenta-la a cultura terá
um papel como nunca dantes. Pensando bem, só chegamos a essa trágica situação
porque negligenciou-se a dimensão estratégica da cultura. Enfim…
Não
pretendo me alongar. Por isso ofereço capítulos do meu livro Sementeira
(Autonomia Literária, 2025) como contribuição ao debate sobre os rumos para a
política cultural nos próximos quatro anos. Entrego capítulos inteiros, não
todos, são 38 capítulos na primeira edição, mas aqueles mais diretos para
aplicação em um programa de governo. Por favor, recebam como contribuição
desinteressada, não pretendo ir além disso, mas também não poderia me furtar em
apresentar reflexões, filosofia e praticidade cultivadas por quase cinquenta
anos em política cultural. São grãos guardados em minha lata de sementes
(crioula, caipira, como sou), espero que alguém pegue esses grãos e os cultive
com amor e destemor.
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Parte I. Audiovisual e Soberania Cultural
Audiovisual
é indústria, artesanato e arte. Três dimensões de uma mesma experiência, nem
sempre em harmonia. Como indústria, organiza capitais, tecnologias, trabalho e
mercados; como artesanato, exige a inteligência das mãos, a precisão do olhar,
a delicadeza do detalhe e a colaboração entre saberes; como arte, ultrapassa a
fabricação de imagens para produzir assombro, deslocamento e alteridade. Pode
provocar o riso e o espanto, conduzir-nos ao encontro de vidas que jamais
viveríamos, mas também reduzir o mundo a vulgaridades, transformar pessoas em
consumidores de representações, converter a imaginação em mercadoria. A
contradição é intrínseca ao espelho que é o audiovisual.
Uma
câmera não apenas registra o existente, ela escolhe o enquadramento, o tempo, o
que aparece e o que permanece fora de campo. Filmar é interpretar, assim como
quem monta reorganiza o tempo. Mas quem distribui decide quais interpretações
encontrarão o público. Entre a realidade e sua representação transitam
interesses, subjetividades, relações de poder, nenhuma imagem é inocente,
portanto, mas nem por isso o audiovisual está condenado à manipulação como
padrão, pois é nessa tensão entre revelação e ocultamento que o audiovisual se
constitui como linguagem, conhecimento e disputa de sentidos.
É
indústria poderosa. Segundo estudo da Oxford Economics citado na primeira
edição deste ensaio, a atividade audiovisual brasileira envolve aproximadamente
18 mil empresas registradas na ANCINE, mais de 650 mil postos de trabalho,
receita anual de R$ 60 bilhões e geração estimada de R$ 7 bilhões em tributos.
Estudo da Deloitte sobre a América Latina, encomendado pela Netflix, projetava
receitas de US$ 170 bilhões para 2030, estimando que, para cada US$ 10
investidos no setor, outros US$ 6 a US$ 9 seriam gerados na cadeia de
suprimentos, com 50% a 70% dos empregos associados a atividades externas ao
núcleo audiovisual. Uma economia que ultrapassa estúdios e salas de cinema,
alcançando tecnologia, comércio, serviços, educação e jogos digitais. Mas a
dimensão econômica não explica sua singularidade, o audiovisual produz
mercadorias que também produzem comportamentos, sensibilidades e modos de
compreender o mundo. Seu valor não se esgota na transação comercial, pois as
imagens continuam agindo depois de consumidas, permanecem na memória, modelam
desejos, naturalizam hierarquias, inventam possibilidades. Uma mercadoria
audiovisual pode desaparecer das vitrines e continuar vivendo no imaginário de
gerações. Feche os olhos e recorde-se de filmes assistidos há muito tempo.
Como
artesanato, é obra de muitas mãos. Roteiristas, pesquisadores, diretoras,
atores, fotógrafos, músicos, cenógrafos, figurinistas, técnicos de som,
montadores, animadores e tantos outros ofícios encontram-se na construção de
uma experiência comum. Há algo de bordado coletivo nesse trabalho, feito de
matéria e imatéria, precisão técnica e intuição sensível. Cada detalhe
participa do todo, sem que o todo se reduza à soma dos detalhes, isso faz da
técnica, quando não subjugada à repetição mecânica, extensão da sensibilidade
humana.
E há a
arte. Essa dimensão que não se deixa capturar inteiramente pela indústria nem
pelo domínio do ofício. Arte acontece quando a imagem deixa de apenas
representar e passa a interrogar, quando o espectador entra na história e a
história permanece nele depois que a sessão termina. Um gesto mínimo pode
abalar certezas consolidadas e uma vida singular revelar questões universais,
pela sétima arte a experiência estética se alarga, permitindo-nos viver, pela
imaginação, aquilo que nosso corpo jamais alcançaria sozinho; e o Outro deixa
de ser objeto de observação para nos transformar. No cinema, ou na sala de
casa, rimos, choramos, nos questionamos.
Essas
dimensões não são estanques. A indústria oferece escala e condições materiais;
o artesanato confere elaboração e singularidade; a arte rompe os limites do
previsível. Quando uma pretende dominar as demais, empobrece o conjunto.
Reconhecendo essas três dimensões, faz-se necessário compreender que a
indústria reduzida ao lucro converte criação em fórmula da mesma forma que o
artesanato privado de invenção torna-se execução; porém, a arte desprovida de
meios materiais corre o risco de permanecer intenção. O desafio da política
cultural está em assegurar a convivência dessas forças sem submeter a liberdade
criadora à lógica exclusiva do mercado. Por isso o audiovisual é também questão
de geopolítica e soberania nacional.
Sem
soberania cultural não há Nação que se firme; nem que se filme. A defesa de um
território não se esgota nas fronteiras terrestres, marítimas ou aéreas, há
fronteiras intangíveis, atropeladas diariamente por narrativas, sons, imagens e
algoritmos. Dimensão estratégica da Soberania é também o direito de um povo
produzir os sentidos de sua existência, para além de aparecer nas imagens é
preciso decidir como aparecer, de onde se olha e para quem se conta. Se não
contarmos nossas histórias, seremos contados, e quando outros contam sobre nós,
sem nós, trocam nomes, apagam diferenças, simplificam dores, comercializam até
nossas resistências.
O
chamado american way of life não se disseminou pelo planeta apenas pela
circulação de mercadorias ou pela força das canhoneiras, veio pelo cinema,
rádio, televisão, música e publicidade, transportando modelos de felicidade,
família, consumo e poder. A indústria cultural demonstrou que a hegemonia se
exerce pela produção do consentimento, naturalizando valores particulares como
universais, através dela, pelo chamado soft power, países influenciam
comportamentos, decisões e opinião de outras nações, sem a necessidade de
conquistar militarmente um território, colonizando o imaginário de seus
habitantes. O poder mais profundo dispensa a ordem porque já organizou as
condições da escolha, transformando interesses históricos em desejos
aparentemente espontâneos. Com as plataformas digitais, essa disputa alcança
outra escala. Grandes conglomerados tecnológicos controlam investimentos,
catálogos, interfaces, publicidade, dados de audiência e mecanismos de
recomendação. A vitrine tornou-se parte da obra. Produções podem figurar nos
catálogos e permanecer invisíveis pois os mecanismos de oferta fazem com que o
espectador acredite estar escolhendo entre possibilidades infinitas, enquanto
uma arquitetura opaca hierarquiza o que merece sua atenção. O cardápio também
educa o gosto. Desta forma a colonização do imaginário já não depende de força
bruta ou censura explícita, ela opera pela repetição do rentável, pelo
estreitamento das alternativas, pela opacidade dos critérios de visibilidade e
remuneração. O fato é que a promessa de liberdade ilimitada oculta uma
concentração inédita do poder de mediação cultural. Necessariamente o problema
não está na tecnologia, tampouco na circulação de cinematografias estrangeiras,
indispensáveis ao encontro entre culturas, ele reside na assimetria que permite
a poucos agentes privados, frequentemente transnacionais, condicionar a relação
de milhões de pessoas com as imagens de seu próprio país.
Soberania
cultural não é isolamento e uma cultura fechada em si mesma, definha. O
universal não se constrói pelo apagamento das particularidades, mas pelo
encontro entre diferenças capazes de se reconhecer sem submissão, um povo
soberano acolhe o mundo sem desaparecer diante dele, tem raízes, não amarras. A
universalidade que interessa não uniformiza, enriquece-se pela pluralidade
humana. Países não são paisagem à espera de legiões estrangeiras, são rios que
narram histórias pelas barrancas, terras de roçados diversos, sertões que
cantam e sonham. No caso do Brasil, somos batuque, bordado e bordão, e cada
povo tem seu jeito de bordar e guardar a memória nas palavras pequenas, nos
hábitos e silêncios. Há muitos Brasis ainda não revelados pelas câmeras, assim
como muitos países a conhecer, e, quando apresentados, seguem como rostos
enquadrados apenas pelo olhar de quem veio de fora. Uma cinematografia soberana
precisa fazer emergir essas presenças sem convertê-las em mercadoria exótica.
A
distância entre nossa potência criadora e sua circulação revela a profundidade
do problema. Em 2023, segundo dados da ANCINE, que apresentei na primeira
edição, os cinemas brasileiros receberam aproximadamente 114 milhões de
espectadores, dos quais apenas 3,7 milhões assistiram a filmes nacionais, cerca
de 3,5% do público. Enquanto produções estrangeiras arrecadaram R$ 2,170
bilhões, os filmes brasileiros alcançaram R$ 67 milhões. Não faltavam
produções, no entanto, sendo que naquele ano foram lançados 161 filmes
brasileiros diante de 264 estrangeiros, representando 38,8% dos lançamentos. Os
números daquele período revelam uma contradição estrutural que precisa ser
resolvida com urgência, produzimos muito mais do que conseguimos fazer
circular. A desigualdade está na distribuição, publicidade, exibição e acesso.
É possível realizar uma obra e condená-la à inexistência social, e uma imagem
que não encontra o olhar é como uma palavra sem interlocutor.
Apesar
de instrumentos importantes, como a CONDECINE, o Fundo Setorial do Audiovisual
e a ANCINE, falta consolidar uma política audiovisual como estratégia
permanente de desenvolvimento nacional. Não basta financiar produções isoladas,
é necessário estruturar a cadeia inteira, do argumento inicial à pesquisa,
roteiros, formação, produção, pós-produção, distribuição, exibição,
preservação, acessibilidade e educação audiovisual. Uma indústria não floresce
sob o calendário das interrupções; a arte tampouco. Igualmente, em um país
continental, a cinematografia não pode depender de poucos centros de decisão,
precisa cultivar polos regionais, pequenas e médias produtoras, redes
comunitárias, empresas independentes, animação, jogos digitais, documentários,
obras experimentais e entretenimento popular. A diversidade não é exceção a
tolerar, mas fundamento da vitalidade cultural, fonte de novas linguagens,
públicos e invenções estéticas. Ainda mais no Brasil. Há experiências
internacionais a estudar, da Europa à Coreia do Sul e à Argentina, sem
reproduzir mecanicamente modelos. O Brasil dispõe de mercado, talento,
repertório e capacidade técnica para construir uma política própria. Falta
articular essas condições em um sistema duradouro e democraticamente orientado.
Nesse
horizonte, a regulamentação do vídeo sob demanda é indispensável. O debate
legislativo brasileiro, expresso nos projetos de lei 8.889/2017 e 2.332/2022,
evidencia a necessidade de obrigações públicas para plataformas que exploram
economicamente nosso mercado. Quando escrevi a primeira versão deste ensaio, em
maio de 2024, discutia-se uma contribuição de 6% sobre o faturamento dos
streamings, com possibilidade de investimento direto pelas empresas, já então
considerava esse percentual insuficiente. No processo de revisão acompanhei a
Campanha VOD12 pelo Cinema Brasileiro, mais coerente e que prevê uma
contribuição mínima de 12% sobre o faturamento bruto das plataformas de vídeo
sob demanda no país, sendo que 70% da arrecadação seria destinado ao Fundo
Setorial do Audiovisual, para fomento à produção independente, e os 30%
restantes ao investimento direto das empresas de streaming, sob critérios
públicos e transparentes. Não se trata de tributação genérica destinada ao
caixa do Estado, mas de contribuição setorial para retroalimentar a própria
atividade audiovisual, um princípio de reciprocidade econômica. Na França, por
exemplo, esse percentual varia entre 20% e 25%, na indústria automobilística, o
mínimo é de 60% de conteúdo regional do Mercosul. Ou seja, é algo mais que
razoável, 12% é um percentual bem moderado, até; quem extrai valor econômico em
um território ou país contribuir para reproduzir as condições que o sustentam.
E só isso não basta, sendo necessária a presença mínima de 20% de obras nacionais
nos catálogos, valorizando a produção independente, regional, negra, indígena e
periférica. Tudo isso implica em uma consistente regulação do setor caso
pretenda-se resguardar a soberania de uma nação. Regular não é censurar, uma
regulação democrática não determina conteúdos artísticos, o que faz é assegurar
condições para que diferentes criações encontrem seus públicos, tenham janela,
visibilidade. Essa regulação é fundamental para a remuneração de produções
nacionais, artistas, autores, intérpretes e trabalhadores da criação, inclusive
nas plataformas musicais, televisão e serviços digitais. A opacidade dos
contratos, métricas e algoritmos permite que empresas se apropriem do valor
produzido coletivamente sem que os criadores conheçam a dimensão econômica de
sua circulação. Dados gerados pela atenção pública não podem servir
exclusivamente à acumulação privada (a bem do interesse público, deveriam ser
coletivizados em sua totalidade, mas não vem ao caso no momento), e devem vir
acompanhados de transparência, auditoria independente, fiscalização e prestação
de contas, afinal, uma democracia precisa conhecer os mecanismos que organizam
sua vida simbólica.
Para
além da questão das plataformas, o Fundo Setorial do Audiovisual necessita de
financiamento estável, governança plural e planejamento de longo prazo. A Lei
Paulo Gustavo demonstrou a importância de colocar recursos em circulação
durante a emergência, assegurando trabalho e produção cultural, seu mérito é
inegável, mas uma política emergencial não substitui o investimento
estruturante. Há uma história pouco conhecida nessa trajetória. Durante a
construção da Lei Aldir Blanc, em 2020, identifiquei recursos expressivos
contingenciados no Fundo Nacional de Cultura, em diálogo com a assessoria da
deputada Jandira Feghali, contabilizamos aproximadamente R$ 2,87 bilhões,
conforme os dados disponíveis à época, foi esse levantamento ajudou a
estabelecer a referência dos R$ 3 bilhões para a lei emergencial Aldir Blanc.
Tudo foi muito rápido (aproximadamente 40 dias entre a ideia inicial e a
aprovação da lei pelo Congresso), por conta do ambiente de pandemia,
entretanto, alguns dias antes da votação da lei pelo congresso, constatamos que
parcela significativa daqueles valores estava vinculada à CONDECINE, sendo
resultado de contingenciamentos acumulados por mais de uma década. Eticamente
não seria correto utilizar recursos acumulados exclusivamente pelo setor audiovisual
para finalidades outras que não o audiovisual. A solução encontrada pela
relatora do projeto de lei foi assegurar os recursos emergenciais pelo chamado
orçamento de guerra, preservando a destinação setorial da arrecadação, numa
ação muito hábil e eficaz. Assim se fez e os recursos contingenciados do
audiovisual ficaram preservados. Meio em sequência, foi apresentada outra lei
emergencial para a cultura, que ficou conhecida como Paulo Gustavo, daí
utilizou-se esses recursos vinculados ao audiovisual (aproximadamente 70% do
total destinado à lei). Diante das circunstâncias, ainda sob ambiente de
pandemia, sua aplicação foi necessária, mas não elimina a necessidade de
recompor a capacidade estruturante do Fundo Setorial do Audiovisual. Defendo
que o Estado brasileiro restitua esse montante, talvez de forma parcelada em
três anos, mas assegurando continuidade e previsibilidade ao setor audiovisual,
por estratégico para a soberania nacional, além de ser justo. Política públicas
não podem permanecer prisioneiras da alternância entre escassez e socorro, na
cultura então, a conformação como recursos escassos já virou regra, sendo
internalizada até mesmo pelos seus agentes mais diretos. Mas não deveria ser
assim.
Uma
obra audiovisual começa muito antes de sua filmagem e continua existindo depois
da estreia. Criação necessita de tempo, maturação, permanência… Há, contudo,
uma questão filosófica anterior a todas essas medidas: a quem pertencem as
condições de imaginar?
Sonho
não se cerca com arame. Arrebentar as cercas significa impedir o monopólio dos
meios de expressão e circulação sobre o que imaginamos. Um povo que se permite
cercar, definha, mesmo sob liberdade formal de criar, que perde substância
quando a possibilidade de ser ouvido depende de intermediários cujas decisões
ninguém elegeu e cujos critérios permanecem ocultos. Soberania cultural é
dimensão material da liberdade e isso envolve acesso aos meios de produção
simbólica e o direito coletivo de atribuir sentido ao mundo. Foi essa
compreensão que orientou a experiência da Cultura Viva, com a proposta de
Estúdios Multimídia nos Pontos de Cultura, colocamos os meios de produção
(computadores operando como ilha de edição em software livre, câmera de vídeo e
mesa de gravação musical, microfones, etc.) nas mãos de quem produz cultura,
não para substituir a indústria profissional, mas para ampliar os sujeitos da
criação. Quando uma jovem da periferia assume a câmera, não muda apenas quem
filma, desloca-se o lugar de onde o mundo é observado, e o povo deixa de ser
objeto da narrativa para tornar-se autor de sua representação. Esse
deslocamento altera a relação entre conhecimento e poder. Aprender a produzir
imagens é também aprender a decifrá-las, compreender enquadramentos, ausências
e manipulações, como um exercício de alfabetização sensível, e política, em que
a educação audiovisual desenvolve a capacidade de criar, interpretar,
contradizer e reinventar narrativas. Não se trata de idealizar a produção
comunitária nem demonizar a indústria, há obras comerciais de extraordinária
inventividade e produções alternativas aprisionadas em fórmulas convencionais.
O ponto reside em compreender que a emancipação ética/estética não se mede pelo
orçamento ou origem social do realizador, mas pela ampliação das possibilidades
humanas que a obra oferece.
A
cultura de massa não é necessariamente sinônimo de alienação, há sim mecanismos
de padronização e dominação, mas isso não esgota as possibilidades
contraditórias de apropriação popular das linguagens industriais. O mesmo meio
que reproduz hegemonias no comportamento e imaginário pode abrir fissuras
nelas; uma obra de entretenimento popular pode provocar reflexão e
deslocamentos sensíveis que discursos especializados jamais alcançariam. O
decisivo não é a dimensão de indústria, artesanato ou arte, mas a relação entre
criação, recepção e condições de circulação. Também a memória constitui
território de soberania. Um povo que não preserva suas imagens perde parte da
capacidade de interrogar o passado, uma fotografia pode desmentir a versão
oficial, assim como um documentário devolve vida e voz àqueles que se tentou
apagar. Preservar é recusar que o esquecimento seja imposto pelos vencedores, e
isso diz respeito ao cuidado com cinematecas, arquivos públicos, acervos
comunitários e tecnologias de preservação, que não são depósitos de registros
envelhecidos, são húmus de futuro.
A
soberania cultural encontra-se profundamente entrelaçada à soberania digital
(que trato no grão seguinte). As grandes empresas tecnológicas não controlam
apenas imagens, mas infraestruturas de comunicação, armazenamento,
processamento de dados e produção automatizada de linguagens. Universidades,
escolas e instituições públicas tornam-se dependentes de sistemas fechados,
frequentemente sob jurisdições estrangeiras, que nem sempre podem auditar,
modificar ou governar. Em vez de formar criadores e desenvolvedores, corremos o
risco de formar apenas consumidores e operadores, e a dependência tecnológica
irá reproduzir a velha divisão internacional entre quem produz conhecimento e
quem utiliza seus produtos. De onde urge a necessidade de uma Política Nacional
de Cultura Digital e Soberania de Dados, articulada a infraestruturas digitais
públicas, tecnologias abertas e uma nuvem pública federada, apoiada em
universidades e instituições nacionais, com governança democrática e proteção
de dados estratégicos. Isso significa capacidade própria, estratégica, para
participar do mundo sem submissão. A inteligência artificial intensifica essa
disputa. Sistemas capazes de produzir imagens, vozes e narrativas em escala
industrial ampliam ferramentas criativas ao mesmo tempo que reproduzem
assimetrias, apropriando-se de repertórios sem pactuação justa, bem como
distorcem e fabricam aparências de realidade. A questão não é aceitar ou
recusar a técnica, mas decidir sob quais relações sociais e culturais ela será
desenvolvida. Se alguém pulou, por favor, volte ao grão sobre Inteligência
Vital, aquela nascida da experiência, do corpo, da memória, do afeto e da
comunidade, a inteligência coletiva que não se reduz ao cálculo das máquinas. A
provocação de Miguel Nicolelis ao chamar de NINA, nem inteligente, nem
artificial, aquilo que convencionamos denominar inteligência artificial,
recoloca a primazia da vida sobre os dispositivos que pretendem simulá-la. Toda
técnica deve ampliar nossa potência criadora, não substituir a responsabilidade
humana pelo mundo. Retomarei essa reflexão no grão seguinte.
A
proteção da autoria também precisa acompanhar essas transformações. Defendo uma
Agência Nacional do Direito Autoral, com autonomia técnica e política, capaz de
assegurar direitos individuais, coletivos e conexos, enfrentar novas formas de
apropriação econômica e promover transparência, isso é diferente da natureza da
ANCINE. Sugiro, igualmente, um fundo de compensação para a Soberania Cultural,
financiado por contribuição vinculada ao faturamento das empresas de
tecnologia, redes sociais, streaming, inteligência artificial e armazenamento
de dados que operam no país, com destinação pública e descentralizada. São
propostas que exigem elaboração jurídica, critérios e governança democrática, e
não é o caso de estender nesse texto, mas assentam-se no princípio de que o
valor extraído das relações culturais e informacionais deve retornar às
condições sociais que possibilitam sua produção, pois não há desenvolvimento
sustentável quando a riqueza simbólica de um povo alimenta estruturas que
aprofundam sua dependência. É nesse horizonte que coloco a proposta de uma
Frente Nacional pela Soberania Cultural, reunindo criadores, trabalhadores,
pesquisadores, educadores, organizações culturais, Pontos de Cultura,
produtores independentes, exibidores, movimentos sociais e defensores da
democracia digital. Algo para além da política pública, uma frente plural e
permanente, capaz de reconhecer a cultura como dimensão constitutiva de um
projeto de país.
Cultura
não é ornamento da vida social, é o modo de plantar, cozinhar, habitar,
aprender, celebrar, lembrar e sonhar. Antes de setor econômico, é condição da
existência humana, mas sua potência econômica não pode ser desprezada, havendo
movimentado no Brasil mais R$ 390 bilhões, o que correspondia a aproximadamente
3,5% do PIB nacional. A questão não é escolher entre economia e cultura,
indústria e arte, tecnologia e humanidade, mas impedir que a dimensão do
mercado se aproprie das demais. O mercado organiza trocas, não determina o
valor último da existência, e se indústria pode ampliar o alcance da criação
ela não deve converter a imaginação em extensão da mercadoria, pois nenhuma
cifra mede inteiramente o que se perde quando um povo deixa de reconhecer suas
próprias vozes.
Soberania
cultural é direito à existência em reciprocidade. Direito de produzir imagens
sem pedir licença, de conhecer e conectar-se com o mundo sem abandonar o
próprio chão. Uma nação soberana não precisa de narrativa única sobre si mesma,
mas de condições para que suas muitas narrativas se encontrem, confrontem e
permaneçam abertas. O Brasil precisa se ver e ser visto (foi o lema da primeira
Teia dos Pontos de Cultura, em 2006, no prédio da Bienal de São Paulo); mais
que “se ver e ser visto”, atravessar o espelho, encontrar o ocultado, escutar o
silenciado, ver o que ainda não existe. A câmera revela o rosto e aquilo que
nele se guarda de história, também desejo e porvir. Que o audiovisual
brasileiro, em suas muitas plataformas e formas, seja múltiplo, inquieto,
popular, particular e universal.
Fonte:
Outras Palavras

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