sexta-feira, 6 de novembro de 2026

A era Trump na política está terminando

O povo norte-americano impôs uma derrota acachapante a Donald Trump e ao Partido Republicano na noite de ontem. Eis cinco conclusões a partir dos resultados das eleições de meio de mandato:

>>>> 1. Trump é o dono desta derrota

Tudo nesta derrota aponta para uma forma diferente pela qual Donald Trump enfraqueceu o Partido Republicano.

No Texas e na Carolina do Sul, ele pressionou seus candidatos preferidos, Ken Paxton e Darline Graham, para o Senado, acima das primeiras escolhas dos partidos estaduais. Ambos eram péssimos candidatos e péssimos “ativistas” que facilitaram enormemente o trabalho dos democratas. Na Flórida, ele promoveu uma opção agressiva que energizou os eleitores democratas, mas não conseguiu garantir quaisquer assentos a mais para os republicanos. Em todo o país, a guerra abertamente criminosa contra o Irã, combinada com a sua recusa em aplacar a raiva dos eleitores face ao custo de vida, pesou sobre todos os republicanos do país.

Nas últimas semanas, Trump implorou aos eleitores que fingissem que ele fazia parte das chapas que estavam concorrendo. Eles seguiram seu conselho.

>>>> 2. O dinheiro bilionário não era suficiente

Uma das razões pelas quais Trump e o resto do partido se sentiram capacitados para simplesmente ignorar sinais claros do eleitorado foi a sua enorme vantagem financeira.

Algumas dezenas de multimilionários, incluindo Elon Musk, Miriam Adelson, os irmãos Winklevoss e Ken Griffin, investiram quantias verdadeiramente espantosas de dinheiro nas plataformas eleitorais dos republicanos. A plataforma pessoal de Trump, MAGA, Inc., tinha mais de US$ 400 milhões em sua conta. Isso foi mais dinheiro do que as plataformas do Senado, Câmara e Comitês de Campanha dos democratas juntos. A maior parte da vantagem financeira republicana foi gasta no Senado, onde o Partido Republicano gastou mais que os democratas em cerca de 50%.

Os republicanos esperavam poder usar esta mina de ouro para simplesmente esmagar os democratas em estados como o Texas. Não foi suficiente – um fato que deveria ser encorajador para qualquer pessoa consternada com os efeitos antidemocráticos do dinheiro na política.

>>> 3. As facas vão aparecer para Trump

Por causa dos dois pontos anteriores, os políticos republicanos vão se virar contra Trump em breve.

O ano de 2028 está escrito na parede. Não há razão para pensar que um presidente que está visivelmente mais impopular a cada semana que passa será capaz de reverter a sua popularidade nos próximos dois anos. Qualquer republicano com ambições para o futuro correrá para se distanciar do atual governo.

Os poucos republicanos que se opuseram abertamente a Trump nos últimos anos, como Ron DeSantis, já culpam Trump pela derrota e apelam a uma nova direção para o partido. Determinar essa direção será um processo confuso e conflituoso, com brigas abertas entre as diferentes facções do partido. Mas a cada dia que passa, haverá cada vez menos razões para que os membros do partido continuem a prestar obediência a Trump.

>>>> 4. Os democratas conquistaram a maioria no Congresso igual o Partido Republicano em 2014

Otamanho da maioria democrata é impressionante. Na manhã de quarta-feira, a maioria das projeções apontava para os democratas conquistando cerca de 245 cadeiras na Câmara e 54 ou 55 cadeiras no Senado. Isto coloca os democratas numa posição semelhante à dos republicanos em 2014, quando o Partido Republicano ampliou a sua maioria na Câmara e finalmente recapturou o Senado das mãos dos Democratas.

Desde o início da era Trump, nenhum partido teve maiorias deste tamanho tanto na Câmara como no Senado.

Tanto na Câmara como no Senado, isto diminui enormemente a influência nas pequenas minorias das convenções. No Senado, John Fetterman não será capaz de bloquear a legislação progressista como Joe Manchin e Kyrsten Sinema fizeram durante o governo Biden. Da mesma forma, na Câmara, mesmo a grande maioria de legisladores socialistas não chegará perto de proporcionar a margem de vitória à maioria democrata.

Neste contexto, a política democrata irá provavelmente refletir o centro de gravidade das convenções em cada câmara, em vez de fortalecer o poder de alguns legisladores que detêm pontos de veto estratégicos.

>>> 5. A esquerda continua crescendo

Em todo o país, esta foi uma noite fantástica para a esquerda.

Os candidatos dos Socialistas Democráticos da América (DSA), como esperado, venceram as eleições gerais em lugares como Nova Iorque, Colorado e Michigan. Além disso, os candidatos do DSA venceram as eleições para a Câmara estadual em disputas acirradas em Kentucky e na Flórida. Candidatos como Troy Jackson e Abdul El-Sayed, que são frequentemente associados ao DSA apesar de não serem membros, também venceram disputas que foram amplamente vistas como testes para a ala progressista do Partido Democrata. Angie Nixon, membro do DSA que obteve uma vitória surpreendente nas primárias para o assento no Senado da Flórida, ficou a poucos pontos de vencer num estado que a maioria dos liberais considerava irremediavelmente vermelho. Entretanto, as sondagens de boca de urna mostraram que três vezes mais eleitores jovens se autodenominavam socialistas democráticos do que o MAGA.

O projeto do DSA claramente ainda não atingiu o seu limite máximo, e estes resultados mostram que é hora de levar a luta para novos campos de batalha.

¨      É pouco provável que Trump mude seu rumo político após eleições parlamentares, diz senador russo

É improvável que o presidente dos EUA, Donald Trump, mude seu rumo político após as eleições para o Congresso, continuando a mesma linha que assumiu anteriormente em questões estrangeiras e domésticas, disse Grigory Karasin, vice-presidente do Comitê de Assuntos Internacionais do Conselho da Federação.

Em entrevista a um veículo de imprensa russo, Karasin afirmou que os resultados das eleições de meio de mandato para o Congresso dos Estados Unidos não se tornaram uma sensação e a nova conjuntura no parlamento estadunidense não trará grandes mudanças na política externa da administração do presidente norte-americano.

"Alguns dos analistas previram resultados de votação ainda mais severos para Trump. Eles realmente não ajudam a fortalecer sua posição dentro do país, mas de forma alguma significam que ele se tornará um líder mais suave e elegante dos Estados Unidos", disse Karasin à mídia russa.

Segundo o senador, o líder norte-americano está determinado a continuar a mesma linha política que mantinha antes em questões externas e domésticas. "Pode ser ziguezagueado às vezes", mas a Rússia já está acostumada a tal narrativa, acrescentou o político.

"A principal coisa a entender é que Trump continua sendo o líder do país por mais dois anos. No atual ambiente global dinâmico, este é um período de tempo bastante significativo. Durante esses dois anos, muitas coisas construtivas e úteis podem acontecer, assim como uma quantidade suficiente de coisas negativas", sublinhou Karasin.

Karasin também salientou que as eleições para o Congresso dos EUA e seus resultados não têm efeito sobre a política externa de Moscou. A retórica da Rússia é bem conhecida e permanece inalterada, concluiu o senador.

Nas eleições de meio de mandato de 3 de novembro, os norte-americanos elegeram todos os 435 membros da Câmara dos Representantes e 35 senadores.

De acordo com a previsão da mídia estadunidense, os democratas ganharão maioria na Câmara dos Representantes. Além disso, de acordo com a previsão de outro veículo de imprensa ocidental, o partido também pode ganhar o controle do Senado, garantindo ao menos 51 cadeiras.

¨      Analista revela qual é a probabilidade do impeachment dos democratas a Trump

Os democratas, após a vitória na disputa pelo Congresso, podem tentar o impeachment do presidente dos EUA, Donald Trump, mas tais ações não terão êxito, disse à Sputnik Rob Mellen Jr., professor assistente da Universidade do Sul da Flórida.

Em entrevista à agência, Mellen afirmou que há pouca probabilidade de que o processo de impeachment do presidente Trump seja concluído com sucesso, já que nem todas as decisões são tomadas pelos democratas no Congresso dos EUA.

"O impeachment é possível, mas é uma ideia vazia. Mesmo com o controle da Câmara dos Representantes, a aprovação de artigos de impeachment é apenas uma acusação contra o funcionário. O caso é então encaminhado ao Senado, que provavelmente se recusará a conduzir um julgamento", explicou Mellen.

De acordo com Mellen, a câmara alta pode realizar um julgamento demonstrativo, mas ele ainda terminará com uma absolvição. "A probabilidade de um funcionário ser destituído do cargo, ainda que não seja zero, é de um centésimo de um por cento", disse Mellen.

O processo de impeachment, caso instaurado, tem início na Câmara dos Representantes dos EUA. Se as acusações forem apoiadas pela maioria dos legisladores, o caso será encaminhado ao Senado. O processo ocorre na forma de um processo judicial.

Em caso de apoio ao impeachment por dois terços dos legisladores, o funcionário é removido do cargo, mas, sem o número necessário de votos, o presidente é absolvido.

O parlamento norte-americano tentou o impeachment de quatro presidentes dos EUA: Andrew Johnson, em 1868; Richard Nixon, em 1974; Bill Clinton, em 1998; e o próprio Donald Trump, em 2019 e 2021.

Com a exceção de Nixon, que renunciou à presidência antes da votação final na primeira etapa do processo, a Câmara dos Representantes apoiou as acusações, mas o Senado sempre absolveu.

Nas eleições de meio de mandato de 3 de novembro, os democratas fizeram progressos significativos e esperam obter maioria em ambas as câmaras do Congresso. A nova composição do legislativo começará a funcionar em 3 de janeiro de 2027.

O próprio Trump disse que não estava preocupado com a perspectiva de um processo de impeachment, acreditando que tal ação destruiria o Partido Democrata.

¨      Enfraquecido nos EUA, Trump mantém poder para intervir no exterior

Donald Trump costuma recorrer a superlativos e, por isso, há uma espécie de karma na dimensão da derrota imposta a ele por uma ampla maioria dos eleitores americanos.

Não espere que ele aceite tranquilamente os momentos finais de sua carreira política. Perder o controle das duas Casas do Congresso dos EUA limita sua capacidade de ditar os rumos, manobrar e causar turbulência no país.

Mas, no exterior, provavelmente será diferente.

Como presidente dos Estados Unidos e comandante-em-chefe de suas Forças Armadas, ele mantém amplos poderes para usar o poderio militar americano.

Não é fácil prever as ações e as oscilações de Donald Trump. Como presidente, ele transformou mudanças de rumo político em armas.

Algumas coisas, porém, são constantes.

Uma delas é o seu desprezo por aqueles que considera perdedores e a sua determinação de nunca ser visto como um deles. O presidente pode se sentir tentado a ofuscar a derrota acachapante nas eleições de meio de mandato com ações no exterior.

Ele pode tentar tomar medidas que possa alardear como decisões decisivas e vitoriosas de um presidente forte, que não foi enfraquecido por uma eleição que, segundo insiste, apesar de todas as evidências, só foi perdida porque ele não estava na cédula.

<><> A guerra com o Irã

Nas semanas que antecederam as eleições de meio de mandato, a mobilização de forças americanas e as próprias declarações de Trump, muitas vezes beligerantes, intensificaram as especulações de que os EUA estavam se preparando para voltar à guerra com o Irã.

Na véspera das eleições, os EUA realizaram um bombardeio limitado contra uma ilha iraniana no Golfo.

Antes de ser hospitalizado por causa de um acidente vascular cerebral, o senador americano Chris Murphy, do Partido Democrata, participou de uma reunião sigilosa sobre possíveis opções militares para uma retomada da guerra com o Irã.

Sem entrar em detalhes, ele condenou os planos como "insanos", alertando que provocariam uma "escalada devastadora".

Há especulações de que os americanos tenham planos de bombardear infraestrutura civil.

Além de provavelmente constituir um crime de guerra, isso também poderia provocar, como resposta, ataques iranianos devastadores contra alvos equivalentes em países aliados dos EUA no Golfo.

A lista de possíveis alvos do Irã poderia começar pelos Emirados Árabes, que mantêm relações tão próximas com Israel quanto com os EUA.

O regime de Teerã acompanha de perto os acontecimentos políticos nos EUA. E não esconde sua satisfação com o fato de que as consequências do bloqueio do Estreito de Ormuz se tornaram uma questão de política interna nos EUA.

Teerã está ciente dos danos causados a Trump e aos republicanos pela alta persistente dos preços de tudo (da gasolina e do diesel aos fertilizantes agrícolas) provocada pela guerra e por seus ataques à navegação no Estreito de Ormuz.

O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, publicou um alerta nas redes sociais.

Ele disse: "Por consciência ou pelo custo de vida, os americanos disseram NÃO À GUERRA, e nós endossamos essa mensagem. Se o governo dos EUA trair a vontade de sua população para servir a financiadores e chantagistas internacionais, aprenderá que nosso NÃO vem acompanhado de um pesadelo."

Benjamin Netanyahu, agora primeiro-ministro interino de Israel após a eleição no país na semana passada, e que faz intensas articulações para formar um novo governo, reiterou que quer derrubar o regime islâmico de Teerã.

Relatos em Israel e nos EUA afirmam que ele está pressionando Trump a voltar à guerra.

Netanyahu não tem cadeiras suficientes para formar um novo governo com a coalizão que está deixando o poder.

Mas, se uma guerra de grandes proporções recomeçasse e se prolongasse, e se os israelenses ficassem sob ataque direto, ele poderia ter novas opções para formar um governo de unidade.

<><> Guerra na Ucrânia

O outro grande conflito para o qual Trump pode voltar sua atenção é o que envolve a Ucrânia e a Rússia, que já dura mais do que a Primeira Guerra Mundial.

Antes das eleições, Trump suspendeu sanções contra Moscou para comprar diesel russo. Ele pode decidir prolongar e ampliar o alívio das sanções na esperança, de alguma forma, de reduzir a pressão econômica sobre os consumidores americanos.

O presidente americano também não parece demonstrar preocupação com o impacto dos ataques de mísseis balísticos russos sobre a população civil ucraniana.

Esses mísseis agora conseguem atravessar as defesas em maior número porque os pedidos da Ucrânia por mais interceptadores de fabricação americana, financiados por aliados europeus, não foram atendidos da maneira que o país precisa e deseja.

O porta-voz do Kremlin disse que a Rússia espera que os resultados eleitorais não afetem o que chamou de "esforços de Trump para alcançar a paz".

Donald Trump tem tentado de forma persistente forçar o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, a fazer concessões territoriais à Rússia para chegar a um acordo que equivaleria a uma capitulação de Kiev.

Trump acrescentaria isso à sua improvável lista de guerras resolvidas e encerradas.

Sentindo o impacto da derrota eleitoral, Trump pode tentar redobrar a pressão sobre Zelensky para aceitar as concessões que o ucraniano tem rejeitado repetidamente.

É seguro dizer que Donald Trump continuará construindo monumentos a si mesmo em Washington.

Além disso, vale repetir que as previsões sobre seus próximos passos dentro e fora do país correm o risco de estar erradas. Mas é certo que ele não vai se sentar em uma cadeira de balanço presidencial e esperar seu tempo na Casa Branca acabar.

Ao longo de seu mandato, Donald Trump tem desfrutado de seu poder e demonstrado determinação em usá-lo.

Isso não vai mudar, e há uma grande chance de que ele queira mostrar que, se já não consegue abalar os EUA, ele ainda pode abalar o mundo.

 

Fonte: Por Paul Heideman - Tradução Cauê Seigner Ameni, para Jacobin Brasil/Sputnik Brasil/BBC News

 

Nenhum comentário: