Eduardo
Henrique Barbosa de Vasconcelos: O cerco à história
No dia
25 de agosto de 2026, Diego Araújo, estudante do curso de história da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) foi agredido nas dependências do
Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) e do Instituto de História
(IH), no centro do Rio de Janeiro.
Segundo
a reportagem de Ana Stobbe para O Globo, o conflito entre Deivid Lima (discente
de direito) e Diego Costa Araújo (discente de história), foi motivado por uma
suposta apologia ao nazismo, revela duas versões antagônicas entre os
estudantes envolvidos. O ponto central foi a defesa de Diego de que seu
interesse pela simbologia nazista é “puramente acadêmico” e que a camiseta da
banda Death in June, com a caveira Totenkopf, utilizada pela tropa de elite
nazista SS, e um broche de suástica cortada, seria uma “apropriação crítica e
satírica” da subcultura punk.
Independentemente
de quem agrediu quem, objeto da investigação policial, o episódio expõe um
problema profundo: a impossibilidade de separar, no espaço público polarizado,
o grau de engajamento do pesquisador com o tema analisado. Diego tenta explicar
que a caveira é um símbolo anterior ao nazismo (usada por piratas e tropas
prussianas) e que a suástica com “não” é uma negação dupla do nazismo.
Mas a
resposta ou reação dos presentes na sala de aula não foi a solicitação dos
responsáveis da instituição para controlar a questão ou a solicitação da
polícia para agir neste caso, ao invés disso, foi a voz de prisão, o tumulto, a
agressão física, as ameaças.
O
reitor Roberto Medronho afirma que a UFRJ repudia o nazismo e qualquer forma de
violência, reiterando que, diante de um crime tipificado, a atitude correta é
acionar a polícia. No entanto, o episódio deixa evidente que um estudante de
história não consegue utilizar símbolos ambíguos para fins acadêmicos sem
sofrer linchamento físico e virtual.
Mas
ainda resta a dúvida: como investigar temas como o nazismo, o fascismo, a
escravidão ou a ditadura sem ser erroneamente associado ao objeto de análise?
Diante desse dilema, como proceder, quem deve e pode julgar situações como essa
e por que a violência tem surgido como resposta?
Mary
Del Priore, professora aposentada do curso de história da Universidade de São
Paulo (USP), toma como ponto de partida o lançamento da coletânea História das
mestiçagens no Brasil, organizada por ela e por Gian Mello no início de
setembro de 2026. A a professora relata ter enfrentado insultos, ameaças e a
exigência de segurança na Bienal de São Paulo para debater um tema que é uma
evidência estrutural da formação social brasileira.
Para a
professora, o cenário explicita o enfraquecimento, a perda de espaço e de
prestígio do saber histórico na sociedade. Para ela, os indícios dessa situação
podem ser observados em: Teses com dificuldade de chegar às livrarias;
traduções de grandes obras rareando; arquivos sucateados [sejam eles Federais,
Estaduais e Municipais]; o Instituto Histórico Geográfico Brasileiro (IHGB),
com dificuldades [assim como os institutos congêneres regionais]; professores
lutando para entusiasmar alunos por uma disciplina que deveria ajudá-los a
compreender o mundo.
A
historiadora ainda salienta que, enquanto os aspectos acima indicados
acontecem, a internet “fabrica falsos especialistas”, filmes e novelas arrancam
acontecimentos de seus contextos, anacronismos circulam como verdades, e o
próprio jornalismo, pressionado pela velocidade, nem sempre busca o lastro
históricas dos fatos.
O ponto
mais grave, porém, é a “conexão direta que Mary Del Priore faz com o caso da
UFRJ”: o episódio do IFCS não é apenas um problema policial, mas um “sintoma do
enfraquecimento do ofício do historiador”. Ela se indaga: o que pensarão os
pais dos alunos ao ver “estudantes e futuros professores de História admitirem
a violência como forma de silenciar aquilo de que discordam”? Que História
ensinarão amanhã? Haverá assuntos proibidos? Documentos que não deverão ser
lidos porque suas conclusões desagradam?
Para a
historiadora: “a História é justamente uma arma contra a violência” – porque
restitui nuances onde a violência simplifica o mundo numa luta entre bons e
maus, pergunta quem fabricou os inimigos, devolve nomes e rostos, abre
arquivos, confronta documentos, multiplica perspectivas. Mas, paradoxalmente,
“a própria história se tornou vítima”, no sentido figurado e agora no sentido
literal.
A
conclusão de Mary Del Priore é dura: “Quando historiadores precisam de proteção
para lançar um livro e um estudante precisa de proteção para expressar uma
ideia, não são apenas eles que estão ameaçados. É a própria história que começa
a sangrar”.
O
historiador Eduardo Vasconcelos em um texto de crítica e protesto analisou o
veto da Câmara dos Deputados ao livro sobre o Bicentenário da Independência,
organizado por historiadores e com apoio da ANPUH. A comissão especial vetou o
termo “ditadura militar”, propôs substituí-lo por “regime” ou “governo
militar”, e cortou trechos sobre direitos indígenas, comparações entre Brasil e
Haiti, referências à Guerra do Paraguai e até a um samba-enredo da Escola de
Samba Mangueira de 2019.
Eduardo
Vasconcelos classifica as intervenções como “censura e tentativa de
desqualificação profissional”. O livro reunia mais de 50 historiadores de
diversas instituições, mas foi questionado por “políticos sem nenhuma formação
técnica na área”, que sobrepuseram suas convicções ideológicas ao conhecimento
científico especializado.
No
texto, o professor de história da Universidade Estadual de Goiás, aponta três
problemas centrais decorrente desse ato de censura:
(i) desvalorização da ciência e dos cientistas
nacionais, com graves problemas éticos, sociais e culturais;
(ii) desvio de finalidade do Poder Legislativo,
que deveria ser o fórum do debate democrático e da pluralidade, mas atua como
“revisor ideológico da produção acadêmica”, subvertendo sua função
constitucional.
(iii) Restrição inaceitável ao debate sobre
história, memória e presente, pois a orientação de que o livro deveria focar
apenas o passado remoto ignora que a historiografia contemporânea estuda
justamente “os usos políticos do passado e a memória das comemorações cívicas”.
A
análise integrada dos três casos: o conflito no IFCS/UFRJ envolvendo a pesquisa
de símbolos nazistas, as ameaças enfrentadas por Mary Del Priore no lançamento
de sua coletânea sobre mestiçagens, e o veto ideológico da Câmara dos Deputados
ao livro do Bicentenário da Independência denunciado por Eduardo Vasconcelos;
revela uma crise profunda e multifacetada que atinge o saber histórico e o
ensino de história no Brasil contemporâneo.
Embora
ocorram em instâncias distintas, que vão desde o chão da sala de aula
universitária até a praça pública e o plenário legislativo, os episódios
convergem para sintomas alarmantes da erosão do pensamento crítico e da
liberdade de pesquisa no país. O primeiro e mais evidente ponto de convergência
é a substituição do rigor analítico pelo dogmatismo e pelo reducionismo
simbólico. Nos três cenários, observa-se a recusa ou a incapacidade de lidar
com a complexidade inerente ao fazer histórico, substituindo-a por respostas
reativas e inquisitórias.
No caso
da UFRJ, a ambiguidade de elementos visuais em uma sátira punk resultou
rapidamente em pancadaria. Em vez de abrir espaço para um debate acadêmico
sobre os limites da representação ou o uso de fontes difíceis, a reação
coletiva reduziu o objeto à premissa ostentatória do símbolo, acionando a
violência física e o linchamento virtual em detrimento da problematização e da
análise.
Dinâmica
análoga ocorreu com Mary Del Priore na Bienal de São Paulo: o esforço de
debater as mestiçagens, um fenômeno estrutural da sociedade brasileira, foi
recebido com hostilidade por públicos e críticos incapazes de separar a
investigação empírica de recortes ideológicos.
Por
fim, na mesma linha, o veto institucional relatado por Eduardo Vasconcelos
demonstra que parlamentares sem formação técnica na área se sentiram
autorizados a substituir conceitos consolidados, como o termo “ditadura
militar”, por narrativas edulcoradas, priorizando convicções partidárias em
detrimento do conhecimento histórico fundamentado.
Esse
panorama de intolerância com a complexidade alimenta diretamente o segundo eixo
de convergência: o enfraquecimento e a deslegitimação social do ofício do
historiador. O uso direto da violência a um estudante explicita que a
universidade e a sociedade já não reconhecem o espaço acadêmico como um
território seguro para o debate e o confronto com passados incômodos.
Paralelamente,
o estrangulamento material e simbólico diagnosticado por Mary Del Priore,
marcado por arquivos sucateados, circulação restrita de teses acadêmicas, a
proliferação de falsos especialistas na internet e o desinteresse discente,
cria um terreno fértil onde a população perde a capacidade de distinguir a
pesquisa histórica rigorosa do senso comum enviesado. É essa perda de
importância e de autoridade social da disciplina.
Consequentemente,
a coerção e a censura despacham-se como os métodos preferenciais de controle da
história e do debate público, configurando a terceira grande convergência entre
os casos. O episódio da UFRJ expressa uma forma de censura difusa e peer-to-peer,
em que o medo da agressão física e do cancelamento impõe um cordão de
isolamento temático, paralisando a pesquisa sobre temas tabus.
No
âmbito institucional, a intervenção da comissão especial da Câmara dos
Deputados sobre o livro do Bicentenário consagra a censura explícita, com o
Estado assumindo o papel de revisor ideológico ao mutilar trechos sobre
direitos indígenas, conflitos armados e análises comparativas. Esse cerceamento
da memória ganha ainda contornos digitais, evidenciados pelos ataques
cibernéticos sofridos pelo site da ANPUH, revelando que a tentativa de expurgar
as fraturas da história nacional opera em múltiplas frentes simultâneas.
Em
última análise, os três casos convergem para um diagnóstico sombrio sobre a
corrosão do espaço democrático e o futuro da própria disciplina histórica.
Conforme adverte Mary Del Priore, quando historiadores precisam de escolta
policial para apresentar seus livros e estudantes são agredidos por expressarem
ideias acadêmicas, não são apenas os indivíduos que estão sob ameaça, mas a
própria história que começa a sangrar.
Eduardo
Vasconcelos reforça esse alerta ao demonstrar que o Poder Legislativo, chamado
a ser o fórum máximo da pluralidade, subverte sua função constitucional ao
atuar como um censor da ciência. A recusa sistemática em debater criticamente o
passado paralisa a sociedade, impedindo-a de compreender os impasses do
presente e transformando a intolerância e a violência em substitutos
permanentes do diálogo.
Fonte:
A Terra é Redonda

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