sexta-feira, 6 de novembro de 2026

‘Levarei para o túmulo como cheguei até aqui’, diz Flávio Bolsonaro sobre fuga para os EUA

A fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para os Estados Unidos, após sua derrota na eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), continua cercada de mistério. Instalado na região de Miami, na Flórida, o senador afirmou que organizou sozinho a viagem de aproximadamente 8 mil quilômetros, embora autoridades estadunidenses tenham relatado a participação da Casa Branca na operação. Questionado sobre os detalhes do trajeto, recusou-se a esclarecer como deixou o Brasil.

Em entrevista de 75 minutos ao jornal The New York Times, publicada nesta quinta-feira (5), Flávio afirmou que não recebeu auxílio de governos estrangeiros para escapar do país, apesar das informações obtidas pelo periódico sobre o envolvimento de integrantes da administração de Donald Trump.

“Foi tudo obra minha”, declarou o senador. “Não houve ajuda de absolutamente ninguém, de nenhum governo”, afirmou.

Ao ser pressionado a explicar como conseguiu chegar aos Estados Unidos depois de receber uma ordem para entregar seus passaportes, respondeu: “Como cheguei até aqui, levarei isso para o túmulo comigo.”

O avião particular que transportou Flávio Bolsonaro até Miami foi providenciado por um funcionário da Casa Branca, enquanto sua entrada em território americano recebeu autorização direta de Trump. A viagem também incluiu passagens pelo Equador e pela Argentina, onde um importante assessor do presidente de extrema direita Javier Milei encontrou o senador em um aeroporto.

Flávio Bolsonaro, no entanto, sustentou que a decisão de fugir foi tomada de maneira improvisada, em conjunto com sua esposa, na manhã seguinte à derrota eleitoral. Embora tenha reconhecido que possuía amigos fora do Brasil, negou que eles tenham participado da organização da viagem.

“Pode ter havido torcida, mas nada além disso”, afirmou.

<><> Temor de prisão motivou saída do Brasil

O senador de 45 anos relatou que decidiu abandonar o país depois de ser informado de que teria 24 horas para entregar seus passaportes às autoridades brasileiras. Segundo sua versão, a comunicação ocorreu quando deixava a residência onde seu pai, o ex-mandatário Jair Bolsonaro (PL), cumpre prisão domiciliar por tramar um golpe de Estado após ser derrotado pelo então candidato Luiz Inácio Lula da Silva no pleito presidencial de 2022.

Flávio Bolsonaro afirmou que considerava praticamente inevitável uma futura condenação caso permanecesse no Brasil. “Eu já sei que o desfecho final será a minha prisão”, declarou.

O parlamentar é alvo de investigações relacionadas a suspeitas de lavagem de dinheiro e corrupção, mas, conforme ressalta o New York Times, não havia sido formalmente acusado de nenhum crime até a publicação da entrevista.

Com o encerramento de seu mandato no Senado, previsto para o início de 2027, Flávio Bolsonaro perderá a imunidade parlamentar e poderá enfrentar processos judiciais.

Durante a conversa, ele reafirmou sua inocência e acusou o Judiciário brasileiro de atuar por motivações políticas, mencionando especialmente o ministro do Supremo Tribunal Federal responsável pela prisão de seu pai.

Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão por sua participação na tentativa de golpe de Estado após a derrota para Lula em 2022.

<><> Conversa com Jair Bolsonaro antes da fuga

Flávio Bolsonaro também descreveu ao jornal seu último encontro com o pai antes de deixar o Brasil.

Segundo o senador, Jair Bolsonaro estava emocionado quando o chamou para uma conversa reservada, pouco depois de as autoridades determinarem a entrega de seus documentos.

“Ele me olhou nos olhos e disse: ‘Você já sabe onde eles querem chegar com isso, não é?’”, relatou Flávio.

“Eu disse: ‘Pai, eu já sei’. ‘E estou preparado, sei o que tenho que fazer.’ Virei as costas e fui embora”, acrescentou.

O senador afirmou que não discutiu qualquer plano de fuga com o ex-mandatário.

Horas depois, publicou um vídeo nas redes sociais no qual prometia cumprir a determinação judicial e entregar seus documentos. Na gravação, também descartou a possibilidade de abandonar o país.

“Nunca pensei em deixar o país”, declarou na ocasião.

Pouco depois, desapareceu. Cerca de 42 horas mais tarde, reapareceu em Miami.

<><> Senador insiste em fraude eleitoral apesar da vitória de Lula

Mesmo depois de seu partido aceitar o resultado da eleição presidencial, Flávio Bolsonaro voltou a questionar a vitória de Lula, sem apresentar provas de irregularidades capazes de comprometer a votação.

O senador classificou o resultado como “matematicamente impossível” e afirmou que teria sido prejudicado pelo funcionamento das instituições brasileiras.

“Sei que isso não vai dar em nada”, declarou ao comentar suas contestações. “Perdi para o sistema.”

A vitória de Lula ocorreu por uma diferença de aproximadamente 4,4 milhões de votos. Dirigentes e lideranças do próprio partido de Flávio Bolsonaro, contudo, reconheceram que não existem evidências de fraude, enquanto observadores internacionais independentes atestaram a integridade do processo eleitoral.

O senador concentrou parte de suas críticas na decisão da Justiça Eleitoral de ampliar o horário de votação em determinadas regiões do país.

A medida foi adotada depois que chuvas intensas e atrasos no transporte coletivo dificultaram o deslocamento de eleitores. Ambos os candidatos haviam solicitado a prorrogação.

De acordo com as autoridades eleitorais, a decisão afetou apenas 34 mil votos, quantidade insuficiente para alterar o resultado da disputa.

O parlamentar, entretanto, levantou suspeitas de manipulação de votos e retomou alegações já desmentidas sobre uma suposta violação de segurança na sala onde ficam os computadores responsáveis pela totalização dos resultados.

“Tenho minhas suspeitas”, afirmou. “Ninguém pode dizer com 100% de certeza que estou certo, nem com 100% de certeza que estou errado.”

A Justiça Eleitoral rejeitou as acusações, e dezenas de países reconheceram a vitória de Lula.

O New York Times também destaca que a reação à derrota de Flávio contrasta com a mobilização de apoiadores de Jair Bolsonaro após a eleição de 2022. Naquela ocasião, manifestações em frente a quartéis militares antecederam os ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023, quando extremistas invadiram as sedes dos Três Poderes em Brasília.

Desta vez, o resultado foi reconhecido inclusive por aliados internacionais da direita, e não houve mobilizações de dimensão comparável.

<><> Trump autorizou entrada nos EUA, segundo autoridades estadunidenses

A entrevista também abordou a relação de Flávio Bolsonaro com Donald Trump, cuja administração teria desempenhado papel importante na chegada do senador aos Estados Unidos.

Segundo autoridades estadunidenses ouvidas pelo New York Times, a autorização para sua entrada no país partiu diretamente do presidente dos Estados Unidos.

Trump ainda não reconheceu formalmente a vitória de Lula. Ao comentar a eleição brasileira, limitou-se a dizer que o processo parecia “estranho”, sem declarar quem considerava vencedor.

Flávio elogiou essa postura.

“Ele não tomou partido, o que é a coisa certa a fazer”, afirmou.

O senador também agradeceu ao presidente estadunidense pela autorização para permanecer nos Estados Unidos.

Embora Trump tenha declarado na semana anterior que não pretendia se encontrar com Flávio Bolsonaro, integrantes da equipe do brasileiro ainda esperavam a possibilidade de uma reunião durante a Conferência de Ação Política Conservadora, prevista para ocorrer em Mar-a-Lago nos dias seguintes.

Questionado sobre a possibilidade de pressionar o governo americano a adotar novas medidas contra o Brasil, Flávio evitou responder diretamente.

A reportagem lembra que Trump já havia recorrido a tarifas comerciais e sanções para tentar pressionar o Brasil a abandonar o processo judicial contra Jair Bolsonaro.

<><> Senador pretende fazer oposição a Lula a partir de Miami

Apesar de reconhecer que uma contestação judicial ao resultado eleitoral teria poucas chances de prosperar, Flávio Bolsonaro afirmou que pretende continuar questionando a eleição e participando da política brasileira à distância.

Entre suas prioridades estão o apoio a aliados no Congresso, a redução da maioridade penal e a aprovação de uma anistia que beneficie Jair Bolsonaro e os condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023.

O senador também pretende preservar sua influência sobre a direita brasileira, mesmo depois de perder a eleição e deixar o país.

A situação representa uma mudança significativa para a família Bolsonaro. Além da condenação de Jair, o ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro também deixou o Brasil e permaneceu nos Estados Unidos após ser condenado por sua atuação em favor de interferências americanas no julgamento do pai.

<><> Família poderá permanecer nos Estados Unidos por pelo menos um ano

Flávio Bolsonaro, sua esposa e suas duas filhas receberam autorização para permanecer em território estadunidense por pelo menos um ano, mediante um status migratório normalmente concedido por razões humanitárias.

O senador afirmou que ainda não decidiu onde a família irá morar definitivamente.

Seu irmão Eduardo vive no Texas e obteve recentemente residência permanente nos Estados Unidos, conhecida como green card.

A Flórida, entretanto, aparece como uma alternativa para a instalação da família. Segundo a reportagem, o influenciador Paulo Figueiredo, aliado próximo dos Bolsonaro, defendeu o estado como uma base adequada depois da vitória de um democrata na disputa pelo governo do Texas.

Flávio Bolsonaro afirmou que a família está se adaptando à nova realidade, embora ainda considere a possibilidade de retornar ao Brasil.

“Preciso seguir em frente com a minha vida nos Estados Unidos, pelo menos por enquanto”, declarou.

Ao ser questionado sobre seu futuro político, não descartou uma nova candidatura presidencial.

“Se houver novas eleições, obviamente serei candidato novamente”, afirmou.

•        Vitória democrata nos EUA pode fragilizar presença de Eduardo e Flávio Bolsonaro no país

A conquista da maioria no Senado e na Câmara dos Estados Unidos pelo Partido Democrata poderá ampliar a pressão política sobre Eduardo e Flávio Bolsonaro em território norte-americano. A avaliação é do professor Lucas Souza Martins, especialista em história dos Estados Unidos e docente da Temple University, na Filadélfia. Em entrevista à coluna de Bela Megale, publicada pelo jornal O Globo nesta quinta-feira (5), ele afirmou que a nova composição do Congresso dará aos democratas mais instrumentos para questionar a atuação do governo de Donald Trump em relação aos dois brasileiros.

Segundo Martins, a presença dos filhos de Jair Bolsonaro nos Estados Unidos deverá entrar na agenda de fiscalização das comissões parlamentares, especialmente daquelas responsáveis por assuntos internacionais. A articulação de setores da sociedade civil brasileira com parlamentares democratas também poderá contribuir para ampliar os questionamentos sobre o apoio oferecido pela administração republicana à família Bolsonaro.

— A presença do Flávio e do Eduardo se tornará parte deste processo de escrutínio pelos democratas. Isso vai ocorrer porque há uma sociedade civil brasileira relativamente organizada e em conexão com os democratas para pressionar o governo Trump desde antes da eleição brasileira sobre esse tema. Agora, com os democratas sendo maioria nas duas casas legislativas, eles terão muito mais possibilidades de exigir respostas, de constranger mais o governo. Isso vai colocar os Bolsonaros em uma situação muito delicada.

A mudança no Congresso ocorre após as eleições de meio de mandato realizadas na terça-feira (3), que alteraram a correlação de forças em Washington e reduziram o espaço político do governo Trump no Legislativo. Com o controle das duas Casas, os democratas poderão comandar comissões, convocar autoridades e ampliar investigações sobre decisões da administração federal.

<><> Vitória democrata no Texas amplia pressão sobre Eduardo Bolsonaro

Um dos resultados eleitorais destacados pelo professor foi a vitória democrata no Texas, estado onde Eduardo Bolsonaro vive desde 2025. A eleição de representantes do partido para o Senado e o governo estadual modifica o ambiente político local e, na avaliação de Martins, poderá dificultar a articulação do ex-deputado brasileiro.

Na disputa pelo Senado, o democrata James Talarico derrotou o republicano Ken Paxton, com 54,9% dos votos contra 43,2%. O resultado representou uma mudança histórica, já que um candidato democrata não conquistava uma cadeira no Senado pelo Texas desde 1988.

Os democratas também venceram a eleição para o governo estadual. Gina Hinojosa obteve 57,1% dos votos, superando o republicano Greg Abbott, que recebeu 41,6%. Com a vitória, ela será a primeira governadora de origem latina do Texas.

Martins avalia que a nova configuração política poderá afetar as condições de atuação de Eduardo no estado, especialmente diante de possíveis divergências entre o governo estadual democrata e a administração federal republicana.

— Considerando que Eduardo Bolsonaro mora no Texas e o governo do Texas passa a ser democrata, isso coloca a situação política do Eduardo como algo delicado. Haverá dificuldades, por exemplo, de articulação federal, pensando que as políticas implementadas pelo governo Trump podem ser recusadas ou ignoradas pelo Texas. Os democratas farão pressão na questão da política externa, na questão do asilo do Flávio e na presença do Eduardo naquele estado. Isso pode colocá-lo numa situação complicada que o faça se mudar para a Flórida, que segue com um governador republicano — disse o professor.

A avaliação diz respeito principalmente ao ambiente político e à capacidade de articulação dos irmãos Bolsonaro. A mudança no governo estadual do Texas, por si só, não determina a situação migratória de Eduardo ou Flávio, uma vez que decisões sobre vistos, autorizações de permanência e eventuais medidas de remoção são atribuições das autoridades federais norte-americanas.

<><> Marco Rubio pode se tornar alvo de questionamentos democratas

Outro ponto destacado pelo professor é a posição do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, considerado um dos principais interlocutores da família Bolsonaro dentro do governo Trump.

Na avaliação de Martins, Rubio poderá enfrentar questionamentos mais intensos dos democratas por causa de sua atuação na política externa. O secretário também é apontado como um dos nomes com maior visibilidade dentro do Partido Republicano para uma eventual disputa presidencial futura.

— Para os democratas, um dos principais temas de ataque político será a política externa, até porque Marco Rubio é o presidenciável com mais visibilidade hoje. Ele será uma fonte de ataques por parte dos parlamentares que coordenarão os comitês da Câmara e do Senado.

A fiscalização parlamentar poderá alcançar decisões relacionadas à política externa norte-americana e à atuação do governo Trump em outros países, incluindo as iniciativas envolvendo o Brasil. Nesse contexto, os democratas terão condições de solicitar informações, convocar integrantes do Executivo e questionar os critérios utilizados pela administração republicana em suas relações internacionais.

<><> Flórida também registra avanço democrata

Embora continue sob comando republicano, a Flórida também apresentou resultados eleitorais que, segundo Martins, indicam dificuldades para o partido de Trump. O professor destacou que os republicanos tiveram disputas mais apertadas e enfrentaram divisões internas durante o processo eleitoral.

Um dos exemplos citados foi a eleição para o governo estadual, vencida por um candidato republicano com margem considerada estreita. O atual governador, também do partido, deixa o cargo em meio a divergências com Trump sobre a guerra no Irã e a interesses políticos próprios para o futuro.

O professor também mencionou a disputa envolvendo a congressista Maria Salazar, considerada próxima de Marco Rubio e de integrantes do grupo bolsonarista nos Estados Unidos. Ela conseguiu preservar sua cadeira, mas enfrentou uma competição mais acirrada do que o esperado.

— Os republicanos saíram enfraquecidos e divididos na Flórida. Estamos falando de um estado tradicionalmente republicano em que o novo governador do partido foi eleito com margem magra. O atual governador, também republicano, deixa o cargo com críticas a Trump na guerra do Irã e tem ambições presidenciais. Uma congressista próxima a Rubio e ao bolsonaristas, Maria Salazar, correu risco de perder sua cadeira e venceu com margem estreita. A onda azul também chegou à Flórida dentro das proporções do estado — disse Lucas Martins.

<><> Nova composição do Congresso muda cenário para os Bolsonaro

A avaliação do professor aponta para uma mudança nas condições políticas que sustentavam a atuação de Eduardo e Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos. A relação próxima com Trump e integrantes de seu governo oferecia aos dois brasileiros interlocução com setores influentes da política norte-americana.

Com a maioria democrata nas duas Casas legislativas, essa relação poderá passar a ser objeto de maior fiscalização, sobretudo em assuntos relacionados à política externa e às decisões do Executivo envolvendo cidadãos brasileiros.

A nova correlação de forças, entretanto, não representa uma decisão automática sobre a permanência dos irmãos no país. O impacto mais imediato apontado por Martins está na ampliação dos questionamentos políticos e na possibilidade de o governo Trump precisar prestar esclarecimentos ao Congresso sobre sua relação com a família Bolsonaro.

 

Fonte: Brasil 247

 

Nenhum comentário: