Fábio
de Sá e Silva: Derrota eleitoral de Trump no Congresso enfraquece plano dos
Bolsonaro nos EUA
A
vitória democrata nas eleições de meio de mandato (midterms em inglês) dos
Estados Unidos pode derrubar os planos do bolsonarismo como um castelo de
areia. Com o Congresso sob controle da oposição, a família Bolsonaro encontrará
um ambiente bem menos favorável para continuar usando Washington como base de
operações contra a democracia brasileira.
O
roteiro é conhecido. Grupos que perdem poder em seus países se instalam nos
Estados Unidos, constroem alianças e procuram influenciar, de fora, os rumos da
política doméstica. Algumas diásporas acumularam considerável poder dessa
maneira, tornando suas causas parte da agenda norte-americana.
Acompanhei
os primeiros movimentos dos bolsonaristas nessa direção. A convite dos
democratas, participei como testemunha da audiência no Congresso dos Estados
Unidos em que tentaram, em vão, denunciar a existência de uma ditadura judicial
no Brasil.
A
audiência, da qual muita gente no Brasil equivocadamente desdenhou, já dava
mostras da ambição e das táticas dessa operação: apresentar a extrema direita
brasileira como vítima de perseguição política e mobilizar o poder
estadunidense contra as instituições brasileiras. Na ocasião, estavam presentes
figuras como os deputados federais do PL Bia Kicis, Nikolas Ferreira, Gustavo
Gayer e Marcos Pollon, entre outros.
A
operação adquiriu mais expressão com a instalação de Eduardo Bolsonaro nos
Estados Unidos e a articulação de tarifas e sanções pela Lei Magnitsky contra
ministros do Supremo Tribunal Federal. Agora, com a chegada de Flávio, após a
derrota eleitoral e sua fuga do Brasil, ganharia novo impulso.
O
próximo passo provavelmente seria buscar o não reconhecimento do resultado das
eleições de 2026, acompanhado de novas medidas para pressionar o Brasil e
sabotar o governo eleito.
Há,
porém, diferenças importantes entre essa empreitada e a trajetória de outras
diásporas.
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Aposta cega no Maga isola família Bolsonaro em Washington
Primeiro,
os bolsonaristas não estão fugindo de um regime autoritário. O Brasil é uma
democracia reconhecida internacionalmente, com instituições em funcionamento e
resultados eleitorais íntegros, atestados por observadores internacionais.
A
derrota nas urnas e a existência de investigações judiciais contra integrantes
de uma família não os transformam em exilados políticos. Para sustentar essa
narrativa, é preciso convencer os estadunidenses a ignorar o que acontece no
país.
Segundo,
diásporas que construíram influência duradoura nos Estados Unidos procuraram
cultivar relações em todo o espectro político. Buscaram apoio para suas causas
entre políticos democratas e republicanos, preservando espaço diante das
alternâncias de poder.
Os
Bolsonaro fizeram uma aposta muito mais estreita. Vincularam seu destino ao de
Trump e do movimento Make America Great Again, o Maga. Seus aliados nos EUA são
também participantes de uma disputa doméstica cada vez mais acirrada. A vitória
democrata compromete, portanto, boa parte do investimento político da família.
Trump
continuará na Presidência, com poderes importantes sobre a política externa.
Mas um Congresso controlado pela oposição poderá cobrar explicações, realizar
audiências, exigir documentos e investigar o uso desses poderes. Haverá menos
espaço para apresentar interesses particulares dos Bolsonaro como se fossem
interesses dos Estados Unidos.
É
provável, aliás, que a relação se inverta. Em vez de conseguirem novas
iniciativas contra o Brasil, os bolsonaristas podem passar a figurar nas
perguntas dirigidas ao governo Trump. Por que a Casa Branca se envolveu na
defesa dessa família? Que interesses justificaram as pressões sobre uma
democracia? Em que condições Flávio foi recebido nos Estados Unidos?
Ao
concentrarem suas alianças no Maga, os Bolsonaro fizeram sua capacidade de
pressionar o Brasil depender da força de Trump dentro dos próprios Estados
Unidos. A onda azul pode expor o quanto havia de areia nessa construção.
• Com a humilhação histórica de Trump nas
urnas, os dias dos Bolsonaros nos EUA estão contados. Por Aquiles Lins
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sofreu a maior humilhação política
que o partido Republicano viu em décadas. Nas eleições de meio de mandato
realizadas nesta terça-feira (3), os democratas conquistaram o controle da
Câmara dos Representantes e do Senado dos Estados Unidos, encerrando a maioria
republicana nas duas Casas do Congresso. O resultado representa uma rejeição
direta ao governo Trump e reduz drasticamente a capacidade do presidente de
impor sua agenda nos dois últimos anos de mandato. Isso interessa ao mundo, e
especialmente ao Brasil. Para a família Bolsonaro, que apostou na aliança com
Trump como instrumento de proteção política e pressão sobre o Brasil, a derrota
tem consequências diretas: perderam o padrinho e o abrigo.
A
dimensão da vitória democrata aparece no mapa eleitoral. No Texas, estado que
Trump venceu com ampla margem em 2024, James Talarico derrotou o republicano
Ken Paxton e conquistou uma cadeira no Senado. Na mesma eleição, Gina Hinojosa
derrotou o governador republicano Greg Abbott. Os democratas voltaram a
conquistar o governo texano depois de 36 anos, em uma das derrotas mais
simbólicas para o trumpismo.
Na
Carolina do Sul, outro tradicional reduto republicano, a democrata Annie
Andrews derrotou Darline Graham na disputa pelo Senado. Trump havia vencido o
estado por quase 18 pontos percentuais em 2024. Em Ohio, Sherrod Brown derrotou
o republicano Jon Husted, recuperando uma cadeira que havia sido ocupada pelo
atual vice-presidente JD Vance. O estado também elegeu a democrata Amy Acton
para o governo, derrotando Vivek Ramaswamy, candidato apoiado por Trump.
A onda
eleitoral chegou ainda a Kansas, onde Adam Hamilton conquistou uma cadeira no
Senado pela primeira vez para um democrata desde 1932; à Carolina do Norte,
onde Roy Cooper venceu a disputa pelo Senado; e ao Maine, que também contribuiu
para a mudança de controle da Casa. Na Geórgia, os democratas mantiveram a
cadeira de Jon Ossoff. Em Iowa, Rob Sand conquistou o governo estadual. No Novo
México, Deb Haaland foi eleita governadora e se tornou a primeira mulher
indígena a ocupar o cargo em um estado norte-americano.
Na
Câmara dos Representantes, os democratas também conquistaram a maioria. A
mudança de comando abre caminho para Hakeem Jeffries assumir a presidência da
Casa, tornando-se o primeiro homem negro a ocupar o posto. No Senado, os
democratas também recuperaram o controle, depois de conquistar cadeiras que
estavam nas mãos dos republicanos. Trump perdeu, assim, sua sustentação
parlamentar nas duas instituições centrais do Congresso.
A
inflação, o custo de vida e a condução da guerra contra o Irã foram
determinantes para o desgaste de Trump. Pesquisas de boca de urna indicaram que
quase nove em cada dez eleitores consideraram o custo de vida um fator
importante ou decisivo na escolha. Quase dois terços responsabilizaram Trump
pelos preços elevados, enquanto três quartos disseram estar insatisfeitos ou
irritados com os rumos do país.
A
coalizão eleitoral que levou Trump de volta à Casa Branca em 2024 também
mostrou sinais de ruptura. Republicanos perderam apoio entre jovens, eleitores
latinos e homens negros. A tentativa de transformar a disputa em uma campanha
contra os supostos perigos de um governo democrata não funcionou. Os eleitores
estavam mais preocupados com o preço dos alimentos, da gasolina e com a
situação econômica.
Trump
fez campanha pessoalmente por candidatos como Ken Paxton, Darline Graham e Jon
Husted. Pediu aos eleitores que votassem como se ele próprio estivesse nas
cédulas. Quando as derrotas se confirmaram, tentou se desvincular do resultado
e escreveu nas redes sociais que, se tivesse sido candidato, teria vencido por
uma margem esmagadora. A declaração não altera o significado político da
votação: os eleitores rejeitaram candidatos identificados com seu governo e
escolheram um Congresso disposto a enfrentá-lo.
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Flávio Bolsonaro repete a fuga do pai e encontra Trump enfraquecido
A
derrota republicana ocorre em um momento particularmente delicado para Flávio
Bolsonaro, que deixou o Brasil após perder a eleição presidencial de 25 de
outubro para Luiz Inácio Lula da Silva. Ao buscar abrigo político nos Estados
Unidos depois do revés nas urnas, Flávio reproduziu o comportamento de seu pai,
Jair Bolsonaro, que viajou para território norte-americano no fim de dezembro
de 2022, após ser derrotado por Lula na disputa pela Presidência.
A
repetição do episódio revela um padrão na atuação política da família. Em vez
de permanecer no Brasil para enfrentar as consequências políticas de uma
derrota eleitoral, Flávio optou por seguir o caminho do pai e se aproximar do
principal aliado internacional do bolsonarismo. A diferença é que, desta vez, a
família encontra um presidente norte-americano profundamente enfraquecido, sem
maioria parlamentar e diante de uma oposição fortalecida pelo voto popular.
Quando
Jair Bolsonaro deixou o Brasil em 2022, seu destino foi a Flórida, onde
permaneceu durante os primeiros meses do novo governo Lula. A viagem ocorreu às
vésperas da posse presidencial e antecedeu os ataques golpistas de 8 de janeiro
de 2023. Agora, quatro anos depois, Flávio também deixa o país após uma derrota
para o petista, em uma conjuntura marcada pelo desgaste da extrema direita nos
dois países.
O
significado político da fuga de Flávio se torna ainda mais expressivo diante do
resultado das eleições estadunidenses. A família Bolsonaro apostava que a
permanência de Trump na Casa Branca, respaldado por um Congresso republicano,
garantiria condições favoráveis para sua atuação política a partir dos Estados
Unidos. A perda simultânea da Câmara e do Senado compromete essa expectativa e
aumenta a exposição dos aliados brasileiros do trumpismo.
A
presença de Flávio em território norte-americano não significa, por si só, que
exista um processo de extradição ou uma ameaça imediata à sua permanência no
país. Mas sua decisão de deixar o Brasil após a derrota eleitoral adquire uma
dimensão política distinta quando o governo que poderia lhe oferecer respaldo
perde parte substancial de sua capacidade de ação.
O filho
de Jair Bolsonaro chega, portanto, a um ambiente muito diferente daquele que a
família imaginava encontrar. Trump continua na Presidência, mas terá de
administrar uma relação conflituosa com um Congresso controlado pela oposição.
A capacidade de transformar a máquina do Estado norte-americano em instrumento
de pressão sobre o Brasil passa a enfrentar obstáculos institucionais mais
relevantes.
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Eduardo Bolsonaro perde força em Washington
O
enfraquecimento de Trump também atinge diretamente Eduardo Bolsonaro, que
transformou sua atuação nos Estados Unidos em um esforço permanente para obter
apoio do governo republicano contra autoridades brasileiras. A família apostou
na proximidade com o presidente norte-americano para constranger o Supremo
Tribunal Federal, questionar decisões da Justiça brasileira e criar obstáculos
à responsabilização dos envolvidos na tentativa de golpe de Estado.
Eduardo
buscou fazer da influência do governo Trump uma ferramenta de pressão
internacional sobre o governo Lula e as instituições brasileiras. Sua
estratégia dependia não apenas da disposição política da Casa Branca, mas
também da capacidade do presidente estadunidense de sustentar suas decisões
diante do Congresso.
Com a
vitória democrata, essa estratégia enfrenta um cenário muito mais adverso. A
oposição passa a controlar comissões parlamentares, definir prioridades de
fiscalização e convocar integrantes do governo para prestar esclarecimentos. A
atuação de autoridades norte-americanas em favor de aliados estrangeiros de
Trump poderá ser submetida a questionamentos mais intensos.
O caso
de Alexandre Ramagem é um dos exemplos mais concretos dessa relação. Condenado
pelo STF a 16 anos de prisão por participação na trama golpista, o ex-diretor
da Agência Brasileira de Inteligência fugiu para os Estados Unidos em setembro
de 2025. O Brasil formalizou o pedido de extradição em 30 de dezembro daquele
ano. Em abril de 2026, Ramagem foi detido pelo serviço de imigração
norte-americano, mas acabou liberado dois dias depois, enquanto aguardava a
análise de seu pedido de asilo.
Uma
investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ),
publicada em outubro, revelou circunstâncias ainda mais graves. Um agente da
Polícia Federal brasileira que colaborava com o serviço de imigração dos
Estados Unidos para localizar Ramagem foi obrigado pelo Departamento de Estado
a deixar o país poucos dias depois da liberação do ex-deputado. A decisão foi
apresentada pelo governo norte-americano como uma reação à atuação do policial
brasileiro. Eduardo Bolsonaro comemorou a liberação de Ramagem e agradeceu
publicamente a Trump e a integrantes de seu governo.
O
episódio demonstrou que a administração republicana estava disposta a tratar o
caso de um aliado do bolsonarismo de maneira politicamente favorável, mesmo
diante de um pedido formal de extradição apresentado pelo Brasil. Segundo a
investigação do ICIJ, o governo norte-americano ainda não havia respondido ao
pedido brasileiro.
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Democratas ganham instrumentos para investigar proteção a bolsonaristas
A
derrota de Trump muda essa equação. Com os democratas no comando das duas
Casas, a oposição passa a ter instrumentos muito mais fortes para fiscalizar a
administração, convocar autoridades, abrir investigações e questionar decisões
do Departamento de Estado e dos órgãos de imigração. A relação com o Brasil e o
tratamento dispensado a aliados estrangeiros do presidente poderão entrar no
radar dos parlamentares.
O
controle do Congresso não transfere aos democratas a competência para decidir
diretamente sobre extradições ou pedidos de asilo. Essas decisões envolvem o
Judiciário e o Poder Executivo norte-americano. Trump continua presidente e
mantém autoridade sobre a condução da política externa e da estrutura federal
de imigração. Mas perdeu uma importante base de sustentação institucional.
Qualquer tentativa de prolongar privilégios políticos a aliados estrangeiros
estará submetida a maior escrutínio e enfrentará custos políticos crescentes.
O
resultado também enfraquece a capacidade de Trump de utilizar o peso econômico
e diplomático dos Estados Unidos para pressionar o Brasil. A política de
sanções e tarifas adotada contra o governo Lula, assim como as iniciativas de
Eduardo Bolsonaro para estimular medidas contra autoridades brasileiras, passam
a enfrentar um ambiente político muito menos favorável em Washington.
A
situação de Flávio, Eduardo e Ramagem evidencia os riscos da estratégia
internacional do bolsonarismo. Os três se encontram vinculados, em diferentes
circunstâncias, a uma aposta política que dependia da força de Trump e da
disposição de seu governo para oferecer respaldo aos aliados brasileiros. Com a
mudança no equilíbrio de poder em Washington, essa proteção se torna
politicamente mais custosa.
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O fim da retaguarda internacional do bolsonarismo
A
família Bolsonaro construiu sua estratégia internacional sobre a expectativa de
que Trump permaneceria politicamente forte e poderia oferecer proteção aos
aliados brasileiros. As eleições de 3 de novembro mostraram os limites dessa
aposta. O presidente norte-americano perdeu as duas Casas do Congresso, viu
candidatos escolhidos pessoalmente por ele serem derrotados em estados
republicanos e sofreu uma rejeição eleitoral que alcançou regiões antes
consideradas seguras para seu partido.
Para
Flávio Bolsonaro, a conjuntura é especialmente desfavorável. Derrotado por Lula
nas urnas brasileiras e agora instalado nos Estados Unidos, ele vê o principal
aliado internacional de sua família sofrer uma derrota histórica poucos dias
depois de sua própria derrota presidencial. A sequência de resultados
representa um revés para a estratégia de articulação entre a extrema direita
brasileira e o trumpismo.
Eduardo
Bolsonaro também terá de lidar com uma nova realidade institucional. Sua
capacidade de mobilizar integrantes do governo norte-americano contra
autoridades brasileiras poderá ser reduzida pela fiscalização parlamentar e
pelo desgaste político de Trump. No caso de Ramagem, a situação jurídica
continuará dependendo das autoridades competentes, mas eventuais decisões
favoráveis ao ex-deputado poderão enfrentar questionamentos mais intensos.
Os
Bolsonaros não perderam automaticamente seus canais de influência nos Estados
Unidos. Tampouco a vitória democrata significa que o governo norte-americano
deixará de manter relações políticas com aliados estrangeiros de Trump. O que
mudou foi a correlação de forças. Sem o controle do Congresso, o presidente
terá mais dificuldade para sustentar uma política de proteção a aliados
internacionais e de confronto com governos que não se alinham aos seus
interesses.
Trump
já não dispõe da mesma força política que tinha quando retornou à Casa Branca.
Depois de ver Jair Bolsonaro perder para Lula em 2022 e Flávio repetir a
derrota em 2026, a extrema direita brasileira assiste agora ao enfraquecimento
de seu principal patrocinador político internacional.
A
família Bolsonaro apostou na força de Trump para manter os Estados Unidos como
uma retaguarda política diante das derrotas e dos problemas enfrentados no
Brasil. A humilhação eleitoral do republicano vai encerrar esse ciclo. Os dias
em que os Estados Unidos funcionavam como porto seguro do bolsonarismo estão
chegando ao fim.
Fonte:
The Intercept/Brasil 247

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