quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Gustavo Tapioca: E agora, Flávio? Fugir para onde?

Nos filmes de Hollywood, os criminosos fugiam para o Rio de Janeiro. Jair, Eduardo e Flávio Bolsonaro escolheram os Estados Unidos. Mas a derrota histórica de Donald Trump nas urnas ameaça transformar o refúgio americano numa nova armadilha política.

Durante décadas, o cinema americano transformou o Brasil no paraíso dos fora da lei em fuga. Quando um assaltante, golpista ou gangster estava prestes a cair nas mãos da Justiça, a solução parecia simples: arrumar as malas, apanhar o dinheiro e embarcar para o Brasil.

Em O Mistério da Torre (1951), estrelado por Alec Guinness, um ladrão de ouro encontra refúgio no Rio de Janeiro. Em Primavera para Hitler (1968), os personagens de Zero Mostel e Gene Wilder planejam fugir para o Brasil com o dinheiro de uma fraude. Em Velozes e Furiosos 5 — Operação Rio (2011), os personagens de Vin Diesel e Paul Walker procuram escapar da Justiça americana refugiando-se em solo brasileiro. O clichê atravessou gerações, levando a escritora Vanessa Barbara a dedicar, em 2015, um artigo no The New York Times ao fenômeno: Brazil, the Outlaw’s Paradise (Brasil, o paraíso dos fora da lei).

Era Hollywood. Era ficção. Veio o século XXI e a realidade brasileira produziu uma inversão surpreendente: agora, a rota dos criminosos e golpistas fugitivos atravessa o continente na direção contrária.

<><> O terremoto político em Washington

Donald Trump sofreu uma derrota histórica nas eleições legislativas americanas de 3 de novembro. Os democratas conquistaram o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, impondo ao presidente republicano um revés que ameaça sua capacidade de governar nos dois últimos anos de mandato.

A derrota atravessou redutos conservadores históricos. No Texas, estado que Trump venceu em 2024 — onde vive há dois anos conspirando contra o Brasil o filho Eduardo, Zero Dois de Jair Bolsonaro — os democratas conquistaram o governo estadual e uma cadeira no Senado.

<><> Poder de fiscalização

 A partir de janeiro, Trump terá de enfrentar um Congresso controlado pela oposição, com poderes para investigar seu governo, fiscalizar suas decisões e bloquear parte de sua agenda.

E, dois brasileiros que fugiram em busca do American Way os Life de Trump e Rubio, têm motivos especiais para acompanhar as consequências dessa virada: Eduardo e Flávio Bolsonaro. O pai, Jair, já conhece o caminho de volta — retornou ao Brasil e acabou condenado à prisão.

Os três protagonizaram uma história que talvez nem os roteiristas de Hollywood e o mais criativo roteirista de Brasil poderiam imaginar.

>>>> Os Três Passageiros da Nova Rota

A travessia da família em direção ao norte desdobrou-se em três atos marcados por momentos distintos de crise com a Justiça.

<><> 1. Jair Bolsonaro: O pioneiro da rota acabou na prisão

Em 12 de dezembro de 2022, dia da diplomação de Lula, extremistas bolsonaristas promoveram um badernaço em Brasília e atacaram a sede da Polícia Federal. Na véspera do Natal, um atentado a bomba nas proximidades do aeroporto da capital foi frustrado. As investigações revelariam também o plano Punhal Verde e Amarelo, que previa o assassinato de Lula, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes.

Em 30 de dezembro, Jair Bolsonaro deixou o Brasil num avião presidencial. Dois dias depois, Lula assumiu a Presidência. O presidente derrotado recusou-se a transmitir a faixa ao sucessor escolhido pelas urnas e preferiu fugir para a Flórida. Em 8 de janeiro de 2023, bolsonaristas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, em Brasília. Jair estava nos Estados Unidos.

Posteriormente, o Supremo Tribunal Federal identificou-o como líder da organização criminosa envolvida nas tentativas de golpe de Estado e condenou-o a 27 anos e três meses de prisão. O primeiro passageiro da nova rota hollywoodiana voltou ao Brasil e acabou na prisão.

<><> Zero 2. O deputado foragido

Em março de 2025, Eduardo Bolsonaro fugiu e anunciou que permaneceria nos Estados Unidos. Não foi apenas uma mudança de endereço: o então deputado federal passou a atuar em Washington contra decisões das instituições de seu próprio país. Aproximou-se do governo Trump, adotou os símbolos do movimento MAGA e participou das articulações destinadas a pressionar o Brasil.

Em junho de 2026, o Supremo Tribunal Federal condenou Bolsonaro Zero Dois 

a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo. Segundo o STF, ficou comprovada sua atuação para interferir no julgamento do pai, inclusive mediante a articulação de sanções americanas contra o Brasil. Em outubro, encerrados os recursos, o ministro Alexandre de Moraes determinou a expedição de seu mandado de prisão. O ex-deputado, eleito para representar os brasileiros, permanece foragido nos Estados Unidos, som green card especial fornecida por Trump e Rubio. 

<><> Zero 3. A fuga milionária

Em 25 de outubro de 2026, Lula derrotou Flávio Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial. Quatro anos depois de derrotar o pai, derrotava o filho Zero Um. Flávio não reconheceu o resultado das urnas. Diante de uma determinação judicial para entregar seus passaportes e não sair do país para responder a lista de crimes que responde na Justiça, anunciou que cumpriria a decisão. Não cumpriu. Fugiu. 

Na noite de 27 de outubro, atravessou a fronteira com a Argentina, embarcou num avião particular, fez escala no Equador e desembarcou em Miami na manhã seguinte. O candidato derrotado deixava o Brasil apenas dois dias depois da eleição, numa complexa e milionárias operação internacional envolvendo um jatos particulares de alto valor.

Ainda não estão esclarecidas questões fundamentais: quem pagou? Quem financiou? Quem organizou a operação? E, sobretudo, a quem interessava retirar do Brasil o candidato derrotado? Investigado por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e outras irregularidades, Flávio ainda não foi condenado nesses processos, mas sua saída ocorreu em claro descumprimento de ordem judicial. 

O filho “Zero Um” completou a rota invertida e desembarcou na Flórida justamente quando o poder político de seu principal aliado o Uncle Donald estava prestes a sofrer uma derrota histórica nas urnas.

<><> O patriotismo termina na Flórida

Durante anos, os Bolsonaro apresentaram-se como defensores intransigentes da pátria. Envolveram-se na bandeira nacional, vestiram verde e amarelo e proclamaram que o Brasil estava “acima de tudo”. Mas, diante das derrotas eleitorais e dos conflitos com a Justiça, escolheram os Estados Unidos para viver e lutar contra a “Pátria Amada”.

•        O pai foi condenado por liderar uma organização criminosa que tentou impedir a continuidade da democracia.

•        Eduardo foi condenado por coagir a Justiça mediante pressões associadas a sanções de uma potência estrangeira.

•        Flávio, derrotado nas urnas, deixou o país descumprindo determinação judicial.

Há diferenças jurídicas entre os três casos, mas a coincidência política é impossível de ignorar. A eleição de Flávio representava também a esperança de uma anistia que pudesse beneficiar o pai e outros condenados pela trama golpista. 

Mas Lula venceu novamente. Esse, Lula… E o candidato derrotado seguiu a rota familiar, fugindo para Miami.

<><> O retorno dos Três Bolsonaro da Disneylândia

Em artigo publicado nesta quarta-feira, 4 de novembro, sob o título “Com a humilhação histórica de Trump nas urnas, os dias dos Bolsonaros nos EUA estão contados”, Aquiles Lins analisa as consequências da derrota republicana para a família. Sua interpretação é que a perda da maioria parlamentar enfraquece a capacidade de Trump de oferecer proteção política a seus três best friends brasileiros; pai Jair e seus dois filhos americanos.

Isso não significa que Eduardo e Flávio serão automaticamente expulsos dos Estados Unidos. Trump continua presidente, e decisões sobre extradição e permanência de estrangeiros obedecem a procedimentos legais próprios. Mas a mudança política em Washington poderá tornar mais difícil sustentar essa proteção.

Resumo do filme Brasil, Meu Brasil brasileiro — que pode servir de contraponto ao inédito Dark Horse, o Cavalo Preto “que assim como veio partiu ninguém sabe pra onde” e que custou, pelo menos, 130 milhões de reais. A soma fantástica que o candidato derrotado a presidente do Brasil, Flávio fugitivo Bolsonaro levou dos cofres lotados do “Irmão” Daniel Vorcaro, chefe do maior escândalo financeiro da história recente do Brasil. Um dos vários processos que Flávio deve respostas à Justiça.

Jair, voltou da Flórida e acabou na prisão. Eduardo o Zero Dois, apelido Bananinha, permanece nos Estados Unidos, condenado e com mandado de prisão expedido. Flávio, o Zero Um, apelido Rachadinha, acaba de chegar a Miami — onde vai passar os dias mais terríveis de sua vida, aguardando a decisão que, inevitavelmente, virá: fora daqui.

<><> O final ainda não foi escrito

Hollywood inventou a rota de fuga de bandidos para o Brasil; os Bolsonaro escolheram o caminho inverso. Mas o terceiro passageiro — o Zero Um Flávio — chegou justamente quando o cenário político americano começou a mudar. É como se o poeta Carlos Drummond de Andrade sussurrasse ao ouvido do primogênito e ex futuro sucessor da dinastia Bolsonaro:

“E agora, Flávio?

Fugir para onde?”

O próximo filme hollywoodiano poderia se chamar As trapalhadas milionárias dos Três Bolsonaro na Terra do Tio Donald. 

Mas há uma diferença fundamental entre Hollywood e a vida real: no cinema, os roteiristas escolhem o destino dos personagens. Na realidade brasileira, a história ainda está sendo escrita.

Este filme, chamado Brasil, ainda não tem um final. Nem mesmo a genialidade de seus roteiristas consegue antecipar o desfecho. 

Quando as luzes acenderem e os créditos subirem, saberemos se os vencedores serão os good guys ou os bad guys. 

•        Flávio e Eduardo Bolsonaro podem ter de buscar asilo em outro país, dizem diplomatas

A conquista da maioria democrata na Câmara dos Representantes e no Senado dos Estados Unidos deverá criar obstáculos políticos para Flávio e Eduardo Bolsonaro, que estão no país sob a proteção do governo de Donald Trump. A mudança no equilíbrio de forças em Washington pode ampliar a fiscalização sobre a política externa americana e colocar em discussão o apoio oferecido pelo presidente estadunidense aos integrantes da família Bolsonaro.

Segundo informações publicadas pela jornalista Bela Megale, em sua coluna no jornal O Globo, diplomatas brasileiros consideram que a derrota republicana representa um duro golpe para os filhos de Jair Bolsonaro. A avaliação é que o novo Congresso terá disposição para questionar tanto a presença dos dois nos Estados Unidos quanto as iniciativas de Trump para interferir em assuntos políticos e institucionais brasileiros.

Integrantes do Itamaraty afirmam que o resultado eleitoral é especialmente desfavorável aos Bolsonaros porque “haverá pouca paciência dos parlamentares com Trump e seus intentos de interferir nos processos democráticos na América do Sul e no Brasil, em particular”.

A expectativa é que os democratas utilizem sua maioria parlamentar para intensificar a cobrança de explicações sobre a postura do governo americano em relação a brasileiros envolvidos em investigações e condenações judiciais, além das medidas comerciais e diplomáticas adotadas contra o Brasil.

<><> Diplomatas veem futuro incerto para os Bolsonaros

A nova composição do Congresso também levanta dúvidas sobre a sustentabilidade da proteção política oferecida por Trump a Flávio e Eduardo Bolsonaro, especialmente diante da possibilidade de uma derrota do trumpismo nas eleições presidenciais americanas de 2028.

Um dos diplomatas consultados pela coluna considera que a vitória democrata “é um mau presságio para os Bolsonaros, que talvez tenham de fazer planos de pedir ‘asilo’ em outro país daqui a dois anos”.

A avaliação indica que a permanência dos filhos do ex-presidente nos Estados Unidos poderá enfrentar dificuldades crescentes caso o ambiente político americano continue se deslocando contra Trump e seus aliados.

No caso de Flávio Bolsonaro, que deixou o Brasil e se reuniu com o irmão Eduardo em território estadunidense, a mudança no Congresso representa um novo elemento de incerteza política. A proteção oferecida pela atual administração poderá passar a ser alvo de questionamentos públicos e iniciativas de fiscalização parlamentar.

<><> Democratas poderão investigar atuação de Trump no Brasil

Com o controle das duas casas legislativas, o Partido Democrata também assumirá posições estratégicas nas comissões responsáveis por acompanhar a política externa dos Estados Unidos.

Esses colegiados poderão promover audiências, convocar autoridades e exigir informações sobre decisões do Executivo, incluindo a relação do governo Trump com integrantes da família Bolsonaro.

Entre os principais pontos de atrito estão o acolhimento de brasileiros condenados pela Justiça, o apoio a defensores de rupturas institucionais e a utilização de tarifas comerciais como instrumento de pressão sobre outros países.

Diplomatas brasileiros esperam que essas questões ganhem maior visibilidade no debate parlamentar americano, dificultando iniciativas de Trump consideradas prejudiciais à soberania brasileira.

A mudança também poderá atingir a estratégia de aproximação entre setores da extrema direita brasileira e o governo republicano, que até agora encontravam na Casa Branca um importante ponto de apoio político.

<><> Derrota histórica enfraquece Trump

O resultado das eleições legislativas representa uma das maiores derrotas políticas da trajetória de Donald Trump. A perda simultânea do controle da Câmara e do Senado deixa o presidente diante de uma oposição fortalecida e com instrumentos institucionais para fiscalizar sua administração.

Na avaliação de diplomatas brasileiros, a vitória democrata expressa uma reação à elevada impopularidade do governo americano e às políticas adotadas pela Casa Branca.

Embora Trump tenha sinalizado que pretende vetar sistematicamente propostas aprovadas pelo Congresso, a nova correlação de forças limita sua capacidade de conduzir a administração sem negociações com a oposição.

A aprovação do orçamento federal, por exemplo, dependerá de entendimentos entre o Executivo e o Legislativo, ampliando o poder de pressão dos democratas.

O controle das comissões parlamentares também permitirá uma fiscalização mais rigorosa das decisões presidenciais, especialmente em assuntos internacionais.

<><> Política de intervenção na América Latina entra na mira

A atuação dos Estados Unidos na América Latina deverá se tornar outro foco de confronto entre a Casa Branca e a maioria democrata.

Entre as iniciativas que poderão enfrentar resistência está o chamado Escudo das Américas, coalizão de segurança liderada por Washington e apontada como um possível instrumento de ampliação da influência americana sobre os países da região.

A utilização da Doutrina Monroe como referência para a política externa também deverá provocar questionamentos. Historicamente associada à oposição à interferência de potências europeias no continente, a doutrina passou a ser relacionada, em diferentes períodos, a práticas intervencionistas dos Estados Unidos na América Latina.

Nesse contexto, eventuais tentativas de pressionar instituições brasileiras poderão enfrentar maior resistência dentro do próprio sistema político americano.

Apesar do cenário desfavorável, diplomatas não descartam que Trump procure reduzir as tensões com o Brasil para evitar novos confrontos com o Congresso.

Uma eventual acomodação diplomática, porém, não eliminaria os riscos políticos para Flávio e Eduardo Bolsonaro. Com os democratas fortalecidos em Washington, o apoio da Casa Branca à família do ex-presidente brasileiro tende a enfrentar um ambiente de contestação mais intenso.

 

Fonte: Brasil 247

 

Nenhum comentário: