Autonomia
do Banco Central – problema ou solução?
O
debate sobre a autonomia dos bancos centrais é apresentado como uma escolha
entre duas alternativas: de um lado, a condução técnica da política monetária;
de outro, sua submissão às conveniências de governos sujeitos ao calendário
eleitoral.
Este
ensaio sustenta que essa oposição é capciosa, porque ambos omitem um terceiro
termo: a autonomia conferida ao Banco Central do Brasil (BCB) pela Lei
Complementar nº 179/2021 reduziu sua sujeição formal ao Poder Executivo, mas
não o protegeu da influência do mercado financeiro.
Tal
assimetria constitui o ponto cego da justificativa para a autonomia dos bancos
centrais. Se o propósito é preservar a política monetária de interesses
particulares capazes de desviá-la do interesse público, não há razão para que
essa proteção funcione apenas contra o governo eleito. Blindar a autoridade
monetária das pressões políticas sem protegê-la das pressões exercidas pelo
sistema financeiro significa apenas redefinir em favor de quem a captura tende
a ocorrer. Essa não desapareceu; apenas mudou de lugar.
A
questão possui alcance amplo, pois diz respeito ao próprio modo como se concebe
a política monetária. Ao contrário do que sugere a ortodoxia, decisões sobre
juros não são escolhas tecnicamente neutras. O que se apresenta como
neutralidade revela-se, quando examinado de perto, o seu contrário: elas afetam
o crescimento, o emprego, a distribuição da renda e a sustentabilidade da
dívida pública, redistribuindo custos e benefícios entre diferentes grupos
sociais, controvérsia discutida por Brenck e Stumm (2026), Tiberto (2025) e
Aklin, Kern e Negre (2021).
Segundo
a formulação clássica, governos submetidos ao ciclo político-eleitoral tendem a
estimular artificialmente a economia no curto prazo, reduzindo juros e
desemprego ainda que ao custo de inflação mais elevada no futuro. Como os
agentes econômicos se antecipariam a esse comportamento, o resultado seria
apenas inflação alta, sem ganhos no produto ou emprego.
Esse é
o núcleo da tese do viés inflacionário elaborada por Kydland e Prescott (1977)
e Barro e Gordon (1983). Daí deriva também a recomendação de cunho
institucional: retirar a condução da política monetária das mãos do governo
eleito e confiá-la a uma autoridade técnica, dotada de mandatos fixos e
orientada prioritariamente para a estabilidade de preços.
O
estudo mais prestigiado em defesa da autonomia encontrou correlação estatística
entre a independência e a inflação baixa (Alesina e Summers, 1993). Correlação,
porém, não equivale a causalidade. Além do mais, o estudo baseia-se em uma
amostra reduzida e cobre o período entre 1955 e 1988, anterior à consolidação
jurídica da independência dos bancos centrais.
Durante
boa parte desses anos, a estabilidade de preços decorreu da disciplina
monetária e cambial imposta pelo sistema de Bretton Woods, de modo que a
correlação observada pode ter refletido fatores que o estudo não controlou.
Cukierman,
Webb e Neyapti (1992) chegam a uma conclusão igualmente importante: a
associação entre independência legal e inflação baixa restringe-se às economias
desenvolvidas e desaparece nos países em desenvolvimento. Em outras palavras,
nas economias semelhantes à brasileira, essa relação não é evidente.
Nesses
países, o fator decisivo não é a independência legal, mas a independência
efetiva, medida pela rotatividade dos dirigentes: uma alta frequência de troca
do presidente do banco sinalizaria sua maior vulnerabilidade às pressões do
governo.
Desta
maneira, o triunfo da teoria do banco central independente consolidou-se menos
como uma proposição empiricamente demonstrada do que como uma construção
teórica e política bem-sucedida. O próprio Posen (1995) argumenta que a relação
entre independência do banco central e baixa inflação é espúria, uma vez que é
condicionada por uma terceira variável: a existência de uma coalizão política e
social, principalmente do setor financeiro, comprometida com a estabilidade de
preços.
Desse
modo, a crítica à autonomia não se esgota na falta de robustez das evidências
empíricas. No caso brasileiro, a assimetria entre a blindagem ao governo e a
ausência de salvaguardas diante do mercado financeiro manifesta-se no próprio
funcionamento da política monetária.
Aplicando
ao Banco Central do Brasil a metodologia do novo índice de independência
elaborado pelo Fundo Monetário Internacional (Adrian, Khan e Menand, 2024),
Freitas (2026) atribui-lhe pontuação de 0,78 – grau elevado de independência
institucional. Esse resultado decorre do fato de o banco satisfazer
praticamente todos os critérios destinados a protegê-lo da influência do
governo eleito. Em contrapartida, nenhuma das dez dimensões contempladas pelo
índice procura aferir sua independência em relação ao mercado financeiro.
Senão
vejamos. O Boletim Focus, relatório semanal em que o Banco Central do Brasil
reúne as projeções de dezenas de instituições financeiras, alimenta um círculo
vicioso: o Copom define a taxa básica de juros observando as expectativas do
mercado; o mercado, por sua vez, ajusta suas expectativas em função dos sinais
emitidos pelo Copom.
À
medida que a credibilidade da autoridade monetária passa a ser aferida pela
proximidade entre suas projeções e as do mercado financeiro, convergir para
essas expectativas deixa de ser consequência da política monetária e
transforma-se em objetivo institucional.
Em vez
de determinar a taxa de juros, o banco central passou a operar como se
estivesse condicionado pelas expectativas daqueles sobre os quais deveria
exercer autoridade. Na prática, porém, é o mercado quem dispõe cada vez mais
dos instrumentos necessários para defini-la. Segundo análise recente de André
Lara Resende sobre autonomia e dependência, a base técnica da política
monetária resume-se à concepção de que a inflação é determinada pelas
expectativas dos agentes do mercado financeiro, vinculadas à trajetória futura
das contas públicas.
Apesar
da fragilidade desse postulado, a política de juros, ancorada na Regra de
Taylor, prescreve a elevação da taxa sempre que as expectativas de inflação do
mercado se deterioram.
Os
dados permitem dimensionar as disfuncionalidades desse arranjo. Segundo Fiocca
(2025), entre 1999 e 2023, a taxa real média de juros no Brasil foi de 5,8% ao
ano, contra 0,9% na mediana das demais economias em desenvolvimento e apenas
0,7% na mediana dos países que adotam o regime de metas de inflação. Convive-se
com patamares elevados, constituindo um verdadeiro outlier internacional.
Deste
modo, o principal argumento utilizado pelos defensores da independência do BCB
para justificar essa situação é o chamado risco fiscal. Como mostram Montes e
Fonseca (2022), basta que os detentores de títulos públicos avaliem a situação
das contas públicas como mais frágil para que retirem capitais do país,
pressionem o câmbio e induzam a elevação dos juros. Tal risco funciona, assim,
menos como diagnóstico objetivo do que como profecia autorrealizável.
Mas por
que a taxa de juros brasileira é tão elevada? Como demonstrou Rossi (2016), a
política monetária atua sobretudo por meio do câmbio: juros altos atraem
capitais de curto prazo; a entrada desses recursos aprecia a taxa de câmbio; o
real valorizado reduz os preços dos importados e, por essa via indireta, contém
a inflação.
A taxa
de juros tem por objetivo a capacidade de atrair capitais internacionais de
curto prazo, indispensáveis à estabilização cambial. É a partir desse traço da
financeirização subordinada que Kaltenbrunner e Painceira (2018) argumentam que
tanto a autonomia quanto o regime de metas funcionam como dispositivos
destinados a ganhar a confiança desses fluxos. Desta ótica, torna-se menos
surpreendente que o Brasil mantenha, de forma persistente, uma das maiores
taxas reais de juros do mundo (Mader, 2024).
Além
disso, Magalhães e Vieira (2025) denunciam as consequências dessa engrenagem: a
manutenção de juros elevados amplia o serviço da dívida interna, restringe o
financiamento público do Estado e compromete o crescimento econômico de longo
prazo.
A
persistência de juros elevados repousa sobre uma concepção específica da moeda
e da política monetária, cuja validade tem sido questionada pela experiência
histórica recente. Em sua obra sobre a crise da macroeconomia, Resende (2022)
sustenta que a justificativa convencional para juros elevados perdeu boa parte
de seu fundamento empírico. Após a crise de 2008, os bancos centrais avançados
expandiram a base monetária sem produzir a aceleração inflacionária prevista
pelos modelos tradicionais.
No caso
brasileiro, a manutenção de uma taxa elevada deixou de representar uma
decorrência técnica para converter-se em uma convenção: o juro elevado
reproduz-se porque o mercado espera que assim seja e porque a própria
institucionalidade do Banco Central do Brasil reforça essa expectativa. Em
suma, a persistência dos juros elevados depende menos da robustez da teoria
econômica que a justificaria do que do arranjo institucional que dificulta sua
contestação.
Essa
contradição fere uma das premissas centrais da defesa da autonomia: impedir que
as necessidades de financiamento do Tesouro comprovem a estabilidade monetária,
sentido da vedação de empréstimos do banco central ao Tesouro Nacional disposta
na Constituição (Brasil, 1988). Entretanto, no lugar de assegurar essa
separação, o Tesouro passou a sustentar os objetivos da política monetária.
Como
mostram Teles e Reitermajer (2026), recursos fiscais crescentes são mobilizados
para garantir a rentabilidade dos títulos públicos que servem de base às
operações de administração da liquidez da economia. A dependência opera em
sentido inverso, resultando em uma transferência massiva de recursos públicos
para os detentores de títulos.
As
recentes intervenções do Tesouro no mercado corroboram esse diagnóstico
conforme noticiado pelo Valor Econômico. Cabe destacar, ademais, que a garantia
de liquidez aos títulos favorece e reproduz um padrão distributivo engendrado
pela própria política monetária (Bresser-Pereira, Paula e Bruno, 2020).
Se é
pertinente identificar os mecanismos pelos quais o banco central se protege do
governo, é também importante revelar como se exerce a influência do mercado
financeiro sobre a autoridade monetária. Tal constatação nos torna céticos
quanto aos limites do aperfeiçoamento desse arranjo institucional.
Diferentemente do governo, esse mercado constitui o próprio ambiente em que a
autoridade opera: é dele que provêm as expectativas monitoradas, os preços de
ativos e os quadros técnicos que circulam entre as esferas (a porta giratória).
Não se blinda uma instituição contra aquilo que a constitui.
É nesse
ponto que a crítica heterodoxa é decisiva. O alvo deixa de ser apenas o desenho
institucional para alcançar o pressuposto teórico que o sustenta: a
neutralidade da moeda. Se a moeda não é neutra, e se não existe uma taxa
natural de desemprego que a política monetária deva perseguir, as decisões
sobre os juros não deveriam ser tratadas como escolhas exclusivamente técnicas,
pois afetam o conjunto da sociedade (Carvalho, 1995; Belluzzo, Raimundo e
Abouchedid, 2022).
Essa
observação alcança a própria produção do pensamento macroeconômico. Com base em
Pinheiro, Rech e Pompeu (2025), as informações mobilizadas pelo Copom resultam
de processos institucionais de seleção e validação vinculados a determinados
valores, incorporando opções ideológicas e políticas sob o verniz de decisões
técnicas.
Ao
deslocar para uma tecnocracia insulada decisões que pertencem à soberania
popular, a autonomia transfere um conjunto de escolhas distributivas
fundamentais para uma instituição protegida do escrutínio democrático. Isso
torna problemática a discussão sobre ampliar a autonomia orçamentária do BCB
(Bastos, 2026).
Um
Banco Central menos sujeito ao controle democrático não se torna mais técnico;
torna-se menos responsável perante a sociedade em nome da qual exerce suas
funções (Carneiro, 2024).
Diante
desse quadro, Freitas (2026) reúne medidas capazes de reduzir a permeabilidade
do Banco Central do Brasil às pressões financeiras: diversificar sua diretoria,
ampliar a participação de especialistas não vinculados ao mercado nas
deliberações do Copom, estender a quarentena dos dirigentes e conferir
transparência às interlocuções institucionais. Tais propostas fortalecem a
capacidade estatal do BCB (Gomide e Pires, 2014) para conduzir a política
monetária em favor de um projeto nacional de desenvolvimento submetido ao
controle democrático (Downey, 2025; Lavinas et al., 2024).
Passados
cinco anos da Lei Complementar nº 179 e mais de um quarto de século de metas de
inflação, com resultados aquém das promessas iniciais, impõe-se reexaminar o
arranjo institucional (Ocké-Reis et al., 2026). Trata-se de recolocar em debate
a pergunta que a neutralidade técnica pretendeu encerrar: quem deve decidir o
preço do dinheiro e os rumos da economia?
O
guardião erguido contra o governo eleito acabou capturado por aqueles contra os
quais nunca se cogitou blindá-lo. O remédio prescrito contra uma captura
presumida franqueou o caminho a outra, efetiva. Em suma, o Banco Central do
Brasil foi imunizado contra o Estado democrático, mas não contra o poder das
finanças – e é nessa autonomia seletiva que reside o verdadeiro problema.
Fonte:
Por Carlos Ocké, ucas Trentin Rech, Luís Carlos de Magalhães, Maurício Pinheiro
e Nuno Teles, em a Terra é Redonda

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