segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Lauro Mattei: De onde vem o ódio a Lula?

A sociedade brasileira se constituiu historicamente a partir de diversas formas de desigualdades que se explicitam de diferentes maneiras: socialmente, regionalmente, racialmente, etnicamente e sexualmente. Com o passar do tempo foram se constituindo classes sociais antagônicas, porém sempre sob o predomínio da elite econômica e política que ditou e ainda dita a evolução e a dinâmica social do país. Paralelamente a essa classe dominante, conformou-se uma camada social que almeja ascender ao patamar da classe superior e que ficou conhecida como “classe média”. Por fim, na base da pirâmide social se encontra uma imensa maioria da sociedade que integra as chamadas “classes populares” que, por séculos, foram mantidas à margem dos processos econômicos, políticos e sociais.

Para alguns intérpretes da realidade brasileira essa trajetória impediu que o país tivesse formado uma cidadania plena, uma vez que às classes populares sempre foram negados direitos básicos, como acesso à uma alimentação de qualidade, a uma moradia digna, a uma saúde e educação de qualidades, etc. Paralelamente a isso, as classes média e alta jamais lutaram para que todos tivessem seus direitos garantidos por um motivo muito simples: elas somente procuram manter seus privilégios.

Essas características ficaram bem mais evidentes durante o processo de industrialização do país no século XX e, particularmente, durante o processo de redemocratização após o fim do regime militar nas duas últimas décadas do século XX. Mesmo que durante a democratização e o processo constituinte os temas da fome, da pobreza e da miséria social tenham ascendido ao debate público, eles continuaram sendo ignorados pelas elites políticas e econômicas do país.

Tais cenários levaram à conformação de uma sociedade com elevado poder conflitivo quando se trata da distribuição dos benefícios públicos entre as diversas classes sociais, uma vez que o andar de cima continuamente pretende manter seus privilégios, inclusive reagindo com ódio e rancor quando uma parcela dos “sem sem” também passa a ter acesso aos benefícios estatais potencializados por políticas públicas específicas.

Desta forma, a palavra “ódio” no contexto político brasileiro reflete uma situação que vai muito além da discordância política tradicional, assumindo também um caráter de profunda aversão pessoal e moral. Em termos gerais, pode-se dizer que o ódio entre as pessoas é um sentimento complexo e profundo que normalmente surge de uma combinação do medo, da desinformação, da manipulação e de instintos de sobrevivência social. Mas o ódio também surge em relação ao desconhecido (medo), como um mecanismo de defesa e sobrevivência; como um mecanismo de pertencimento a um determinado grupo; como expressão de falta de empatia em relação ao outro que age e pensa diferente; etc.

Segundo estudos do University College da Universidade de Londres, o amor e o ódio estão bem mais próximos do que imaginamos, uma vez que ambos ativam regiões cerebrais que são muito semelhantes, como são as áreas associadas à tomada de decisões e às respostas emocionais em relação ao que acontece ao redor das pessoas. Por um lado, o amor reduz a atividade de áreas ligadas a julgamento e, por outro, o ódio mantém tal atividade permitindo que esses julgamentos negativos coexistam simultaneamente.

É nesse contexto que recentemente ganhou força também a conformação de uma característica segregacionista da sociedade brasileira a qual aflorou publicamente – e de forma bastante intensa – na passagem do século XX para o século XXI. Esse processo segregacionista ganhou maior concretude quando ocorreu uma reorientação do Estado Nacional, especialmente quando ações e políticas públicas passaram a servir também aos “descamisados”, expressão típica das elites quando se referem às classes populares que sobrevivem em um contexto marcado pela vulnerabilidade social e explicitado pelos elevados índices de fome e de pobreza.

A emergência do senhor Luís Inácio Lula da Silva no cenário político nacional foi um processo cumulativo e contínuo. No primeiro momento como um líder sindical que teve uma participação decisiva na organização dos trabalhadores visando derrubar a ditadura militar na década de 1980 e, a partir de então, com uma atuação também decisiva na construção de um partido político representante da classe trabalhadora que impactou fortemente a organização de outros partidos políticos do país a partir da construção do Partido dos Trabalhadores (PT).

Esse processo histórico de lutas sindicais e políticas em grande parte foi marcado pela presença contínua e expressiva de Lula. Depois de participar de três eleições presidenciais (1989, 1994 e 1998), Lula finalmente foi vitorioso nas eleições presidenciais de 2022. Ao assumir o governo do país em 2003 começou a ocorrer uma inversão de valores junto ao Estado nacional, uma vez que Lula passou a governar o país à luz de um conjunto de políticas públicas direcionadas, pela primeira vez na história, também às classes populares. Como em seus três mandatos presidenciais ele priorizou o direcionamento de políticas sociais para fazer frente à exclusão social e, ao mesmo tempo, incorporou tais prioridades à lógica de funcionamento do Estado brasileiro, politicamente ele passou a ser visto como uma ameaça às elites econômicas e políticas, bem como às classes médias a elas associadas.

Seguindo os termos anteriormente mencionados, é possível identificar diferentes matrizes que corroboram para a formação do ódio ao Presidente Lula. Em primeiro lugar, merece atenção a origem familiar de Lula e sua situação pessoal: um ex-retirante nordestino que lutou e sobreviveu às mais duras condições econômicas e sociais trabalhando como metalúrgico industrial desde jovem que, mesmo não possuindo diploma universitário, ascendeu ao mais alto cargo da nação, posto até então hegemonicamente reservado para as elites econômicas e políticas tradicionais. Parcelas das classes média e alta passaram a se sentir desconfortáveis com o país sendo governado por uma pessoa com essa trajetória, fato que acabou levando à aversão pessoal à Lula por parte desses segmentos sociais.

Em segundo lugar, as reações contrárias ao seu envolvimento sindical e as suas lutas em prol da organização política da classe trabalhadora e em defesa da democratização da sociedade brasileira. Neste contexto, setores conservadores, inclusive influenciados por valores religiosos, passaram a ver Lula não apenas como um político, mas também como uma ameaça que iria atacar a propriedade privada visando implantar o comunismo no Brasil. É nesse contexto que ganha dimensão em todo o país o “antipetismo”, normalmente associado à pessoa de Lula. De uma maneira geral, pode-se dizer que segmentos sociais conservadores, liberais e crenças religiosas consideram Lula e o PT também como ameaças aos valores familiares tradicionais.

Em terceiro lugar, o processo de democratização do Estado e das políticas públicas implementado por Lula a partir do momento que passou a governar o país no ano de 2003. Ao implementar um conjunto de novas políticas públicas na perspectiva “bottom up” os governos Lula impuseram uma inversão de prioridades, destacando-se programas como o Bolsa Família e as Cotas Raciais e Sociais nas universidades públicas até então frequentadas pelas famílias das classes média e alta. Essa perda de exclusividade gerou reações bastante estridentes por parte dos segmentos sociais melhor posicionados que passaram a identificar em Lula a razão dessas perdas, bem como ao próprio partido do presidente.

Quando as políticas que compõem o Sistema de Proteção Social do país começaram a impactar positivamente a condição de pobreza de parcelas expressivas da sociedade, foram inúmeras as reações de diversos segmentos sociais, muitas das quais de forma preconceituosa e discriminatória. Um desses casos que se tornou bastante comum nas duas primeiras décadas do século XXI foi o comportamento social dos ocupantes dos aeroportos do país, uma vez que historicamente o transporte aéreo no Brasil era um serviço exclusivo para as classes sociais elevadas. Todavia, quando começou a ocorrer uma maior democratização do acesso a esses serviços, observou-se a geração de desconfortos e até mesmo de questionamentos por parte dos segmentos sociais privilegiados, chegando-se ao ponto de parte desses setores passarem a rotular pejorativamente os aeroportos do país de “rodoviárias” devido à presença de setores mais pobres da sociedade nesses espaços. Essas reações “ao pobre viajando de avião” não diz respeito ao meio de transporte em si, mas ao incômodo com a inclusão social, uma vez que ela representava a perda de exclusividade nos espaços anteriormente frequentados exclusivamente pelas elites econômicas e políticas do país.

Da mesma forma, falas como a do Ministro da Economia Paulo Guedes em 2020 recriminando as empregadas domésticas que viajavam para Miami ou a fala recente do apresentador da Globo Luciano Huck criticando o comodismo dos beneficiários do Bolsa Família são apenas a ponta de um iceberg com raízes profundas que resistem à constituição de uma sociedade mais justa e igualitária.

Registre-se, ainda, que comportamentos preconceituosos em relação às famílias beneficiárias dos programas sociais do Governo Federal, como o demonstrado recentemente pelo apresentador da Rede Globo, são recorrentes desde o início da implementação desses programas a partir dos anos 2000.

No processo eleitoral de 2026 – quando Lula está concorrendo pela quarta vez como presidente da República – uma das principais explicações para não o aceitar novamente como candidato não decorre de suas políticas econômicas ou de outras ações diversas de seu governo. Na verdade, todos os elementos explicitados por aqueles que procuram justificar suas decisões contrárias à reeleição de Lula servem apenas de pretexto para explicar a verdadeira razão: o preconceito e ódio de classe, inclusive fazendo-se menções a sua trajetória de “nordestino”.

Pesquisa recente da Quest também confirmou essa realidade, mas a partir de parâmetros bem precisos à luz das respostas emitidas pelas pessoas quando estimuladas a responder sobre a avaliação que faziam sobre suas próprias condições de vida. Diante da pergunta se nos últimos 20 anos a vida melhorou, as respostas foram distintas. Para as mulheres e pessoas pretas e pobres as respostas foram positivas. Já para as pessoas brancas e com rendas mais elevadas das regiões Sul e Sudeste as respostas foram não.

Todavia, quando as mesmas pessoas das regiões Sul e Sudeste foram inqueridas a expressar suas posições se elas achavam que tais pessoas mereciam ter melhorado de vida, as respostas foram todas negativas. Qual o sentido dessas respostas das pessoas brancas das regiões Sul e Sudeste? Essas respostas revelam um comportamento segregacionista e um sentimento de superioridade social que estimula a divisão e ao mesmo tempo alimenta o preconceito em relação aos outros. Decorre daí a divisão e a falta de solidariedade com relação aos demais que ocupam uma posição social distinta.

E é neste cenário que Lula passa a ser responsabilizado porque ele insiste em estabelecer, por meio de suas políticas sociais, novos parâmetros de sociabilidade que poderão levar à conformação de uma sociedade brasileira mais harmônica e menos desigual.

Isso nos lembra uma frase famosa do Nelson Rodrigues que criticava a hipocrisia e a busca constante de uma classe por privilégios ou ascensão a qualquer custo: “o problema do Brasil não é o povo, é a classe média porque ela sempre quer cair para cima”. Em 2013, a filósofa Marilena Chauí proferiu uma declaração muito semelhante durante o lançamento de um de seus livros: “a classe média é o atraso da vida, é a própria estupidez”.

Além desse segmento social, também temos de acrescentar o comportamento das elites financeiras e políticas que cada vez mais buscam ampliar seus ganhos monetários por meio da ampliação de seus interesses junto ao Estado. Deriva daí suas aversões às políticas e programas de um “Estado Bem-Estar Social” que, na visão desses segmentos, deveria ser reduzido ao máximo, de tal forma que seus ganhos monetários continuassem protegidos. Nesse contexto, Lula passa a ser um problema política porque ele não segue inteiramente a cartilha desses agiotas financeiros.

 

Fonte: Outras Palavras

 

Edivaldo Ramos de Oliveira: Os motores da vitória

O dia 25 de outubro, definitivamente, entrou para a nossa história como um momento especialmente relevante para os amantes da democracia, das liberdades e do Brasil. Muitos anos se passarão, gerações hão de vir, as testemunhas vivenciais envelhecerão, as escolas vão ensinar o que houve, os jovens tomarão conhecimento dos fatos, até que essa data, quem sabe, será considerada feriado nacional: o Dia Nacional de Defesa da Democracia. Foi uma intensa jornada exitosa de luta!

A emocionante vitória de Lula no segundo turno da eleição de 2026 carrega um simbolismo de profundos impactos para a política nacional, mas não só, desenhando-se como uma das mais expressivas reações contra a onda de extrema direita que varre o planeta, particularmente o continente americano e, ao se destacar como um produto direto das imensas manifestações de rua, não apenas se aproxima do conjunto de eventos que movem as placas tectônicas da sociedade europeia (França, Espanha, Itália, Alemanha, Grécia, Portugal, Sérvia, etc.) como a ela sinaliza uma mensagem clara: sim, o enfrentamento ao neoliberalismo é possível.

A virada de jogo ocorreu em apenas três semanas, tempo em que a iminente derrota deu lugar à mais emocionante vitória em uma campanha presidencial. Esse desfecho, contudo, não se deveu à estrutura oficial da campanha – que se mostrou desorganizada, analógica e desaparelhada frente ao avanço conservador –, mas sim a uma vigorosa reação popular. O resultado de 2026 tornou-se o mais eloquente exemplo de que nenhum projeto político prospera sem o protagonismo real do povo. A vitória consolidou-se quando a militância orgânica e as redes sociais atropelaram o imobilismo burocrático para reafirmar a soberania nas ruas.

A síntese de toda essa epopeia que levou Lula mais uma vez ao poder exige uma reflexão mais aprofundada, passada a euforia da vitória e o alívio pela derrota do projeto bolsonarista. Não se pode negar a centralidade da classe trabalhadora nesse processo, como parece querer o discurso lulista sobre o êxito eleitoral, assim como não se recomenda iniciar uma infrutífera disputa por narrativas, quando deveria prevalecer uma tentativa de construção de convergências.

E não se pode aceitar como verídica a versão simplista utilizada para descrever a jornada de lutas, segundo a qual a virada fantástica que resultou na vitória eleitoral da campanha contra o bolsonarismo seria consequência apenas da “excepcional genialidade política de Lula”, um mantra funcional utilizado há muito pelos lulistas em toda e qualquer situação para explicar qualquer coisa que se refira a qualquer êxito associado a Lula. Há muitas outras camadas em torno desse assunto, incluindo diversos outros personagens em distintas conjunturas.

A ação lulista direta seguiu uma coordenação de campanha débil e ensimesmada, com ações desconexas e centradas em narrativas triunfalistas, sem respaldo na realidade factual. O próprio Lula, ao término do primeiro turno, afirmou ter sido “a campanha mais confusa da minha vida”, segundo suas palavras. O desfecho adverso deve ser atribuído à cúpula dirigente do Partido dos Trabalhadores e aos membros da coordenação de campanha, acríticos e deslumbrados com a possibilidade de estarem junto ao líder.

Esse “arranjo doméstico” homologado por Lula resultou na segunda posição ao término do primeiro turno, disseminando desesperança na população avessa a Flávio Bolsonaro. Como alertaram insistentemente muitos analistas críticos ao bajularismo “chapa branca” dos que se anunciavam aderentes ao projeto vagamente progressista: “Lula só perderia para o próprio Lula”. Foi exatamente o que ocorreu.

No dia seguinte ao primeiro turno, estudantes da UFF ocuparam as ruas de Niterói (RJ) em apoio a Lula e defendendo a mobilização popular como alternativa. O ato gerou um efeito multiplicador, desencadeando manifestações semelhantes e autônomas por todo o Brasil, sem coordenação de partidos ou da cúpula formal da campanha.

Esse movimento horizontal, protagonizado por jovens e trabalhadores, ganhou força nas ruas e tirou da passividade setores que já temiam a derrota no segundo turno. Aos poucos, a mobilização de massas atraiu manifestantes mais velhos e lideranças políticas institucionais, criando uma rede de enfrentamento às forças conservadoras que se retroalimentou até o desfecho vitorioso nas urnas.

Enquanto as ruas eram ocupadas, o deputado André Janones (Rede-MG) capitalizou a insatisfação da militância para digitalizar a campanha, inovando o tradicional estilo petista e dominando as redes sociais – um terreno antes negligenciado pela esquerda. Essa estratégia superou os algoritmos das Big Techs e tornou-se o eixo mais eficaz da disputa no segundo turno.

A “virada de chave” ocorreu a partir do “Exército do Lula”, um grupo de WhatsApp que convocou a militância para o engajamento permanente e a viralização de conteúdos. Em menos de três semanas, a rede saltou de 60 mil para 10,8 milhões de inscritos; ao mobilizar os integrantes como “soldados”, a estratégia gerou um forte senso de pertencimento e rompeu o imobilismo político.

Muitos dos participantes desses eventos, tanto digitais quanto presenciais, aos quais se dedicaram com intensidade, eram filiados ao Partido dos Trabalhadores, mas não vinculados a mandatos ou a estruturas burocráticas, e vislumbrando o iminente colapso eleitoral, somaram-se à massa popular mobilizada e romperam com a não-estratégia de confusão/inação partidária. Essa dinâmica, executada voluntariamente pela militância petista e à margem da orientação partidária, expôs a realidade de decadência da máquina burocrática interna, cada vez mais capturada pelos mandatos e engessada para atender aos interesses dos mandatários.

Incapazes de responder aos desafios do primeiro turno, as cúpulas partidária e de campanha deixaram como legado um vazio de ideias e de autoridade. As ações confusas dos dirigentes, os chamados “capa-pretas”, resultaram no revés inicial, cuja gravidade ficou evidente quando o próprio Lula se viu obrigado a reformular a coordenação e mudar a estratégia já no dia seguinte à votação.

Em suma, a atuação da direção petista limitou-se aos erros do primeiro turno. A narrativa de que o êxito final decorreu da coordenação oficial ignora que a engrenagem institucional apenas pegou carona na mobilização espontânea das ruas e das redes. Se a apatia e o arcaísmo dos dirigentes comprometeram o desempenho eleitoral, a postura de Lula mostrou-se ainda mais temerária.

Seis meses antes, na abertura do Congresso do PT em Brasília, Lula havia criticado o uso excessivo de celulares, afirmando que “não se faz política sentado em um sofá mandando zap” e defendendo a dinâmica tradicional de panfletagem de porta em porta. Nenhuma novidade no perfil político de Lula que, afinal, sempre se declarou uma pessoa analógica e cética em relação às tecnologias, mas esse episódio de campanha ratificou a percepção de que ele efetivamente é um político do século XX e que raciocina como tal, conduzindo os processos eleitorais de forma arcaica e improdutiva. E essa visão anacrônica e centralizadora pautou o primeiro turno, revelando-se eficaz apenas na construção da própria derrota.

Sintomaticamente, as estratégias vitoriosas adotadas apenas no segundo turno contemplaram exatamente os pontos rechaçados por Lula: foco intenso no ambiente virtual operado por meio de celulares (smartphones) e consistindo na utilização da plataforma do aplicativo Whatsapp (o “zap”), além da imprevista ocupação massiva das ruas do país. Ou seja, o êxito só ocorreu porque a operacionalização se deu de forma absolutamente distinta da proposta por Lula.

A única estratégia executada integralmente e que se pode identificar como decisão direta da coordenação de campanha e aprovada por Lula diz respeito ao controverso “pacote de bondades”, forma como a mídia denominou o conjunto de medidas econômicas divulgadas no período compreendido no segundo turno, consistindo em propostas de forte apelo eleitoral, amplamente reivindicadas por diversos segmentos da sociedade ao longo dos quase quatro anos do atual mandato, mas anunciadas apenas nas três últimas semanas de campanha.

Portanto, além das mudanças orgânicas na coordenação de campanha e diante do risco iminente de derrota eleitoral, Lula passou a divulgar quase diariamente novos benefícios a serem implementados em caso de reeleição, tentando estabelecer um diferenciamento essencial entre as genéricas propostas de seu adversário e a continuidade de seu governo. Contudo, a efetividade dessa “estratégia do desespero”, além de contestada politicamente por sua natureza populista, pode significar um verdadeiro “tiro no pé” de sua próxima gestão, dada a opção preferencial pelo esmero em valorizar o malfadado Arcabouço Fiscal.

Redirecionando o foco para o resultado do pleito propriamente dito, contrariando a tradição eleitoral consolidada desde que a reeleição foi implementada no Brasil, segundo a qual o candidato vencedor do primeiro turno nunca havia sido derrotado no segundo turno, Lula protagonizou uma virada histórica, revertendo uma derrota por 2,1 milhões de votos, transformada em uma vitória inquestionável por cerca de 4,4 milhões de votos.

Adicionou 10,3 milhões de votos entre um turno e outro, enquanto Flávio não superou os 3,7 milhões, significando 74% dos votos conquistados pelos candidatos, ante os 36% de Flávio. Lula não perdeu votos em nenhum estado nem no Distrito Federal, enquanto Flávio viu sua votação minguar em seis estados (Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Roraima e Tocantins). Ao final, Lula venceu por 51,79% contra 48,21% dos votos válidos.

Simbolicamente, o pêndulo da mudança de posições entre os dois turnos foi o estado de Minas Gerais, única unidade da Federação em que a virada se materializou e a liderança trocou diretamente de mãos, com Lula se tornando o mais bem votado, obtendo 50,43% contra 49,57% dos votos válidos – no primeiro turno, Flávio Bolsonaro venceu por 48,24% contra 43,33% dos votos válidos.

Dentre os vários fatores determinantes dessa performance, nenhum deles pode ser relevantemente associado às características pessoais de Lula, à aprovação de seu governo, à execução de estratégias eficazmente definidas pela coordenação de campanha, tampouco a uma súbita epidemia de entusiasmo espontâneo que teria estimulado contingentes de eleitores a se definirem pelo voto na reeleição.

Os motores da surpreendente vitória foram variados, compondo uma lista amplamente heterogênea de fatores contribuintes:

(i)          Criação de uma frente democrática popular de enfrentamento às forças reacionárias;

(ii)         Redução do número de abstenções, que caíram de 21,08% para 19,22%, entre os dois turnos, um feito inédito;

(iii)        Queda expressiva do total de votos brancos e nulos, caindo de cerca de 6 milhões para 4 milhões;

(iv)        Avanço no Sudeste, com ampliação de votação em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, maiores polos concentradores de votos.

(v)         Campanha pelo voto útil contra o candidato bolsonarista;

(vi)        O despertar de uma militância jovem e progressista;

(vii)       Adesão, “por osmose”, de numerosos segmentos da esquerda tradicional;

(viii)      Intensa dinâmica de estímulo à mudança do voto (o “vira-voto”);

(ix)        Divulgação de um “pacote de bondades” pelo governo federal;

(x)         Reversão dos resultados registrados em Minas Gerais, liderando a votação no estado;

(xi)        Erros táticos cometidos pelo candidato Flávio Bolsonaro;

(xii)       Recall negativo do governo de Jair Bolsonaro.

Obtida a vitória de forma tão empolgante, Lula terá muitas razões para promover uma virada de chave em seu modelo de governança e em sua concepção de governabilidade, ainda que entenda serem destaques de suas vitrines políticas. Seu terceiro mandato se caracterizou como uma gestão engessada, palaciana, marcadamente centrada nas realizações de seus governos anteriores, desprovida de ações reconhecidas como efetivamente transformadoras, ou seja, sem uma marca de governo. Some-se a isso, uma campanha de primeiro turno morna, passiva, sem criatividade, confusa, burocrática, o que explica a segunda posição como resultado eleitoral.

Assegurado pelas urnas, seu quarto mandato está fadado a conviver com obstáculos muito mais complexos do que os identificadas no terceiro mandato, seja pela dificuldade orçamentária de execução e cumprimento de todas as promessas de campanha, seja pela quase impossibilidade de desenvolver novos programas de elevado alcance social.

Tendo optado por priorizar as articulações estaduais dedicadas à estruturação de redes de apoio voltadas para o projeto de reeleição presidencial, o Partido dos Trabalhadores – partido do candidato Lula e maior legenda do arco de alianças – e vários dos partidos aliados relativizaram a importância do aumento das bancadas, acatando passivamente a lógica de precedência absoluta da reeleição, o que contribuiu para o reduzido crescimento da bancada parlamentar da base governista. Assim, o governo Lula 4 continuará refém de articulações com o Poder Legislativo, de quem dependerá para a aprovação das medidas referentes às promessas de campanha.

De toda forma, ainda que supere a barreira parlamentar da aprovação, o governo terá enormes dificuldades orçamentárias para implementar essas propostas, dado que também se comprometeu com a ampliação dos mecanismos de austeridade e com a formação de superávits primários, pressupostos elementares do fortalecimento do Arcabouço Fiscal, uma criação unilateral do governo atual e que demonstra ser o principal mecanismo de manutenção da política de austeridade fiscal, tendo como principal sorvedouro dos recursos da União os pagamentos da Dívida Pública (que já atingem a cifra de mais de 1 trilhão de reais anuais), constituindo-se no “manjar dos deuses” do universo rentista.

Ademais, terá que conviver com um Congresso Nacional ainda mais reacionário e chantagista que o atual, além de contar com uma base menor, a qual se infere pela análise do perfil dos parlamentares eleitos e remanescentes. A extrema direita terá uma influência ainda maior do que já tem, podendo eleger o presidente do Senado e compor um núcleo de oposição incondicional ao governo, criando severas dificuldades ou mesmo inviabilizar a aprovação de projetos relevantes e de elevado alcance social.

Espera-se que Lula, extremamente aferrado a métodos de negociação política tradicional, consiga ler o quadro político contemporâneo com clareza e opte por um modelo de governabilidade distinto do adotado no terceiro mandato, por meio do qual se tornou refém do Congresso Nacional, ancorando-se no respaldo popular e não no fisiologismo da classe política.

O governo Lula 4 precisa abrir espaço para a participação popular como fio condutor de sua permanente interação com a população, desenvolvendo, por exemplo, medidas que dialoguem diretamente com o cidadão e que fortaleça vínculos de interlocução, como o Orçamento Participativo Federal, anunciado em seu terceiro mandato, mas logo ignorado.

É preciso se ter a límpida percepção de que o lastro do seu quarto mandato precisa ser deslocado dos acordos rebaixados de conciliação com as forças reacionárias da política nacional, representadas pelo Centrão e pelo conjunto dos partidos da direita tradicional, para a legitimação popular obtida pelas multidões que ocuparam as ruas e as redes na defesa e realização de sua campanha vitoriosa.

É evidente que a negociação com partidos conservadores se faz necessária em um cenário de presidencialismo de coalizão e contexto de luta política, mas essas tratativas não podem e não devem começar e terminar na figura isolada do presidente da República, que as conduz de forma monocrática e majestática, embora muitos sejam os indícios de que esses acordos funcionam apenas para a aprovação e implementação de medidas propostas pelo governo, mas que, de qualquer forma, seriam aprovadas pela oposição conservadora, dado que foram concebidas exatamente pela lógica funcional da direita e não espelhando as demandas populares efetivas, nas quais alegam basearem-se.

Sem repensar a lógica de seu governo e ressignificar sua concepção de governabilidade, Lula corre o risco de sucumbir diante de uma realidade adversa decorrente do jogo político hegemonizado pelas forças de direita, com o qual parece sempre estar disposto a construir conciliações supostamente benéficas, mas que constantemente se mostram ineficazes.

Os sinais de sua opção política serão dados desde a definição dos nomes que comporão o ministério, passando pelas falas tão logo tome posse e ficarão claros no decorrer dos primeiros dias do novo mandato. A propósito, a conjuntura que emergiu das urnas, fruto das mobilizações motivadas pela esperança de um país melhor, não toleraria um novo governo imerso nos mesmos moldes que definiram o atual governo como refratário às transformações que a sociedade intensamente reivindicou.

Quanto à militância de esquerda, majoritariamente do Partido dos Trabalhadores, as estratégias emergencialmente executadas com o propósito de evitar a vitória da direita, a despeito da natureza intrinsecamente contestável, surtiram o efeito desejado e resultaram na reeleição do presidente Lula, gerando enormes cargas de alívio.

Contudo, essa mesma militância que se mostrou tão aguerrida não pode se acomodar com o papel que parecem querer designar a ela, o de um simples soldado que compõe um “exército” comandado por um fanfarrão autocentrado, que distribui ordens e determina “missões”. Ela precisa assumir seu papel de protagonista do processo e se organizar fora da institucionalidade, de forma autônoma e crítica em relação aos mandatos, à retórica “chapa-branca” e ao messianismo alienante professado pelos “capa-pretas”.

O exercício crítico da análise política deve ser realizado desde o primeiro dia do novo mandato, expressando a consciência de que a denominação Partido dos Trabalhadores se fundamenta na representação social do objeto da ação partidária: a defesa da classe trabalhadora.

E a sociedade deve ocupar lugar central na ação estatal pela redução das desigualdades e fortalecimento da cidadania, em antagonismo ao espaço consentido ocupado pelos agentes sociais do atraso e da precarização das condições do povo brasileiro: rentistas, empresários do agronegócio, bancos e similares, políticos reacionários, financistas e expressões burguesas de todos os matizes.

Mais uma vez na história deste país, Lula tem a oportunidade de estruturar seu novo governo sob a inspiração das bases populares que o elegeram para representá-las na reconstrução da esperança de dias melhores, em oposição aos “donos do poder” que o emparedam o tempo todo e precisam sofrer redução do espaço de interferência.

Lula venceu a eleição porque o povo ignorou o arcaísmo da campanha oficial e construiu uma vitória histórica e de repercussão internacional. No entanto, as expectativas geradas durante essa jornada não podem esperar e o novo governo precisa entregar resultados concretos à classe trabalhadora, caso contrário perderá o apoio popular e será devorado pelo Congresso que imagina celebrar conciliações.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

Quem chega, quem fica e quem sai: quais são os nomes cotados para o governo Lula 4

Com a promessa de fazer um mandato "diferente", o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tomará posse em janeiro pela quarta vez e tentará acomodar apoios e aliados em seu governo.

Alguns nomes já estão na mesa, sob avaliação do presidente, que terá ainda a missão de formar novos quadros para que o PT tenha fôlego para competir nas eleições de 2030, dado que Lula não poderá tentar a reeleição novamente.

Aqueles que se destacaram durante a campanha devem formar parte do Lula 4. Mas para ter algum apoio num Congresso tão adverso, o presidente também precisará compor com o Centrão, bloco informal, formado por partidos de centro-direita que costumam apoiar diferentes governos em troca de verbas e cargos.

Como em todo ano eleitoral, a dança das cadeiras começa meses antes do pleito, quando alguns ministros deixam seus cargos para concorrer ou participar do núcleo duro das campanhas.

O presidente não tem um prazo para se decidir sobre quem entra, quem sai e quem fica em seu quarto mandato. Mas a reportagem apurou que Lula iniciará as tratativas logo após o feriado de Finados.

A comunicação, a primeira a ser apontada como culpada por qualquer mau desempenho em um governo, desta vez também não passará impune.

Depois do primeiro turno, quando Lula ficou em segundo lugar atrás de Flávio Bolsonaro (PL), o ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, ficou na berlinda.

Petistas o apontaram como responsável pela derrota da campanha, que em poucos dias recebeu reforços, diminuindo o poder de Sidônio, que havia se afastado da Secom para coordenar a campanha.

A BBC News Brasil apurou que ele não deve voltar. O nome mais cotado para assumir o comando da Comunicação de Lula 4 é o do jornalista Laércio Portela.

Ele já esteve à frente da pasta, de forma interina, em maio de 2024, quando o então chefe da Comunicação, Paulo Pimenta, deixou a Secom para ser nomeado ministro extraordinário para a reconstrução do Rio Grande do Sul.

<><> Educação e Casa Civil

O ex-ministro da Educação Camilo Santana deixou a pasta em abril, quando o PT ainda cogitava que ele disputasse novamente o governo do Ceará, diante das dúvidas sobre se o governador Elmano Freitas teria estofo para uma reeleição.

Acabou ficando na coordenação da campanha cearense e reelegeu Elmano no primeiro turno. Diante do êxito, Camilo foi escalado por Lula para o primeiro batalhão de sua campanha no segundo turno, dividindo a coordenação com o presidente do partido, Edinho Silva.

Com Camilo afastado, a pasta ficou sob o comando de Leonardo Barchini, o número 2 do MEC.

Barchini participou da gestão de Fernando Haddad na Prefeitura de São Paulo, entre 2013 e 2016, à frente da Secretaria de Relações Internacionais. Uma fonte afirmou à BBC News Brasil que Lula tem gostado do desempenho de Barchini na Educação e deve mantê-lo no cargo.

Diante do desempenho positivo de Camilo e da satisfação de Lula com Barchini, o presidente passou a cogitar o cearense para outra pasta, a da Casa Civil.

O ministério está sob o comando de Miriam Belchior, depois que Rui Costa se afastou do cargo para disputar — e ganhar — o Senado pela Bahia.

A ministra, que já havia participado do governo de Dilma Rousseff à frente da pasta do Planejamento, Orçamento e Gestão, também tem boa avaliação do presidente Lula, o que deixa ainda incerta a ida de Camilo para a Casa Civil.

<><> Fazenda

Dois dias antes do primeiro turno, Lula se reuniu com centenas de empresários em um jantar em São Paulo. Naquele momento, ele aparecia em segundo lugar nas pesquisas e a campanha temia uma derrota apertada ainda no primeiro turno.

Uma das expectativas da noite era que o presidente anunciasse um novo ministro da Fazenda, capaz de acalmar o humor do mercado, diante da cobrança pelo ajuste fiscal, e melhorar assim o percentual de intenção de voto no petista.

Mas Lula não mencionou nomes em nenhum momento da campanha.

Passado o pleito, o presidente terá que arrumar a casa. A Fazenda deve ficar sob o comando do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles. O Lula deve viajar a Teresina (PI) na semana que vem, quando aliados de Fonteles acreditam que ele formalizará o convite.

Há uma especulação sobre a permanência de Fonteles no governo do Piauí por ao menos dois anos, antes de sua ida para Brasília. Mas nos bastidores, o que se diz — e não é de hoje — é que "se Lula chamar, não se pode dizer não".

A reportagem apurou que Fonteles, que foi secretário da Fazenda no Piauí, na gestão de Wellington Dias, deve formar o Lula 4 desde o início. Se assim for, o governador deve querer autonomia total, o que pode significar que Dario Durigan, que hoje comanda a Fazenda, não permaneça no ministério.

Durigan era secretário-executivo da pasta quando o titular, Fernando Haddad, deixou o cargo para disputar o governo de São Paulo, em abril.

O futuro do ex-prefeito de São Paulo talvez seja um dos mais incertos.

Seu desempenho foi ruim nas urnas. O pleito no estado se encerrou já no primeiro turno, com a reeleição do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) com 62% dos votos.

A rejeição ao PT, que nunca conseguiu governar o estado, somada à alta aprovação de Tarcísio e à ausência de outras candidaturas na disputa, formou o cenário adverso para a candidatura de Haddad.

O ex-prefeito paulistano também não conseguiu se reeleger em 2016, nem em 2018, quando disputou a presidência com Jair Bolsonaro (PL) enquanto Lula estava preso.

Nos bastidores, é sabido que o desejo do ex-ministro é voltar à vida acadêmica. Mas o que ainda não se sabe é qual é a opinião de Lula sobre isso.

<><> Segurança

Na última semana, o nome do promotor de Justiça Lincoln Gakiya, um dos nomes mais conhecidos no combate ao crime organizado e ao Primeiro Comando da Capital (PCC), foi ventilado para liderar um eventual ministério da Segurança Pública.

A pasta ainda não existe. Ela está prevista na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, que amplia o papel da União contra o crime organizado.

Promessa de campanha de Lula, a PEC está em fase final de tramitação no Senado. A expectativa do governo é que seja votada ainda neste ano.

Se assim for, o nome de Gakiya está na praça. Assim como o do ex-ministro da Casa Civil e ex-governador da Bahia, Rui Costa. A reportagem apurou que Lula ainda não se decidiu.

<><> Os que ficam — e os que chegam

Dentre os que permanecerão em seus ministérios, Alexandre Padilha, na Saúde, é uma das maiores certezas.

Até fevereiro, o ministro estava à frente da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), cargo que já havia ocupado no segundo mandato de Lula, entre 2009 e 2010.

Padilha retornou à Saúde depois que a ex-ministra Nísia Trindade foi demitida por Lula, no fim de fevereiro.

O médico foi candidato ao governo de São Paulo em 2014, mas terminou em terceiro lugar na disputa vencida por Geraldo Alckmin, na época no PSDB. Secretário municipal da Saúde na gestão de Haddad, o ministro é um dos homens de confiança do presidente.

Da mesma forma, Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB), que disputaram o Senado por São Paulo e não foram eleitas, devem voltar para seus ministérios: Meio Ambiente e Planejamento e Orçamento, respectivamente.

Aloízio Mercadante, que tirou férias da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para se dedicar à campanha, também deve permanecer no cargo.

Mas, além dos nomes de pessoas que navegam há anos com o presidente, Lula tem avaliado oxigenar seus ministérios.

O deputado federal André Janones (Rede-MG), que mobilizou milhões de pessoas em um "exército" digital nas redes sociais, teve um desempenho apontado como crucial para a virada no segundo turno.

Por isso, seu nome também está sobre a mesa, mas ainda sem uma pasta específica.

O ex-prefeito de Recife, João Campos (PSB), era uma promessa de sucessão para a esquerda. Filho de Eduardo Campos, herdeiro direto da política familiar de Miguel Arraes, foi deputado federal por Pernambuco aos 26 anos.

Mas, ao perder no primeiro turno para a governadora reeleita Raquel Lyra (PSD), João Campos, atual presidente do PSB, perdeu também um pouco da expectativa que vem de fora.

Lula cogita seu nome para chefiar o Ministério das Cidades, hoje comandado por Vladimir Lima, que tem um perfil mais técnico e não é filiado a nenhum partido.

Ainda com foco na juventude, a reportagem apurou que Lula avalia os nomes de três mulheres: Ana Elisa, uma das grandes revelações do PT, eleita a deputada federal mais jovem de Minas Gerais, aos 21 anos, e com forte presença nas redes sociais; Ana Julia Ribeiro, eleita deputada federal pelo Paraná, após passagens pela Câmara Municipal de Curitiba e pela Assembleia Legislativa do Paraná; e Dandara Tonantzin, deputada federal reeleita em Minas Gerais.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Mais de 15 milhões de brasileiros são afetados por doenças reumáticas

As doenças reumáticas afetam mais de 15 milhões de pessoas no Brasil, incluindo idosos, crianças, adolescentes e adultos, segundo dados da Sociedade Brasileira de Reumatologia.

O Dia Nacional de Luta Contra Doenças Reumáticas é celebrado em 30 de outubro e busca disseminar informações essenciais sobre os tipos de enfermidades e a prevenção, para evitar que comprometam a autonomia e qualidade de vida dos brasileiros.

<><> Quais são as doenças reumáticas?

Existem mais de 120 doenças reumáticas, e entre as doenças mais conhecidas estão:

  • Osteoartrite, também chamada de artrose;
  • Fibromialgia;
  • Osteoporose;
  • Gota;
  • Tendinite;
  • Bursite;
  • Lúpus eritematoso sistêmico;
  • Lombalgias;
  • Espondiloartrites;

<><> Quais são os sinais comuns?

Apesar das diferenças entre as doenças, os sintomas são similares. A atenção aos sinais e a busca por avaliação médica são etapas importantes para evitar complicações.

Entre os sintomas mais frequentes estão dor persistente, inchaço e rigidez nas articulações.

Esses sinais merecem atenção, especialmente quando não desaparecem ou começam a dificultar atividades simples do dia a dia.

Normalmente, as condições atingem o aparelho locomotor: ossos, articulações, cartilagens, músculos, tendões e ligamentos.

No entanto, algumas doenças reumáticas também podem comprometer órgãos como rins, coração e pulmões, além da pele, dos vasos sanguíneos e do sistema nervoso central.

Caso não sejam diagnosticadas ou tratadas corretamente, algumas condições podem causar deformidades, desgaste das articulações e perda de capacidade funcional.

<><> Atenção vai além da idade

Doença reumática não é doença de idoso nem dor que faz parte da vida. Ela pode atingir crianças, jovens e adultos, e hoje tem tratamento eficaz.diz o reumatologista Valderílio Feijó Azevedo, presidente da Sociedade Brasileira de Reumatologia.

A AIJ (artrite idiopática juvenil) (AIJ) é uma das condições que exigem atenção na infância e na adolescência, já que normalmente tem início antes dos 16 anos.

A doença causa uma inflamação nas articulações que pode provocar dor, inchaço e rigidez. Os sintomas comprometem atividades simples dessa fase, como caminhar, brincar e praticar esportes.

Outras doenças, como febre reumática, lúpus eritematoso sistêmico, dermatomiosite, esclerodermia e vasculites, também podem atingir crianças e jovens.

<><> Artrose e osteoporose

A osteoartrite, popularmente conhecida como artrose, está entre as doenças reumáticas de maior ocorrência.

Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), a doença afeta cerca de 18% das mulheres e 10% dos homens com mais de 60 anos, além de representar de 30% a 40% das consultas em ambulatórios de reumatologia.

A doença provoca alterações nas articulações e pode causar dor, rigidez e dificuldades de movimento, com impacto direto na rotina. Após o diagnóstico, é possível definir estratégias para controlar os sintomas e preservar a funcionalidade.

Outra doença que merece atenção é a osteoporose, que causa a perda progressiva da massa óssea, principalmente ao envelhecer.

Para mulheres, essa perda tende a ser mais intensa depois da menopausa, já que a redução dos níveis de estrogênio diminui um dos mecanismos de proteção do esqueleto.

Já entre os homens, o problema existe, mas pode passar despercebido por mais tempo. Isso ocorre porque a redução dos hormônios sexuais ocorre de maneira gradual, por isso, a doença pode ser identificada apenas depois de uma fratura.

O homem ainda não está habituado a ter uma rotina preventiva com o exame de densitometria óssea, realizando-o apenas quando ocorre uma fratura. É preciso uma mudança de comportamento nesse sentido.afirma Azevedo

O especialista ressalta ainda a importância de abordar a deficiência androgênica do envelhecimento masculino, conhecida popularmente como andropausa.

Nesse caso, a redução gradual dos níveis de hormônios pode contribuir para a perda de massa óssea e aumentar o risco de osteoporose.

¨      Fratura do punho pode ser o primeiro alerta para a osteoporose

Uma pessoa tropeça na calçada, tenta amortecer a queda com a mão e acaba com o punho fraturado. O episódio é comum, especialmente entre pessoas mais velhas, e geralmente leva à procura de um ortopedista para imobilizar ou fixar a fratura com cirurgia. O que muitos pacientes desconhecem é que, dependendo da idade e das circunstâncias da queda, a fratura pode ser o primeiro sinal de uma doença silenciosa: a osteoporose.

O rádio distal é a extremidade do osso do antebraço localizada próxima ao punho. Sua fratura está entre as lesões mais frequentes após quedas com apoio da mão. Embora possa ocorrer em qualquer idade, inclusive em jovens submetidos a traumas de maior intensidade, merece atenção especial quando acontece após uma queda da própria altura, sobretudo a partir dos 60 anos.

<><> Quando uma queda simples revela fragilidade óssea

A osteoporose provoca redução da resistência dos ossos, tornando-os mais suscetíveis a fraturas diante de impactos que normalmente não causariam uma lesão tão importante. Como costuma evoluir sem sintomas, muitas pessoas só descobrem o problema depois de quebrar um osso.

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Nas mulheres, a perda óssea pode se acelerar após a menopausa, devido à redução dos níveis de estrogênio. Nos homens, o envelhecimento e outras condições clínicas também podem comprometer a saúde dos ossos.

A fratura do rádio distal tem uma característica importante: frequentemente ocorre antes de fraturas associadas a consequências mais graves, como as vertebrais e as do quadril. Isso não significa que toda pessoa que fraturou o punho desenvolverá essas complicações, mas o episódio pode indicar um risco aumentado que merece investigação.

<><> O tratamento não termina quando o osso consolida

A primeira preocupação após uma fratura é recuperar a anatomia e a função do punho. Entretanto, quando a lesão acontece após um trauma de baixa intensidade, limitar o atendimento à consolidação óssea pode significar perder uma oportunidade de prevenção.

A avaliação da saúde óssea pode incluir densitometria, investigação de fatores de risco e exames laboratoriais, conforme as características do paciente. Histórico de fraturas anteriores, uso prolongado de corticoides, baixo peso, tabagismo e determinadas doenças também devem ser consideradas.

A densitometria ajuda a identificar a redução da massa óssea, mas não é o único elemento utilizado para avaliar o risco. Ferramentas clínicas, como a calculadora FRAX, podem auxiliar na estimativa da probabilidade de novas fraturas, levando em conta diferentes fatores individuais.

A investigação é especialmente importante porque uma fratura por fragilidade aumenta o risco de outras. Identificar e tratar a osteoporose, quando presente, pode reduzir a ocorrência de novos eventos, inclusive em regiões como a coluna e o quadril.

<><> Gesso ou cirurgia: como decidir?

Nem toda fratura do rádio distal precisa ser operada. A escolha depende do tipo de lesão, do grau de desvio dos fragmentos, da estabilidade, da qualidade óssea e das necessidades funcionais do paciente.

Fraturas bem alinhadas e estáveis podem ser tratadas com imobilização e acompanhamento radiográfico. Em outros casos, especialmente quando existe desvio importante, comprometimento da superfície articular ou instabilidade, pode ser necessário realizar cirurgia para reposicionar e fixar os fragmentos.

Uma das técnicas utilizadas é a fixação com placa específica para o rádio distal e parafusos, que permite estabilizar os fragmentos ósseos durante a consolidação da fratura. Entretanto, a indicação cirúrgica não depende apenas da imagem radiográfica. Idade, nível de atividade, condições clínicas e expectativas de recuperação também influenciam a decisão.

Independentemente da abordagem escolhida, a reabilitação desempenha um papel fundamental na recuperação da mobilidade, da força e da capacidade de realizar atividades cotidianas. Fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais têm participação importante nesse processo, que pode envolver outros profissionais de saúde, conforme as necessidades individuais de cada paciente.

 

Fonte: CNN Brasil