Lauro
Mattei: De onde vem o ódio a Lula?
A
sociedade brasileira se constituiu historicamente a partir de diversas formas
de desigualdades que se explicitam de diferentes maneiras: socialmente,
regionalmente, racialmente, etnicamente e sexualmente. Com o passar do tempo
foram se constituindo classes sociais antagônicas, porém sempre sob o
predomínio da elite econômica e política que ditou e ainda dita a evolução e a
dinâmica social do país. Paralelamente a essa classe dominante, conformou-se
uma camada social que almeja ascender ao patamar da classe superior e que ficou
conhecida como “classe média”. Por fim, na base da pirâmide social se encontra
uma imensa maioria da sociedade que integra as chamadas “classes populares”
que, por séculos, foram mantidas à margem dos processos econômicos, políticos e
sociais.
Para
alguns intérpretes da realidade brasileira essa trajetória impediu que o país
tivesse formado uma cidadania plena, uma vez que às classes populares sempre
foram negados direitos básicos, como acesso à uma alimentação de qualidade, a
uma moradia digna, a uma saúde e educação de qualidades, etc. Paralelamente a
isso, as classes média e alta jamais lutaram para que todos tivessem seus
direitos garantidos por um motivo muito simples: elas somente procuram manter
seus privilégios.
Essas
características ficaram bem mais evidentes durante o processo de
industrialização do país no século XX e, particularmente, durante o processo de
redemocratização após o fim do regime militar nas duas últimas décadas do
século XX. Mesmo que durante a democratização e o processo constituinte os
temas da fome, da pobreza e da miséria social tenham ascendido ao debate
público, eles continuaram sendo ignorados pelas elites políticas e econômicas
do país.
Tais
cenários levaram à conformação de uma sociedade com elevado poder conflitivo
quando se trata da distribuição dos benefícios públicos entre as diversas
classes sociais, uma vez que o andar de cima continuamente pretende manter seus
privilégios, inclusive reagindo com ódio e rancor quando uma parcela dos “sem
sem” também passa a ter acesso aos benefícios estatais potencializados por
políticas públicas específicas.
Desta
forma, a palavra “ódio” no contexto político brasileiro reflete uma
situação que vai muito além da discordância política tradicional, assumindo
também um caráter de profunda aversão pessoal e moral. Em termos gerais,
pode-se dizer que o ódio entre as pessoas é um sentimento complexo e profundo
que normalmente surge de uma combinação do medo, da desinformação, da
manipulação e de instintos de sobrevivência social. Mas o ódio também surge em
relação ao desconhecido (medo), como um mecanismo de defesa e sobrevivência;
como um mecanismo de pertencimento a um determinado grupo; como expressão de
falta de empatia em relação ao outro que age e pensa diferente; etc.
Segundo
estudos do University College da Universidade de Londres, o amor e o ódio estão
bem mais próximos do que imaginamos, uma vez que ambos ativam regiões cerebrais
que são muito semelhantes, como são as áreas associadas à tomada de decisões e
às respostas emocionais em relação ao que acontece ao redor das pessoas. Por um
lado, o amor reduz a atividade de áreas ligadas a julgamento e, por outro, o
ódio mantém tal atividade permitindo que esses julgamentos negativos coexistam
simultaneamente.
É nesse
contexto que recentemente ganhou força também a conformação de uma
característica segregacionista da sociedade brasileira a qual aflorou
publicamente – e de forma bastante intensa – na passagem do século XX para o
século XXI. Esse processo segregacionista ganhou maior concretude quando
ocorreu uma reorientação do Estado Nacional, especialmente quando ações e
políticas públicas passaram a servir também aos “descamisados”, expressão
típica das elites quando se referem às classes populares que sobrevivem em um
contexto marcado pela vulnerabilidade social e explicitado pelos elevados
índices de fome e de pobreza.
A
emergência do senhor Luís Inácio Lula da Silva no cenário político nacional foi
um processo cumulativo e contínuo. No primeiro momento como um líder sindical
que teve uma participação decisiva na organização dos trabalhadores visando
derrubar a ditadura militar na década de 1980 e, a partir de então, com uma
atuação também decisiva na construção de um partido político representante da
classe trabalhadora que impactou fortemente a organização de outros partidos
políticos do país a partir da construção do Partido dos Trabalhadores (PT).
Esse
processo histórico de lutas sindicais e políticas em grande parte foi marcado
pela presença contínua e expressiva de Lula. Depois de participar de três
eleições presidenciais (1989, 1994 e 1998), Lula finalmente foi vitorioso nas
eleições presidenciais de 2022. Ao assumir o governo do país em 2003 começou a
ocorrer uma inversão de valores junto ao Estado nacional, uma vez que Lula
passou a governar o país à luz de um conjunto de políticas públicas
direcionadas, pela primeira vez na história, também às classes populares. Como
em seus três mandatos presidenciais ele priorizou o direcionamento de políticas
sociais para fazer frente à exclusão social e, ao mesmo tempo, incorporou tais
prioridades à lógica de funcionamento do Estado brasileiro, politicamente ele
passou a ser visto como uma ameaça às elites econômicas e políticas, bem como
às classes médias a elas associadas.
Seguindo
os termos anteriormente mencionados, é possível identificar diferentes matrizes
que corroboram para a formação do ódio ao Presidente Lula. Em primeiro lugar,
merece atenção a origem familiar de Lula e sua situação pessoal: um
ex-retirante nordestino que lutou e sobreviveu às mais duras condições
econômicas e sociais trabalhando como metalúrgico industrial desde jovem que,
mesmo não possuindo diploma universitário, ascendeu ao mais alto cargo da
nação, posto até então hegemonicamente reservado para as elites econômicas e
políticas tradicionais. Parcelas das classes média e alta passaram a se sentir
desconfortáveis com o país sendo governado por uma pessoa com essa trajetória,
fato que acabou levando à aversão pessoal à Lula por parte desses segmentos
sociais.
Em
segundo lugar, as reações contrárias ao seu envolvimento sindical e as suas
lutas em prol da organização política da classe trabalhadora e em defesa da
democratização da sociedade brasileira. Neste contexto, setores conservadores,
inclusive influenciados por valores religiosos, passaram a ver Lula não apenas
como um político, mas também como uma ameaça que iria atacar a propriedade
privada visando implantar o comunismo no Brasil. É nesse contexto que ganha
dimensão em todo o país o “antipetismo”, normalmente associado à pessoa de
Lula. De uma maneira geral, pode-se dizer que segmentos sociais conservadores,
liberais e crenças religiosas consideram Lula e o PT também como ameaças aos
valores familiares tradicionais.
Em
terceiro lugar, o processo de democratização do Estado e das políticas públicas
implementado por Lula a partir do momento que passou a governar o país no ano
de 2003. Ao implementar um conjunto de novas políticas públicas na perspectiva
“bottom up” os governos Lula impuseram uma inversão de prioridades,
destacando-se programas como o Bolsa Família e as Cotas Raciais e Sociais nas
universidades públicas até então frequentadas pelas famílias das classes média
e alta. Essa perda de exclusividade gerou reações bastante estridentes por
parte dos segmentos sociais melhor posicionados que passaram a identificar em
Lula a razão dessas perdas, bem como ao próprio partido do presidente.
Quando
as políticas que compõem o Sistema de Proteção Social do país começaram a
impactar positivamente a condição de pobreza de parcelas expressivas da
sociedade, foram inúmeras as reações de diversos segmentos sociais, muitas das
quais de forma preconceituosa e discriminatória. Um desses casos que se tornou
bastante comum nas duas primeiras décadas do século XXI foi o comportamento
social dos ocupantes dos aeroportos do país, uma vez que historicamente o
transporte aéreo no Brasil era um serviço exclusivo para as classes sociais
elevadas. Todavia, quando começou a ocorrer uma maior democratização do acesso
a esses serviços, observou-se a geração de desconfortos e até mesmo de
questionamentos por parte dos segmentos sociais privilegiados, chegando-se ao ponto
de parte desses setores passarem a rotular pejorativamente os aeroportos do
país de “rodoviárias” devido à presença de setores mais pobres da sociedade
nesses espaços. Essas reações “ao pobre viajando de avião” não diz respeito ao
meio de transporte em si, mas ao incômodo com a inclusão social, uma vez que
ela representava a perda de exclusividade nos espaços anteriormente
frequentados exclusivamente pelas elites econômicas e políticas do país.
Da
mesma forma, falas como a do Ministro da Economia Paulo Guedes em 2020
recriminando as empregadas domésticas que viajavam para Miami ou a fala recente
do apresentador da Globo Luciano Huck criticando o comodismo dos beneficiários
do Bolsa Família são apenas a ponta de um iceberg com raízes profundas que
resistem à constituição de uma sociedade mais justa e igualitária.
Registre-se,
ainda, que comportamentos preconceituosos em relação às famílias beneficiárias
dos programas sociais do Governo Federal, como o demonstrado recentemente pelo
apresentador da Rede Globo, são recorrentes desde o início da implementação
desses programas a partir dos anos 2000.
No
processo eleitoral de 2026 – quando Lula está concorrendo pela quarta vez como
presidente da República – uma das principais explicações para não o aceitar
novamente como candidato não decorre de suas políticas econômicas ou de outras
ações diversas de seu governo. Na verdade, todos os elementos explicitados por
aqueles que procuram justificar suas decisões contrárias à reeleição de Lula
servem apenas de pretexto para explicar a verdadeira razão: o preconceito e
ódio de classe, inclusive fazendo-se menções a sua trajetória de “nordestino”.
Pesquisa
recente da Quest também confirmou essa realidade, mas a partir de parâmetros
bem precisos à luz das respostas emitidas pelas pessoas quando estimuladas a
responder sobre a avaliação que faziam sobre suas próprias condições de vida.
Diante da pergunta se nos últimos 20 anos a vida melhorou, as respostas foram
distintas. Para as mulheres e pessoas pretas e pobres as respostas foram
positivas. Já para as pessoas brancas e com rendas mais elevadas das regiões
Sul e Sudeste as respostas foram não.
Todavia,
quando as mesmas pessoas das regiões Sul e Sudeste foram inqueridas a expressar
suas posições se elas achavam que tais pessoas mereciam ter melhorado de vida,
as respostas foram todas negativas. Qual o sentido dessas respostas das pessoas
brancas das regiões Sul e Sudeste? Essas respostas revelam um comportamento
segregacionista e um sentimento de superioridade social que estimula a divisão
e ao mesmo tempo alimenta o preconceito em relação aos outros. Decorre daí a
divisão e a falta de solidariedade com relação aos demais que ocupam uma
posição social distinta.
E é
neste cenário que Lula passa a ser responsabilizado porque ele insiste em
estabelecer, por meio de suas políticas sociais, novos parâmetros de
sociabilidade que poderão levar à conformação de uma sociedade brasileira mais
harmônica e menos desigual.
Isso
nos lembra uma frase famosa do Nelson Rodrigues que criticava a hipocrisia e a
busca constante de uma classe por privilégios ou ascensão a qualquer custo: “o
problema do Brasil não é o povo, é a classe média porque ela sempre quer cair
para cima”. Em 2013, a filósofa Marilena Chauí proferiu uma declaração muito
semelhante durante o lançamento de um de seus livros: “a classe média é o
atraso da vida, é a própria estupidez”.
Além
desse segmento social, também temos de acrescentar o comportamento das elites
financeiras e políticas que cada vez mais buscam ampliar seus ganhos monetários
por meio da ampliação de seus interesses junto ao Estado. Deriva daí suas
aversões às políticas e programas de um “Estado Bem-Estar Social” que, na visão
desses segmentos, deveria ser reduzido ao máximo, de tal forma que seus ganhos
monetários continuassem protegidos. Nesse contexto, Lula passa a ser um
problema política porque ele não segue inteiramente a cartilha desses agiotas
financeiros.
Fonte:
Outras Palavras

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