Pragmatismo
x ideologia: como Trump vai de fato lidar com as declarações de Flávio
Bolsonaro sobre o Brasil?
Na carta que divulgou na quarta-feira (28/10), poucas
horas após desembarcar em Miami, o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato derrotado no segundo turno da eleição
brasileira, agradeceu "ao presidente (Donald) Trump e ao maravilhoso
povo americano por me acolher".
Segundo
reportagem do jornal americano The New York Times (NYT), o assessor de
comunicação da Casa Branca e ex-porta-voz de Trump, Jason Miller, teria ajudado a providenciar o
jatinho no qual Flávio e a família viajaram.
A Casa
Branca não comentou, e Trump disse apenas que Flávio havia
recebido autorização para
entrar no país.
As
informações disponíveis até o momento indicam que Flávio, sua esposa, Fernanda
Bolsonaro, e as duas filhas do casal ingressaram nos EUA com uma autorização
que costuma ser concedida por "razões humanitárias" e tem validade de
um ano.
No
entanto, apesar de os Estados Unidos terem permitido sua
entrada e de o Departamento de Estado ter afirmado que concederia vistos à
família, ainda não está claro se o governo Trump irá chancelar a
autoproclamação de Flávio como "líder do Brasil" e sua intenção de
"liderar a oposição" a partir dos EUA.
A
declaração foi feita em uma carta divulgada pelo senador. Uma primeira versão
da carta, posteriormente substituída, dizia que Flávio seria o verdadeiro
"presidente eleito" do país.
"Acho
difícil que essa declaração produza algum reconhecimento efetivo", diz à
BBC News Brasil a especialista em relações bilaterais Bruna Santos, diretora do
Brazil Program no think tank Inter-American Dialogue, em Washington.
"Flávio
está completamente isolado politicamente no Brasil, inclusive entre as
principais lideranças da direita. Ao afirmar que é o presidente eleito e que
houve um golpe, ele se colocou em confronto com praticamente todo o sistema
político brasileiro, incluindo o TSE [Tribunal Superior Eleitoral]", observa.
Os EUA
ainda não se manifestaram formalmente sobre o resultado da votação no Brasil.
Em declarações informais a perguntas da imprensa, Trump tem demonstrado ambivalência, sugerindo, sem
provas, que "pareceu ter fraude", mas também dizendo que gosta do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que foi reeleito.
Ao ser
questionado sobre o teor da carta de Flávio, o presidente americano repetiu que
não iria se envolver. Nesta quinta-feira (29/10), quando um repórter perguntou
quem, na sua opinião, era o legítimo vencedor da eleição brasileira, Trump
disse mais uma vez que não iria comentar, mas que achava que a eleição havia
sido "uma grande vergonha para o povo brasileiro".
Uma
reportagem da Folha de S. Paulo mostrou que a Embaixada dos Estados Unidos em
Brasília avaliou como "definitiva" e "surpreendente" a
vitória do presidente Lula, segundo relatório diplomático enviado ao
Departamento de Estado americano na segunda-feira (26/10) e obtido pelo jornal.
O
documento afirma que a votação transcorreu de maneira majoritariamente pacífica
e destaca que observadores internacionais não manifestaram dúvidas sobre o
resultado.
O
relatório também registra que a Organização dos Estados Americanos (OEA) não
tinha "nenhuma dúvida sobre os resultados", embora tenha apontado
falhas na comunicação entre os responsáveis pela organização da votação.
"O
Departamento de Estado e [o secretário de Estado] Marco Rubio estão inclinados a
se envolver. Trump parece hesitar", salienta Santos.
<><>
'Nó diplomático'
Dentro
do governo americano, duas alas disputam a atenção de Trump quando o assunto é
Brasil, uma mais pragmática, e outra mais ideológica, liderada por Rubio.
"Não
duvido nada que já tenha o dedo do Rubio orientando essa movimentação nos
bastidores para transformar Flávio em um trunfo de pressão e criar um atrito
direto e calculado com o governo brasileiro", diz à BBC News Brasil o
professor de relações internacionais Carlos Gustavo Poggio, da universidade
Berea College, no Estado do Kentucky.
Em uma
versão inicial da carta, Flávio começava dizendo se dirigir "ao povo
brasileiro e à comunidade internacional como o "verdadeiro presidente
eleito do Brasil".
O
documento foi apagado poucos minutos após a postagem e substituído por uma nova
versão em que o candidato derrotado se identificava de outra forma, como
"o líder do Brasil".
"Autoproclamar-se
presidente eleito criava um nó diplomático insustentável até para os EUA.
Adotar a pecha de 'líder da oposição perseguido' encaixa perfeitamente no
figurino para justificar proteção política e barrar qualquer avanço de
extradição", ressalta Poggio.
"Aliás,
essa expressão 'líder do Brasil' me soa inclusive uma tradução do inglês, não
me parece algo muito usado em português", destaca o analista.
Para
Poggio, a distância de Trump pode ser temporária.
"O
silêncio ou a distância inicial do Trump não têm nada a ver com prudência
diplomática. Primeiro, ele segurou a onda para não prejudicar a situação do
próprio Flávio. Depois, manteve o afastamento típico de quem abomina ser
associado a perdedores", diz o analista.
"Assim
que a poeira da derrota baixar e o custo político cair, Trump vai voltar a
encampar a linha dura do Rubio, usando o caso para alimentar sua base e
fustigar a esquerda latino-americana."
<><>
Comparação com Venezuela
Na
carta, Flávio faz acusações, sem evidências, de fraude eleitoral. Após sair na
frente no primeiro turno, ele perdeu a disputa no segundo turno para o
presidente Lula com uma diferença de 4,4 milhões de votos.
Não há
indicação de fraude no resultado, que foi confirmado pelo TSE, reconhecido
internacionalmente e elogiado por observadores enviados ao Brasil, como as
missões da Organização dos Estados Americanos (OEA), que reúne 35 países do
continente, e do Carter Center, organização sem fins lucrativos com sede em
Atlanta.
O
próprio PL, partido de Flávio, reconheceu o resultado das urnas, apesar de
pedir que "questionamentos levantados" sejam esclarecidos.
A ida
de Flávio aos EUA ocorreu em meio a mais de 24 horas de informações
desencontradas sobre seu possível paradeiro, iniciadas ainda na terça-feira
(27/10).
Na
noite de domingo (25/10), logo após a divulgação do resultado da eleição, o
ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal
Federal (STF), determinou que os passaportes comum e diplomático do
senador fossem entregues à Polícia Federal e proibiu sua saída do país.
Flávio
é investigado em dois inquéritos sobre suspeitas de
lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas. Em fevereiro, quando
termina seu mandato como senador, ficará, pela primeira vez desde 2002, sem
cargo eletivo, perdendo o foro especial.
Na
carta, Flávio diz que não tinha intenção de deixar o Brasil e ressalta que não
há mandado de prisão contra ele, mas afirma ser alvo de uma "caça às
bruxas politicamente motivada".
A
expressão é a mesma adotada por Trump quando se referia às investigações
judiciais das quais ele próprio era alvo, antes de retornar à Casa Branca.
Trump também usou a expressão inúmeras vezes para descrever o julgamento e prisão
do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, pai de Flávio e aliado ideológico do
americano.
Flávio
nega ter fugido do Brasil, e diz que deixou o país para "ser o líder que o
meu povo merece". Em seguida, comparou-se a figuras históricas que viveram
no exílio, como o brasileiro Rui Barbosa, o estadista francês Charles de Gaulle
e o herói nacional cubano José Martí.
Também
se comparou aos venezuelanos Juan Guaidó, Edmundo González e María Corina
Machado, opositores do governo de Nicolás Maduro na Venezuela. Em 2019, Guaidó
se autoproclamou presidente interino e foi reconhecido como tal por diversos
países, entre eles os EUA, na época sob o primeiro mandato de Trump, e o
Brasil, sob Jair Bolsonaro.
"Eu
teria cautela com essa comparação. No caso brasileiro, Flávio não conta sequer
com o apoio das principais lideranças da direita", destaca Bruna Santos,
do Inter-American Dialogue.
"É
difícil sustentar internacionalmente uma reivindicação de legitimidade
presidencial que não encontra respaldo entre os próprios aliados políticos no
país. Seria um erro o Departamento de Estado não fazer essa distinção",
observa Santos.
<><>
Tensão na relação com o Brasil
Há
vários possíveis desdobramentos que podem afetar a reação americana à presença
de Flávio nos EUA e sua intenção de se apresentar como "líder do
Brasil". O senador pode vir a ser indiciado e até ter sua prisão decretada
no Brasil à medida que os inquéritos dos quais é alvo avancem.
Seu
irmão, Eduardo Bolsonaro, vive nos EUA desde o ano passado, apesar de um
mandado de prisão contra ele em aberto no Brasil.
Eduardo teve o mandato de deputado
federal cassado
por faltas às sessões da Câmara e foi condenado a quatro anos de prisão por
articular sanções contra autoridades brasileiras e o tarifaço com o objetivo de
tentar evitar a condenação do pai.
Poggio
lembra que a presença de Flávio nos EUA é "um elemento extra que adiciona
tensão a uma relação que já não se encontra na sua melhor forma".
As
relações com os Estados Unidos serão um dos grandes desafios do novo governo
Lula. Desde o início do segundo mandato de Trump, em janeiro de 2025, essa
relação tem sido marcada por tensões.
O
governo Trump impôs diferentes
"tarifaços" sobre produtos importados do Brasil e sanções contra
autoridades brasileiras em resposta ao que descreveu como
"perseguição" sofrida por Jair Bolsonaro.
Em
agosto, a embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, teve seu visto revogado. A medida não impede
a embaixadora de atuar nos EUA, mas significa que, caso saia do país, ela
precisaria pedir novo visto para retornar.
Mas,
pelo menos por enquanto, o governo Lula descarta escalar crise com Trump
segundo auxiliares do presidente ouvidos pela BBC News Brasil em caráter
reservado.
Essa
avaliação ocorre mesmo após a notícia que o governo Trump teria providenciado o
avião que transportou o senador.
A
ideia, por ora, é que Lula não se manifeste publicamente sobre o assunto e nem
faça questionamentos às autoridades americanas sobre a ida de Flávio.
Na
avaliação de auxiliares de Lula, o governo ainda estaria calibrando de que
forma irá responder ao episódio, mas a ideia seria não fazer do acolhimento
americano a Flávio um problema na relação já tensionada com o governo Trump.
Na mira
da administração petista estariam outras questões consideradas mais
prioritárias como as negociações sobre o tarifaço.
<><>
Oposição democrata
No
entanto, o cenário político nos EUA parece estar prestes a mudar. Pesquisas de
intenção de voto indicam que o Partido Democrata, de oposição a Trump, pode
sair vitorioso nas eleições de meio de mandato, as midterms, na próxima
terça-feira (3/11).
Há
expectativa de que os democratas conquistem maioria na Câmara dos
Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil) e, talvez, até no
Senado. Atualmente, ambas as Casas do Legislativo são controladas pelo Partido
Republicano, de Trump, o que permitiu ao presidente avançar sua agenda sem
grande resistência.
Uma
derrota de seu partido nas urnas poderia enfraquecer Trump nos dois anos finais
de sua presidência. Pela Constituição americana, ele não pode concorrer a um
terceiro mandato.
Caso a
maioria democrata se confirme, a oposição teria maior poder de fiscalizar e
investigar políticas adotadas por Trump, inclusive em relação à América Latina
e o Brasil.
Estão
na mira dos democratas desde o impacto que as tarifas contra produtos de
diversos países tiveram na economia americana até as ações militares, como os
ataques contra embarcações no Mar do Caribe e a operação na Venezula para
capturar Nicolás Maduro.
Segundo
auxiliares de Lula disseram à BBC, o governo brasileiro aguarda justamente o
resultado das midterms para avaliar a relação com os EUA. O entendimento
é de que Trump ficaria parcialmente fragilizado caso perca a maioria.
É
possível que a fuga de Flávio para os EUA também vire alvo de investigação por
parte dos democratas. Na terça-feira, a bancada democrata na Comissão de
Relações Exteriores da Câmara criticou a autorização para que Flávio e a
família entrassem nos EUA.
"Não
há asilo para pessoas fugindo da guerra no Sudão ou do conflito no Haiti, mas
Rubio está estendendo o tapete vermelho para Bolsonaro. Aparentemente, fugir da
violência não se qualifica. Negar os resultados da eleição, sim", diz a
postagem nas redes sociais.
Um dos
membros democratas da comissão, o deputado Joaquin Castro, do Texas, disse em
suas redes sociais que "o governo Trump deve explicações ao Congresso
sobre seu papel em ajudar Bolsonaro a fugir do Brasil, em violação à lei
brasileira".
¨ Casa Branca rejeita
‘golpe’ de Flávio Bolsonaro e manda senador ficar abaixo do radar
A Casa Branca rejeitou a tentativa de Flávio Bolsonaro
(PL-RJ) de se colocar como autodeclarado presidente eleito do Brasil, como uma
espécie de Juan Guaidó para contestar o resultado das eleições brasileiras e
recomendou que o senador permaneça abaixo do radar nos próximos dias. Segundo
uma fonte do governo norte-americano ouvida pelo ICL Notícias, Washington ficou
irritada com o tom da carta divulgada pelo parlamentar e comunicou aos
bolsonaristas que não endossaria qualquer iniciativa para invalidar o processo
eleitoral brasileiro, pelo menos neste momento.
A
orientação ocorre às vésperas das eleições de meio de mandato nos Estados
Unidos, as chamadas midterms, marcadas para 3 de novembro. A avaliação na Casa
Branca, segundo a fonte, é que uma intervenção na disputa eleitoral brasileira
criaria um problema político adicional para Trump, que já enfrenta
críticas de parlamentares democratas pela entrada de Flávio em território
americano.
Apesar
de ter falado em fraude nas eleições brasileiras, Trump não endossou a posição
de Flávio Bolsonaro. Perguntado se ele iria falar com Lula para parabenizá-lo,
Trump respondeu na quinta-feira (29): “Eu falarei com ele. Mas acho que a
eleição foi uma vergonha para o Brasil”. Questionado sobre quem seria o
presidente legitimo, ele insistiu: “Não quero comentar sobre isso agora, mas
acho que foi um constrangimento para os brasileiros. Eu não tomei lado, deixei
ela ocorrer. O atual presidente pediu para eu não tomar partido. Mas quando
assisti, foi uma vergonha. Olha o que ocorreu com o mercado.”
Fontes
da área de inteligência consultadas pelo ICL Notícias afirmam que havia a
expectativa de que a presença do senador brasileiro nos Estados Unidos pudesse
representar um ativo eleitoral para Trump. O efeito, porém, teria sido o
contrário. Em vez de produzir dividendos políticos, a chegada de Flávio passou
a representar uma fonte de desgaste para o governo republicano.
Foi
nesse cenário que a Casa Branca recomendou ao senador manter um perfil
discreto, reduzir sua exposição pública e evitar qualquer tentativa de associar
o governo americano à contestação das eleições brasileiras.
A
mensagem de Washington foi transmitida antes de Trump declarar publicamente que
não pretendia se envolver na questão. Quando o presidente americano anunciou
sua posição, portanto, os bolsonaristas já haviam sido informados de que não
teriam o apoio esperado, segundo a fonte consultada pela reportagem.
Uma
outra fonte confirmou que foi a irritação da Casa Branca que fez Flávio
Bolsonaro ser obrigado a retirar o termo “verdadeiro presidente eleito do
Brasil” do documento original. Washington sugeriu que o texto fosse modificado
e que a referência fosse trocada para “líder brasileiro”.
Ao
contrário do que Donald Trump tem adotado com governos considerados como
inimigos, a Casa Branca não estabeleceu nenhum tipo de restrição a autoridades
brasileiras em território americano. Nesta sexta-feira (30), o chanceler Mauro
Vieira desembarca em Miami para a reunião de ministros do G20 e estará na mesma
sala com o secretário de Estado, Marco Rubio. Para observadores, isso é um
sinal de que do lado americano há normalidade na relação com o governo Lula.
Fonte:
BBC News Brasil/ICL Notícias

Nenhum comentário:
Postar um comentário