Nina
Lemos: Vitória histórica contra a extrema direita faz Brasil virar herói
antifascista mundial
“A
vitória de Lula nos dá esperança e mostra que é possível derrotar a extrema
direita!” O post, em tom de celebração, foi publicado nas redes sociais pelo
partido alemão Die Linke (A Esquerda) na segunda-feira (26), logo após as
eleições brasileiras, enquanto o Brasil ainda celebrava o maior baile da
democracia dos últimos tempos.
O
partido alemão não foi o único. A vitória histórica de Lula e a derrocada da
extrema direita, representada pela família Bolsonaro, foi comemorada por todos
os partidos de esquerda e pela imprensa progressista mundial. E nós, que
moramos fora do Brasil, recebemos parabéns de amigos e colegas.
O
Brasil é, no momento, uma espécie de herói antifascista do mundo. “Brasilien
bleibt stabil” (algo como “o Brasil continua firme”), publicou o maior jornal
de esquerda da Alemanha, o Taz, usando uma frase da cena antifascista para
celebrar a resistência. “O Brasil resiste!”, escreveu, na capa, o jornal
catalão El Punt Avui.
As
manifestações positivas por parte da imprensa, políticos e ativistas de
esquerda são tantas que nem cabem todas nessa coluna.
As
celebrações passaram também para o espaço público e o “fazer o L” tornou-se um
símbolo de resistência progressista mundial. Uma das primeiras a adotar o gesto
foi a ex-prefeita de Barcelona, Ada Colau, que pediu que uma multidão fizesse o
L de Lula durante um comício em Madri. O gesto foi adotado também pela
presidente do México, Claudia Sheinbaum. Em um vídeo publicado nas redes
sociais, estudantes franceses apoiadores
do socialista Jean-Luc Mélenchon, candidato a presidente que vem subindo nas
pesquisas para as eleições do ano que vem, fazem o L com as mãos e em seguida o
M de Mélenchon.
As
manifestações que reuniram milhares de pessoas no país, a força dos estudantes
e as imagens de idosos com problemas de mobilidade indo votar rodaram o planeta
e impressionaram todo mundo. Mas outro personagem, além de Lula, causa frisson.
Trata-se do do deputado federal André Janones, criador do grupo de Whatsapp
Exército do Lula, que foi um dos grandes responsáveis pela vitória da esquerda
dentro das redes sociais, território que antes era dominado com folga pela
extrema direita.
Como
eles conseguiram? A imprensa e ativistas tentam descobrir essa fórmula e grupos
de Whatsapp estilo “o exército de Lula” se espalham pelo mundo. Já há grupos
semelhantes na Espanha, na França, na Argentina e na Colômbia.
Será
que tudo isso é uma empolgação momentânea?
Pode ser. Mas não podemos negar que o Brasil é, no momento, um exemplo
claro de que derrotar a extrema direita é possível e que isso faz as pessoas
pensarem: “se eles podem, também posso.”
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Solidariedade internacional no X
Um dos
movimentos mais interessantes, que mostra a admiração dos estrangeiros e a
empolgação dos brasileiros, acontece no X, antigo Twitter. Ali, jovens brasileiros comuns tentam ensinar o segredo
que aprenderam nas três semanas entre o primeiro e o segundo turno para colegas
progressistas da França, da Espanha, da Argentina e até do Japão.
Os
estrangeiros se mostram mega empolgados com o “case” Brasil e tentam entender
dicas dadas pelos seus colegas vencedores. “Gente, vamos fazer como os
brasileiros. A gente não pode mais engajar em post da extrema direita, vamos
bloquear os perfis de extrema direita e nunca interagir com eles”, escreveu um
jovem antifascista francês na rede.
Alguns
brasileiros, muito animados, tentam ajudar outros países que tentam combater a
extrema direita, como a Espanha. “Gente, vamos ajudar os espanhóis, eles
precisam vencer a extrema direita e fizeram um grupo de Whatsapp mas por
enquanto só tem 20 mil pessoas. Vamos ajudar!”, escreveu um jovem.” “Galera do
Exército do Lula, agora é para trabalhar pro Mélenchon, pro Sanchez ou para os
dois?”, perguntou outro.
A
própria campanha de Pedro Sánchez, que tenta se reeleger em novembro nas
eleições gerais que acontecem no país,
está empolgada. “Vamos fazer o mesmo que o Lula fez no Brasil. O mundo
está olhando para nós. Se o Brasil pode, nós também podemos”, disse Sánchez, em
um comício, após a eleição de Lula.
Os
brasileiros vão, com sua experiência de sucesso, conseguir ajudar o mundo a se
livrar da onda de extrema direita que assola o planeta? Não sabemos e essa é
uma tarefa realmente difícil, mas também não é isso que importa. O mais
importante é que mostramos com o nosso exemplo que isso é possível quando a
sociedade se organiza, trabalha sério, deixa diferenças políticas de lado e se
une de verdade contra a extrema direita.
Tomara
que essa vitória da sociedade civil e seu sucesso mundo afora sirva também para
acabar com nosso complexo de vira-lata. Há anos repetimos que somos acomodados,
que “não vamos para a rua lutar pelos nossos direitos, que os franceses, por
exemplo, que são legais porque estão sempre se manifestando etc. Agora, o que
acontece é o contrário e devemos, sim, nos orgulhar. Está provado que é possível resistir contra o
fascismo em português bem “brasileiro”. E o mundo aplaude e pede bis.
• ‘Hans, liga o gás’: grupo de gestores da
educação de Jorginho Mello tem ameaça e nazismo. Por Amanda Miranda
Um
grupo intitulado Educação em Ação, articulado por gestores com cargo
comissionado no governo bolsonarista de Jorginho Mello, em Santa Catarina, tem
registros de mensagens com teor nazista, separatista e ameaça de perseguição a colegas que não
aderiram ao extremismo. A coluna teve acesso a uma sequência de prints que
mostram mensagens com constrangimentos e ameaças a trabalhadores sem vínculo
com o extremismo bolsonarista.
Além de
ser responsável pela articulação para eventos de campanha, o grupo passou o
último dia 25 de outubro, quando Lula consagrou-se pela quarta vez como
presidente da República, exibindo mensagens de ódio e de intolerância, em tom
de perseguição aos “diferentes”. Um dos participantes enviou uma imagem do
nazista alemão Adolf Hitler junto da mensagem “Hans, Liga o Gás”.
Em
novembro de 2022, um gerente de operações estruturadas do Banco do Brasil
enviou a mesma imagem em um grupo de Whats App, foi denunciado e afastado do
cargo. A imagem faz clara alusão ao extermínio dos judeus no Holocausto.
No
grupo Educação em Ação, além das saudações nazistas, há discursos de ódio
contra o pensamento do patrono da educação brasileira, Paulo Freire e do
filósofo marxista Antonio Gramsci. “Chega de dar espaço à esquerda na educação
catarinense! Chega de Gramsci, Paulo Freire e esses canalhas!”, pontuou um dos
membros. Os participantes também espalham mensagens contra o comunismo e
pânicos já desmentidos como o de que “presídios estão em festa”.
O grupo
foi criado em maio de 2026, com mensagem de boas vindas compartilhada por um
assessor especial da Gerência de Desenvolvimento Profissional, com salário
bruto de cerca de R$ 21 mil. Este setor faz parte da Diretoria de Gestão de
Pessoas e é apontado por servidores como uma ala de monitoramento,
constrangimento e intimidação.
Há
relatos de que gestores indicados pelo governador Jorginho Mello, com e sem
vínculo efetivo com a secretaria, foram cobrados para se reunir com suas
equipes ao longo do processo eleitoral, arregimentando cabos eleitorais sob
ameaças veladas de serem removidos ou desligados da pasta.
Além da
cobrança quanto à participação nos eventos de cunho político partidário, o
grupo criado no Whats App também era parte da ação iniciada ainda em maio, fora
do período oficial de campanha eleitoral, que começou em 16 de agosto. A coluna
optou por não reproduzir os prints para preservar a informação anônima.
Uma das
primeiras mensagens, enviada em horário de expediente no dia 7 de maio, era uma
solicitação para que os integrantes do grupo participassem de um evento com
Flávio Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Caroline de Toni e Jorginho Mello,
realizado em Florianópolis. Para isso, precisavam preencher uma ficha de
inscrição. O evento contou com cerca de cinco mil pessoas e foi onde Flávio
usou a camiseta ligando o Caso Master ao PT pouco antes de ter sua relação com
Daniel Vorcaro escancarada pelo The Intercept.
Discursos
separatistas também foram compartilhados, com exaltação a Santa Catarina e
mensagens sinalizando para uma eventual perseguição ao Sul. “No Sul, ele vai
fazer de tudo para nos aniquilar. Aquele verme!”, disse uma mensagem que se
referia à reeleição do presidente Lula. Um outro usuário sugere, a partir de
uma figura não identificada, “matar a paulada esse verme”. Análises mais
robustas, culpando o prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, e o governador de
Minas Gerais, Cleitinho, por não terem feito o dever de casa também circularam.
O mais
preocupante, no entanto, foi o sentido de coação que aterrorizou profissionais
ao longo dos dias que se seguiram às eleições. Isso porque os integrantes do
grupo criado para a campanha se mobilizaram para fazer listas de educadores e
profissionais que parecessem associados à esquerda.
“Acho
que a hora é agora ,de identificarmos esses PTs da vida e levarmos a nosso
Governador Jorginho Mello 🇧🇷 22 para ,que se
possível tirar do nosso meio! Fazer uma limpa!”, disse um usuário. “”Vários…
Posso listar!”, respondeu outra. “Tem muitos e muitos disfarçados….O Jorginho
precisa rever mesmo”, comentou uma terceira pessoa. Um outro usuário deixa
explícito que vai “caçar traidores”. Outra pessoa ainda fala em “tirar os de
esquerda infiltrados na educação”.
Reeleito
com 68,98% dos votos, Jorginho Mello tem na Educação uma das suas pastas-alvo.
Desde 2025, a secretária do Estado é a reitora licenciada da Universidade do
Extremo Sul de Santa Catarina, Luciane Ceretta. No dia 21 de maio, a
instituição também recebeu críticas por organizar um evento com o governador e
candidatos sob o pretexto de estar divulgando o programa Universidade Gratuita,
que transfere recursos públicos para o cofre de universidades particulares.
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Onda de intimidação
O grupo
reúne apoiadores de Jorginho Mello e de Flávio Bolsonaro de diferentes áreas da
educação, entre gestores e trabalhadores de diferentes setores. A secretaria
conta com uma equipe híbrida, formada por professores deslocados das escolas
para a atividade administrativa. Para estes, a aliança com o bolsonarismo surge
com a intimidação, quase sempre velada, de apoiarem a gestão para não serem
“devolvidos” para as escolas de origem.
A
Presidenta do Sindicato dos Trabalhadores em Educação na Rede Pública de Ensino
do Estado de Santa Catarina, Elivane Secchi, observa que “nenhum professor pode
ser silenciado ou intimidado por exercer seu direito à liberdade de pensamento
e expressão.”
“Não é
de hoje que professores e professoras estão entre os primeiros alvos de
perseguição quando avançam discursos autoritários e extremistas”, considera.
Ela lembra que a educação pública deve ser um espaço de liberdade, diversidade
e pensamento crítico. “Não pode ser transformada em ambiente de intimidação,
discriminação e imposição ideológica”.
Aos
profissionais da área, ela orienta que ameaças, constrangimentos ou perseguição
por posições políticas devem ser reunidas em provas, com registro de boletim de
ocorrência e formalização da denúncia junto ao Núcleo de Educação, Prevenção,
Atenção e Atendimento às Violências na Escola (NEPRE) e ao Ministério Público.
Neto
Puerta, da coordenação do Fórum Catarinense de Defesa do Serviço Público e
vice-presidente do Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário de Santa
Catarina, alerta para inúmeras denúncias de servidores efetivos do Estado sobre
o aparelhamento das estruturas por parte do governo Jorginho Mello.
“Isso é
muito grave e caminha na mesma esteira das demissões de trabalhadores da
iniciativa privadas, de boicotes a estabelecimentos com lista e tudo mais.
Mostra, por parte do governo Jorginho, um descompromisso com o serviço público
e com o atendimento à população”.
O
coordenador observa que na gestão anterior a de Jorginho havia uma
predominância de cargos técnicos nas nomeações de gerências, mas que isso não
aconteceu no governo bolsonarista. “É curioso que essa prática de doutrinação,
a qual a esquerda é acusada, é justamente uma prática da extrema direita, que
no seu modo de fazer política ou criar narrativa, está justamente a eliminação
do outro. Por isso que a gente defende a estabilidade no serviço público, que é
para evitar esses desmandos políticos que estão acontecendo”, comenta.
Puerta
destaca que não cabe exoneração sumária ao servidor sem que a administração
pública justifique a conveniência dessa medida. Ele também afirma que assédio
eleitoral e coação são considerados crime eleitoral. “A violência política e
outros abusos também podem ser enquadrados no crime de ameaça”.
Sem
acessar as mensagens, o advogado especialista em direito eleitoral, Rodrigo
Burgos de Azevedo Mangabeira, disse que o grupo e seus articuladores podem ter
incorrido em conduta vedada, a depender do teor das conversas e da dinâmica da
comunicação.
Ele
lembra que agentes públicos têm uma série de condutas vedadas em período
eleitoral. Uma delas é a proibição de se utilizar o trabalho de servidores em comitês de campanha ou partidos durante o
expediente, a menos que estejam oficialmente licenciados.
A
coluna procurou a Secretaria de Educação de Santa Catarina por meio de sua
assessoria de imprensa, para que se posicionasse a respeito do conteúdo do
grupo e do seu possível funcionamento como parte da gestão, mas não obteve
retorno até o fechamento da reportagem. O espaço segue aberto.
Fonte:
ICL Notícias

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