Luiz
Carlos Checchia: O presente do bolsonarismo
Ao
final das eleições de 2022, quando Lula venceu Jair Bolsonaro por uma diferença
de dois milhões e poucos votos, escrevi o artigo “O futuro do bolsonarismo“,
publicado no site A Terra é Redonda em 7 de novembro, oito dias depois do
segundo turno.
Nele,
caracterizei tanto o lulismo quanto o bolsonarismo, que podem ser resumidos da
seguinte forma: por petismo, entendemos: “uma formulação contraditória, que
atua por meio da composição de acordos e arranjos nas distintas pontas dos
interesses políticos do país. Assim, por um lado, garante o atendimento da
agenda econômica da grande burguesia enquanto, por outro, atende à agenda
social mais imediata da população. Com isso, assegura a pacificação das
disputas entre as classes, garantindo a manutenção dos seus governos e evitando
qualquer sorte de ruptura, seja por meio de golpes pelo alto ou revoluções por
baixo. Seja como for, essa lógica faz do Partido dos Trabalhadores um
instrumento político controverso e contraditório, que tenta equilibrar muitos
pratos ao mesmo tempo”.
Já
sobre o bolsonarismo: “Assim como o lulismo, o bolsonarismo também é um arranjo
esdrúxulo, e em sua origem congregava amplos setores da pequena-burguesia
(sobretudo do alto funcionalismo público, como o judiciário e as forças
armadas), líderes religiosos cristãos, conservadores, militaristas, policiais,
milenaristas, lavajatistas e outros. Por mais que parecesse um amontoado sem
muito futuro, esse arranjo soube aproveitar-se do esgotamento do lulismo e do
isolamento do PSDB para levar Jair Messias até a presidência da República.
Instalado
no Palácio da Alvorada, o novo presidente não se satisfaz com o arranjo
heterodoxo que o levou ao poder: provocou expurgos e promoveu novas lideranças
e grupos, dos quais destacamos os caminhoneiros organizados – e seu poder de
parar o abastecimento do país em poucas horas – e os CACs, como são chamados os
‘caçadores, atiradores esportivos e colecionadores de armas’, que podem se
converter em um exército bem armado e sem receios de atirar em público”.
Passados
quatro anos, e diante de uma imensa vitória popular do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, é momento de fazermos uma nova avaliação, uma nova análise do
que será o futuro do bolsonarismo. No texto de 2022, fiz um alerta que foi
considerado excessivamente alarmista, mas que se comprovou acertado: o
bolsonarismo é uma força política densa, que integra a longa e ininterrupta
tradição fascista brasileira.
Portanto,
não seria a derrota de Jair Bolsonaro que poderia levar esse movimento à
derrocada. Até porque qualquer movimento pode continuar vivo para além da
presença ou ausência do sujeito que o anima. Assim, da mesma maneira que o
lulismo poderá sobreviver mesmo quando Lula não atuar mais na cena política, o
bolsonarismo poderá sobreviver sem a presença política de Jair ou Flávio
Bolsonaro.
Mas é
fato que o bolsonarismo está profundamente ferido. A despeito de ter devorado
bons nacos do centrão, fortalecendo assim sua presença no Congresso, Flávio
Bolsonaro não é um líder como o pai. Jair, derrotado e coibido em sua atuação
política, demonstrou grande argúcia estratégica e quase levou seu filho à
presidência da República, o que demonstra sua forte liderança entre a extrema
direita. Mas concluído o pleito não restou nada a Flávio Bolsonaro senão a
marca da derrota.
E mais
ainda, ao fugir para os Estados Unidos, passa um atestado de culpa pelos crimes
pelos quais é investigado. E isso coloca uma questão determinante para o
bolsonarismo: quem será seu representante público? A não ser que consiga
instituir um fantasioso governo paralelo – como fez o venezuelano Juan Guaidó –
barulhento o bastante para animar a turma bolsonarista mais alucinada, Flávio
Bolsonaro não parece ter presença política suficiente para isso.
Jair
Bolsonaro, por sua vez, continuará preso e afastado dos debates públicos, e os
demais filhos do ex-capitão não parecem ter as mínimas condições políticas para
tal.
Diante
deste cenário, três figuras parecem largar na frente na corrida pelo legado de
Jair. A primeira delas é Nikolas Ferreira, um dos mais preparados quadros
ideológicos do bolsonarismo e uma liderança com certa autonomia em relação à
família Bolsonaro. Mas, pelas regras atuais, só poderá concorrer a partir de
2034.
Pareado
a ele, há Tarcísio de Freitas, menos vocal na agenda ideológica bolsonarista e
já com alguma experiência no executivo, tanto como ministro como governador de
São Paulo, mas ainda não se sabe se terá a bênção do ex-capitão. Uma presença
mais discreta é a de Michelle Bolsonaro; eleita para o Senado em 2026, ela tem
alguns ativos políticos a seu favor. Bastante articulada, historicamente ligada
às causas das pessoas PCDs e empenhada no apoio às mães atípicas, Michelle
distancia-se do fenótipo bolsonarista.
Para
além do círculo mais próximo do bolsonarismo, há um sujeito que merece alguma
atenção: Renan Santos. Embora seja bastante vocal em dizer que ele e seu
partido, o Missão, se opõem ao bolsonarismo, o fato é que apenas disputam o
mesmo campo político. A despeito de seu diminuto desempenho eleitoral, ficando
apenas com 2.675.887 votos, que correspondem a 2,24% dos votos, devemos levar
em conta o quanto seu partido atrai a atenção de muitos jovens, sendo,
portanto, algo a se observar ao longo dos próximos anos. Também não podemos
descartar a possibilidade de surgir uma nova figura pública no balaio
bolsonarista que integrará o Congresso na próxima legislatura.
De
qualquer forma, a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos cria uma
situação de grande confusão no seio do bolsonarismo, pois cria um grande
desajuste entre suas forças. Sabemos que um grupo político é composto de
diferentes forças políticas que encontram entre si algum grau de equilíbrio e
ajuste, mas nunca deixam de disputar o controle do conjunto.
No
entanto, uma fuga pode ser entendida como um abandono do comando, fazendo com
que as forças entrem em franca disputa. Isso pode levar a um novo arranjo, ou a
autofagia generalizada até o fim do grupo, ou ao fortalecimento de uma força
mais radical. Essa última possibilidade é a menos aventada pelos analistas, o
que é um erro: o declínio de uma liderança fascista pode significar o
recrudescimento do fascismo.
Observe-se
que o possível rearranjo do bolsonarismo pode levar a outra mudança: a do
verniz que recobre o conjunto fascista. O historiador Furio Jesi distingue, na
formação histórica do fascismo, o surgimento de duas facetas. A primeira, ele
caracteriza como “cara feroz” e corresponde a um comportamento truculento,
agressivo, típico de Bolsonaro pai e seus filhos e de algumas novas lideranças,
como Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano; e a segunda é caracterizada como
“terno e gravata”, que mantém o comportamento palatável e técnico, como
Tarcísio de Freitas já apresenta e Michelle Bolsonaro pode assumir.
Algo
que também é digno de nota é a nova configuração do enfrentamento parlamentar
ao bolsonarismo. Se, por um lado, ele avançou sobre o centrão, os setores da
esquerda lulista avançaram sobre o lulismo convencional. Assim, figuras como
Jones Manoel, Renato Freitas e Elias Jabbour foram eleitos para seus primeiros
mandatos na Câmara Federal representando partidos – respectivamente, Psol, PT e
PCdoB – que orbitam o lulismo e se juntam a outros que se reelegeram, como
Fernanda Melchionna, Sâmia Bomfim e Glauber Braga.
A
despeito da constante defesa de uma ideia ainda bastante genérica de “revolução
brasileira”, esses novos deputados tentarão empurrar o lulismo um tanto mais à
esquerda, sem, contudo, ameaçar os limites que o caracterizam. Juntos, os
parlamentares da esquerda lulista formaram uma barreira potente para a defesa
do quarto mandato de Lula e tentarão pôr em debate pautas mais ousadas que as
apresentadas pelo lulismo convencional.
Se as
coisas ocorrerem mais ou menos como se espera, os atritos na Câmara entre a
esquerda radical e os bolsonaristas mais radicais serão maiores do que os já
existentes e, se bem aproveitados, poderão incentivar sua base popular. Isso,
claro, se tais atritos forem bem utilizados como instrumentos de guerra
cultural nas redes sociais.
Por
outro lado, a notória prática de cooptação do lulismo pode fazer algum estrago
junto aos parlamentares bolsonaristas menos convictos. Sem terem conseguido
eleger Flávio e com a possível crise de liderança que se avizinha, será muito
mais fácil atraí-los, senão para a base de apoio do governo, ao menos para uma
posição de menor belicosidade às suas propostas. Isso poderia enfraquecer a
atuação parlamentar do bolsonarismo, mas não necessariamente a sua atuação
propagandística a partir do Parlamento.
Seja
como for, é fundamental termos em conta que o bolsonarismo não se restringe à
presença e atuação parlamentar: seu coração é formado pela imensa massa
popular. No primeiro turno das eleições de 2026, Flávio Bolsonaro obteve
56.104.503 votos, o que equivale a cerca de 26% da população geral brasileira,
ou 35% do eleitorado total ou, ainda, 47% dos votos válidos. Seja por qual
perspectiva que se olhe, o fato é que há uma imensa quantidade de brasileiros
que se identificam com o bolsonarismo, alguns com mais, outros com menos
intensidade, mas quase todos bolsonaristas.
Já
Lula, eleito em uma estrepitosa e inédita virada, venceu muito mais porque uma
grande parcela da população repudiou as propostas e o comportamento de Flávio
Bolsonaro do que por defender seu atual terceiro mandato, que, no geral, é
quase indefensável, pois atendeu mais à agenda neoliberal que
democrático-social.
Lembremos
que parte significativa dos votos em Lula veio de setores da direita
antibolsonarista e de partidos e militantes da esquerda revolucionária dentre
outros grupos que geralmente não votam nem no presidente e nem no Partido dos
Trabalhadores.
Ou
seja, o bolsonarismo anônimo e popular é muito mais comum e cotidiano do que
gostaríamos que fosse. E esse é um grande problema que precisamos encarar de
frente e com frieza: a imensa porção da população brasileira que abraçou o
bolsonarismo abraçará qualquer outra expressão fascista enquanto não forem
desmontadas as condições que permitem as emergências do fascismo em nosso país.
E essas
condições são muitas; todavia, a mais determinante é o atrelamento do Brasil ao
imperialismo. Nicos Poulantzas já escreveu que “quem não quiser falar sobre
imperialismo não pode falar sobre fascismo”. Essa etapa do capitalismo é
responsável por intensificar as crises que afetam milhões de pessoas em
diversos países e é quase natural que, dentre todas as alternativas não
revolucionárias de superação dos problemas, o fascismo seja a mais presente.
Assim,
romper as conexões que nos prendem ao imperialismo e, consequentemente,
promover a soberania nacional é o primeiro passo para diminuir a presença
fascista no seio social.
Independentemente
de quem venha a representar politicamente o bolsonarismo e de como o fará, o
fato é que se trata de uma força real e potente, bastante inserida no seio da
população e bastante capilarizada graças a um emaranhado formado por lideranças
religiosas, vereadores e seus cabos eleitorais, líderes locais e uma imensidão
de outros sujeitos capazes de influenciar um grande número de pessoas.
É
fundamental não perder de perspectiva que o bolsonarismo é uma das expressões
da tradição fascista brasileira, sobre a qual já escrevi em A Terra é Redonda,
no artigo “Fascismo, não é só na Ucrânia”
[https://aterraeredonda.com.br/fascismo-nao-e-so-na-ucrania], publicado em 27
de março de 2023. Isso significa, portanto, que o bolsonarismo continuará, com
ou sem os Bolsonaros, ou pode até mesmo refluir e sair de cena, esperando um
novo contexto para a outra emergência fascista no Brasil.
Fonte:
A Terra é Redonda

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