segunda-feira, 2 de novembro de 2026


 

Luiz Carlos Checchia: O presente do bolsonarismo

Ao final das eleições de 2022, quando Lula venceu Jair Bolsonaro por uma diferença de dois milhões e poucos votos, escrevi o artigo “O futuro do bolsonarismo“, publicado no site A Terra é Redonda em 7 de novembro, oito dias depois do segundo turno.

Nele, caracterizei tanto o lulismo quanto o bolsonarismo, que podem ser resumidos da seguinte forma: por petismo, entendemos: “uma formulação contraditória, que atua por meio da composição de acordos e arranjos nas distintas pontas dos interesses políticos do país. Assim, por um lado, garante o atendimento da agenda econômica da grande burguesia enquanto, por outro, atende à agenda social mais imediata da população. Com isso, assegura a pacificação das disputas entre as classes, garantindo a manutenção dos seus governos e evitando qualquer sorte de ruptura, seja por meio de golpes pelo alto ou revoluções por baixo. Seja como for, essa lógica faz do Partido dos Trabalhadores um instrumento político controverso e contraditório, que tenta equilibrar muitos pratos ao mesmo tempo”.

Já sobre o bolsonarismo: “Assim como o lulismo, o bolsonarismo também é um arranjo esdrúxulo, e em sua origem congregava amplos setores da pequena-burguesia (sobretudo do alto funcionalismo público, como o judiciário e as forças armadas), líderes religiosos cristãos, conservadores, militaristas, policiais, milenaristas, lavajatistas e outros. Por mais que parecesse um amontoado sem muito futuro, esse arranjo soube aproveitar-se do esgotamento do lulismo e do isolamento do PSDB para levar Jair Messias até a presidência da República.

Instalado no Palácio da Alvorada, o novo presidente não se satisfaz com o arranjo heterodoxo que o levou ao poder: provocou expurgos e promoveu novas lideranças e grupos, dos quais destacamos os caminhoneiros organizados – e seu poder de parar o abastecimento do país em poucas horas – e os CACs, como são chamados os ‘caçadores, atiradores esportivos e colecionadores de armas’, que podem se converter em um exército bem armado e sem receios de atirar em público”.

Passados quatro anos, e diante de uma imensa vitória popular do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é momento de fazermos uma nova avaliação, uma nova análise do que será o futuro do bolsonarismo. No texto de 2022, fiz um alerta que foi considerado excessivamente alarmista, mas que se comprovou acertado: o bolsonarismo é uma força política densa, que integra a longa e ininterrupta tradição fascista brasileira.

Portanto, não seria a derrota de Jair Bolsonaro que poderia levar esse movimento à derrocada. Até porque qualquer movimento pode continuar vivo para além da presença ou ausência do sujeito que o anima. Assim, da mesma maneira que o lulismo poderá sobreviver mesmo quando Lula não atuar mais na cena política, o bolsonarismo poderá sobreviver sem a presença política de Jair ou Flávio Bolsonaro.

Mas é fato que o bolsonarismo está profundamente ferido. A despeito de ter devorado bons nacos do centrão, fortalecendo assim sua presença no Congresso, Flávio Bolsonaro não é um líder como o pai. Jair, derrotado e coibido em sua atuação política, demonstrou grande argúcia estratégica e quase levou seu filho à presidência da República, o que demonstra sua forte liderança entre a extrema direita. Mas concluído o pleito não restou nada a Flávio Bolsonaro senão a marca da derrota.

E mais ainda, ao fugir para os Estados Unidos, passa um atestado de culpa pelos crimes pelos quais é investigado. E isso coloca uma questão determinante para o bolsonarismo: quem será seu representante público? A não ser que consiga instituir um fantasioso governo paralelo – como fez o venezuelano Juan Guaidó – barulhento o bastante para animar a turma bolsonarista mais alucinada, Flávio Bolsonaro não parece ter presença política suficiente para isso.

Jair Bolsonaro, por sua vez, continuará preso e afastado dos debates públicos, e os demais filhos do ex-capitão não parecem ter as mínimas condições políticas para tal.

Diante deste cenário, três figuras parecem largar na frente na corrida pelo legado de Jair. A primeira delas é Nikolas Ferreira, um dos mais preparados quadros ideológicos do bolsonarismo e uma liderança com certa autonomia em relação à família Bolsonaro. Mas, pelas regras atuais, só poderá concorrer a partir de 2034.

Pareado a ele, há Tarcísio de Freitas, menos vocal na agenda ideológica bolsonarista e já com alguma experiência no executivo, tanto como ministro como governador de São Paulo, mas ainda não se sabe se terá a bênção do ex-capitão. Uma presença mais discreta é a de Michelle Bolsonaro; eleita para o Senado em 2026, ela tem alguns ativos políticos a seu favor. Bastante articulada, historicamente ligada às causas das pessoas PCDs e empenhada no apoio às mães atípicas, Michelle distancia-se do fenótipo bolsonarista.

Para além do círculo mais próximo do bolsonarismo, há um sujeito que merece alguma atenção: Renan Santos. Embora seja bastante vocal em dizer que ele e seu partido, o Missão, se opõem ao bolsonarismo, o fato é que apenas disputam o mesmo campo político. A despeito de seu diminuto desempenho eleitoral, ficando apenas com 2.675.887 votos, que correspondem a 2,24% dos votos, devemos levar em conta o quanto seu partido atrai a atenção de muitos jovens, sendo, portanto, algo a se observar ao longo dos próximos anos. Também não podemos descartar a possibilidade de surgir uma nova figura pública no balaio bolsonarista que integrará o Congresso na próxima legislatura.

De qualquer forma, a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos cria uma situação de grande confusão no seio do bolsonarismo, pois cria um grande desajuste entre suas forças. Sabemos que um grupo político é composto de diferentes forças políticas que encontram entre si algum grau de equilíbrio e ajuste, mas nunca deixam de disputar o controle do conjunto.

No entanto, uma fuga pode ser entendida como um abandono do comando, fazendo com que as forças entrem em franca disputa. Isso pode levar a um novo arranjo, ou a autofagia generalizada até o fim do grupo, ou ao fortalecimento de uma força mais radical. Essa última possibilidade é a menos aventada pelos analistas, o que é um erro: o declínio de uma liderança fascista pode significar o recrudescimento do fascismo.

Observe-se que o possível rearranjo do bolsonarismo pode levar a outra mudança: a do verniz que recobre o conjunto fascista. O historiador Furio Jesi distingue, na formação histórica do fascismo, o surgimento de duas facetas. A primeira, ele caracteriza como “cara feroz” e corresponde a um comportamento truculento, agressivo, típico de Bolsonaro pai e seus filhos e de algumas novas lideranças, como Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano; e a segunda é caracterizada como “terno e gravata”, que mantém o comportamento palatável e técnico, como Tarcísio de Freitas já apresenta e Michelle Bolsonaro pode assumir.

Algo que também é digno de nota é a nova configuração do enfrentamento parlamentar ao bolsonarismo. Se, por um lado, ele avançou sobre o centrão, os setores da esquerda lulista avançaram sobre o lulismo convencional. Assim, figuras como Jones Manoel, Renato Freitas e Elias Jabbour foram eleitos para seus primeiros mandatos na Câmara Federal representando partidos – respectivamente, Psol, PT e PCdoB – que orbitam o lulismo e se juntam a outros que se reelegeram, como Fernanda Melchionna, Sâmia Bomfim e Glauber Braga.

A despeito da constante defesa de uma ideia ainda bastante genérica de “revolução brasileira”, esses novos deputados tentarão empurrar o lulismo um tanto mais à esquerda, sem, contudo, ameaçar os limites que o caracterizam. Juntos, os parlamentares da esquerda lulista formaram uma barreira potente para a defesa do quarto mandato de Lula e tentarão pôr em debate pautas mais ousadas que as apresentadas pelo lulismo convencional.

Se as coisas ocorrerem mais ou menos como se espera, os atritos na Câmara entre a esquerda radical e os bolsonaristas mais radicais serão maiores do que os já existentes e, se bem aproveitados, poderão incentivar sua base popular. Isso, claro, se tais atritos forem bem utilizados como instrumentos de guerra cultural nas redes sociais.

Por outro lado, a notória prática de cooptação do lulismo pode fazer algum estrago junto aos parlamentares bolsonaristas menos convictos. Sem terem conseguido eleger Flávio e com a possível crise de liderança que se avizinha, será muito mais fácil atraí-los, senão para a base de apoio do governo, ao menos para uma posição de menor belicosidade às suas propostas. Isso poderia enfraquecer a atuação parlamentar do bolsonarismo, mas não necessariamente a sua atuação propagandística a partir do Parlamento.

Seja como for, é fundamental termos em conta que o bolsonarismo não se restringe à presença e atuação parlamentar: seu coração é formado pela imensa massa popular. No primeiro turno das eleições de 2026, Flávio Bolsonaro obteve 56.104.503 votos, o que equivale a cerca de 26% da população geral brasileira, ou 35% do eleitorado total ou, ainda, 47% dos votos válidos. Seja por qual perspectiva que se olhe, o fato é que há uma imensa quantidade de brasileiros que se identificam com o bolsonarismo, alguns com mais, outros com menos intensidade, mas quase todos bolsonaristas.

Já Lula, eleito em uma estrepitosa e inédita virada, venceu muito mais porque uma grande parcela da população repudiou as propostas e o comportamento de Flávio Bolsonaro do que por defender seu atual terceiro mandato, que, no geral, é quase indefensável, pois atendeu mais à agenda neoliberal que democrático-social.

Lembremos que parte significativa dos votos em Lula veio de setores da direita antibolsonarista e de partidos e militantes da esquerda revolucionária dentre outros grupos que geralmente não votam nem no presidente e nem no Partido dos Trabalhadores.

Ou seja, o bolsonarismo anônimo e popular é muito mais comum e cotidiano do que gostaríamos que fosse. E esse é um grande problema que precisamos encarar de frente e com frieza: a imensa porção da população brasileira que abraçou o bolsonarismo abraçará qualquer outra expressão fascista enquanto não forem desmontadas as condições que permitem as emergências do fascismo em nosso país.

E essas condições são muitas; todavia, a mais determinante é o atrelamento do Brasil ao imperialismo. Nicos Poulantzas já escreveu que “quem não quiser falar sobre imperialismo não pode falar sobre fascismo”. Essa etapa do capitalismo é responsável por intensificar as crises que afetam milhões de pessoas em diversos países e é quase natural que, dentre todas as alternativas não revolucionárias de superação dos problemas, o fascismo seja a mais presente.

Assim, romper as conexões que nos prendem ao imperialismo e, consequentemente, promover a soberania nacional é o primeiro passo para diminuir a presença fascista no seio social.

Independentemente de quem venha a representar politicamente o bolsonarismo e de como o fará, o fato é que se trata de uma força real e potente, bastante inserida no seio da população e bastante capilarizada graças a um emaranhado formado por lideranças religiosas, vereadores e seus cabos eleitorais, líderes locais e uma imensidão de outros sujeitos capazes de influenciar um grande número de pessoas.

É fundamental não perder de perspectiva que o bolsonarismo é uma das expressões da tradição fascista brasileira, sobre a qual já escrevi em A Terra é Redonda, no artigo “Fascismo, não é só na Ucrânia” [https://aterraeredonda.com.br/fascismo-nao-e-so-na-ucrania], publicado em 27 de março de 2023. Isso significa, portanto, que o bolsonarismo continuará, com ou sem os Bolsonaros, ou pode até mesmo refluir e sair de cena, esperando um novo contexto para a outra emergência fascista no Brasil.

 

Fonte: A Terra é Redonda


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