Como
seria se a Amazônia secasse? Experimento iniciado há 25 anos pode ter a
resposta
Uma
pergunta paira no ar e na terra — ambos cada vez mais secos — da maior floresta
tropical úmida do planeta. Qual o futuro da Amazônia em um possível horizonte
de estiagens extremas em um cenário de aquecimento global?
Para
tentar prever o destino do bioma, um audacioso experimento submeteu, por duas
décadas, uma área de vegetação amazônica no Pará a um rigoroso estresse
hídrico. O resultado revela um surpreendente rearranjo de sobrevivência da
floresta.
O
Projeto Esecaflor (Projeto de Estudo da Seca Florestal) é a mais longeva e
extensa investigação científica do gênero já realizada em uma floresta
tropical. Está em atividade há 25 anos, e desde então seus idealizadores vêm
tentando compreender como a Amazônia poderia reagir à falta prolongada de água
no solo.
Realizada
em área de 1 hectare dentro dos cerca de 318 mil hectares da Floresta Nacional
de Caxiuanã (PA), a seca experimental começou a ser aplicada em 2001, quando 6
mil painéis retangulares e transparentes de plástico foram instalados sob a
copa das árvores, entre 1 e 4 metros acima do solo, para desviar cerca de 50%
da água da chuva para fora da área, por meio de calhas e canaletas.
Ao
lado, outra área de igual tamanho é mantida sem intervenção, como medida de
comparação. Em ambas as parcelas de floresta, pesquisadores monitoram a umidade
do solo, a temperatura do ar, o crescimento das árvores, o fluxo de seiva e o
desenvolvimento das raízes. Duas torres de 40 metros de altura, dotadas de
radares da Nasa, enviam os dados ao Laboratório de Propulsão a Jato da agência
espacial norte-americana, na Califórnia, onde as informações são processadas.
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Testando a resistência da Amazônia
O
ecólogo britânico Patrick Meir, da Universidade de Edimburgo, na Escócia,
relembra o encontro em 1998, ocorrido na capital Belém, com o meteorologista
Antonio Lôla da Costa, da Universidade Federal do Pará (UFPA), e o falecido
agrônomo Samuel de Almeida, do Museu Paraense Emílio Goeldi, quando esboçavam
juntos um plano para investigar como o armazenamento de carbono efetuado pela
floresta era potencialmente sensível à seca.
“Eu
sabia que havia uma enorme lacuna no entendimento do funcionamento dessa
sensibilidade, e nos perguntávamos se havia o risco de um aumento generalizado
da mortalidade de árvores com as futuras mudanças climáticas”, diz.
Segundo
Meir, modelos computacionais já indicavam a morte generalizada das árvores
impulsionada pela mudança climática, mas as previsões de como a Amazônia
responderia à seca prolongada se mostravam ainda incertas.
“Precisávamos
de um novo tipo de experimento que explorasse a resposta à seca em escala
florestal, bem como em folhas, galhos ou árvores individuais. Essa foi a nova
ciência que desenvolvemos no último quarto de século, para contribuir com o
entendimento da difícil questão do ponto de inflexão da Amazônia”.
Ao
longo de 25 anos, submetida a uma intensa competição por água, a área do
Esecaflor transformou-se em uma floresta mais baixa e menos densa, com perda de
biomassa — folhas, galhos, troncos e raízes das árvores — e menor capacidade de
armazenamento de dióxido de carbono. No entanto, demonstrou uma notável
adaptação ao conseguir redistribuir a pouca água disponível no solo e alcançar
uma nova estabilidade eco-hidrológica.
“Nós
tínhamos recursos financeiros para três anos”, diz Antonio Lôla da Costa,
coordenador nacional do projeto. “E aí vão surgindo perguntas, e em 25 anos a
gente já publicou mais de cem artigos internacionais, formamos mais de cem
doutores, pós-doutores e mestres, e continuamos respondendo perguntas nesta
trajetória”.
O mais
recente estudo publicado pelo grupo, formado por pesquisadores britânicos e
brasileiros, foi publicado em maio de 2025 na revista Nature Ecology &
Evolution e conta em detalhes a dramática cronologia de mudança desta pequena
parcela de selva amazônica.
“Nos
primeiros três anos, por conta da reserva de umidade da floresta, nada
aconteceu”, conta Lôla. “Em cinco anos, iniciou a mortalidade, principalmente
das árvores de grande porte com diâmetro do tronco acima de 50 centímetros, que
necessitam de mais água e sentem mais a deficiência hídrica. Com oito anos,
tínhamos perdido 40% do peso total da biomassa”.
Quando
o experimento completou 15 anos, houve o pico máximo de perdas da biomassa e a
dúvida que pairava no ar entre os cientistas: se a floresta ia colapsar ou se
ainda tinha chances de reagir e se regenerar. E o Esecaflor prosseguiu.
“Em
2024, chegamos a uma das conclusões mais interessantes”, relata Lôla. “Com o
desaparecimento das grandes árvores, perdemos quase 50% da biomassa. Mas a
pequena quantidade de água disponível foi suficiente para que as árvores
menores a redistribuíssem até conseguirem reverter o sinal de mortalidade. Elas
estavam desaparecendo e, em um determinado momento, entraram em harmonia e
voltaram a crescer. Foi uma grande surpresa!”
Especialista
em ecossistemas tropicais e uma das principais lideranças do Esecaflor, a
britânica Lucy Rowland, da Universidade de Exeter, no Reino Unido, aponta uma
questão que ainda está em aberto: por que as árvores são mais vulneráveis? Ela
ressalta que, ao contrário da seca artificial do experimento, a seca natural é
sentida pela vegetação tanto no solo quanto no ar.
“No
início, pensávamos que a morte das árvores maiores se devia a um sistema
hidráulico inerentemente mais vulnerável à seca, por seus vasos serem mais
propensos à embolia”, explica ela. “Mas a causa mais provável é que elas
possuem copas mais altas, se destacam no dossel e, portanto, estão mais
expostas a uma atmosfera mais seca e quente”.
Rowland
destaca que a porção de floresta submetida ao experimento ainda pode ser
considerada floresta tropical, embora degradada. E contesta o uso de “savana”
para descrever essa possível nova Amazônia submetida a anos de seca.
“A
floresta tropical jamais se transformará em savana, mas em um ecossistema novo
e altamente degradado, para o qual não temos referências naturais. Precisamos
ter muito cuidado ao usar o termo ‘savana’ com conotação negativa. As savanas
do Brasil, os cerrados, não são consequência da degradação florestal. São
ecossistemas de grande valor e ricos em espécies, e o fato de a savana ser
vista equivocadamente como menos valiosa do que a floresta tropical, quase como
um “terreno baldio”, impulsionou a destruição em massa desse importante bioma”.
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Perguntas atuais, dúvidas futuras
O
Esecaflor agora encontra-se em uma nova etapa. Em novembro de 2024, após 23
anos de seca artificial, a cobertura dos painéis plásticos que desviavam a água
das chuvas foi retirada. A precipitação voltou a cair em condições normais,
assim como acontece na parcela de controle. O projeto agora quer responder
novas perguntas.
Uma das
dúvidas é se as espécies de árvores de grande porte podem voltar a crescer
neste novo ambiente. É importante lembrar que essas árvores — entre elas a
sumaúma, a andiroba e o angelim-vermelho — subtraem carbono da atmosfera e
reciclam a água da chuva por meio da transpiração, contribuindo para a formação
dos rios voadores.
“Essa é
uma pergunta muito pertinente, e um dos motivos pelos quais manter o
experimento em andamento é crucial”, diz Rowland. “A recuperação dessas grandes
espécies arbóreas não será um processo rápido; algumas delas podem levar
décadas ou séculos para se regenerarem, período durante o qual esperamos que
esses ecossistemas florestais continuem a ser atingidos por secas naturais mais
frequentes.”.
Patrick
Meir concorda que entender as diferenças entre tamanhos e espécies é uma das
prioridades atuais do projeto. “Embora haja mais água disponível por árvore no
momento, a recuperação dessas árvores poderá ser mais lenta do que a de
espécies mais resistentes à estiagem. A floresta afetada pela seca experimental
parece estável por enquanto, mas tem biomassa e porte menores do que antes e é
mais aberta, podendo ser mais vulnerável a futuros extremos climáticos.”Já
Lôla, que nos últimos trinta anos tem navegado 18 horas de barco todos os meses
de Belém até a Floresta Nacional de Caxiuanã, localizada ao sul da Ilha de
Marajó, onde passa até dez dias imerso na mata, recorre aos outros argumentos
para sensibilizar as pessoas.
“A cada
dia, quando a gente viaja lá para a nossa floresta, a gente passa por balsas e
mais balsas carregadas de toras de madeira”, conta. “O Esecaflor é um
experimento controlado de seca no solo, bem diferente das grandes queimadas e
do desmatamento generalizado que os humanos imprimem na natureza. A floresta
não vai entrar em colapso se soubermos manejá-la. Mas se for lá com uma máquina
e destruir 100, 200, 300 hectares em um dia, aí ela não vai reagir nunca.”
“Nós
medimos o crescimento da árvore com equipamentos a cada quinze minutos”,
acrescenta Lôla. “Então você vê o pulso da árvore. É como um eletrocardiograma.
Ela respira e vai crescendo. Quando a árvore começa a ficar doente, esse pulso
diminui, e quando ela morre, aparece só um risco na tela do monitor. É um ser
vivo que respira, que sente. Só que ela não sabe correr, não sai do lugar. Se
desaparecerem, todos nós no planeta Terra vamos juntos.”
Fonte:
Mongabay

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