‘Primavera
Brasileira’: como ato de estudantes virou onda global contra extrema direita
Na
noite de 4 de outubro, quando Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente de Luiz
Inácio Lula da Silva (PT) no 1.º turno das eleições, a seguinte mensagem chegou
num grupo de WhatsApp de alunos da Universidade Federal Fluminense (UFF): “O
momento pede ação”. Na noite seguinte, 5 de outubro, o Brasil assistiu ao
primeiro ato dos jovens.
“Nós
vimos a vitória do Flávio de uma forma muito acachapante. Ninguém estava
esperando. Aquilo gerou um sentimento de descrença muito forte no campo
progressista. Mas na Faculdade de Direito da UFF, pela nossa história,
enxergamos de forma contrária: com esperança e com vontade de ir à luta”, diz
Kayky Moraes, aluno do curso de direito da UFF que participou do primeiro
levante.
Realizada
em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro, a marcha dos estudantes
saiu do prédio da Faculdade de Direito rumo à reitoria da universidade. As
imagens tomaram as redes e iniciaram um efeito dominó que impulsionou
mobilizações estudantis nos cinco cantos do país. “Ali a gente sentiu que dava
para brigar.”
O
resultado desse “efeito borboleta” veio no dia 25 de outubro, três semanas
depois. Um feito histórico: Lula virou o jogo e venceu as eleições por uma
vantagem de 4,4 milhões de votos, algo que nenhum candidato a presidente que
terminou como segundo colocado no 1º turno havia conseguido fazer antes. Os
eleitores de Lula e os estrategistas de campanha do PT tiveram apenas três
semanas para mudar a rota. “Essa foi a campanha menos organizada que participei
desde 1989”, chegou a dizer o presidente Lula em uma reunião com parlamentares
em Brasília.
“Os
jovens tomaram as ruas de forma orgânica e organizada para defender um projeto
de país, mas também um projeto de ser humano. Quando Lula disse aquela frase
para a gente ser ele amanhã, porque ele já foi a gente ontem e para a juventude
botar a cara a tapa, acho que é isso mesmo”, diz Kayky, em referência a um
trecho da entrevista de Lula para o podcast Flow. “Estamos fadados a viver o
futuro e a gente tem que construir o futuro que a gente quer.”
A
“primavera brasileira”, como começou a ser apelidada a vitória eleitoral frente
à extrema direita, também pode ser vista por como uma posição do Brasil como
símbolo de resistência aos interesses dos Estados Unidos, defende Mayra
Goulart, doutora em ciência política pela UERJ.
“O
Brasil será um pólo da resistência à relação imperial que os Estados Unidos
tentam restabelecer. Na última assembleia geral da ONU, Lula disse que o Brasil
não iria ser o quintal de ninguém. O presidente Lula recupera a tradição de não
alinhamento automático da diplomacia brasileira a potências estrangeiras e a
adoção de um caminho próprio e soberanista. Isso é entendido muitas vezes como
um caminho que vem a liderar outros países periféricos”, diz.
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A “Primavera Brasileira” vista do exterior
No
México e na Espanha, a virada eleitoral brasileira foi recebida não apenas com
alívio geopolítico, mas como um estudo de caso sobre como conter a ascensão da
extrema direita.
Para
Homero Campa Butrón, cientista político e professor da Universidade Nacional
Autônoma do México (UNAM), a manutenção do governo progressista no Brasil evita
o isolamento regional no continente. “Brasil e México representam 55% da
população da América Latina e 60% da economia da região. O resultado no Brasil
foi vital para o governo mexicano, pois evita o isolamento diante da onda de
vitórias da direita na região nos últimos meses”, analisa Campa, destacando que
a comunicação entre a presidenta mexicana Claudia Sheinbaum e Lula é direta e
estratégica.
O
impacto também ressoa na Europa. “Se o Brasil conseguiu, a Espanha também
consegue”, disse o primeiro-ministro da Espanha Pedro Sánchez, em um comício em
Gijón, na região de Astúrias, realizado na segunda-feira, 26 de outubro. “Vamos
fazer o mesmo que Lula fez no Brasil. O mundo está olhando para nós”,
completou.
Com
eleições gerais agendadas para o próximo mês na Espanha, onde as pesquisas têm
indicado a predileção do eleitorado à direita, o desfecho brasileiro renovou o
ânimo das forças de esquerda. “Certamente, no México e na Espanha, percebe-se
um enorme interesse no modelo de mobilização social promovido por meio das
redes sociais, coordenado pelo deputado André Janones. Entende-se que a
estratégia de comunicação digital foi um fator fundamental no resultado”, diz o
professor da UNAM.
A
Agência Pública identificou que ao menos três grupos de WhatsApp internacionais
reproduzem as táticas de engajamento de Janones para mobilizar apoiadores. É do
caso do “Frenteamplistas” (37 mil seguidores), da Espanha, “L’équipe de
Mélenchon” (152 mil seguidores), da França, e do “Ejército del Peronismo” (61
mil seguidores), da Argentina.
“A
mobilização nas redes sociais é uma tendência global. O Brasil adere a isso de
uma maneira muito acelerada e acredito que essa tendência seja muito similar em
outros países. Ao mesmo tempo, isso não desconsidera a importância dos atores
tradicionais, como o movimento estudantil e sindicatos, que foram acionados a
partir das redes, mas permitiram um engajamento muito grande no mundo real. Se
é que podemos dizer em uma fórmula, ela deve ser buscada na sinergia entre o
mundo físico e as redes sociais”, pontua Goulart.
Ainda
nesta semana, viralizou um vídeo compartilhado por Ada Colau, ex-prefeita de
Barcelona e candidata à presidência da Espanha pela Frente Ampla, no qual ela
pede para que os apoiadores ergam as mãos em “L” — um aceno ao presidente
brasileiro. “Vamos todos levantar o braço com o ‘L’ de Lula”, disse ela,
durante ato no município de Móstoles na quarta-feira (28).
“Eu me
lembro desse momento. O gesto de Acolau foi bastante simbólico e foi num dia
próximo ao da notícia da vitória de Lula. Acho que foi uma surpresa para todo
mundo. Acho que a maioria das pessoas dava como certo que a probabilidade do
filho do [Jair] Bolsonaro ganhar era muito alta. O gesto reafirma a vitória de
Lula e diz que nós, por aqui, também temos plena capacidade de fazer o mesmo”,
conta Euge, 22, morador da cidade de Madrid que esteve no comício organizado
pela Frente Ampla.
“Acredito
que Lula tem sido um vislumbre de esperança para as pessoas de esquerda e para
os trabalhadores da Espanha e do mundo todo. Estamos vivendo um momento em que
temos governos de extrema direita como nunca antes. Lula conseguiu vencer com a
maioria das pesquisas dizendo o contrário. A mensagem que chegou aqui na
Espanha foi de que, ainda que pareça que tudo está contra, é possível vencer.
Se conseguirmos mobilizar todas as pessoas progressistas, nós venceremos”,
continua ele.
Também
fizeram o “L” de Lula a presidente do México Claudia Sheinbaum, o senador do
México Gerardo Fernández e parlamentares do Congresso Nacional do Chile. Já
utilizado como chacota, especialmente entre bolsonaristas, o “L” agora ganha
espaço no cenário político mundial como símbolo da mobilização contra o avanço
da direita.
“O
Brasil desponta como liderança da resistência à extrema direita em termos
globais. A extrema direita é globalizada, sistêmica e se reúne em fóruns, como
a CPAC [Conservative Political Action Conference]. A esquerda começa a se
articular e essa articulação pode ter como centro a liderança do presidente
Lula”, diz Goulart.
Nascido
na cidade de Getafe, ao sul da região de Madri, Euge se interessou por política
ainda na adolescência. Em 2019, aos 15 anos, decidiu participar do Más Madrid,
um partido de esquerda com atuação a nível municipal em Madri. Para Euge, a
participação de jovens na política é importante, mas não se distingue do papel
das outras faixas etárias. “Sempre falam aos jovens: ‘vocês são o futuro!’ Bom,
não é que a gente seja o futuro, somos o presente de um país. Temos que estar
em igualdade tanto de reconhecimento quanto de possibilidade de participar da
vida pública e da vida política. As decisões que os governos tomam nos afetam
da mesma forma, e muitas delas ainda mais do que ao resto das pessoas.”
Sobre o
recado que deseja que as próximas eleições da Espanha passem ao mundo, Euge diz
esperar que seja o mesmo que o do Brasil: “Uma mensagem de que não baixamos os
braços, que demos de tudo e conseguimos mobilizar a população com temas
essenciais para sua vida, como moradia, pensão e serviços públicos.”
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A mobilização da juventude
Além do
protesto organizado pelos estudantes da UFF logo após o resultado do primeiro
turno, outra engrenagem importante passou a se movimentar: os fandoms
(comunidade de fãs) brasileiros. Longe de se restringirem ao entretenimento,
esses grupos já vinham consolidando uma ponte direta com a política
institucional.
No
final de agosto deste ano, o Palácio do Planalto recebeu representantes desses
grupos em uma cerimônia oficial, na qual o presidente Lula assinou um decreto
com novas regras para a venda de ingressos de shows e eventos culturais no
país. A medida, voltada ao combate do cambismo digital e à falta de
transparência nas plataformas, foi fruto das demandas levadas pelos próprios
fãs ao governo federal.
E esse
pode ter sido um grande efeito borboleta da campanha: a mesma capacidade de
mobilização que esses jovens utilizam para apoiar seus ídolos foi redirecionada
no momento mais decisivo da disputa eleitoral, sendo uma das principais apostas
da chapa Lula-Alckmin para furar bolhas e alcançar a virada. Para o leitor que
ainda busca entender como esse movimento funciona, os fandoms são comunidades
hiperconectadas e altamente disciplinadas, capazes de organizar mutirões de
votação e subir hashtags mundiais.
Assim,
as páginas passaram a publicar conteúdos de conscientização política,
convocando mutirões de engajamento, dialogando com seguidores indecisos e
pedindo o posicionamento de artistas sobre a defesa da democracia no Brasil.
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Janonismo cultural e a urgência de regulamentação das Big Techs
Ao
longo desta primeira semana pós 2º turno, o livro Janonismo Cultural: O uso das
redes sociais e a batalha pela democracia no Brasil, de André Janones, figurou
entre os 10 títulos mais vendidos da Amazon no nicho de Política e Ciências
Sociais. Exitoso ao encabeçar a estratégia digital de Lula, Janones foi
destacado no primeiro discurso do presidente reeleito.
Apesar
do otimismo com a capacidade da sociedade brasileira de reverter os algoritmos,
Campa faz um alerta sobre a vulnerabilidade desse modelo: “a falta de
regulamentação das grandes empresas de tecnologia constitui um perigo para a
vida pública no mundo inteiro. O que ocorreu no Brasil foi muito positivo: uma
reação social massiva e bem organizada para reverter o algoritmo. No entanto,
receio que essas empresas estejam tomando nota do que aconteceu no Brasil para
introduzir controles maiores e evitar que se repita”, pontua Homero.
A
Pública mostrou em reportagens como a moderação da Meta atingiu de forma
desproporcional as candidaturas, beneficiando em vários casos a de Flávio em
detrimento da de Lula.
Nesse
cenário, a regulamentação das plataformas surge como uma demanda democrática,
observa Goulart. “No discurso de vitória, Lula disse que um dos objetivos do
governo seria regulamentar as plataformas para que elas aumentem a isonomia das
entregas entre diferentes grupos. É importantíssimo que isso seja feito. Caso
contrário, a valorização desproporcional dos conteúdos da extrema direita
quando comparados com outros conteúdos irá continuar, principalmente com o
sistema de recomendação e hierarquização do feed.”
Para o
analista mexicano, a esquerda global precisará acelerar sua adaptação aos novos
modelos de comunicação, ao mesmo tempo em que pressiona por regras claras
contra a interferência de grandes corporações de tecnologia nas democracias. “A
mensagem que fica do Brasil é de otimismo e confiança na sociedade diante dos
grandes grupos tecnológicos e da ultradireita. O Brasil demonstrou uma
liderança inegável para todo o Sul Global” conclui.
Na
visão de Kayky, da UFF, a mobilização não se encerra com o resultado das urnas.
“Acho que daqui nasce a esperança de um futuro melhor. O recado de um levante
que começou aqui em Niterói está se espalhando pelo mundo. Dá para ver o jardim
da primavera florescendo pelo mundo todo. Mas é sempre importante manter a
vigilância e continuar nas ruas para defender essa visão de mundo.”
Fonte:
Por Aldrey Olegario e Nicole Santos, da Agência Pública

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