Manfred
Back e Luiz Gonzaga Belluzzo: O mal da banalidade
Num
mundo que volta a surfar nas ondas do discurso de ódio como tábua de salvação,
não Jeová, nem Jesus e muito menos Buda, mas as falsas promessas do paraíso da
extrema direita, pendurados na cruz ou na suástica impulsiona a marcha do
exército de ressentidos Quando as promessas que levariam as classes médias ao
padrão de consumo das elites se deterioram, a ralé enfurecida, sedotta e
abbandonata, entrega sua alma à sereia do totalitarismo.
Depois
de várias tentativas, entrevistamos Hannah Arendt em seu gabinete como
professora na New School for Social Research, em Nova Iorque. Para discutimos
duas de suas grandes obras: Origens do totalitarismo e A condição humana.
Agradecemos a professora pela hospitalidade e sua tradicional liberdade de
pensamento.
Nós:
Qual mensagem gostaria de mandar a elite intelectual, que se encontra fechada
em si mesma, dentro de uma bolha? Hannah Arendt: compreender significa, em
suma, encarar a realidade sem preconceitos e com atenção, e resistir a ela,
qualquer que seja. Hannah: posso complementar se me permitem? Nós: com certeza.
Hannah
Arendt: pois atualmente as ciências são forçadas a adotar uma “linguagem” de
símbolos matemáticos que, embora originalmente destinada a abreviar afirmações
anunciadas, contém agora afirmações que de modo algum podem ser reconvertidas
em palavras.
Nós:
como a professora vê esse predomínio do pensamento único da escola de
expectativas racionais, onde todos racionalmente maximizam a utilidade? Hannah
Arendt: a conduta uniforme que se presta à determinação estatística e,
portanto, à predição cientificamente correta, dificilmente pode ser explicada
pela hipótese liberal de uma natural harmonia de interesses, que é a base da
economia clássica. Não Karl Marx, mas os próprios economistas liberais foram
levados a introduzir a ficção comunista, isto é, supor a existência de um único
interesse da sociedade como um todo com o qual uma mão invisível guia o
comportamento dos homens e produza harmonia de seus interesses conflitantes.
Nós: na
sua obra a condição humana a professora faz uma analogia entre a economia
neoclássica e a ficção comunista, certo?
Hannah
Arendt: uma das principais teses da brilhante obra de Gunnar Myrdal é que o
utilitarismo liberal, e não o socialismo, é forçado a manter uma “ficção
comunística” insustentável acerca da unidade da sociedade, e que a ficção
comunística é implícita na maioria das obras de economia. Qualquer vitória
completa da sociedade produzirá sempre algum tipo de “ficção comunística”, cuja
principal característica política é que será, de fato, governada por uma “mão
invisível.
Nós:
segundo Wilhelm Reich: a tendência a ver tudo em termos de economia é
catastrófica. Devem ser feitos todos os esforços para corrigir essa tendência.
Pelo prisma da mão única invisível, a senhora se aproxima de Reich?
Hannah
Arendt: o ponto crucial do argumento é que isto equivale à asserção de que a
sociedade deve ser concebida como um único sujeito. E isto é precisamente o que
não pode ser concebido. Tentar fazê-lo é tentar ignorar o fato essencial de que
a atividade social é o resultado das intenções de vários indivíduos. O mundo
comum acaba quando é visto somente sob um aspecto e só se lhe permite uma
perspectiva.
Nós:
qual seu olhar nessa explosão de influencers, campeões de votos nas últimas
eleições no Brasil que atingem essa massa de ressentidos?
Hannah
Arendt: a admiração pública é também algo a ser usado e consumido; e o status,
como diríamos hoje, satisfaz uma necessidade como o alimento satisfaz outra: a
admiração pública é consumida pela vaidade individual da mesma forma como o
alimento é consumido pela fome. A admiração pública, consumida diariamente em
doses cada vez maiores, é, ao contrário, tão fútil quanto a recompensa
monetária, uma das coisas mais fúteis que existem pode tornar-se mais objetiva
e mais real.
Nós: a
extrema direita usa a persuasão, porque percebeu que para a multidão pouco
importa a verdade?
Hannah
Arendt: a diferença mais marcante entre os sofistas antigos e os modernos é
simples: os antigos se satisfaziam com a vitória passageira do argumento à
custa da verdade, enquanto os modernos querem uma vitória mais duradoura, mesmo
que à custa da realidade. Em outras palavras, aqueles destruíram a dignidade do
pensamento humano, enquanto estes destroem a dignidade da ação humana.
As
massas surgiram dos fragmentos da sociedade atomizada, cuja estrutura
competitiva e concomitante solidão do indivíduo eram controladas quando se
pertencia a uma classe. O fato de que o ‘pecado original’ da acumulação
primitiva de capital tenha requerido novos pecados para manter o sistema em
funcionamento foi eficaz para persuadir a burguesia alemã a abandonar as
coibições da tradição ocidental… Foi esse fato que a levou a tirar a máscara da
hipocrisia e a confessar abertamente seu parentesco com a ralé.
Nós:
poderia explicar a diferença entre a ralé e o povo?
Hannah
Arendt: a ralé é fundamentalmente um grupo no qual são representados resíduos
de todas as classes. E isso que torna tão fácil confundir a ralé com o povo, o
qual também compreende todas as camadas sociais. Enquanto o povo, em todas as
grandes revoluções, luta por sistema realmente representativo, a ralé brada
sempre pelo “homem forte”, pelo “grande líder”. Porque a rale odeia a sociedade
da qual é excluída, e odeia o Parlamento onde não é representada.
Nós: o
que acha de um governo que mediante decretos de extrema direita prometem, aos
quatros ventos, a reforma a constituição?
Hannah
Arendt: se o governo de boas leis já foi chamado de governo sabedoria, o
governo de decretos adequados pode ser corretamente chamado de governo da
esperteza. Porque levar em conta motivos e objetivos ulteriores é esperteza,
enquanto compreender e criar algo por dedução, a partir dos princípios
geralmente aceitos, é sabedoria… Não existem movimentos sem ódio ao Estado.
Nós:
agradecemos sua paciência e vontade de nos conceder a honra dessa entrevista. A
professora tem alguma mensagem numa realidade tão apavorante quanto a ascensão
do nazismo e fascismo nos anos 30 do século XX?
Hannah
Arendt: o perigo é que uma civilização global, universalmente correlata, possa
produzir bárbaros em seu próprio seio por forçar milhões de pessoas a condições
que, a despeito de todas as aparências, são as condições da selvageria. Segundo
David Rousset: os homens normais não sabem que tudo é possível.
Fonte:
A Terra é Redonda

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