América
Latina: a ultradireita tem projeto?
Uma
onda reacionária varre a América Latina. Com exceção do México e Brasil (as
duas maiores potências da região), Uruguai e Guatemala, os demais países
(Argentina, Chile, Colômbia, Bolívia, Peru, Equador, Paraguai, El Salvador,
Honduras, Panamá, etc.) elegeram governos autoritários de extrema-direita. Isso
ocorreu no segundo turno das eleições, por uma margem estreita, mas esses
governos estão no poder e expressam um sentimento de ressentimento e
agressividade política anti-igualitária, forte em parcelas da população.
Não
estamos lidando com a direita liberal tradicional ou “republicana” que
caracterizou o neoliberalismo triunfante da década de 1980. Naquela época, ele
procurav ser o porta-estandarte de um destino universal e final para a
humanidade, centrado no livre mercado, na globalização, no multiculturalismo e
no Estado mínimo.
A
extrema-direita de hoje não promete um futuro de paz mundial baseada nos
mercados, mas sim uma purga apocalíptica dos ateus que se opõem às hierarquias
“naturais” do empregador sobre empregado, do homem sobre mulher, da branquitude
sobre todas as outras etnias e do rico sobre o pobre. Mais do que uma utopia, o
que ela ostenta é uma “guerra santa” contra o comunismo, contra os imigrantes,
contra os direitos e os bens públicos. Para a extrema-direita, não há paraíso a
alcançar, apenas as brasas de um Armagedom onde purificar os desvios de uma
humanidade corrompida por aspirações de igualdade.
Se, no
passado, os movimentos de direita se apoiavam na superioridade de suas crenças
e estabeleciam um caminho pelo qual toda a humanidade alcançaria um objetivo
comum — o chamado “fim da história” —, a direita atual acredita que a conversão
de apóstatas não é mais possível. Portanto, muros devem ser construídos para
impedir que migrantes “invadam” seus países — como na fronteira entre o México
e os Estados Unidos; civilizações devem ser “exterminadas”, como em Gaza ou no
Irã; e aqueles que têm condições financeiras devem se tornar uma “espécie
multiplanetária” colonizando Marte, como propõe Elon Musk. Estão convencidos de
que não há mais espaço, água, combustível, riqueza ou meio ambiente suficientes
no mundo para serem compartilhados por todos os seres humanos e que, portanto,
todos esses recursos devem ser concentrados e preservados para o benefício de
poucos, os “vencedores”, enquanto o restante dos perdedores é lançado nas
chamas do inferno.
Essa
extrema-direita fanática cresceu no início do século XXI, quando o
neoliberalismo regional entrou em crise e a sociedade abraçou um
descontentamento generalizado. Ela se fortaleceu entre as classes médias
ressentida, nos locais onde governos de esquerda chegaram ao poder e promoveram
processos de ascensão social para as classes trabalhadoras. E chegou ao poder
nos locais onde governos progressistas não conseguiram atender às expectativas
de bem-estar das classes empobrecidas.
No entanto, diferentemente do que ocorreu nos ciclos anteriores de ascensão da
extrema-direita na América Latina, que duraram trinta anos, a extrema-direita
atual apoia-se em um projeto social atrofiado e míope que, economicamente,
contraria as tendências globais emergentes.
Nas
décadas de 1940 e 1950, os movimentos progressistas continentais impulsionaram
a industrialização, a nacionalização dos recursos naturais e a expansão dos
direitos, coincidindo com o crescimento do Estado de bem-estar social e o
aumento da intervenção estatal nas economias dos países mais influentes da
economia global. O período militar autoritário que ocorreu na fase posterior
desse ciclo foi alimentado pelo ressentimento das classes médias, que se
sentiam igualadas pela ascensão da classe trabalhadora; Mas não alterou
fundamentalmente o modelo de crescimento baseado no mercado interno e no
desenvolvimentismo.
A
ascensão da direita neoliberal continental no final da década de 1970 e na
década de 1980 caminhou lado a lado com a onda expansiva do globalismo
neoliberal que varria o mundo, liderada por Reagan e Thatcher. Com pouca
criatividade e muita mediocridade, a direita regional simplesmente copiou e
colou o manual neoliberal emanado do Banco Mundial e do FMI.
Hoje,
porém, a situação é muito diferente.
As
grandes potências que impulsionam a economia mundial, como os Estados Unidos, a
China e a União Europeia, aumentam as tarifas contra o livre comércio, promovem
políticas industriais para criar mercados a partir do Estado, tornam-se
protecionistas, transformam seus Estados em acionistas de empresas estratégicas
e estabelecem metas de soberania energética ou tecnológica, em vez de se
curvarem às “vantagens comparativas”. Na América Latina, porém, os governos de
extrema-direita se apegam anacronicamente à nostalgia de um globalismo de livre
mercado extinto.
Paradoxalmente,
o único defensor ferrenho do “livre mercado” é a China “comunista”, cujo Estado
controla entre 20 e 40% do PIB. Enquanto isso, a extrema-direita clama pela
“abertura para o mundo”, mesmo quando o mundo ergue barreiras tarifárias para
proteger o pouco que resta de suas indústrias da produtividade avassaladora das
empresas chinesas. Impõe uma austeridade fiscal brutal, na esperança de que o
investimento estrangeiro direto (IED) inunde o país e se torne a força motriz
por trás do crescimento econômico expansivo em todos os setores.
Mas o
mundo de 2026 não é o mesmo de 1995, quando o investimento estrangeiro direto
experimentou um crescimento global espetacular e os países em desenvolvimento
ofereciam uma alta taxa de lucro graças à privatização de empresas públicas e
seus mercados cativos.
Hoje,
não existem mais grandes empresas para privatizar e, pior ainda, o Investimento
Estrangeiro Direto (IED), que antes era a força motriz das economias mundiais,
encolheu. Tendo atingido níveis entre 4% e 5% do PIB global nas décadas de 1990
e início de 2000, desde a crise de 2008 sua importância tem diminuído
constantemente. Hoje, mal chega a 1% do PIB. É claro que o investimento
estrangeiro continua a fluir globalmente e dentro do continente —
principalmente para o México e o Brasil, atuais bastiões progressistas —, mas
agora, como percentual do PIB, mal chega a um quarto do que já foi. Além disso,
é mais seletivo: indústria manufatureira em países com grandes mercados
garantidos (Brasil, México). Para o restante, principalmente matérias-primas e
energia. Em tempos de crise, o capital prefere refugiar-se em títulos do
Tesouro dos EUA, que agora oferecem taxas de juros de 4,8% por dez anos, ou em
megainvestimentos em Inteligência Artificial no mesmo país.
Na
Argentina, o Investimento Estrangeiro Direto (IED) atingiu 8,5% do PIB em 1999.
Entre 2005 e 2015, oscilou entre 2% e 3% do PIB. Sob o governo “libertário”,
caiu para 1,8% em 2024 e para 0,5% em 2025. O Banco Mundial estima que se
aproximará de 1% em 2026. Os setores visados por esse investimento são
hidrocarbonetos, mineração e, em menor escala, finanças. O Equador segue uma
trajetória semelhante: no final do século XX, o IED atingiu 3% do PIB; em 2023
e 2024, caiu para 0,5%. E em 2025, mal se aproximou de 1%. No Peru, durante a
década de 1990 e entre 2005 e 2015, o IED oscilou entre 4% e 7% do PIB. Nos
últimos anos, tem variado entre 1% e 3%.
Nesses
e em outros casos, o IDE perdeu a importância que outrora detinha para o
crescimento e a estabilidade econômica. Além disso, trata-se de investimento em
enclaves, focado na extração de matérias-primas, com lucros externalizados para
os países de origem, impedindo, assim, qualquer efeito estimulante sobre o
restante da economia. Essa situação assemelha-se bastante à economia de
enclaves coloniais do século XVI. Por um lado, centros de alto investimento,
alta rentabilidade, baixa utilização da mão de obra e baixa retenção nacional
de excedentes; e, por outro, um mar de atividades manufatureiras e de serviços
caracterizadas por baixa produtividade, baixos salários e alta utilização da
mão de obra.
Esse
cenário deprimente também se reflete nos investimentos públicos e privados
nacionais em países governados pela extrema direita. Durante os anos do
neoliberalismo globalista (entre 1990 e 2000), o investimento total nesses
países variou entre 21% e 24% do PIB. De 2015 a 2025, o investimento flutuou
entre 18% e 19% (CEPAL, 2026). A Argentina, nos últimos três anos, apresentou
uma taxa de investimento de 15% a 16% do PIB (INDEC, 2026). O Equador, 18% do
PIB, e assim por diante.
Em
comparação, países com industrialização recente e alto crescimento econômico,
como os que compõem a ASEAN, têm taxas de investimento em torno de 30% do PIB.
De modo
geral, sob governos de extrema-direita, o investimento público e privado,
principal motor do crescimento e da criação de riqueza, caiu em porcentagem do
PIB, comparado com os dois períodos de expansão econômica (1990-2000 e
2005-2015).
Os
“ajustes” nos gastos públicos, a redução de impostos para os ricos e a
privatização de áreas periféricas que ainda eram estatais não representam
qualquer injeção de capital na economia. São meramente formas de extração
predatória de recursos públicos para depositá-los nas mãos de entidades
privadas habituadas à busca de privilégios. O resultado é uma economia
estruturalmente estagnada, caracterizada por altos níveis de precariedade, que
não consegue gerar um processo estratégico de expansão do bem-estar nacional e,
portanto, está propensa a incubar continuamente intensos ciclos de agitação
social.
Ao
contrário do que a extrema-direita americana ou europeia busca promover com um
neoestatismo produtivista de longo prazo, a extrema-direita latino-americana
atolou-se num neoliberalismo globalista mofado, com um futuro decapitado, que
tende a transformar os países em protetorados coloniais das grandes potências
que detêm projetos históricos.
Ora, se
a extrema-direita não defende um projeto econômico capaz de capturar de forma
crível a esperança social, por que, apesar de seu fracasso econômico prematuro,
mantém uma base social considerável de apoio político que varia entre 20% e 40%
do eleitorado?
Certamente,
as decepções anteriores geradas pela incapacidade da esquerda e dos movimentos
progressistas em superar a crise econômica (inflação, escassez, recessão)
contribuem para a relevância contínua da direita. Mas isso não basta. Para
explicar seus níveis de apoio, é necessário compreender que a extrema direita
emergiu munida de duas armas: por um lado, a promessa de pôr fim a alguns dos
aspectos mais significativos da crise econômica; e, por outro, a promessa de
reparação moral para aqueles prejudicados pela crise.
A
primeira espada está se desfazendo rápida e irreversivelmente; mas a segunda
está sendo empunhada com habilidade ardente. O ódio vingativo, transformado em
política de Estado contra direitos, migrantes, “esquerdistas”, comunistas,
kirchneristas, petistas, povos indígenas, feministas ou qualquer aparência de
igualdade social, desempenha o papel de uma expiação coletiva que dilui a
ilusão de um futuro de bem-estar. Se não há futuro próspero, que ao menos haja
o prazer da crueldade exercida contra aqueles considerados irremediavelmente
diferentes.
Essa
perversão moral da esperança dilacera o tecido social e, embora possa ser
passageira, suas consequências para a coesão coletiva serão duradouras. A
maneira de combatê-la não é simplesmente através da fúria invertida. Embora em
tempos de crise possa ser necessário personificar os responsáveis por delitos
sociais — neste caso, focando-se em uma ínfima minoria dos poderosos —, o que
se exige, acima de tudo, é uma restauração ousada de uma esperança plausível,
centrada em um projeto produtivo e socialmente justo, capaz de abalar os
alicerces das antigas e degradadas estruturas econômicas e mentais. Porque,
para que a esquerda tenha novamente uma chance de liderar a nação, não deve
fazê-lo apenas tentando administrar as condições de estagnação e desastre.
¨ O estancamento da
economia da Argentina
O
informe que aqui se apresenta sobre a evolução recente da economia argentina é
uma tradução do Informe de conjuntura macroeconômica nº. 18 do CONICET
da Universidade de Buenos Aires, elaborado por Joaquin Waldman e sua equipe.
Ei-lo:
A
economia [argentina] teve um julho para esquecer: o Estimador Mensal de
Atividade Econômica (EMAE) do INDEC despencou 2,9% nesse mês, uma queda de
magnitude não vista desde a pandemia. Como essa estimativa é muito sensível ao
surgimento de novos dados, ela pode mudar em publicações futuras. No entanto,
assumindo que esse valor vá ser confirmado, tem-se um resultado trágico; como
mostra o gráfico em sequência, a queda se mostra como uma das piores da
histórica recente. Apenas 1% dos dados recolhidos no passado mostrou algo pior;
na verdade, foi o sexto dado pior dos 270 meses.
A queda
na atividade em julho foi generalizada: segundo os dados setoriais disponíveis
apenas dois dos 15 setores permaneceram em níveis positivos. Assim, o boom nos
setores que lideraram o crescimento estabilizou nos últimos meses. Esse grupo
inclui as atividades agrícolas, mineração e intermediação financeira, além de
pesca, restaurantes e hotéis. Esse grupo de setores cresceu 24,1% de novembro
de 2023 até o primeiro trimestre deste ano.
Desde
então, sua produção caiu 2,6%. O restante da economia, por outro lado, variou
apenas 1,1% do início do governo até o primeiro trimestre de 2026, e caiu 2,9%
nos últimos quatro meses. Após um período de crescimento heterogêneo, a
estagnação se mostra bem consolidada.
Os
principais indicadores de consultorias privadas de agosto não indicam uma
reversão rápida da queda. O Índice Construya, que mede as quantidades de
insumos da construção vendidas ao setor privado, caiu 3,5% mensalmente; o
Índice de Produção Industrial preparado pela FIEL caiu 0,9% mensalmente; o
Índice de Confiança do Consumidor da UTDT caiu 1,1% mensalmente; e o consumo em
massa medido pela consultoria Scentia caiu 0,7% mensalmente.
Por sua
vez, a arrecadação (recaudación) de impostos vinculados à atividade
econômica em geral também não se recuperou, como mostrado no Gráfico 4. Pior
ainda, eles continuaram sua tendência negativa também em setembro. Assim, é
difícil esperar que o terceiro trimestre mostre crescimento em comparação com o
segundo.
Na
verdade, a queda trimestral que estimamos estaria ligada à queda da atividade
no segundo trimestre do ano, quando contraiu 0,6% em comparação ao primeiro.
Dessa forma, a economia entraria em recessão técnica, pondo fim à recuperação
anterior.
A
economia capitalista da Argentina caracteriza-se por ser muito volátil, com
crises frequentes. A atual seria a décima primeira recessão desde 1993. Essas
recessões tiveram uma duração mediana de um ano, com queda de 6%.
Ao
analisar as razões por trás dessas dez recessões, dois elementos se destacam
como os mais comuns. Três deles ocorreram após uma desvalorização significativa
(2013-14, 2015-16 e 2018) e outros três são atribuíveis a eventos
internacionais (1995, 1998-2000 e 2008-09). Por fim, a crise de 2019-20
combinou ambos os fatores: a queda na atividade causada por um salto no dólar
foi posteriormente agravada pela pandemia.
Nos
três eventos restantes, a atividade contraiu sem desvalorização ou choque
externo, constituindo uma referência para o caso atual. Essas recessões
ocorreram em 2001-02.5, 2011-12 e 2022-24 e, embora sejam diferentes entre si,
têm elementos comuns que contribuem para a compreensão do presente.
As
recessões selecionadas tiveram um colapso nos investimentos. Em duas delas
(2001 e 2022), tensões financeiras levaram a expectativas de baixo crescimento,
reduzindo a demanda por máquinas e equipamentos. No evento restante (2011-12) e
na crise de 2022, o contexto de controles de importação e movimentações de
capitais, que limitaram a possibilidade de compra de máquinas, contribuíram
para a queda dos investimentos.
Por
outro lado, duas dessas crises começaram com taxas de câmbio real muito baixas
($1.200, aos preços atuais, em II-01 e $1.600 em III-22). Isso diminuiu a
competitividade, desencorajando a produção negociável – a indústria caiu 22% na
recessão de 2001-02 e 18% na de 2022-24.6 Por sua vez, a valorização reduziu a
demanda por bens não comercializáveis, afetando seriamente a construção, que
caiu nesses dois eventos.
Em
todas as três crises, o consumo privado caiu. Em particular, a crise de 2001-02
mostrou um colapso de 17% nessa variável, devido à deterioração da renda do
trabalho que não foi suavizada pelo crédito, devido às altas taxas de juros.
Finalmente, em duas dessas recessões (2001-02 e 2022-24) pode-se identificar um
corte nos gastos públicos que retardou a recuperação.
Identificamos
quatro elementos em recessões passadas que são replicados no caso atual. O
primeiro deles vem a ser uma taxa de câmbio real (TCR) deliberadamente baixa
para segurar a inflação, o que afeta a competitividade das atividades
negociáveis e torna as atividades não negociáveis mais caras.
O
segundo deles aponta para rendas do trabalho fortemente apertadas. Diferente de
2001-02, isso não se manifesta em uma alta taxa de desemprego, mas em uma
informalidade crescente, com salários reais muito abaixo dos salários formais.
Isso reduz o dinamismo no consumo privado. Terceiro, a volatilidade das taxas
interbancárias e as altas inadimplências tornam os empréstimos caros, impedindo
uma reativação por meio de crédito. Por fim, tanto o consumo quanto o
investimento público ainda são muito baixos, impedindo o Estado de liderar a
reativação.
Em
resumo, nem famílias, nem empresas, nem o governo são candidatos naturais para
resolver a recessão. Isso gera uma demanda anêmica, compatível com a produção
estagnada. Para piorar, a gestão da taxa de câmbio e o forte influxo de moeda
estrangeira proveniente da venda de hidrocarbonetos significam que o restante
do mundo também não impulsiona a demanda dos setores produtivos mais
importantes.
Assim,
as projeções de crescimento diagnosticam um desempenho pior do que o observado
após outros planos de estabilização, e em constante revisão para baixo.
Fonte:
Por Álvaro García Linera, em Other News | Tradução: Antonio Martins, em Outras
Palavras/A Terra é Redonda

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