segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Michel Goulart da Silva: O presente do irracionalismo

Os últimos anos foram marcados por ataques contra o conhecimento histórico, como parte do combate do irracionalismo contra os diversos campos da ciência. Cada área do conhecimento vem sentindo o impacto do negacionismo e do questionamento a suas bases epistemológicas mais básicas, sendo atacadas pelas aberrações produzidas pelo irracionalismo, entendido como uma forma de olhar o mundo que se funda “em um conhecimento intuitivo, que não requer nenhuma evidência ou comprovação”. O revisionismo sobre os crimes da ditadura e o movimento antivacina, entre outras expressões abomináveis de ignorância, são parte de um projeto de destruição da razão e de retorno ao obscurantismo anticientífico que remonta a antes do Renascimento. Os reacionários assim interpretam essa dinâmica:

“Os processos intelectuais e materiais que têm seu ponto de partida no Renascimento têm, como ponto de chegada, a mais imponente série de transformações que chamamos de Revolução Industrial, que teve início após a segunda metade do século XVII e atingiu seu apogeu no XIX. Os vestígios pré-modernos que ainda poderiam sobreviver acabam destruídos pela própria dinâmica de uma sociedade que depende estruturalmente do movimento para ser o que é”.

No caso da História, esse movimento passa por procurar reescrever a forma como a sociedade encara os diversos processos vivenciados pela humanidade. Os ideólogos do anticientificismo requentam o revisionismo histórico, tendo talvez como seu primeiro inimigo a transformação social expressa pela Revolução Francesa. Quando descrevem esse processo, ressaltam as violências cometidas e, com isso, procuram demonstrar que se trata de algo traumático para a humanidade. Por exemplo, para eles, o período conhecido como “Terror se articulou muito bem com um regime cuja base era a divinização da razão”. Contudo, para esses ideólogos do presente, o problema não é exatamente a violência, e sim o que há de fundo naquele processo, que é a transformação da sociedade.

O processo genericamente conhecido como modernização – ou desenvolvimento ou outros termos que, sem necessariamente serem sinônimos, se remetem à transformação econômica e social – pode ser considerado o centro do combate dos irracionalistas. Segundo os ideólogos da destruição da razão, “a idolatria do progresso econômico, do crescimento material e da evolução dos comportamentos com destruição de todos os interditos são as forças motoras da civilização moderna”. Esses reacionários parecem preferir mais um mundo sem industrialização e dominado por pregações religiosas do que uma sociedade que centra suas ações e decisões no conhecimento científico e na racionalidade. Certamente essa sociedade tem suas contradições, denunciadas em especial pelos socialistas, mas, a despeito das necessárias críticas, não é possível deixar de destacar a importância do seu desenvolvimento econômico, político e social.

Para os setores reacionários, até mesmo a sistematização de um conhecimento científico, em especial a partir do Renascimento, associado ao fortalecimento da burguesia, é algo que coloca em risco seu idealismo, marcado por aspectos religiosos e do senso comum, assumindo posturas reacionárias em relação a qualquer coisa que tente explicar a realidade a partir de sua concretude. Criticando o progressismo que caracteriza o pensamento moderno, afirmam:

“Esta ideologia engendra um homem atrofiado e mutilado, sem vínculos com a transcendência e desconectado das instituições tradicionais que serviam como pontos de referência, amparo, proteção e orientação para a existência dos indivíduos. Neste sentido, a família, a escola, a igreja e a sociedade em geral não devem ser mais concebidas como instituições responsáveis pela transmissão de um mundo, mas necessitam ser algo de um plano de desconstrução”.

No limite, não seria equivocado afirmar que esse tipo de teoria reacionária é contrário até mesmo às conquistas da democracia liberal nascida das Revoluções Burguesas. Essas revoluções foram um marco fundamental da entrada das massas no processo político, ainda que, em um primeiro momento, tivessem a burguesia como direção política. O combate irracionalista dos reacionários está marcado pelo medo que sentem do proletariado e de um governo dos trabalhadores. Esses setores entendem que “as massas estão sociologicamente predispostas a perder a bússola que é o senso comum, a desconfiar da realidade que têm diante de seus olhos, e por isso é tão fácil enganá-las ou, ao menos, torná-las apáticas e cínicas”.

Os reacionários entendem que a entrada em cena do proletariado pode colocar em risco qualquer forma de dominação, como ocorreu na dinâmica europeia, que redundou nas revoluções de 1848. Edmund Burke, um dos principais pensadores do ideário conservador, frequentemente reivindicado pelos autores contemporâneos, crítico do processo revolucionário francês, no final do século XVIII, desqualificava a participação popular nas questões relacionadas ao poder. Escreveu em uma de suas obras mais conhecidas, de 1790:

“A ocupação de um cabeleireiro, ou de um fabricante de velas – para não mencionar outras ocupações mais servis –, não pode ser motivo de honra para qualquer pessoa. Essas categorias de homens não devem ser oprimidas pelo Estado, embora este último sofra a opressão quando cidadãos como eles, individual ou coletivamente, têm a permissão de comandar”.

Esse desprezo por um governo de pessoas que ocupam profissões “servis” fica mais evidente quando se analisa a forma como encara a desigualdade. Segundo Burke,

“[…] a característica essencial da propriedade, resultante dos princípios combinados de sua aquisição e conservação, consiste em ser desigual. Por conseguinte, torna-se necessário protegê-la da possibilidade de qualquer perigo, uma vez excita a inveja e estimula a rapacidade”.

Os reacionários afirmam que suas ideias, um amálgama idealista de interpretações ilógicas, têm o mesmo status que o marxismo, que é uma compreensão científica da realidade. Os criacionistas dizem algo semelhante sobre a teoria da evolução, alguns até afirmando que ambas seriam interpretações válidas. Usam para isso um discurso relativista semelhante àquele difundido pelos defensores do pós-modernismo, para os quais seria impossível investigar uma realidade concreta, limitando-se a construir narrativas que apresentam interpretações parciais. Esse tipo de ideia “declara que todas as crenças são igualmente justificadas pelo consenso da comunidade, que em si mesma baseia-se no poder social, na retórica, e no costume. Não haveria verdade objetiva sobre o mundo real, à qual o conhecimento cientificamente justificado poderia aspirar alcançar”.

Na cruzada dos reacionários, o embate não se resume a uma disputa de narrativas, mas se dá entre racionalismo e irracionalismo, conhecimento científico e senso comum, transformação social ou manutenção da ordem. Os setores reacionários defendem a “resistência aos processos de racionalização”, mostrando-se favoráveis “ao desejo de harmonia social de papeis e diferenças, ao horror pelo construtivismo dos engenheiros sociais”. O tradicionalismo é uma das marcas desse tipo de ideia. Criticando o pensamento moderno e progressista em seu conjunto, afirmam:

“A direita econômica e tecnicista e a esquerda em suas diversas vertentes fazem da modernização e do desenvolvimento ideias fixas. O crescimento interior, o desabrochar da dimensão espiritual e cultural das pessoas e das comunidades são tomados como algo meramente ornamental nesse tipo de imagem do mundo que, em resumo, resulta num gigantesco empobrecimento espiritual e na atrofia das faculdades mais elevadas do ser humano”.

Para os reacionários, não faria diferença se ainda acreditássemos que a humanidade nasceu no Jardim do Éden ou que a maioria das pessoas morresse em massa por epidemias. Defendem um “espírito tradicional”, que

“[…] em seu estado puro, significa superioridade do ser, primazia do imutável, prevalência da intuição intelectual; significa também existência e reconhecimento pelos indivíduos e pela sociedade de verdades universais e meta-históricas que permitem aos seres humanos e culturas vivenciarem a eternidade no fluxo do tempo”.

Na defesa de uma metafísica das tradições, não se importam com a destruição da razão e da ciência. Em suas ideias, para a maioria da população, seria garantido apenas algo como uma terra arrasada da qual mal podem tirar seu sustento, a partir das migalhas que eventualmente caíssem das mesas dos poderosos, desde que acreditassem em misteriosas forças superiores. Os reacionários temem a transformação da sociedade e, por isso, desqualificam o conhecimento científico, dependendo da ignorância e da destruição da razão para que se mantenham no poder.

¨      A carta de Flávio Bolsonaro. Por Luis Felipe Miguel

“Vexame” é a palavra que define a cartinha que o candidato derrotado Flávio Bolsonaro divulgou assim que se homiziou nos Estados Unidos. Ou melhor: “cartinhas”, no plural, já que foram se sucedendo versões, como se ele não tivesse sequer lido, antes de publicar, aquilo que o ChatGPT tinha escrito para ele. Corrigiu o brasão da República, acertou a grafia do nome do próprio país, passou de “presidente eleito” a “presidente”, de “presidente” a “líder”, se nunca deixar de ser apenas um mau perdedor.

A carta, em si, nem merece comentário, de tão tosca que é. Mas tem um ponto ao qual quero me referir, pela centralidade que tomou na narrativa golpista pós-segundo turno, que é a ideia da “impossibilidade matemática” da vitória de Lula.

Isso não tem pé nem cabeça. Se fosse impossível virar a votação, não seria necessário um segundo turno. Sim, cálculos simples mostram que o recuo da abstenção basta para ter produzido a votação de Lula. Mas, além disso, cabe sempre lembrar que o voto do primeiro turno não vincula o voto do segundo turno, isto é, o eleitor pode mudar sua escolha. Se Lula tivesse obtido 100% dos votos no segundo turno, poderíamos falar de uma “impossibilidade política”, mas não de uma “impossibilidade matemática”. A única impossibilidade matemática seria se ele tivesse obtido mais votos do que o total de eleitores registrados.

O fato é que, surpreendendo um total de zero pessoa, Flávio Bolsonaro priorizou escapar da justiça brasileira a liderar a direita. O que joga luz sobre todo o processo que o levou a ser candidato.

Quando Jair escolheu Flávio, a primeira impressão era de que se tratava de um factoide. Um sujeito fraco, frouxo, sem luz, com telhado de vidro muito evidente: por que ele? Além disso, parecia que, para o primogênito dos Bolsonaro, era mais negócio garantir uma eleição tranquila para senador, isto é, mais oito anos de foro privilegiado. E evitar a exposição que uma campanha presidencial inevitavelmente traria.

Bom, a exposição veio mesmo e nos fez entender. A amplitude e a gravidade dos esquemas em que Flávio Bolsonaro estava metido é tão grande que talvez o mandato de senador fosse insuficiente para protegê-lo. Ganhar a presidência era, portanto, um imperativo de autopreservação.

Não deu certo e ele teve que partir para esse exílio dourado nos Estados Unidos. Cabe agora à justiça brasileira proceder celeremente, ir atrás dos ativos em nome de Flávio Bolsonaro e de seus laranjas, congelar suas propriedades. Quem sabe, lá de Miami, ele acabará tendo que fazer o que nunca fez antes: trabalhar para ganhar a vida.

O vexame parece ter acelerado o processo de conversão da direita brasileira para o pós-bolsonarismo. É ilusório pensar que veremos magicamente surgir uma direita civilizada e respeitosa da democracia. O mais provável é que, com a erosão da liderança da família Bolsonaro, a gente veja um distanciamento, mas não uma real ruptura.

No momento, ainda é muito arriscado, do ponto de vista eleitoral, de fato romper. Temos aí os inúmeros exemplos de todos aqueles que tentaram esse passo e viram acabar as suas carreiras políticas: Joice Hasselmann, Alexandre Frota, Otoni de Paula. Janaína Paschoal tentou manter uma posição de certa independência e também não se elegeu. Sérgio Moro, com a falta de dignidade que lhe é característica, voltou com o rabinho entre as pernas. E assim por diante.

Assim, o caminho parece ser prestar uma homenagem ritual ao velho Jair Bolsonaro, mas ignorar sua liderança decadente. Mas não é só a homenagem ritual: ainda parece ser necessário entregar à base a dose de radicalismo a qual ela se acostumou.

Só que agentes políticos dotados de um mínimo de racionalidade pensam duas vezes antes de embarcar num projeto golpista derrotado de antemão. Depois do 8 de janeiro, tivemos um movimento similar, de recolhimento e afastamento de vozes importantes da direita bolsonarista. O movimento foi contido e revertido pela capacidade da direita barrar boa parte da resposta das instituições e emplacar, pelo menos para consumo próprio, o discurso de que aquilo não tinha sido uma tentativa de golpe. Mas, agora, o ChatGPT de Flávio Bolsonaro fechou essa porta.

Por isso, Valdemar Costa Neto, presidente do PL, se apressou em reconhecer a vitória de Lula. Velho sobrevivente de muitas batalhas, nas quais sempre envergou as cores do fisiologismo mais desavergonhado, ele soube que era a hora de se desatrelar do candidato de seu partido. Tarcísio de Freitas, o governador de São Paulo, menos sábio, ecoou a cantilena de Flávio Bolsonaro num primeiro momento, mas já deu um passo atrás e também admitiu o resultado da eleição.

Rogério Marinho, o coordenador da campanha derrotada, declarou que não existe sinal de fraude. Sua cara de desalento na entrevista coletiva que concedeu após a fuga de Flávio Bolsonaro é impagável. É a prova provada de que o candidato derrotado prioriza seu interesse pessoal sem sequer conversar com os aliados mais próximos.

A imprensa notícia que já há parlamentares pensando em deixar o PL. Percebem que a liderança do clã está fazendo água, que veremos uma briga de foice no escuro para decidir quem vai herdar o espólio, entendem que estarão mais confortáveis se refugiando no Centrão. É um movimento muito positivo, nas atuais circunstâncias.

De muitas outras lideranças da direita, o que se vê é o silêncio. Michelle Bolsonaro usa o truque fácil de se refugiar na posição de “mulherzinha“, mais preocupada com o lar do que com a República. Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, toda a tropa de choque digital do bolsonarismo simplesmente finge não ver o que está acontecendo.

Em questão de horas, Flávio Bolsonaro, com V de Vorcaro, passou de pretenso salvador do Brasil a lixo tóxico.

Envolvido com as eleições de meio termo, das quais provavelmente sairá derrotado, portanto mais preocupado com seu próprio projeto de golpe para não reconhecer o resultado, Donald Trump já deixou claro que terá um envolvimento mínimo no desenrolar dos acontecimentos brasileiros. Não quis isso faça a diferença, porque tudo indica que Flávio Bolsonaro já deu seu show e, daqui pra frente, também prefere imergir. A agitação provavelmente ficará nas mãos de seu irmão mais exaltado, o também foragido Eduardo Bolsonaro, e de blogueiros de segunda linha como Paulo Figueiredo e Allan dos Santos, que não eram levadas a sério há muito tempo e que agora poderão ser pura e simplesmente ignorados.

Temos um outro front importante, que é o Judiciário. Kássio com K, o famoso KN das festinhas de Daniel Vorcaro, rapidamente abandonou o modo “capacho da família miliciana”, em que anunciava até que iria soltar Jair Bolsonaro para que subisse a rampa com o primogênito, e adotou o figurino de guardião das instituições republicanas. Não sabemos quanto tempo isto vai durar, mas mostra que Flavio Bolsonaro esticou tanto a corda que está comprometendo até mesmo sua bancada no STF.

 

Fonte: Outras Palavras/A Terra é Redonda

 

Nenhum comentário: