Michel
Goulart da Silva: O presente do irracionalismo
Os
últimos anos foram marcados por ataques contra o conhecimento histórico, como
parte do combate do irracionalismo contra os diversos campos da ciência. Cada
área do conhecimento vem sentindo o impacto do negacionismo e do questionamento
a suas bases epistemológicas mais básicas, sendo atacadas pelas aberrações
produzidas pelo irracionalismo, entendido como uma forma de olhar o mundo que
se funda “em um conhecimento intuitivo, que não requer nenhuma evidência ou
comprovação”. O revisionismo sobre os crimes da ditadura e o movimento
antivacina, entre outras expressões abomináveis de ignorância, são parte de um
projeto de destruição da razão e de retorno ao obscurantismo anticientífico que
remonta a antes do Renascimento. Os reacionários assim interpretam essa
dinâmica:
“Os
processos intelectuais e materiais que têm seu ponto de partida no Renascimento
têm, como ponto de chegada, a mais imponente série de transformações que
chamamos de Revolução Industrial, que teve início após a segunda metade do
século XVII e atingiu seu apogeu no XIX. Os vestígios pré-modernos que ainda
poderiam sobreviver acabam destruídos pela própria dinâmica de uma sociedade
que depende estruturalmente do movimento para ser o que é”.
No caso
da História, esse movimento passa por procurar reescrever a forma como a
sociedade encara os diversos processos vivenciados pela humanidade. Os
ideólogos do anticientificismo requentam o revisionismo histórico, tendo talvez
como seu primeiro inimigo a transformação social expressa pela Revolução
Francesa. Quando descrevem esse processo, ressaltam as violências cometidas e,
com isso, procuram demonstrar que se trata de algo traumático para a
humanidade. Por exemplo, para eles, o período conhecido como “Terror se
articulou muito bem com um regime cuja base era a divinização da razão”.
Contudo, para esses ideólogos do presente, o problema não é exatamente a
violência, e sim o que há de fundo naquele processo, que é a transformação da
sociedade.
O
processo genericamente conhecido como modernização – ou desenvolvimento ou
outros termos que, sem necessariamente serem sinônimos, se remetem à
transformação econômica e social – pode ser considerado o centro do combate dos
irracionalistas. Segundo os ideólogos da destruição da razão, “a idolatria do
progresso econômico, do crescimento material e da evolução dos comportamentos
com destruição de todos os interditos são as forças motoras da civilização
moderna”. Esses reacionários parecem preferir mais um mundo sem
industrialização e dominado por pregações religiosas do que uma sociedade que
centra suas ações e decisões no conhecimento científico e na racionalidade.
Certamente essa sociedade tem suas contradições, denunciadas em especial pelos
socialistas, mas, a despeito das necessárias críticas, não é possível deixar de
destacar a importância do seu desenvolvimento econômico, político e social.
Para os
setores reacionários, até mesmo a sistematização de um conhecimento científico,
em especial a partir do Renascimento, associado ao fortalecimento da burguesia,
é algo que coloca em risco seu idealismo, marcado por aspectos religiosos e do
senso comum, assumindo posturas reacionárias em relação a qualquer coisa que
tente explicar a realidade a partir de sua concretude. Criticando o
progressismo que caracteriza o pensamento moderno, afirmam:
“Esta
ideologia engendra um homem atrofiado e mutilado, sem vínculos com a
transcendência e desconectado das instituições tradicionais que serviam como
pontos de referência, amparo, proteção e orientação para a existência dos
indivíduos. Neste sentido, a família, a escola, a igreja e a sociedade em geral
não devem ser mais concebidas como instituições responsáveis pela transmissão
de um mundo, mas necessitam ser algo de um plano de desconstrução”.
No
limite, não seria equivocado afirmar que esse tipo de teoria reacionária é
contrário até mesmo às conquistas da democracia liberal nascida das Revoluções
Burguesas. Essas revoluções foram um marco fundamental da entrada das massas no
processo político, ainda que, em um primeiro momento, tivessem a burguesia como
direção política. O combate irracionalista dos reacionários está marcado pelo
medo que sentem do proletariado e de um governo dos trabalhadores. Esses
setores entendem que “as massas estão sociologicamente predispostas a perder a
bússola que é o senso comum, a desconfiar da realidade que têm diante de seus
olhos, e por isso é tão fácil enganá-las ou, ao menos, torná-las apáticas e
cínicas”.
Os
reacionários entendem que a entrada em cena do proletariado pode colocar em
risco qualquer forma de dominação, como ocorreu na dinâmica europeia, que
redundou nas revoluções de 1848. Edmund Burke, um dos principais pensadores do
ideário conservador, frequentemente reivindicado pelos autores contemporâneos,
crítico do processo revolucionário francês, no final do século XVIII,
desqualificava a participação popular nas questões relacionadas ao poder.
Escreveu em uma de suas obras mais conhecidas, de 1790:
“A
ocupação de um cabeleireiro, ou de um fabricante de velas – para não mencionar
outras ocupações mais servis –, não pode ser motivo de honra para qualquer
pessoa. Essas categorias de homens não devem ser oprimidas pelo Estado, embora
este último sofra a opressão quando cidadãos como eles, individual ou
coletivamente, têm a permissão de comandar”.
Esse
desprezo por um governo de pessoas que ocupam profissões “servis” fica mais
evidente quando se analisa a forma como encara a desigualdade. Segundo Burke,
“[…] a
característica essencial da propriedade, resultante dos princípios combinados
de sua aquisição e conservação, consiste em ser desigual. Por
conseguinte, torna-se necessário protegê-la da possibilidade de qualquer
perigo, uma vez excita a inveja e estimula a rapacidade”.
Os
reacionários afirmam que suas ideias, um amálgama idealista de interpretações
ilógicas, têm o mesmo status que o marxismo, que é uma compreensão científica
da realidade. Os criacionistas dizem algo semelhante sobre a teoria da
evolução, alguns até afirmando que ambas seriam interpretações válidas. Usam
para isso um discurso relativista semelhante àquele difundido pelos defensores
do pós-modernismo, para os quais seria impossível investigar uma realidade
concreta, limitando-se a construir narrativas que apresentam interpretações
parciais. Esse tipo de ideia “declara que todas as crenças são
igualmente justificadas pelo consenso da comunidade, que em si mesma baseia-se
no poder social, na retórica, e no costume. Não haveria verdade objetiva sobre
o mundo real, à qual o conhecimento cientificamente justificado poderia aspirar
alcançar”.
Na
cruzada dos reacionários, o embate não se resume a uma disputa de narrativas,
mas se dá entre racionalismo e irracionalismo, conhecimento científico e senso
comum, transformação social ou manutenção da ordem. Os setores reacionários
defendem a “resistência aos processos de racionalização”, mostrando-se
favoráveis “ao desejo de harmonia social de papeis e diferenças, ao horror pelo
construtivismo dos engenheiros sociais”. O tradicionalismo é uma das marcas
desse tipo de ideia. Criticando o pensamento moderno e progressista em seu
conjunto, afirmam:
“A
direita econômica e tecnicista e a esquerda em suas diversas vertentes fazem da
modernização e do desenvolvimento ideias fixas. O crescimento interior, o
desabrochar da dimensão espiritual e cultural das pessoas e das comunidades são
tomados como algo meramente ornamental nesse tipo de imagem do mundo que, em
resumo, resulta num gigantesco empobrecimento espiritual e na atrofia das
faculdades mais elevadas do ser humano”.
Para os
reacionários, não faria diferença se ainda acreditássemos que a humanidade
nasceu no Jardim do Éden ou que a maioria das pessoas morresse em massa por
epidemias. Defendem um “espírito tradicional”, que
“[…] em
seu estado puro, significa superioridade do ser, primazia do imutável,
prevalência da intuição intelectual; significa também existência e
reconhecimento pelos indivíduos e pela sociedade de verdades universais e
meta-históricas que permitem aos seres humanos e culturas vivenciarem a
eternidade no fluxo do tempo”.
Na
defesa de uma metafísica das tradições, não se importam com a destruição da
razão e da ciência. Em suas ideias, para a maioria da população, seria
garantido apenas algo como uma terra arrasada da qual mal podem tirar seu
sustento, a partir das migalhas que eventualmente caíssem das mesas dos
poderosos, desde que acreditassem em misteriosas forças superiores. Os
reacionários temem a transformação da sociedade e, por isso, desqualificam o
conhecimento científico, dependendo da ignorância e da destruição da razão para
que se mantenham no poder.
¨ A carta de Flávio
Bolsonaro. Por Luis Felipe Miguel
“Vexame”
é a palavra que define a cartinha que o candidato derrotado Flávio Bolsonaro
divulgou assim que se homiziou nos Estados Unidos. Ou melhor: “cartinhas”, no
plural, já que foram se sucedendo versões, como se ele não tivesse sequer lido,
antes de publicar, aquilo que o ChatGPT tinha escrito para ele. Corrigiu o
brasão da República, acertou a grafia do nome do próprio país, passou de
“presidente eleito” a “presidente”, de “presidente” a “líder”, se nunca deixar
de ser apenas um mau perdedor.
A
carta, em si, nem merece comentário, de tão tosca que é. Mas tem um ponto ao
qual quero me referir, pela centralidade que tomou na narrativa golpista
pós-segundo turno, que é a ideia da “impossibilidade matemática” da vitória de
Lula.
Isso
não tem pé nem cabeça. Se fosse impossível virar a votação, não seria
necessário um segundo turno. Sim, cálculos simples mostram que o recuo da
abstenção basta para ter produzido a votação de Lula. Mas, além disso, cabe
sempre lembrar que o voto do primeiro turno não vincula o voto do segundo
turno, isto é, o eleitor pode mudar sua escolha. Se Lula tivesse obtido 100%
dos votos no segundo turno, poderíamos falar de uma “impossibilidade
política”, mas não de uma “impossibilidade matemática”. A única impossibilidade
matemática seria se ele tivesse obtido mais votos do que o total de eleitores
registrados.
O fato
é que, surpreendendo um total de zero pessoa, Flávio Bolsonaro priorizou
escapar da justiça brasileira a liderar a direita. O que joga luz sobre todo o
processo que o levou a ser candidato.
Quando
Jair escolheu Flávio, a primeira impressão era de que se tratava de um
factoide. Um sujeito fraco, frouxo, sem luz, com telhado de vidro muito
evidente: por que ele? Além disso, parecia que, para o primogênito dos
Bolsonaro, era mais negócio garantir uma eleição tranquila para senador, isto
é, mais oito anos de foro privilegiado. E evitar a exposição que uma campanha
presidencial inevitavelmente traria.
Bom, a
exposição veio mesmo e nos fez entender. A amplitude e a gravidade dos esquemas
em que Flávio Bolsonaro estava metido é tão grande que talvez o mandato de
senador fosse insuficiente para protegê-lo. Ganhar a presidência era, portanto,
um imperativo de autopreservação.
Não deu
certo e ele teve que partir para esse exílio dourado nos Estados Unidos. Cabe
agora à justiça brasileira proceder celeremente, ir atrás dos ativos em nome de
Flávio Bolsonaro e de seus laranjas, congelar suas propriedades. Quem sabe, lá
de Miami, ele acabará tendo que fazer o que nunca fez antes: trabalhar para
ganhar a vida.
O
vexame parece ter acelerado o processo de conversão da direita brasileira para
o pós-bolsonarismo. É ilusório pensar que veremos magicamente surgir uma
direita civilizada e respeitosa da democracia. O mais provável é que, com a
erosão da liderança da família Bolsonaro, a gente veja um distanciamento, mas
não uma real ruptura.
No
momento, ainda é muito arriscado, do ponto de vista eleitoral, de fato romper.
Temos aí os inúmeros exemplos de todos aqueles que tentaram esse passo e viram
acabar as suas carreiras políticas: Joice Hasselmann, Alexandre Frota, Otoni de
Paula. Janaína Paschoal tentou manter uma posição de certa independência e
também não se elegeu. Sérgio Moro, com a falta de dignidade que lhe é
característica, voltou com o rabinho entre as pernas. E assim por diante.
Assim,
o caminho parece ser prestar uma homenagem ritual ao velho Jair Bolsonaro, mas
ignorar sua liderança decadente. Mas não é só a homenagem ritual: ainda parece
ser necessário entregar à base a dose de radicalismo a qual ela se acostumou.
Só que
agentes políticos dotados de um mínimo de racionalidade pensam duas vezes antes
de embarcar num projeto golpista derrotado de antemão. Depois do 8 de janeiro,
tivemos um movimento similar, de recolhimento e afastamento de vozes
importantes da direita bolsonarista. O movimento foi contido e revertido pela
capacidade da direita barrar boa parte da resposta das instituições e emplacar,
pelo menos para consumo próprio, o discurso de que aquilo não tinha sido uma
tentativa de golpe. Mas, agora, o ChatGPT de Flávio Bolsonaro fechou essa
porta.
Por
isso, Valdemar Costa Neto, presidente do PL, se apressou em reconhecer a
vitória de Lula. Velho sobrevivente de muitas batalhas, nas quais sempre
envergou as cores do fisiologismo mais desavergonhado, ele soube que era a hora
de se desatrelar do candidato de seu partido. Tarcísio de Freitas, o governador
de São Paulo, menos sábio, ecoou a cantilena de Flávio Bolsonaro num primeiro
momento, mas já deu um passo atrás e também admitiu o resultado da eleição.
Rogério
Marinho, o coordenador da campanha derrotada, declarou que não existe sinal de
fraude. Sua cara de desalento na entrevista coletiva que concedeu após a fuga
de Flávio Bolsonaro é impagável. É a prova provada de que o candidato derrotado
prioriza seu interesse pessoal sem sequer conversar com os aliados mais
próximos.
A
imprensa notícia que já há parlamentares pensando em deixar o PL. Percebem que
a liderança do clã está fazendo água, que veremos uma briga de foice no escuro
para decidir quem vai herdar o espólio, entendem que estarão mais confortáveis
se refugiando no Centrão. É um movimento muito positivo, nas atuais
circunstâncias.
De
muitas outras lideranças da direita, o que se vê é o silêncio. Michelle
Bolsonaro usa o truque fácil de se refugiar na posição de “mulherzinha“, mais
preocupada com o lar do que com a República. Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato,
toda a tropa de choque digital do bolsonarismo simplesmente finge não ver o que
está acontecendo.
Em
questão de horas, Flávio Bolsonaro, com V de Vorcaro, passou de pretenso
salvador do Brasil a lixo tóxico.
Envolvido
com as eleições de meio termo, das quais provavelmente sairá derrotado,
portanto mais preocupado com seu próprio projeto de golpe para não reconhecer o
resultado, Donald Trump já deixou claro que terá um envolvimento mínimo no
desenrolar dos acontecimentos brasileiros. Não quis isso faça a diferença,
porque tudo indica que Flávio Bolsonaro já deu seu show e, daqui pra frente,
também prefere imergir. A agitação provavelmente ficará nas mãos de seu irmão
mais exaltado, o também foragido Eduardo Bolsonaro, e de blogueiros de segunda
linha como Paulo Figueiredo e Allan dos Santos, que não eram levadas a sério há
muito tempo e que agora poderão ser pura e simplesmente ignorados.
Temos
um outro front importante, que é o Judiciário. Kássio com K, o famoso KN
das festinhas de Daniel Vorcaro, rapidamente abandonou o modo “capacho da
família miliciana”, em que anunciava até que iria soltar Jair Bolsonaro para
que subisse a rampa com o primogênito, e adotou o figurino de guardião das
instituições republicanas. Não sabemos quanto tempo isto vai durar, mas mostra
que Flavio Bolsonaro esticou tanto a corda que está comprometendo até mesmo sua
bancada no STF.
Fonte:
Outras Palavras/A Terra é Redonda

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