Quem
tem medo do socialismo da Geração Z?
O que
martela na mente da classe dominante atualmente? Se as páginas da The
Economist são um indicador confiável, é o espectro do “socialismo da
Geração Z”:
o crescente apoio entre os jovens à taxação de bilionários, à socialização da
economia e ao fim do genocídio em Gaza, como evidenciado pela popularidade de
políticos como o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, o líder do Partido
Verde da Inglaterra, Zack Polanski, ou o candidato à presidência francesa,
Jean-Luc Mélenchon. Em meados deste ano, a revista dedicou uma edição inteira a
“contra-atacar” essa “ameaça à prosperidade”, convocando outros liberais
defensores do livre mercado a “pararem de se desculpar” e a apresentarem uma
“defesa mais incisiva do capitalismo”. A estratégia funcionou: a caixa de
entrada da revista foi inundada com respostas críticas, uma seleção das quais
foi posteriormente publicada em uma seção
intitulada “Fomos rápidos demais em atacar o socialismo da Geração Z?”.
“Em
meados deste ano, a revista The Economist dedicou uma edição inteira a
‘contra-atacar’ o ‘socialismo da Geração Z’, uma ‘ameaça à prosperidade’.”
A
verdadeira reação, no entanto, veio das ruas. Ao redor do mundo, movimentos de
massa liderados pela Geração Z estão denunciando o aumento do custo de vida e a
corrupção política, além de exigirem melhorias na educação, saúde e proteção
ambiental. A Índia é um exemplo disso: no mesmo dia em que o editorial da The
Economist foi publicado, dezenas de milhares de jovens manifestantes
enfurecidos tomaram as ruas de Nova Déli, travando confrontos com uma força
policial local desorientada e violenta, paralisando o centro da capital
indiana. Os protestos foram desencadeados por declarações do presidente do
Supremo Tribunal da Índia, Surya Kant, que comparou jovens desempregados a
“baratas” e “parasitas” durante uma audiência na Suprema Corte. Inicialmente
focado em melhorias no sistema educacional, o movimento ampliou sua plataforma
para incluir demandas por reformas eleitorais e econômicas.
Os protestos das
baratas
na Índia são apenas os mais recentes de uma série de levantes da Geração Z que
inicialmente se concentraram principalmente na Ásia e na África. No Nepal, Madagascar, Bangladesh e Sri Lanka, movimentos
estudantis derrubaram governos inteiros. Em outros lugares, os protestos foram
brutalmente reprimidos ou até mesmo culminaram em uma sangrenta guerra civil,
como em Mianmar.
Neste
outono, testemunhamos uma onda de mobilizações em massa lideradas por jovens em
diversos países europeus. Na França, Bélgica e Itália, estudantes do ensino
médio têm liderado protestos massivos contra a
austeridade na educação; na Espanha e em Portugal, jovens estão à frente de
manifestações contra o aumento exorbitante dos preços dos
imóveis; a “
Revolução dos
Flamingos
” da Albânia exige a renúncia do primeiro-ministro devido ao desenvolvimento
turístico prejudicial ao meio ambiente e à sociedade, incluindo um resort
controverso apoiado por Jared Kushner, genro do presidente estadunidense Donald
Trump; e na Sérvia, um novo movimento, a Lista Estudantil, acaba de celebrar
uma vitória histórica, conquistando a maioria absoluta nas eleições
parlamentares de domingo, após dois anos de protestos anticorrupção e contra a
mineração liderados por jovens.
Mas
será que tudo se resume a diferenças geracionais?
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Como não pensar em gerações
Orótulo
“Geração Z” dificilmente é suficiente para descrever uma gama tão diversa de
movimentos sociais. Em muitos casos, trata-se de um clichê imposto de fora por
especialistas com pouco conhecimento das dinâmicas locais. Ao mesmo tempo, a
geração tornou-se, sem dúvida, um dos principais vetores pelos quais os
movimentos se organizam e se identificam, desde o “Gen Z Mada” de Madagascar e o “Gen Z 212” do Marrocos até o “Gen Z regelt” da Alemanha.
“Vocês mexeram com a geração errada!”, o grito de guerra do movimento de
desobediência civil de Mianmar em 2021, tornou-se um lema popular em toda a
região. Na França, o slogan “Génération 6–7 refait Mai 68” (A Geração 6–7 está
repetindo Maio de 68) viralizou.
Como os
socialistas devem se relacionar com esses movimentos baseados em gerações? Ao
contrário de classe, raça ou gênero, geração não é uma categoria que
tradicionalmente tenha estado no centro da política socialista. Designações
geracionais como “baby boomers”, “Geração X”, “millennials” ou “Geração Z” não
são produto da teoria marxista, mas sim de consultores empresariais, institutos
de pesquisa e think tanks predominantemente estadunidenses, como o Pew Research Center. Desde a década de
1960, corporações de marketing dos EUA construíram uma indústria lucrativa em
torno do estudo das atitudes e preferências de supostas coortes geracionais.
Vale a
pena destacar o completo absurdo do pensamento geracional que está no cerne
dessa “ciência” corporativa. Sua articulação mais influente continua sendo a de
William Strauss e Neil Howe, dois ex-funcionários do Congresso, que delinearam
sua “teoria” em uma série de livros, incluindo Generations [Gerações]
(1991) e The fourth turning [A Quarta Virada] (1997). Strauss e Howe
argumentam que a história humana progride em ciclos contínuos de oitenta a cem
anos. Cada ciclo corresponde aproximadamente a uma longa vida humana e pode ser
dividido em quatro estações (“viradas”), que sempre ocorrem exatamente na mesma
sequência:
Primeiro
vem um período de euforia, uma fase de constante expansão. Em seguida, vem um
despertar, um tempo de exploração espiritual e rebeldia. Depois, vem um
desmoronamento, no qual o individualismo triunfa sobre as instituições em
ruínas. Por fim, vem uma crise — a quarta virada — quando a sociedade atravessa
um grande e perigoso portal da história.
Cada
período corresponde a um dos quatro arquétipos geracionais que, por sua vez, se
geram mutuamente por meio de um estilo parental específico: o profeta, o
nômade, o herói e o artista.
Segundo
Strauss e Howe, a recorrência desses diferentes estilos de criação de filhos
pode explicar quase tudo: desenvolvimentos na cultura popular, dinâmicas no
ambiente de trabalho, crises econômicas, guerras e todos os outros grandes
eventos da história dos EUA desde 1584. Suas reflexões esotéricas são
apreciadas pelas elites políticas de todos os matizes. Steve Bannon descreveu The fourth turning como “fundamental
para sua visão de mundo” e baseou seu documentário de 2010, “Generation Zero”,
em seus argumentos. Durante o período em que foi um dos principais assessores
de Donald Trump, Bannon supostamente mantinha um exemplar
anotado do livro em sua estante. Al Gore, colega de Strauss em Harvard, chamou Generations
de “o livro mais estimulante e politicamente relevante sobre a história
estadunidense que já li” e enviou um exemplar para
cada membro do Congresso. Bill Clinton, por sua vez, teria sido influenciado pelo livro em sua
decisão de escolher Gore, também da geração baby boomer, como vice-presidente
na eleição presidencial de 1992.
“Falar
de divisões geracionais muitas vezes obscurece as relações capitalistas que
estão no cerne da crise atual. No entanto, se a onda atual de levantes ilustra
algo, é que muitos jovens vivenciam as crises de nosso tempo em termos
explicitamente geracionais.”
Não
surpreendentemente, muitos pensadores da esquerda têm demonstrado desconfiança
em relação ao discurso geracional. Comentando sobre os levantes da Geração Z do
ano passado, Vincent Bevins argumenta: “Por mais de um
século, foram os jovens os mais propensos a ir às ruas e correr riscos. Afirmar
que um levante será ‘liderado pela Geração Z’ equivale a pouco mais do que
dizer que isso acontecerá em 2025… Acho que a estrutura geracional é um sintoma
de pobreza intelectual.” Na mesma linha, Adolph Reed Jr. alerta:
A
perspectiva geracional é um produto de institutos de pesquisa e consultores que
oferecem um serviço político alternativo à organização de bases eleitorais
sólidas em torno de questões, programas e visão política — a abordagem pela
qual os movimentos políticos de fato se consolidam. Essa estratégia jamais nos
ajudará a avançar em uma agenda amplamente igualitária.
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A ruptura geracional do capitalismo
Bevins,
Reed e muitos outros têm razão ao criticar a superficialidade das estruturas
liberais baseadas em gerações. Falar de divisões geracionais muitas vezes
obscurece as relações capitalistas que estão no cerne da crise atual: o
capitalismo e seu sistema de classes e domínio de mercado. No entanto, se a
atual onda de levantes ilustra algo, é que muitos jovens vivenciam as crises de
nosso tempo em termos explicitamente geracionais.
Globalmente,
mais de dois bilhões de pessoas pertencem
à Geração Z, ou seja, aqueles nascidos entre 1997 e 2012, tornando-a a maior
geração de todos os tempos. Somada à igualmente numerosa Geração Alfa, ela
representa quase metade da população mundial. O capitalismo tem enfrentado
dificuldades para integrar essa nova e enorme geração de trabalhadores a uma
economia global em declínio. Nove em cada dez jovens trabalhadores
em países de baixa e média-baixa renda (que abrigam a maioria da população da
Geração Z) estão empregados na informalidade e sem proteção. O desemprego
juvenil também tem aumentado. A guerra de agressão
entre os EUA e Israel contra o Irã apenas exacerbou essa situação, elevando a
inflação e causando escassez global de petróleo, gás, fertilizantes e produtos
petroquímicos.
Enquanto
os protestos da Geração Z no Sul Global se concentraram principalmente em
reivindicações anticorrupção, os protestos na Europa centraram-se na
austeridade e na crise do custo de vida. Ambas as questões dizem respeito a
estratégias-chave empregadas pela classe dominante em resposta ao
aprofundamento da crise estrutural da economia global: por um lado, a fusão do
poder político e econômico e a emergência de um novo capitalismo de
Estado,
que levou a novas formas de especulação e corrupção; por outro lado, o
desmantelamento do Estado de bem-estar social e a expansão do capitalismo
rentista no núcleo imperial.
Outros
temas comuns nos protestos da Geração Z incluem o aumento dos aluguéis, o
alistamento militar obrigatório, as mudanças climáticas e a ansiedade em
relação aos impactos da inteligência artificial — todos sintomas da crise do
capitalismo que afetam desproporcionalmente os jovens. Nesse sentido, a crise
atual tem uma dimensão claramente geracional. Como argumenta o teórico político
e historiador Timothy Mitchell em seu novo livro, The alibi of capital [O álibi do
capital], isso não é por acaso. Segundo Mitchell, a injustiça intergeracional é
uma característica fundamental do capitalismo, “uma forma de vida construída
sobre a destruição dos meios de subsistência do futuro”.
“Muitos
manifestantes da Geração Z reconhecem a interação entre classe e geração. Um
elemento definidor das recentes revoltas tem sido o ódio de classe contra os
‘nepo babies’.”
Como
argumenta o economista político Keir Milburn em seu livro Generation left
[Geração esquerda], a experiência compartilhada de eventos históricos como
pandemias ou crises financeiras pode forjar o que ele chama de “gerações
políticas” — unidades geracionais que se unem em torno de uma interpretação
compartilhada dos eventos presenciados, bem como de uma resposta coletiva a
eles. Milburn observa que nem todos se tornam automaticamente parte da mesma
“geração política”. Dentro de uma determinada faixa etária, pode haver
respostas diferentes à mesma conjuntura, o que formaria diferentes “unidades
geracionais”. É importante ressaltar que isso abre espaço para considerar
diferentes posições e interesses de classe que existem mesmo dentro da mesma
faixa etária, e que devem permanecer centrais para qualquer compreensão de como
o capitalismo opera.
Muitos
manifestantes da Geração Z reconhecem essa interação entre classe e geração. Um
elemento definidor das recentes revoltas tem sido o ódio de classe contra os
“nepo babies”, os filhos de políticos e outras elites que ostentam sua riqueza
online. No Nepal, fotos que viralizaram do filho de um ministro provincial
exibindo uma enorme pilha de caixas de
presentes de marcas de luxo como Louis Vuitton, Gucci e Cartier inflamaram a
indignação popular. Nas Filipinas, internautas começaram a realizar as chamadas
“verificações de estilo de vida” no Reddit, analisando os
hábitos de consumo de políticos populares e seus familiares à luz de sua renda
declarada. Na Alemanha, estudantes do ensino médio em greve contra o
alistamento militar obrigatório adotaram o lema “Os ricos querem
guerra — os jovens, um futuro”.
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Aproveitando o momento
Não são
apenas a revista The Economist e seus seguidores que estão perplexos com
tais explosões de raiva geracional. A reação da classe dominante em geral
revela uma completa falta de conhecimento econômico e imaginação política.
Enquanto políticos como o primeiro-ministro húngaro Péter Magyar, o polonês
Donald Tusk e Donald Trump ecoam os argumentos da extrema direita, culpando a imigração em massa pelos distúrbios,
legisladores da União Europeia agora investigam o suposto papel da
interferência estrangeira russa, argelina e iraniana. Retórica semelhante pode
ser observada na Índia, onde o governo de Narendra Modi tentou retratar os
protestos da Geração Z como financiados por
estrangeiros.
Enquanto isso, reportagens liberais frequentemente se concentram no papel das
mídias sociais e em várias referências da cultura pop nos protestos, desde as
bandeiras de piratas com chapéus de palha do popular anime japonês One Piece
até a saudação de três
dedos
inspirada em Jogos Vorazes.
No
entanto, se há algo de novo nesta onda de protestos, não é a ocorrência de
manifestações de massa sem liderança, violência política ou o uso das redes
sociais como ferramenta de mobilização (a década de 2010 oferece amplo material
para estudar qualquer um desses temas), mas sim a extensão em que a geração foi
globalizada como identidade política. De alguma forma, grupos tão diversos
quanto jovens guerrilheiros birmaneses, entregadores indonésios e estudantes
franceses do ensino médio passaram a se considerar parte de um sujeito político
chamado “Geração Z”, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.
Embora
plataformas de mídia social como Discord e TikTok tenham ajudado a disseminar
discursos geracionais originários dos Estados Unidos, a facilidade com que se
popularizaram só pode ser explicada em relação aos desafios políticos e
econômicos fundamentais enfrentados pelos jovens em todo o mundo: precariedade
econômica, colapso ecológico e escalada da violência imperialista. A classe
dominante teme o socialismo da Geração Z porque não tem resposta para esses
desafios.
Os
socialistas estão atentos. Na França, o partido de Jean-Luc Mélenchon, França
Isubmissa, declarou seu apoio à revolta juvenil.
Vídeos de Bally Bagayoko, prefeito de Saint-Denis pelo mesmo partido,
protegendo estudantes manifestantes da polícia antimotim viralizaram no mundo
todo. Na Índia, os sindicatos estudantis comunistas têm sido parte integrante
das mobilizações das Baratas desde os primórdios do movimento. Esse
envolvimento inicial agora está dando frutos, com Neha Bora, a eloquente e
desafiadora presidente da Associação de Estudantes de Toda a Índia (AISA), de
orientação marxista-leninista, tornando-se o rosto da mais recente onda de
mobilizações. Quem sabe qual será o próximo país?
Fonte:
Por Elias Koenig - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

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