José
Maurício Domingues: A reeleição de Lula e o 2026 plebeu
Na
Sérvia os estudantes vencem, com um movimento e um partido novo e horizontal,
uma eleição contra um governante há anos no poder e inclinado à extrema
direita; nos Estados Unidos, enfrentando um movimento renovado de um
centro-esquerda que vem de baixo, dificilmente Donald Trump escapará de uma
grande derrota eleitoral nas eleições midterms. No Brasil, uma eleição como
nunca antes nesse país, e no mundo, levou Lula da Silva pela quarta vez à
presidência da República, abrindo novos horizontes, na verdade para toda a
América Latina.
Não há
dúvida sobre a grandeza de Lula, nem do papel das redes sociais nessa vitória,
em que André Janones despontou como uma liderança criativa e decisiva. Mas não
se deve exagerar nem uma coisa nem a outra ao escrutinar o que ocorreu. O
próprio Lula, com uma humildade incomum, em seus discursos no dia da vitória,
foi preciso: agradeceu à população, aos jovens, aos idosos, a seus aliados de
centro, a sua confiança e, mais, a mobilização em uma eleição que poderia
parecer perdida, enquanto o PT e a coordenação de sua campanha se mostravam
desnorteados.
Tudo
começou com as manifestações dos estudantes da Universidade Federal Fluminense
(UFF), espontâneas e que arrastaram suas entidades de representação para as
ruas, no dia seguinte à vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Foi
centelha em palha seca, há muito na espera de chuva. O Brasil entrou em
movimento; André Janones ativou seu exército; uma massa de militantes se fez do
dia para a noite; as redes sociais entraram em ebulição; milhares buscaram
votos em todas as partes, à sua própria maneira, em casa, nas ruas e nas redes.
Em
2013, depois de anos de política institucional morna, o Brasil voltara a se
mobilizar, de forma caótica, com demandas mil, em particular de autonomia
política frente a um sistema político fechado, altamente oligarquizado e
arrogante. As mobilizações foram gigantes. A esquerda recusou a energia
política que se gerava naquele momento. Parte dela se dispersou, outra foi
capturada pela direita.
Em
2018, com a esquerda desmoralizada e na defensiva, muitos jovens se lançaram
autonomamente à campanha, mas a situação era desesperadora, ao passo que 2022 a
viu ser conduzida de cima, chegando-se a uma vitória democrática estreitíssima.
Mas o que venho definindo como a “revolta plebeia” de 2013, e o que ela mais
profundamente significava, manteve-se no horizonte.
Explodiu
com rumo agora mais claro em 2026 (até mesmo em parte no bolsonarismo, cuja
base não deve ser vista como essencial e exclusivamente antidemocrática, ao
contrário de seus dirigentes). Uma mobilização democrática foi avassaladora e
emocionante. De quebra, as ideias de “pobre de direita” e “classe média
fascista” se evidenciaram como falazes e insignificantes. Basta olhar os mapas
eleitorais (a começar pela Zona Sul do Rio de Janeiro). É a política e a
direção da politização da sociedade o que no final das contas importam. Desta
feita, uma enorme politização, predominantemente com direção democrática e
progressista, se verificou.
A
transição à democracia teve em seu centro o MDB, “partido de notáveis com base
de massas”, secundado pelos partidos de esquerda – notadamente o PCB – e os
movimentos sociais renascentes. As grandes mobilizações dos anos 1970-1980
foram orquestradas em larga medida – sobretudo as maiores – por essas forças
organizadas e verticalista, às quais se juntou um PT que nascia querendo-se
“pela base”, mas também partido em estilo tradicional.
Bem ao
contrário de agora, desde 2013. Se os aparelhos políticos seguem em grande
medida oligarquizados, como todo o sistema político, ainda que fundamentais em
sua função, a emergência de uma massa plebeia, composta de trabalhadores e
setores vastos das classes médias, hoje faz política por conta própria,
mobilizando-se do seu jeito e nos momentos que crê serem fundamentais e quando
encontra ou abre o espaço político.
Os
povos originários das Américas e mais além, historicamente igualitários ao
menos entre os homens, mantinham e mantêm quase sempre estruturas de poder
horizontal. Grande guerreiro, Gerônimo foi encarregado pelos apaches na guerra
contra o exército dos Estados Unidos de organizar as forças indígenas. Ao final
da guerra quis manter sua posição. Foi-lhe recusada essa prerrogativa.
Fica
assim claro que em momentos decisivos é preciso de comando vertical. Fica
também claro, porém, que isso tem prazo de validade. As democracias liberais
modernas já têm, ademais, demasiadas estruturas hierárquicas. Nosso problema é
horizontalizá-las, para além do “participacionismo” em que militantes
solidários com o governo são os únicos a participar. André Janones foi
fundamental, mas isso não quer dizer que o trabalho das esquerdas nas redes
sociais deva seguir esse modelo vertical de forma regular – um general tem que
saber sua hora de intervir e de se retirar, sem repetir Gerônimo.
É
preciso cultivar a autonomia e a mobilização das grandes massas plebeias, que
devem ser ajudadas em seus esforços de auto-organização, sem que se as queira
capturar. Está claro também que o modelo de frente democrática da luta contra o
regime militar já não cabe. Sem prejuízo do papel das diversas lideranças
democráticas, em lugar da luta dos notáveis apoiadas pelas massas plebeias, são
estas que devem se mobilizar.
Lula
fala em escutar quando não souber o que fazer e governar de modo diferente. Soa
como recurso a mobilização quando impasses se colocarem. Imprescindível, em
especial na dura situação que enfrentará, em minoria, frente a uma extrema
direita fortalecida. Espera-se também um programa e políticas mais à esquerda
que ponham essa extrema direita e a direita que a ela se aliar na defensiva.
Mas
isso não pode ser apenas uma receita no estilo de Hugo Chávez para falar e
influenciar de cima para baixo. É preciso descobrir como garantir a expressão
de uma população que tem seus próprios desejos e desígnios – provocá-los e
respeitá-los. No Chile recente isso não funcionou bem. Não estamos, todavia,
condenados a errar. Criatividade será daqui por diante vital. Uma nova esquerda
começou a surgir nas últimas semanas, um novo ciclo progressista parece se
abrir. Que saibamos decifrar e impulsionar seu possível porvir.
• Relato de um levante popular. Por Laura
C. M. Feuerwerker
Gente,
deu certo!! Um levante popular contra o bolsonarismo! Deu certo porque o povo
pegou a campanha na mão. A campanha deixou de ser vista como um trabalho dos
outros e passou a ser vista como trabalho de cada um e de todos.
Momento
em que cada um entrou em cena. Foi muita conversa, milhões de materiais e
estratégias inventadas. Cada um como podia. E todo mundo e cada um fez coisas.
Muitas coisas. Além de adesivos, não havia muito material de campanha. Então as
pessoas produziram materiais. Jogos de baralho, cards, quis, mil coisas. Os
focos e argumentos eram muitos, diversos, cada um falando de coisas que faziam
sentido.
Havia
muita afirmação sobre as políticas públicas, dados para desmascarar mentiras,
muito incentivo para as pessoas procurarem informações, pensarem sem precisar
acreditar em quem estava puxando conversa, conversando com as dúvidas e com as
insatisfações. E muita conversa sobre democracia, sobre não saltar no escuro
procurando mudança e cair num abismo sem fim, levando todos junto.
Não se
tratava de simplesmente panfletar, mas de puxar conversa com quem aceitava
conversar – porque não adiantava muito “pregar para convertidos”. Campanha de
porta em porta, nas estações de trem e de metrô, nos vagões, nos ônibus. Muitas
coisas juntas! Uma experiência linda de ação coletiva.
E esses
materiais eram multiplicados e compartilhados via milhares de grupos de zap.
Cada um é muitas coisas: mulher, homem, trans, estudante, trabalhador,
profissional, categoria, morador, parente, militante. E em todos esses
diferentes e múltiplos âmbitos as pessoas se juntaram e se informaram, choraram
pitangas, se animaram umas às outras.
Rua,
rua, muita rua. Com diferentes tipos articulações. Em lugares em que as pessoas
nunca tinham se juntado. Para as ruas chegou gente de todo lugar, todo tipo,
querendo estar junto, sabendo que era importante todo mundo estar lá e, agora,
juntos a gente pode sair da casca. Houve quem cantasse, quem dançasse, quem
poetasse. E era de tudo. K pop, samba, maracatu, louvor, modinha, funk. Teve
repente, teve batalha de rap. Teve quadrinho, teve meme.
Passeata
onde nunca tinha havido passeata, assembleia onde nunca antes, corredores,
escadas, todo lugar onde juntava gente era oportunidade de se manifestar. As
trocas de olhares buscavam cumplicidade e os aplausos autorizavam. E foram
muitas, muitas manifestações. A rua cheia, alegre, guerreira enchia a gente de
energia.
E nas
redes, primeiro um reconhecimento. Todo mundo no Brasil tem celular e passa
muito tempo consumindo materiais, informações, piadas, conversas, arte,
cultura, belezas e feiuras. As redes constroem opinião e modos de estar no
mundo. Juntam grupos, aliás também criam motivos para se juntar. São um espaço
onde se vive parte da vida. Não podem ser ignoradas.
E aí
nesse espaço houve uma gigantesca ação articulada. Muitos aprendemos muita
coisa que não sabíamos. Estratégias para enfrentar o isolamento, romper a
lógica de distribuição dos algoritmos. Não ver, não comentar, não compartilhar
as barbaridades dos bolsonaristas, ou seja, não dar palco para eles. Ampliar a
circulação dos materiais que a nossa turma publicava. Curtir, comentar,
replicar, compartilhar, salvar.
O
exército do Lula. Impressionante. Muita gente que sempre foi muito desobediente
entendeu que sincronicidade e movimentos combinados eram muito importantes
nesse momento. De algum modo, como a campanha era capilar, múltipla, dispersa,
o exército e alguns outros canais davam um certo norte, que era ainda espalhado
e multiplicado de todos os modos possíveis.
Uma
estratégia para o X. Aí explosões sincronizadas de hashtags. Mas também dicas
para as outras redes sociais.
Havia
os comandos, havia a sincronização, mas havia também milhares de pessoas
produzindo os conteúdos mais variados, que falavam de muitos problemas
diferentes, de razões diferentes. Falando desde todo tipo de lugar. Campo,
cidade, trabalhadores, domésticas, construção civil, grupo de música, de
corredores, de ciclistas, de caminhoneiros, de motoboys, de estudantes, de tudo
que se possa imaginar. Isso sem falar o mundo de influenciadores e artistas que
resolveu dar a cara a tapa.
Sem
tudo isso a gente não teria o que compartilhar em massa. Porque de turma o
negócio ganhava alcance. Juventude organizada e não organizada. Movimento
negro, os povos indígenas, as mulheres, os/as trans, lgb em geral, os véi, as
pessoas com deficiência. A galera do samba, do rap, do louvor. Tá faltando
muita gente nessa lista porque era todo mundo de muitos jeitos. Uma
multiplicidade gigantesca de vozes, de realidades, de argumentos.
Também
descobrimos que falando todos juntos em todo lugar a gente era capaz de
produzir agenda política. Cada problema que aparecia a gente gritava junto e o
negócio/assunto/problema entrava na agenda.
Conhecemos
pessoas novas, movimentos novos, coletivos que desconhecíamos. Construímos
cumplicidade, solidariedade. Ampliamos as conexões e conhecemos muitos novos
mundos.
Os
debates foram uma experiência também a destacar. Primeiro debate um espetáculo
deprimente, devastador. Muita gente não suportou assistir até o fim e foi pras
redes tentar produzir movimento. Flávio Bolsonaro mente, Flávio não responde
perguntas. Flávio não quer mostrar quem é. E as principais perguntas que o Lula
fez e o Flávio Bolsonaro não respondeu foram divulgadas, respondidas.
Convidamos as pessoas elas mesmas a procurar respostas.
Também
destacamos muito a violência, a virulência do modo do miliciano se comportar
porque isso produziu mal-estar coletivo, indignação, mal-estar físico até em
quem tentou acompanhar o (péssimo) espetáculo. Ele estava desrespeitando o
Lula, mas também a todo povo brasileiro que assistiu o debate procurando saber
mais as ideias, as propostas.
Muita
indignação, muita pressão modificaram (um tanto) até as regras do debate da
Vênus Platinada. Segundo debate, checagem ao vivo on line, mas não na TV. Desta
muita gente em três telas simultâneas: TV para ver o debate, computador para a
checagem dos fatos e celular para atuar nas redes. Alguns produtores de
conteúdo já em ato colocando no ar materiais compartilháveis que possibilitavam
grande repercussão.
Flávio
Bolsonaro de novo mentiu. Mentiu nos ataques e mentiu nas respostas. Em quatro
momentos falou a verdade e mostrou quem realmente era: chamou Lula de nove
dedo; desrespeitou Cris, a mãe da Ana Clara e defendeu seu assassino; disse que
Belém fede porque é um esgoto a céu aberto; e disse aos nordestinos que sua
vida ia melhorar porque passariam a receber gorjetas em dólar.
Cada
uma dessas barbaridades provocou efeitos negativos e rejeição na hora,
amplificada depois por mil vozes em mil diferentes tons.
Por
último, bora votar. Todo voto importa. Não deixe ninguém decidir por você.
Imagens emocionantes de milhares de pessoas voltando para casa ou deslocando-se
grandes distâncias para votar. Os povos indígenas, trabalhadores rurais, gentes
da periferia, trabalhadores de todo tipo. Os idosos e outras pessoas com
dificuldade de locomoção sendo transportados no colo. Caronas solidárias de
todo tipo. Denúncias de boicote.
Enfim,
todo mundo mobilizado de muitos jeitos em diferentes momentos das três
intensas, vertiginosas semanas do segundo turno.
Uma
experiência poderosa de mostrar que com movimento coletivo a gente pode
conquistar o impossível. Derrotamos as big techs, o Donald Trump, o
bolsonarismo, a grande mídia. Fizemos campanha sem grana, com nossos corpos,
nossa energia, nosso tempo, nossa garra. Mostramos ao mundo que é possível
lutar. Fazer o L virou símbolo de luta pela liberdade, pela democracia, contra
o fascismo.
Merecemos
a explosão de alegria com a vitória. Gigantesca, múltipla, massiva, alegre. O
grito alegre, feliz, Olê, olê, olá Lula, Lula. E o berro uníssono do povo que
realmente não foge à luta!
E agora
as aprendizagens. Não podemos voltar para casa e ficar assistindo a vida rolar
como um big brother. Agora descobrimos que podemos fazer diferença e que somos
parte ativa da construção de um mundo em que caibam muitos mundos, em que haja
lugar para todos com luta, alegria e vida melhor! Bora que a luta segue.
Muito
bom termos vivido tudo isso juntos, juntas, juntes.
Fonte:
A Terra é Redonda

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