segunda-feira, 2 de novembro de 2026

José Maurício Domingues: A reeleição de Lula e o 2026 plebeu

Na Sérvia os estudantes vencem, com um movimento e um partido novo e horizontal, uma eleição contra um governante há anos no poder e inclinado à extrema direita; nos Estados Unidos, enfrentando um movimento renovado de um centro-esquerda que vem de baixo, dificilmente Donald Trump escapará de uma grande derrota eleitoral nas eleições midterms. No Brasil, uma eleição como nunca antes nesse país, e no mundo, levou Lula da Silva pela quarta vez à presidência da República, abrindo novos horizontes, na verdade para toda a América Latina.

Não há dúvida sobre a grandeza de Lula, nem do papel das redes sociais nessa vitória, em que André Janones despontou como uma liderança criativa e decisiva. Mas não se deve exagerar nem uma coisa nem a outra ao escrutinar o que ocorreu. O próprio Lula, com uma humildade incomum, em seus discursos no dia da vitória, foi preciso: agradeceu à população, aos jovens, aos idosos, a seus aliados de centro, a sua confiança e, mais, a mobilização em uma eleição que poderia parecer perdida, enquanto o PT e a coordenação de sua campanha se mostravam desnorteados.

Tudo começou com as manifestações dos estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF), espontâneas e que arrastaram suas entidades de representação para as ruas, no dia seguinte à vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Foi centelha em palha seca, há muito na espera de chuva. O Brasil entrou em movimento; André Janones ativou seu exército; uma massa de militantes se fez do dia para a noite; as redes sociais entraram em ebulição; milhares buscaram votos em todas as partes, à sua própria maneira, em casa, nas ruas e nas redes.

Em 2013, depois de anos de política institucional morna, o Brasil voltara a se mobilizar, de forma caótica, com demandas mil, em particular de autonomia política frente a um sistema político fechado, altamente oligarquizado e arrogante. As mobilizações foram gigantes. A esquerda recusou a energia política que se gerava naquele momento. Parte dela se dispersou, outra foi capturada pela direita.

Em 2018, com a esquerda desmoralizada e na defensiva, muitos jovens se lançaram autonomamente à campanha, mas a situação era desesperadora, ao passo que 2022 a viu ser conduzida de cima, chegando-se a uma vitória democrática estreitíssima. Mas o que venho definindo como a “revolta plebeia” de 2013, e o que ela mais profundamente significava, manteve-se no horizonte.

Explodiu com rumo agora mais claro em 2026 (até mesmo em parte no bolsonarismo, cuja base não deve ser vista como essencial e exclusivamente antidemocrática, ao contrário de seus dirigentes). Uma mobilização democrática foi avassaladora e emocionante. De quebra, as ideias de “pobre de direita” e “classe média fascista” se evidenciaram como falazes e insignificantes. Basta olhar os mapas eleitorais (a começar pela Zona Sul do Rio de Janeiro). É a política e a direção da politização da sociedade o que no final das contas importam. Desta feita, uma enorme politização, predominantemente com direção democrática e progressista, se verificou.

A transição à democracia teve em seu centro o MDB, “partido de notáveis com base de massas”, secundado pelos partidos de esquerda – notadamente o PCB – e os movimentos sociais renascentes. As grandes mobilizações dos anos 1970-1980 foram orquestradas em larga medida – sobretudo as maiores – por essas forças organizadas e verticalista, às quais se juntou um PT que nascia querendo-se “pela base”, mas também partido em estilo tradicional.

Bem ao contrário de agora, desde 2013. Se os aparelhos políticos seguem em grande medida oligarquizados, como todo o sistema político, ainda que fundamentais em sua função, a emergência de uma massa plebeia, composta de trabalhadores e setores vastos das classes médias, hoje faz política por conta própria, mobilizando-se do seu jeito e nos momentos que crê serem fundamentais e quando encontra ou abre o espaço político.

Os povos originários das Américas e mais além, historicamente igualitários ao menos entre os homens, mantinham e mantêm quase sempre estruturas de poder horizontal. Grande guerreiro, Gerônimo foi encarregado pelos apaches na guerra contra o exército dos Estados Unidos de organizar as forças indígenas. Ao final da guerra quis manter sua posição. Foi-lhe recusada essa prerrogativa.

Fica assim claro que em momentos decisivos é preciso de comando vertical. Fica também claro, porém, que isso tem prazo de validade. As democracias liberais modernas já têm, ademais, demasiadas estruturas hierárquicas. Nosso problema é horizontalizá-las, para além do “participacionismo” em que militantes solidários com o governo são os únicos a participar. André Janones foi fundamental, mas isso não quer dizer que o trabalho das esquerdas nas redes sociais deva seguir esse modelo vertical de forma regular – um general tem que saber sua hora de intervir e de se retirar, sem repetir Gerônimo.

É preciso cultivar a autonomia e a mobilização das grandes massas plebeias, que devem ser ajudadas em seus esforços de auto-organização, sem que se as queira capturar. Está claro também que o modelo de frente democrática da luta contra o regime militar já não cabe. Sem prejuízo do papel das diversas lideranças democráticas, em lugar da luta dos notáveis apoiadas pelas massas plebeias, são estas que devem se mobilizar.

Lula fala em escutar quando não souber o que fazer e governar de modo diferente. Soa como recurso a mobilização quando impasses se colocarem. Imprescindível, em especial na dura situação que enfrentará, em minoria, frente a uma extrema direita fortalecida. Espera-se também um programa e políticas mais à esquerda que ponham essa extrema direita e a direita que a ela se aliar na defensiva.

Mas isso não pode ser apenas uma receita no estilo de Hugo Chávez para falar e influenciar de cima para baixo. É preciso descobrir como garantir a expressão de uma população que tem seus próprios desejos e desígnios – provocá-los e respeitá-los. No Chile recente isso não funcionou bem. Não estamos, todavia, condenados a errar. Criatividade será daqui por diante vital. Uma nova esquerda começou a surgir nas últimas semanas, um novo ciclo progressista parece se abrir. Que saibamos decifrar e impulsionar seu possível porvir.

•        Relato de um levante popular. Por Laura C. M. Feuerwerker

Gente, deu certo!! Um levante popular contra o bolsonarismo! Deu certo porque o povo pegou a campanha na mão. A campanha deixou de ser vista como um trabalho dos outros e passou a ser vista como trabalho de cada um e de todos.

Momento em que cada um entrou em cena. Foi muita conversa, milhões de materiais e estratégias inventadas. Cada um como podia. E todo mundo e cada um fez coisas. Muitas coisas. Além de adesivos, não havia muito material de campanha. Então as pessoas produziram materiais. Jogos de baralho, cards, quis, mil coisas. Os focos e argumentos eram muitos, diversos, cada um falando de coisas que faziam sentido.

Havia muita afirmação sobre as políticas públicas, dados para desmascarar mentiras, muito incentivo para as pessoas procurarem informações, pensarem sem precisar acreditar em quem estava puxando conversa, conversando com as dúvidas e com as insatisfações. E muita conversa sobre democracia, sobre não saltar no escuro procurando mudança e cair num abismo sem fim, levando todos junto.

Não se tratava de simplesmente panfletar, mas de puxar conversa com quem aceitava conversar – porque não adiantava muito “pregar para convertidos”. Campanha de porta em porta, nas estações de trem e de metrô, nos vagões, nos ônibus. Muitas coisas juntas! Uma experiência linda de ação coletiva.

E esses materiais eram multiplicados e compartilhados via milhares de grupos de zap. Cada um é muitas coisas: mulher, homem, trans, estudante, trabalhador, profissional, categoria, morador, parente, militante. E em todos esses diferentes e múltiplos âmbitos as pessoas se juntaram e se informaram, choraram pitangas, se animaram umas às outras.

Rua, rua, muita rua. Com diferentes tipos articulações. Em lugares em que as pessoas nunca tinham se juntado. Para as ruas chegou gente de todo lugar, todo tipo, querendo estar junto, sabendo que era importante todo mundo estar lá e, agora, juntos a gente pode sair da casca. Houve quem cantasse, quem dançasse, quem poetasse. E era de tudo. K pop, samba, maracatu, louvor, modinha, funk. Teve repente, teve batalha de rap. Teve quadrinho, teve meme.

Passeata onde nunca tinha havido passeata, assembleia onde nunca antes, corredores, escadas, todo lugar onde juntava gente era oportunidade de se manifestar. As trocas de olhares buscavam cumplicidade e os aplausos autorizavam. E foram muitas, muitas manifestações. A rua cheia, alegre, guerreira enchia a gente de energia.

E nas redes, primeiro um reconhecimento. Todo mundo no Brasil tem celular e passa muito tempo consumindo materiais, informações, piadas, conversas, arte, cultura, belezas e feiuras. As redes constroem opinião e modos de estar no mundo. Juntam grupos, aliás também criam motivos para se juntar. São um espaço onde se vive parte da vida. Não podem ser ignoradas.

E aí nesse espaço houve uma gigantesca ação articulada. Muitos aprendemos muita coisa que não sabíamos. Estratégias para enfrentar o isolamento, romper a lógica de distribuição dos algoritmos. Não ver, não comentar, não compartilhar as barbaridades dos bolsonaristas, ou seja, não dar palco para eles. Ampliar a circulação dos materiais que a nossa turma publicava. Curtir, comentar, replicar, compartilhar, salvar.

O exército do Lula. Impressionante. Muita gente que sempre foi muito desobediente entendeu que sincronicidade e movimentos combinados eram muito importantes nesse momento. De algum modo, como a campanha era capilar, múltipla, dispersa, o exército e alguns outros canais davam um certo norte, que era ainda espalhado e multiplicado de todos os modos possíveis.

Uma estratégia para o X. Aí explosões sincronizadas de hashtags. Mas também dicas para as outras redes sociais.

Havia os comandos, havia a sincronização, mas havia também milhares de pessoas produzindo os conteúdos mais variados, que falavam de muitos problemas diferentes, de razões diferentes. Falando desde todo tipo de lugar. Campo, cidade, trabalhadores, domésticas, construção civil, grupo de música, de corredores, de ciclistas, de caminhoneiros, de motoboys, de estudantes, de tudo que se possa imaginar. Isso sem falar o mundo de influenciadores e artistas que resolveu dar a cara a tapa.

Sem tudo isso a gente não teria o que compartilhar em massa. Porque de turma o negócio ganhava alcance. Juventude organizada e não organizada. Movimento negro, os povos indígenas, as mulheres, os/as trans, lgb em geral, os véi, as pessoas com deficiência. A galera do samba, do rap, do louvor. Tá faltando muita gente nessa lista porque era todo mundo de muitos jeitos. Uma multiplicidade gigantesca de vozes, de realidades, de argumentos.

Também descobrimos que falando todos juntos em todo lugar a gente era capaz de produzir agenda política. Cada problema que aparecia a gente gritava junto e o negócio/assunto/problema entrava na agenda.

Conhecemos pessoas novas, movimentos novos, coletivos que desconhecíamos. Construímos cumplicidade, solidariedade. Ampliamos as conexões e conhecemos muitos novos mundos.

Os debates foram uma experiência também a destacar. Primeiro debate um espetáculo deprimente, devastador. Muita gente não suportou assistir até o fim e foi pras redes tentar produzir movimento. Flávio Bolsonaro mente, Flávio não responde perguntas. Flávio não quer mostrar quem é. E as principais perguntas que o Lula fez e o Flávio Bolsonaro não respondeu foram divulgadas, respondidas. Convidamos as pessoas elas mesmas a procurar respostas.

Também destacamos muito a violência, a virulência do modo do miliciano se comportar porque isso produziu mal-estar coletivo, indignação, mal-estar físico até em quem tentou acompanhar o (péssimo) espetáculo. Ele estava desrespeitando o Lula, mas também a todo povo brasileiro que assistiu o debate procurando saber mais as ideias, as propostas.

Muita indignação, muita pressão modificaram (um tanto) até as regras do debate da Vênus Platinada. Segundo debate, checagem ao vivo on line, mas não na TV. Desta muita gente em três telas simultâneas: TV para ver o debate, computador para a checagem dos fatos e celular para atuar nas redes. Alguns produtores de conteúdo já em ato colocando no ar materiais compartilháveis que possibilitavam grande repercussão.

Flávio Bolsonaro de novo mentiu. Mentiu nos ataques e mentiu nas respostas. Em quatro momentos falou a verdade e mostrou quem realmente era: chamou Lula de nove dedo; desrespeitou Cris, a mãe da Ana Clara e defendeu seu assassino; disse que Belém fede porque é um esgoto a céu aberto; e disse aos nordestinos que sua vida ia melhorar porque passariam a receber gorjetas em dólar.

Cada uma dessas barbaridades provocou efeitos negativos e rejeição na hora, amplificada depois por mil vozes em mil diferentes tons.

Por último, bora votar. Todo voto importa. Não deixe ninguém decidir por você. Imagens emocionantes de milhares de pessoas voltando para casa ou deslocando-se grandes distâncias para votar. Os povos indígenas, trabalhadores rurais, gentes da periferia, trabalhadores de todo tipo. Os idosos e outras pessoas com dificuldade de locomoção sendo transportados no colo. Caronas solidárias de todo tipo. Denúncias de boicote.

Enfim, todo mundo mobilizado de muitos jeitos em diferentes momentos das três intensas, vertiginosas semanas do segundo turno.

Uma experiência poderosa de mostrar que com movimento coletivo a gente pode conquistar o impossível. Derrotamos as big techs, o Donald Trump, o bolsonarismo, a grande mídia. Fizemos campanha sem grana, com nossos corpos, nossa energia, nosso tempo, nossa garra. Mostramos ao mundo que é possível lutar. Fazer o L virou símbolo de luta pela liberdade, pela democracia, contra o fascismo.

Merecemos a explosão de alegria com a vitória. Gigantesca, múltipla, massiva, alegre. O grito alegre, feliz, Olê, olê, olá Lula, Lula. E o berro uníssono do povo que realmente não foge à luta!

E agora as aprendizagens. Não podemos voltar para casa e ficar assistindo a vida rolar como um big brother. Agora descobrimos que podemos fazer diferença e que somos parte ativa da construção de um mundo em que caibam muitos mundos, em que haja lugar para todos com luta, alegria e vida melhor! Bora que a luta segue.

Muito bom termos vivido tudo isso juntos, juntas, juntes.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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