Solidão
é o fator mais ligado à pior saúde mental no Brasil, mostra pesquisa
A
solidão afeta mais de um terço dos brasileiros (36,5%) e é o fator de risco
mais associado à pior saúde mental. Já a convivência com amigos aparece como o
principal fator de proteção.
Os
dados são da pesquisa Panorama da Saúde Mental 2026 e se somam a evidências que
levaram a OMS (Organização Mundial da Saúde) a reconhecer a solidão como ameaça
global à saúde pública, comparando seus efeitos nocivos aos de fumar até 15
cigarros por dia.
A
solidão e o isolamento social elevam o risco de doenças cardíacas, diabetes,
declínio cognitivo e morte prematura, além de dobrarem a probabilidade de
depressão, segundo a OMS.
O
levantamento ouviu 4.601 pessoas de todo o país e foi realizado pelo Instituto
Cactus, entidade filantrópica voltada à saúde mental, em parceria com a
AtlasIntel. A pesquisa online ocorreu entre abril e junho, com amostra
desenhada para representar a população por região, renda e gênero.
Realizado
desde 2023, o Panorama tem como principal indicador o ICASM (Índice Contínuo de
Avaliação da Saúde Mental), calculado a partir de um questionário geral de
saúde. A escala vai de zero a mil pontos: quanto maior for a pontuação,
melhores os indicadores. A média nacional foi de 671 pontos em 2026.
Entre
os que se sentiram sozinhos três vezes ou mais no período pesquisado, o índice
ficou em 383 pontos, ante 782 entre os que não relataram o sentimento. É a
maior diferença identificada na série histórica, que investigou a solidão pela
primeira vez neste ano.
Segundo
Mariana Rae, especialista em saúde mental do Instituto Cactus e mestre em saúde
pública pela Universidade Harvard, os dados não permitem afirmar se a solidão
causa sofrimento ou é consequência dele. A relação, porém, é provavelmente de
mão dupla. “Uma saúde mental inferior tende a levar mais à solidão, e o estado
de solidão também afeta a saúde mental”, diz.
O
sentimento é mais comum entre solteiros (51,7%, ante 26,6% dos casados),
pessoas com diagnóstico de transtorno mental (52,5%) e usuários de redes
sociais por três horas ou mais ao dia (46,8%, contra 26,1% entre usuários
moderados). Entre quem brigou frequentemente com familiares, chega a 84,2%.
Na
direção oposta, quem encontrou amigos nas duas semanas anteriores teve ICASM de
737 pontos, ante 539 entre quem não encontrou. Trabalho voluntário, atividade
física e frequência a igrejas ou templos também estão associados a índices mais
altos.
Para
Rae, combater a solidão não depende apenas do indivíduo. “A pessoa tem
autonomia de fazer ou não, mas tem que ter ofertas e possibilidades para
escolher”, afirma. Ela cita a falta de espaços comunitários, parques seguros,
transporte acessível e lazer gratuito. “Parece que a solidão é algo simples,
mas existe muita coisa em torno dela que precisa de planejamento.”
Vários
países enfrentam a solidão com políticas públicas, legislações específicas e
intervenções urbanas e comunitárias. Entre as iniciativas estão a chamada
“prescrição social”, em que médicos recomendam atividades comunitárias, e
linhas telefônicas de apoio.
Para o
médico Sandro Batista Rodrigues, diretor de pesquisa da SBMFC (Sociedade
Brasileira de Medicina de Família e Comunidade), a solidão precisa entrar na
agenda pública e ser abordada nas consultas, por sua associação a problemas
físicos e mentais.
“Uma
pessoa pode morar sozinha e ter vínculos fortes, outra pode estar cercada de
gente e sentir que não tem com quem contar”, afirma. Segundo ele, a abordagem
já faz parte das consultas de médicos de família, assim como a prescrição
social.
Em
Florianópolis, por exemplo, médicas e médicos de família estão prescrevendo a
volta aos estudos como parte do tratamento a pacientes com objetivo de melhoria
da saúde e da qualidade de vida.
“É
preciso construir, com a pessoa, uma conexão com as suas atividades, com a
comunidade, que faça sentido para ela. Pode ser desde um grupo de caminhada,
atividade cultural, horta comunitária, voluntariado. Muito mais do que
preencher o tempo, é preciso fortalecer vínculos”, diz Rodrigues, pesquisador
em saúde da pessoa idosa.
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Inteligência artificial
A
pesquisa também investigou o uso de inteligência artificial (IA). Embora 86,4%
já tenham utilizado alguma ferramenta e 51,9% tenham recorrido a geradores de
texto, como ChatGPT e Gemini, apenas 31,3% dizem ter conhecimento médio ou alto
sobre o tema.
Na
saúde mental, 15% usaram IA em momentos de crise, 9,1% fizeram “terapia por
chatbot” e 8,8% recorreram à tecnologia para se sentir menos sozinhos. Entre os
que se sentiram sozinhos três vezes ou mais, 32,1% buscaram companhia na IA,
ante 1,8% dos que não relataram solidão.
Rae
alerta para o risco de ferramentas genéricas, que não foram desenvolvidas para
o cuidado em saúde mental. “Parece existir uma falsa sensação de que você está
se conectando, mas essa conexão é com uma máquina, não com um humano. Isso pode
fazer com que a pessoa vá se isolando ainda mais.” Para ela, a IA deveria
funcionar como “uma ponte para um cuidado humano”.
Custo
menor, disponibilidade 24 horas e menor sensação de julgamento estão entre os
motivos para preferir a IA a um terapeuta. Para Rae, isso expõe os gargalos do
SUS e os altos custos do atendimento particular. “Não tem profissional
suficiente para todo mundo”, diz. Ela defende políticas de prevenção que
considerem também renda, sono, trabalho e moradia.
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Outras preocupações
A
preocupação financeira é a queixa mais frequente, relatada por 78,1% dos
entrevistados. Quase um quinto (17,2%) deixou de comer por falta de recursos ao
menos uma vez. O ICASM cai de 825 pontos entre quem não se preocupou com
dinheiro para 558 entre quem relatou preocupação três vezes ou mais.
O
levantamento também investigou as apostas. Os 9,2% que apostaram tiveram índice
de 587 pontos, ante 680 dos demais. Entre apostadores frequentes, 77,6%
relataram preocupação financeira frequente. “As bets entram muito como um
sintoma dessa preocupação, uma forma que é apresentada de ganhar dinheiro
rápido”, diz Rae. “A gente não consegue destrinchar a saúde mental da questão
financeira.”
Assédio,
relatado por 13,2%, e preconceito, por 10,2%, também estão associados a índices
mais baixos. Já o medo da violência urbana, citado por 62,5%, não apresentou
associação significativa com o ICASM.
O sono
insuficiente e o cansaço também marcam o cotidiano: 70,6% dormiram menos de
seis horas ao menos uma vez no período pesquisado, e 68,8% relataram cansaço ou
pouca energia.
Entre
jovens de 16 a 24 anos, 83,6% relataram pouco interesse ou prazer em fazer as
coisas, e 70,5% disseram ter se sentido para baixo ou deprimidos. A autoimagem
também pesa: 58,2% se sentiram pouco inteligentes, ante 11,5% dos entrevistados
com 60 anos ou mais.
Rae
atribui o quadro às pressões da transição para a vida adulta e à comparação nas
redes sociais. Os idosos apresentam o melhor índice (806 pontos), enquanto as
faixas de 25 a 44 anos registram os piores resultados (591 e 599 pontos).
“Passei
uma vida insegura com cabelo, com corpo, preocupada com que os outros achavam
de mim. Após os 60, fui fazendo as pazes comigo, fiz novos amigos e me livrei
de pessoas tóxicas, o que tem ajudado muito a minha saúde mental nesses tempos
malucos”, diz a professora aposentada Cristina Diniz, 63.
Fonte:
Folhapress

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