Solidão
“premium”: como redes sociais e consumo transformam estar só em desejo
Segundo
um relatório da Organização Mundial da Saúde, uma em cada seis pessoas no mundo
se sente sozinha, com impactos significativos na saúde e no bem-estar. Para os
entrevistados, as redes sociais prometem conexão e pertencimento, mas também
podem intensificar o avanço da solidão entre as pessoas e transformar em
espetáculo. “Quem filma a solidão […] no limite também está colocando a câmera
como testemunha, ou a suposta audiência como testemunha… um artifício para não
estar exatamente sozinho”, resume André Alves. Para Lucas Liedke, este é
exatamente o ponto de atenção, já que as plataformas lucram com essa dinâmica.
“O imaginário divertido e hipersocial das mídias sociais pode ser opressor”.
As
redes sociais não só contribuem para este fenômeno como podem transformá-lo em
uma espécie de espetáculo.
Leia os
principais pontos da conversa:.
• Vocês escreveram esse texto, Solidão
Premium, que é uma análise sobre muitos temas que se entrelaçam. Então pra
começar, o que é a solidão premium?
Lucas
Liedke: A discussão sobre solidão vem acontecendo enquanto sintoma global há
algum tempo. Com certeza com mais força há uns cinco anos, a partir da
pandemia, do trabalho remoto, do isolamento social. Alguns fenômenos que já
eram uma realidade, mas que foram ganhando expansão, se tornando uma
necessidade e nós sabemos que muitas pessoas nunca conseguiram voltar ao que
era antes.
No
Japão tem esse fenômeno do hikikomori, que são os indivíduos que não saem de
casa, de forma alguma, e ficam nesse confinamento extremo. Na China, a gente
viu o lançamento de um aplicativo, que tem um nome bastante macabro, que é Você
Está Morto?, onde as pessoas são convidadas a fazer um check-in a cada dois
dias para mostrar para as outras que elas ainda estão vivas.
Nesse
contexto, a gente começou a perceber um movimento também de influenciadores de
solidão. Pessoas que afirmam ter um um orgulho de não ter uma família próxima,
de não ter muitos amigos, de passar um sábado à noite sozinho em casa,
assistindo o que quiser no streaming, comendo o que quiser no delivery, sem ter
que negociar os seus gostos, as suas escolhas com ninguém. E isso é um
contraste curioso para as redes sociais, que sempre foi um lugar mais de expor
o quanto você é sociável, o quanto você se diverte, as suas conexões, enquanto
uma espécie de capital social. Essa contradição foi o que nos levou a escrever
esse texto “Solidão Premium”.
André
Alves: Tem o famoso relatório da OMS de 2025 sobre como uma em cada seis
pessoas no mundo se sente afetada pela solidão. Sob à luz da psicanálise – que
é o campo de onde a gente parte – a definição da solidão parte de uma espécie
de déficit relacional. “Eu não tenho quantitativamente e ou qualitativamente
relações suficientes na minha vida”. Claro que nunca a gente tem a suficiência
na psicanálise, a gente está sempre trabalhando exatamente com ausências e
faltas, mas no caso da epidemia de solidão, é algo que diz sobre faltar demais,
sobre eu não ter relações profundas o suficiente, e/ou pessoas o suficiente na
minha vida com quem eu possa trocar e que considerem a minha dor como algo
importante.
A
Solidão Premium, da qual a gente tem falado e esse texto que o Lucas escreveu,
parte da ideia de que, no estado atual desse movimento, a gente tem observado
muitos criadores de conteúdo, e não só, mas também outras áreas da cultura e da
vida de uma forma geral, promovendo uma espécie de estetização da solidão. Um
rebranding da solidão: a solidão passando a ser algo ou um estado não só
difícil, vergonhoso, culposo, negativo, mas também como um estado aspiracional,
algo que eu quero ter na minha vida, pertencer, e acho que dá para a gente
falar, inclusive, um pouco sobre como o consumo afeta essa história.
Lucas
Liedke: Porque essa solidão espetacularizada, o quanto ela é uma escolha? Ou o
quanto que é tentar se contentar com o que tem, ou com o que não tem. Porque
talvez o que a gente tenha perdido, muitos de nós, não seja só a proximidade
com os outros, mas a capacidade e o desejo de se relacionar. Então, nesse
espetáculo tem algo meio contraditório, que é você pode estar disposto a não
ter mais o valor das relações interpessoais, mas, ao mesmo tempo, tem um gozo
em possuir uma audiência e agradar uma audiência, que está validando ali a sua
vida solitária, mas que está cheia de prazeres e que custa caro. Como o André
falou, ela é aspiracional. Tem uma ostentação, tem um luxo de um certo consumo
de que é: “eu estou sozinho, mas eu sou feliz aqui no meu castelo”.
• Sobre essa ideia da solidão performada;
de que solidão estamos falando, quando uma pessoa monta um esquema para se
filmar curtindo estar sozinha, para depois apresentar para as pessoas e esperar
delas curtidas e comentários? De que tipo de solidão estamos falando quando
pensamos nessa solidão performática para o outro?
André
Alves: Eu vou trazer três autores para pensarmos a solidão. O Winnicott,
psicanalista britânico, tem um texto muito importante, do final dos anos 50, em
que ele fala sobre a capacidade de estar só, sobre como a solidão ou a solitude
é um estado conquistado. A criança aprende a estar só. Primeiro com os
cuidadores observando a criança brincar sozinha, e depois a criança vai
integrando essa capacidade de estar feliz em sua própria companhia, ou
satisfeita minimamente na sua própria companhia.
Vamos
guardar essa informação. Tem uma outra autora que é pouco falada quando se
discute solidão – pelo menos nas minhas andanças por aí – que é a Melanie
Klein. Já no final de sua obra, tem um texto em que ela descreve a solidão
muito ligada a uma nostalgia de um estado perfeito de compreensão total, que
nunca existiu mas é a fantasia da relação sem palavras com o objeto primário. A
fantasia de que há um outro que me entende completamente, totalmente e me
suporta integralmente.
Eu
trouxe esses dois autores porque os dois estão falando, de alguma forma, desse
ambiente perfeito. E a gente não anda muito bom de desidealizar as coisas. Pelo
contrário, a gente anda muito bom de ideais saturados. É o que o consumo
especialmente nos promove ou nos promete, né. É exatamente o ambiente perfeito.
A casa que ela tem é maravilhosa a ponto de você não querer sair mais dela. Ela
faz total sentido, ela reflete todos os seus gostos, né. Esse ambiente de
conveniência máxima como se fosse um ambiente perfeito. Que a gente sabe, não
existe, mas ao mesmo tempo parece que o consumo tem ficado especialmente bom em
nos convencer do contrário.
E aí
entra a viralidade e o conteúdo promovendo essa repetição em loop. Eu falei que
eram três autores, e acho que tem um terceiro autor importante também da
psicanálise britânica, que é o Christopher Bollas, que tem uma grande obra
também no século XXI, de como o que a gente busca no consumo é o que o bebê
geralmente busca na mãe. Não só um objeto, mas uma experiência de
transformação. É isso que o consumo nos promete. “Use isso, tenha isso, viva
isso, e você sairá dessa muito melhor, transformado, muito mais aspiracional,
inclusive”. É como se a conveniência entrasse também como uma suplantação da
carência e de uma constante presença.
Por que
a gente tem visto tantos creators ou criadores de conteúdo falando sobre
solidão? Exatamente para remontar esse ambiente perfeito e idealizado, colocar
nos objetos e nessa casa perfeita cheia de coisas incríveis a ideia de
experiência de transformação ou de preservação, e três, uma fala constante e
ininterrupta sobre solidão exatamente para não ter que experimentar a solidão.
Porque quem filma a solidão ou transforma a solidão em espetáculo – como o
Lucas estava dizendo – também está colocando a câmera como testemunha, ou a
suposta audiência como testemunha como também um artifício para não estar
exatamente sozinho.
Lucas
Liedke: Existem dados científicos de como o sentimento de solidão atua como um
fator de risco para a nossa saúde, tanto quanto ser sedentário, quanto
obesidade, ou tabagismo. Tem até essa ideia de que a solidão é considerada tão
prejudicial à saúde quanto fumar 15 cigarros por dia. Mas a solidão é bem
subjetiva, você pode estar cercado de muita gente, ainda assim se sentir só, ou
o contrário. Então, é claro que não é tanto sobre estar sozinho apenas por
opção, mas ter a opção de sair do isolamento quando você quer ou precisa.
Então
vale a gente problematizar um pouco que o imaginário divertido e hipersocial
das mídias sociais pode ser opressor. Mas a gente também pode demonizar uma
vida solitária, assim como romantizar um sentimento de solidão. A gente enxerga
que são dois becos sem saída porque tem um empuxo muito do nosso tempo hoje do
hiper indivíduo de um grande projeto de se auto-otimizar. E aí as relações nem
sempre ajudam nisso, porque você tem que abrir mão de alguma coisa. Precisa se
adaptar, quebrar sua rotina, sacrificar alguma coisa. E aí o outro produz um
tipo de diferença, ou de atrito, ou de imprevisibilidade nos seus planos. E aí
quem entrega essa vida “social” sem fricção é a economia da companhia
artificial. A inteligência artificial enquanto essa solução para um problema
que foi criado pelas próprias tecnologias.
• Não podemos deixar de lado como essa
solidão serve ao capitalismo neoliberal, a individualização extrema. Por um
lado, a libido tem que estar totalmente investida no trabalho, porque estamos
sendo esmagados o tempo inteiro por demandas e não tem mais separação do
trabalho para casa, nem fisicamente, nem na nossa cabeça. E aí quais os
impactos dessa ideia que os vínculos interpessoais podem oferecer risco para o
grande projeto de auto-otimização do super indivíduo?
Lucas
Liedke: Tem um tratado do jornalista Derek Thompson que ele chama de século
antissocial. Ele fala por esse viés mais do consumo, de a quem que interessa a
gente ficar mais e mais sozinhos. Porque mesmo os aplicativos de relacionamento
são projetados de forma que você continue lá. Eles não querem perder esses
clientes e consumidores.
O
consumidor solitário tende a ser mais rentável para o mercado. São as porções
menores e mais caras, é mais embalagem, tem mais transações individuais. A
gente tem hoje uma análise de dados também, de algoritmo, que funciona de um
jeito muito menos genérico, – como era a visão demográfica do consumidor –
hoje, é muito singular, muito específico. E a gente vai sendo suprido com muita
conveniência, como se isso desse conta da complexidade do nosso afeto e das
nossas carências.
André
Alves: O Bumble lançou esse ano o concierge de IA. Você não precisa mais
conversar com 10, 50, 100 pessoas até achar uma pessoa que seria “perfeita”.
Porque a gente sabe que o trabalho relacional começa exatamente depois do
encontro, e não necessariamente no encontro perfeito, do objeto perfeito que
vai satisfazer todas as suas necessidades. E aí o concierge de IA, na verdade,
filtra quem são as três pessoas perfeitas. Depois, os concierges de IA vão
conversar entre si para encontrar a sua probabilidade perfeita.
Então,
é um sintoma social, da mediação relacional e também da comunicação assíncrona,
de uma quantidade muito grande de ansiedades sociais, da evitação do conflito e
principalmente – do que a gente no Instituto Float Vibes, que eu e o Lucas
temos – chamamos de era das intimidades sintéticas. A gente fica acostumado
demais não com as relações, mas com aquilo que é “sabor-relação”, que me dá o
simulacro de relação o simulacro de comunidade, pegando um termo do Zygmunt
Bauman.
Outra
coisa que eu acho interessante pensar, bem fisheriano, é como essa relação é um
golpe de mestre do capitalismo tardio. Primeiro, ele degrada a coletividade e
depois nos vende ela de volta, só que com mensalidades, com grupos, com clubes.
E aí
nós vamos tentando reintegrar a nossa necessidade de fazer pontes e de
pertencer através de serviços pagos. Só que, junto com isso, há uma tese em
curso que ganha força – especialmente no final dos anos 80 e nos anos 90 –, de
que o sucesso é uma questão de disciplina e especialmente de dedicação.
Thompson, citado por Lucas, escreveu bastante sobre como o trabalho suplanta a
ausência de religiosidade e espiritualidade desse período, consequentemente, o
trabalho vira um sistema de devoção.
Porque
se o sujeito contemporâneo, do hiper desempenho, acredita que o sucesso é uma
questão de disciplina, as relações vão se transformando em distrações. A
relação tem um risco especialmente para os homens, como temos acompanhado em
alguns estudos que temos feito e publicado. As relações vão sendo encaradas não
mais como algo que você tem que fazer para pertencer ao meio social, mas sim,
algo que você pode evitar para continuar comprometido com o seu projeto de
sucesso e ascensão.
Fonte: Por Andrea DiP,
Ricardo Terto, Stela Diogo, Sofia Amaral e Natália Perez, da Agencia Pública

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