segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Xi promove expurgo no Partido Comunista da China e classifica corrupção como 'maior ameaça'

Um número recorde de 33 integrantes foram expulsos do Partido Comunista da China ao fim da principal reunião política anual do partido, que registrou o maior número de assentos vazios já visto.

O quinto plenário contou com a participação de 279 integrantes do Comitê Central, em comparação com os 315 que participaram do quarto plenário, em outubro de 2025, e os 364 do terceiro, em julho de 2024.

Embora os plenários recentes tenham se concentrado em reformas econômicas e em questões sociais e de desenvolvimento, a disciplina partidária ocupou o centro das atenções no encontro desta semana.

O presidente Xi Jinping fez do combate à corrupção um dos pilares de seu governo desde que assumiu o poder, em 2012, classificando-a como a "maior ameaça" ao partido.

<><> 'Conter a desordem'

Dezesseis dos 33 integrantes expulsos são das Forças Armadas, segundo um comunicado divulgado nesta quinta-feira (29/10), que marcou o fim do encontro de quatro dias realizado a portas fechadas em um hotel em Pequim.

Não está claro quais acusações específicas esses integrantes enfrentam, além de "graves violações disciplinares e legais". Acusações amplas como essas se tornaram comuns na campanha anticorrupção de Xi.

A campanha se tornou "um esforço para consolidar e manter a autoridade", afirma Chong Ja Ian, pesquisador não residente do Carnegie China.

"Neste caso, a campanha continuará e se expandirá dependendo de quão seguro Xi se sentir no poder, e não de problemas reais com a corrupção."

Em seu comunicado, o partido afirmou ter "encarado de frente a dura realidade de que a liderança partidária foi, em alguns momentos, enfraquecida ou esvaziada" e que continuaria a "impor uma rigorosa autodisciplina partidária, inclusive voltando a faca contra si mesmo para [...] conter a desordem".

As expulsões mais recentes elevam para um recorde de 51 o total de integrantes expulsos durante o terceiro mandato de Xi, ante 35 no primeiro mandato e cinco no segundo.

Além do plenário, o principal órgão de fiscalização anticorrupção da China informou que 680 mil pessoas em toda a estrutura do partido foram punidas disciplinarmente nos primeiros nove meses deste ano.

Esta também é a primeira vez, nos 14 anos de liderança de Xi, que a participação em um plenário ficou abaixo de 300 integrantes. O atual Comitê Central iniciou seu mandato, em 2022, com mais de 370 membros.

Observadores afirmam que Xi vê a corrupção não apenas como desvio de recursos, mas também como falta de pureza ideológica e, sobretudo, deslealdade.

Em janeiro, ele alertou contra "quadros de duas caras", que professam lealdade política, mas desobedecem a ordens e agem em benefício próprio.

<><> Quem são os principais alvos do expurgo?

Entre as autoridades de alto escalão expulsas estão o ex-chefe do Partido Comunista em Xinjiang, Ma Xingrui, e os ex-generais Zhang Youxia e Liu Zhenli.

Os comunicados oficiais que anunciaram seus afastamentos afirmavam que eles haviam "violado gravemente a disciplina e as regras [do partido]", expressão geralmente interpretada como um eufemismo para corrupção.

O expurgo do alto escalão militar foi particularmente significativo. Neil Thomas, Lobsang Tsering e Shengyu Wang, do Asia Society Policy Institute, descreveram a operação como "algo sem precedentes".

"Isso levanta sérias dúvidas sobre a liderança organizacional e a prontidão para o combate, mesmo enquanto a China continua a apresentar novos e impressionantes equipamentos militares", escreveram.

Zhang também foi vice-presidente da Comissão Militar Central, órgão que controla as Forças Armadas. A comissão, que inicialmente tinha sete integrantes, foi reduzida a apenas dois: Xi, como presidente, e Zhang Shengmin, como vice-presidente.

Ma e Zhang Youxia eram integrantes do Politburo. O afastamento dos dois, somado ao do ex-general He Weidong, em 2025, fez com que esse poderoso órgão central, composto por 24 integrantes, chegasse a ter apenas 21 membros.

Zhang Shengmin foi promovido ao principal órgão de decisão durante o quinto plenário, elevando o número total de integrantes do Politburo para 22.

O ex-diplomata de destaque Liu Jianchao, que desapareceu da vida pública em julho do ano passado, também está entre os expurgados.

"Xi tem poucos escrúpulos em afastar pessoas que ele próprio promoveu", afirma Chong.

"O fato de fazer isso à vontade e com pouca oposição reforça o quanto sua posição é inabalável neste momento."

<><> Os planos de Xi para o futuro

Analistas acreditam que uma das razões para a ênfase crescente na disciplina partidária — frequentemente interpretada como uma questão de lealdade — é o Congresso do Partido do próximo ano, no qual será escolhido o próximo líder.

Uma reorganização da liderança é esperada para 2027, mas muitos analistas acreditam que Xi Jinping permanecerá no cargo por um quarto mandato ou até mais.

Nenhum líder permaneceu no poder por tanto tempo, com exceção de Mao Tsé-Tung, fundador da China comunista.

Segundo Thomas, Xi tem motivos para "examinar mais atentamente a próxima geração", diante do declínio do número de integrantes do atual comitê.

"Os nomes em ascensão hoje tendem a ser relativamente jovens, têm formação tecnocrática e ligações com a rede política de Xi", afirma.

Ele acrescenta que "os quadros de liderança provincial são um lugar promissor para procurar".

Segundo os analistas, a expectativa é de que Xi acabe dominando a escolha dos dirigentes no 21º Congresso do Partido, consolidando ainda mais seu controle sobre o partido e o país.

"O objetivo de Xi é concentrar ainda mais o poder em torno de si mesmo. [...] O comunicado do plenário sugere que ele pretende permanecer no centro da China e do Partido Comunista no futuro previsível", afirma Chong.

"No entanto, a longo prazo, essa concentração de poder pode abrir caminho para um vácuo de poder ainda mais grave quando Xi envelhecer e seu ritmo de vida diminuir."

<><> China testa drone furtivo e de reconhecimento GJ-21 ao expandir seu poder naval, diz Pequim

A China realizou com sucesso o teste de decolagem e pouso do seu primeiro drone de reconhecimento e ataque furtivo, o GJ-21, comunicou o Ministério da Defesa Nacional.

O veículo decolou e pousou a bordo do navio de assalto anfíbio Tipo 076 Sichuan, expandindo dessa maneira o poder naval do gigante asiático.

"Este é outro avanço significativo no desenvolvimento do navio de assalto anfíbio da China, indicando que a Marinha chinesa agora tem a capacidade de operar drones furtivos de asa fixa a partir de grandes plataformas de combate marítimo", destaca a nota de imprensa difundida por Pequim.

Lançado em 27 de dezembro de 2024, o Sichuan é o primeiro navio de assalto anfíbio Tipo 076 projetado e desenvolvido de forma independente pela China.

A plataforma flutuante incorpora o sistema automático de orientação para pouso em porta-aviões, um novo sistema integrado de energia e a tecnologia de decolagem assistida por catapulta eletromagnética e pouso retido.

O navio também é capaz de transportar veículos aéreos não tripulados de asa fixa, helicópteros e equipamentos anfíbios.

 

¨      Exemplo inspirador, agora cabe ao Brasil 'seguir os passos' do parceiro asiático

Em duas décadas, a China saiu da fama de ser origem de mão de obra barata e de produtos de qualidade duvidosa, a maior potência mundial em tecnologia e produtos de alto valor agregado.

Desde sistemas de inteligência artificial, chips, de infraestrutura de computação, energia, à produção de baterias, trens de alta velocidade, satélites, o gigante asiático não cessa de surpreender quando o assunto é velocidade em inovação.

E para abordar o tema, o podcast da Sputnik Mundioka ouviu o autor dos livros A China e a Nova Rota da Seda e Quem Tem Medo da China, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Diego Pautasso, e Gustavo Alejandro Cardozo, doutor em desenvolvimento regional e pesquisador sênior do Observa China.

Co-criador do projeto Fios da China nas redes sociais e, Pautasso, avaliou que a China foi subestimada no contexto geopolítico mundial.

Ao lembrar que a partir dos anos 1980, o país recebeu multinacionais ocidentais que se utilizaram da grande oferta de mão de obra barata, o estudioso, destacou que paralelamente o regime chinês mobilizou políticas industriais, comerciais e tecnológicas que internalizaram a cadeia produtiva, tecnologias e, agregando valor a sua produção, com qualificação da mão de obra e mobilidade social.

"É exatamente esse processo, ao longo dos últimos 30, 40 anos, que fez a China sair de uma produção de baixo valor agregado, de produtos simples e primários, anos 90, era um grande exportador de petróleo ainda no início, para se transformar no país hoje que lidera a fronteira tecnológica", disse ele.

Para ele o "grande pulo do gato da China" foi criar uma trajetória nova no mercado automobilístico, com investimento em carros elétricos, tornando-a líder nesse mercado.

"Um modelo que é muito bem sucedido, porque eles dominam das terras raras, passando pelas baterias, imãs e chegam até os veículos elétricos. E com isso eles conseguem, em um só movimento, fazer uma transição na sua mobilidade, por uma mobilidade elétrica e mais limpa, e ao mesmo tempo dominar todo o circuito tecnológico relacionado aos carros elétricos."

Capacidade de coordenação, investimentos públicos robustos possibilitaram que o país que tinha 80% da população vivendo no campo há 40 anos superasse o processo de imitação e réplica de tecnologias estrangeiras para aperfeiçoá-las e criar produtos competitivos, ponderou ele:

"Aqueles que achavam que se tratava simplesmente de pirataria ou de bugigangas, logo viram a China liderar a inovação em várias áreas [...] E, nesse sentido, o papel do planejamento público, do investimento, da visão de longo prazo, do investimento em inovação, ciência e tecnologia cumpriram um papel articulado nesse projeto de desenvolvimento nacional."

O sucesso chinês, no entanto, é difícil de ser replicado, segundo os entrevistados, pois demanda um governo que não é refém das leis do mercado, tem soberania tecnológica e consegue concluir políticas industriais, comerciais e tecnológicas como política de Estado:

"A China tem um planejamento do desenvolvimento tecnológico, que é planificado, e esse planejamento fica de quatro a cinco anos, e eles vão fazendo, digamos, fixando objetivos para alcançar durante esse processo. Eles destinam um pressuposto, esse pressuposto não é alterado, não é que muda o governo, e eles tiram esse pressuposto, ele fica. Então eles têm resultados muito importantes durante esses quatro, cinco anos que vão trabalhando", explicou Cardozo.

"Isso, obviamente, passa pela capacidade tecnológica que também garante soberania em outras esferas. Hoje em dia a gente poderia chamar ou tratar da soberania da tecnologia digital, por exemplo, que é um dos gargalos hoje aos quais muitos países são submetidos, no caso do Brasil, inclusive, com forte influência sobre a eleição", avaliou o especialista, ao citar a ingerência das big techs no país.

Ele citou como exemplo da importância de se ter soberania a tentativa frustrada dos EUA de tentar boicotar a produção de semicondutores chineses:

"O tiro saiu pela culatra, porque por ser uma economia grande, com capacidade de planejamento, de investimento público, de realização de compras governamentais, que já possuía ecossistema de empresas de inovação muito forte, um país que forma grande quantidade de engenheiros técnicos e especialistas nessa área, acabou por precipitar o desenvolvimento chinês na área de semicondutores", opinou. "Porque, no final das contas, os Estados Unidos tinham uma maior dependência de produtos críticos da China do que a China de produtos críticos dos Estados Unidos".

As estratégias de boicote ao crescimento chinês favoreceram a diversificação do comércio da China, principalmente, em direção ao sul global, na opinião do analista.

Mais recentemente, o país asiático também revelou o avanço vertiginoso no setor de defesa com produção de mísseis hipersônicos, drones, veículos não tripulados, entre outras armas de alta tecnologia, bem como modernização das forças armadas.

Com isso, a China criou alternativas sistêmicas no campo econômico, no campo comercial, no campo tecnológico e no campo da governança ao domínio do Atlântico Norte, opinou o Pautasso.

"Relações que obviamente podem ser atravessadas por contradições e assimetrias mas que não são baseadas ou não têm sido baseadas na mesma lógica imperial e do recurso à força. China não tem interesse em alterar substantivamente as regras do jogo, a não ser no sentido de criar um mecanismo, uma governança mais efetiva, mais participativa, com maior representação do Sul Global [...] ela não vê essa ampliação como uma ameaça, mas como uma potencialização da sua capacidade de liderança."

Brasil como exemplo

Segundo Pautasso, quando a China ainda tinha um Produto Interno Bruto (PIB) abaixo da média mundial e enfrentava sério problemas sociais e econômicos, na década de 1980, o Brasil era exemplo de país com o maior crescimento industrial no hemisfério sul em ritmo acelerado.

"A China extraiu lições da experiência brasileira, que obviamente também estava atravessada por contradições, mas era um processo bastante virtuoso de conversão de um país agrário num país industrializado de nível médio", observou ele.

Agora, cabe ao Brasil extrair as lições do processo de desenvolvimento chinês, defendeu o entrevistado.

"Cabe ao Brasil também se debruçar um pouco sobre a experiência chinesa [...], estudando as melhores práticas para que a gente também possa iluminar um pouco os desafios que temos pela frente."

Ele ressaltou que a cooperação sino-brasileira com transferência de tecnologia avançou em alguns setores importantes, e destacou o da saúde:

"A gente tem o SUS [Sistema Único de Saúde], que garante grande quantidade de compras governamentais. O Brasil se viu fragilizado no seu complexo industrial da saúde. E essa é uma fronteira que a gente pode, a um só tempo, reindustrializar e, ao mesmo tempo, estabelecer cooperação, transferência tecnológica, joint ventures, inclusive aprender com as lições da China".

Ele também citou os setores ferroviário, rodoviário e metroviário, em que a China teria muito a contribuir e fortalecer em parcerias de transferência de tecnologia.

 

Fonte: BBC News Mundo/Sputnik Brasil

 

Nenhum comentário: