O
panorama internacional pós-eleições no Brasil
Quase duas
semanas depois das eleições no Brasil, e poucos dias antes das eleições de meio
mandato (midterms) nos Estados Unidos, é importante rastrear as
movimentações internacionais e seu arranjo.
Ficou
claro que as presidenciais brasileiras ganharam uma repercussão muito além da
estrita votação nacional. Em primeiro lugar, porque a reeleição de Lula
significou um revés geopolítico ao projeto de “onda laranja sul-americana” de
Donald Trump, que estava convicto de poder contar com um preposto da Casa
Branca em Brasília, preferível mesmo diante da “boa química” com Lula.
“Este
é um golpe indiscutível para a estratégia regional de Trump”, disse
Benjamin Gedan, diretor do programa de América Latina do Stimson Center, sobre
a derrota de Bolsonaro. “[Trump] era percebido como alguém que estava
passando por cima da América do Sul, tendo invadido a Venezuela e visto aliados
próximos vencerem eleições na Argentina e no Chile, na Bolívia e na Colômbia.
Esse impulso tinha dado a impressão de que ele podia determinar resultados
políticos em toda a América Latina – e ele claramente gostava disso”.
Trump
classificou o resultado de “vergonha e um desastre”, mas reconheceu tacitamente
não poder fazer nada de concreto em auxílio de seus subordinados bolsonaristas.
Tira-lhe hoje a musculatura política uma série de derrotas importantes, como a
greve geral em Minneapolis que o fez recuar parcialmente na campanha
anti-imigratória, e especialmente a derrota militar na Guerra contra o Irã.
Em não
menor medida, sai derrotado pessoalmente Marco Rubio, secretário de Estado de
Trump. Rubio foi encarregado da estratégia da recuperação do “Hemisfério
Ocidental” para a esfera de influência estadunidense, como dique de contenção à
influência da China. Preparou o terreno para este momento com uma turnê através
da Colômbia, Equador e Peru, alinhando os governo de direita da América do Sul
setentrional a um projeto securitário, militarista e de controle de fronteiras,
ao qual deseja incluir a Amazônia brasileira. Rubio, que comandou a invasão dos
EUA na Venezuela e sua transformação em um protetorado neocolonial, assim como
a campanha de asfixia da economia cubana, esteve por trás da imposição de
tarifas contra o Brasil, e enviou seu subalterno, o pétit Javier Milei,
para impulsionar a campanha de Flávio em território brasileiro. O fracasso de
Rubio, reduzido a agente de viagens de Flávio para Miami, será lido entretanto
como um alerta para a aceleração da agenda “anti-narcoterroristas” dos Estados
Unidos através do Escudo das Américas, arquitetura do Pentágono a fim de
incrementar as digitais imperialistas no Cone Sul.
Aliás,
a operação de fuga de Flávio, organizada e orquestrada entre Washington, Buenos
Aires e Quito, é parte do Escudo das Américas. Assim, o perseguidor dos
trabalhadores imigrantes nos EUA com o ICE acolhe seus aliados criminosos,
milicianos e narcotraficantes para viver bem na Flórida.
Trump
ainda conta com vários subservientes chefes de Estado na América Latina. Javier
Milei, denunciado pela deputada socialista Myriam Bregman como operador de
segunda categoria da fuga bolsonarista, é o mais destacado, acompanhado por
Abelardo de la Espriella na Colômbia, Nayib Bukele em El Salvador, José Antônio
Kast no Chile, Keiko Fujimori no Peru, Rodrigo Paz na Bolívia, Daniel Noboa no
Equador (outro cúmplice da fuga bolsonarista). Todos eles representam, com
distintas colorações, a corte da obediência à agenda de Washington.
Não
obstante, contar com um mandatário da extrema direita na maior economia
sul-americana era um troféu considerado essencial para Trump, e que amorteceria
o impacto da mais que provável derrota nas (midterms) norte-americanas
(em que as projeções dão como praticamente certa a derrota de Trump na Câmara
dos Representantes). Não foi do agrado trumpista, além disso, que vários dos
seus aliados, como Espriella, Kast e Fujimori, tenham rapidamente reconhecido o
triunfo eleitoral de Lula, antes da recomendação estadunidense.
Os
Democratas, por sua vez, receberam com satisfação o triunfo eleitoral de Lula,
que utilizam para acicatar sua própria campanha contra Trump. Alexandria
Ocasio-Cortez, Zohan Mamdani e Bernie Sanders parabenizaram Lula, mas também o
fizeram personalidades do establishment Democrata, como Gregory Meeks (D-N.Y.),
responsável partidário na Comissão de Negócios Estrangeiros da Câmara dos
Representantes, e o ex-candidato presidencial e atual governador de Minnesota,
Tim Waltz, que descreveu a reeleição de Lula como “uma vitória mundial”. Esta
ala do imperialismo norte-americano, responsável pela articulação do golpe
institucional em 2016, tem seus próprios interesses, e busca em Lula um aliado
com o qual enfraquecer as digitais trumpistas na região após as eleições em
novembro.
Por
outro lado, o revés de Trump no Brasil foi comemorado pela China, cuja
influência em rápido crescimento na América Latina Trump vinha tentando
combater com sua chamada “Doutrina Donroe” de dominação regional. Xi Jinping
parabenizou Lula com uma mensagem de longo prazo: “Nos últimos anos, o
presidente Lula e eu mantivemos estreita comunicação por diversos meios,
liderando conjuntamente a construção de uma comunidade China-Brasil com um
futuro compartilhado para um mundo mais justo e um planeta mais sustentável,
rumo a novos progressos. A natureza global, estratégica e de longo prazo da
relação bilateral tornou-se mais proeminente, servindo como modelo de unidade e
cooperação entre os países do Sul Global”. “[Lula] frustrou efetivamente a
estratégia de Trump para a região… Trump não conseguiu colocar o Brasil, a
maior nação da América do Sul, sob seu domínio”, entusiasmou-se Hu Xijin, um
proeminente propagandista de Pequim.
Na
Europa, os chefes de Estado imperialistas aproveitaram o momento de atritos com
os EUA, em função da Guerra da Ucrânia, para contrariar Trump. A presidente da
Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, Pedro Sánchez, Emmanuel Macron e
Friedrich Merz parabenizaram Lula. O governo alemão
reagiu à fuga de Flávio enaltecendo o “estado de direito brasileiro”. No Estado espanhol
e na França, os governos usam os resultados à maneira dos Democratas, para
impulsionar suas próprias campanhas contra a extrema direita que fortaleceram -
na França vemos uma enorme rebelião nacional da juventude secundarista contra Macron
e o Rassemblement National de Marine Le Pen, contra a precarização da educação
e do trabalho, enquanto em terras espanholas é Sánchez que se depara com
protestos de envergadura contra a crise da moradia e o encarecimento da vida.
Está mais do que claro que a luta contra a ingerência estrangeira dos Estados
Unidos diz respeito ao combate a ambas as alas do imperialismo ianque,
Republicanos e Democratas. A China, por sua vez, não representa qualquer
alternativa progressista às imposições dos Estados Unidos: Beijing tem
interesses próprios no terreno do extrativismo de matérias-primas, minerais
estratégicos e terras raras, assim como na expansão do controle energético na
região e a ampliação dos mercados para seus produtos.
A
imprensa internacional repercutiu algumas chaves da situação. “Políticos
brasileiros de todo o espectro político rejeitaram as tentativas de Flávio
Bolsonaro de minar a recente eleição presidencial do país, a qual o político de
direita perdeu antes de fugir para os EUA, onde se apresentou como um líder no
exílio”, escreveu o Financial Times. O periódico The Guardian diz que “Apesar
da decisão de Trump de oferecer abrigo a Bolsonaro – que enfrenta várias
investigações criminais no Brasil –, muitos observadores suspeitam que seja
improvável que o presidente dos EUA compre uma grande briga com Lula por causa
da situação de seu aliado de direita”. O The New York Times
augura
que “A assistência da Casa Branca a Bolsonaro pode escalar as tensões entre
o governo Trump e Lula, que acusou Trump de interferir nos assuntos internos do
Brasil”. Todos notam o enfraquecimento relativo da política trumpista na
região, pelo impulso que pode dar a opositores: algo que o The New Yorker chama
de “contraofensiva anti-direitista”. Uma situação que inclusive reanima
anti-imperialismos em uma escala cada vez mais internacional. Não é por acaso
que o Vietnã ressurge no imaginário com a recente derrota no Oriente Médio
diante dos fenômenos desenvolvidos naquela época.
Tudo
isso precisa ser posto em perspectiva, para evitar desproporções. A reeleição
de Lula no Brasil, como já explicamos, em nenhum caso significa o
desaparecimento do bolsonarismo, muito menos da ofensiva imperialista sobre o
país e toda a América Latina. Tendo colhido derrotas humilhantes no Oriente
Médio, o imperialismo estadunidense buscará desesperadamente vitórias “fáceis”
em sua alegada “zona imediata de influência” para neutralizar sua crise diante
da sua frente interna e consolidar esta parte do hemisfério. Cuba, Venezuela, e
outros países latinoamericanos aparecem no radar. A contenção da China é
inegociável para o establishment bipartidário estadunidense, que vai
além de Trump. As crescentes ameaças a Cuba podem implicar ofensivas
inesperadas, que tratem de alterar a relação de forças.
A
realidade é que a prolongada desaceleração econômica mundial, o agravamento das
disputas geopolíticas, a militarização crescente dos conflitos interestatais e
a deterioração das condições de vida de milhões de trabalhadores configuram um
cenário marcado por uma profunda instabilidade, com propensões a guerras
regionais e uma tendência cada vez mais acentuada para formas autoritárias de
governo, o fortalecimento dos aparatos repressivos e a crescente militarização
de sua política.
É nesse
contexto que a América Latina voltou a adquirir importância estratégica para o
imperialismo estadunidense para reafirmar sua autoridade política e militar. A
chamada estratégia da “Grande América do Norte” sintetiza essa orientação. Por
trás desse conceito encontra-se a tentativa de reorganizar o continente como
uma zona econômica, política e militar subordinada aos interesses estratégicos
de Washington. Esta situação só fará acelerar as tendências à crise dos regimes
políticos e potencializar o desencadeamento de processos de luta de classes,
acelerando o ascenso do movimento de massas.
Embora
se posicione contra Trump e fale por vezes em soberania nacional, Lula fez
amplos gestos conciliadores a Trump desde 2024, enaltecendo a “química e a
petroquímica” com o Republicano. Chegou a dizer que com Trump teve um caso de
“amor à primeira vista”, depois da Assembleia Geral da ONU de 2025 em Nova
York. Lula, ademais, não fez nenhuma oposição séria contra a intervenção
política e militar na Venezuela, e com Claudia Sheinbaum continua negando o
envio de petróleo para Cuba, contra o embargo norte-americano.
Essa
moderação conciliadora é um convite para a valentia do imperialismo. Não é
apenas o destino do Brasil que está em jogo, e nem pode o país defender-se
sozinho contra a ingerência norte-americana. As forças sociais que derrotaram a
escala 6x1, que tomaram nas mãos a decisão de ir às ruas em todo o país contra
a extrema direita (muitas vezes contra a orientação do PT), são aquelas que
podem incendiar o terreno contra Trump.
Enquanto
as energias das massas continuarem subordinadas a variantes do chamado
“progressismo” e do frenteamplismo, que tem como projeto a administração do
capitalismo com doses homeopáticas de concessões, as crises continuarão se
reproduzindo e se agravando. Enfrentar a extrema direita sem enfrentar o poder
econômico capitalista e o imperialismo é preparar a ressurreição dos piores
inimigos das massas. É preciso pôr fim à este ciclo incessante de reciclagem de
novas direitas por parte do programa de conciliação de classes petista. O
governo Lula-Alckmin, “sucumbindo ao pensamento dominante,
à austeridade e gerenciando o neoliberalismo”, como disse Lula na Conferência
Progressista,
prepara novos Bolsonaros. Mais que nunca é necessário um programa de
independência de classe anti-imperialista que prepare a superação do PT pela
esquerda e abra caminho à construção de um partido revolucionário
internacionalista no Brasil.
Como escrevi neste postal sobre a
juventude que enfrenta a época contemporânea, as enormes manifestações da luta de
classes na França, e também no Estado espanhol, na Sérvia, na Albânia e na
Itália, mostram o caminho para nossa luta no Brasil. Hoje, os franceses
antecipam um caminho disruptivo com envergadura internacional. Nada mais
inspirador que saber que esta geração que quer acabar com a contemporaneidade
capitalista ergue o punho e, com bandeiras penduradas nos muros de suas
escolas, ameaçam a classe dominante: “se nos enganam, jogamos um novo Maio
de 68 sobre vocês”.
¨ A vitória de Lula e
os desafios da política externa. Por Sayid Marcos Tenório
A
emblemática vitória de Lula no segundo turno afirma um Brasil que decide seu
próprio destino e atua pela construção de uma ordem internacional menos
desigual. Na minha avaliação, o resultado impõe uma derrota ao projeto
bolsonarista de subordinar a política externa brasileira aos interesses dos
Estados Unidos e de Israel.
O
balanço eleitoral apresentado registra 64.256.232 votos para Lula, equivalentes
a 51,79% dos válidos, contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro, ou 48,21%. A
vantagem foi de 4.430.191 votos. No primeiro turno, Lula havia recebido 45,16%,
diante dos 47,03% do adversário.
A
vitória de virada revelou a reação de uma candidatura que retomou a mobilização
popular e conseguiu ampliar sua votação em mais de dez milhões de votos.
A
vitória de Lula e a centralidade da soberania em seu discurso abrem caminho
para um novo patamar de atuação do Brasil no cenário internacional. Ao afirmar
o direito de decidir seu próprio destino, o país pode fortalecer a luta de
povos que enfrentam a ocupação e a negação de seus direitos, como o palestino e
o saaraui, oferecendo uma referência de autonomia e solidariedade.
Lula
denunciou o genocídio em Gaza, condenou a perseguição sionista ao povo
palestino e cobrou uma resposta internacional à devastação. Sua postura
confrontou a complacência de governos que oferecem proteção política e apoio
militar a Israel, reafirmando que nenhum Estado está acima do direito
internacional, tampouco os Estados Unidos e Israel.
Na
Palestina, Lula recebeu 1.000 votos, ou 95,60%, contra 46 de Flávio. Embora o
voto tenha múltiplas motivações, interpreto essa preferência como afinidade com
a defesa dos direitos palestinos sustentada pelo presidente.
Em
Israel, Flávio recebeu 699 votos, contra 166 de Lula. Na minha leitura, essa
preferência sugere identificação com o apoio de Jair e Flávio Bolsonaro às
políticas de Netanyahu, orientadas pelo supremacismo sionista em detrimento dos
direitos palestinos.
A
relação de Lula com a Palestina tem história. Em 2010, seu governo reconheceu o
Estado palestino nas fronteiras de 1967. Como examino em meu livro “Palestina:
do mito da terra prometida à terra da resistência”, reconhecer a
autodeterminação palestina significa tratar esse povo como sujeito de direitos
e de soberania.
O novo
mandato de Lula precisa converter essa posição em medidas concretas, como
interromper o fornecimento de petróleo e aço a Israel e rever e cancelar
contratos de compra de armas e equipamentos tecnológicos israelenses.
O
Brasil deve contribuir para encerrar a ocupação e proteger a população
palestina. A solidariedade exige decisões diplomáticas, comerciais e militares
coerentes, capazes de enfrentar a impunidade e sustentar o direito palestino à
liberdade.
Ao
condenar os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra a República Islâmica
do Irã, o Brasil afirmou sua autonomia diplomática e a defesa da soberania
iraniana. O novo mandato precisa transformar essa posição em iniciativas
diplomáticas pela paz, pelo respeito à autodeterminação do povo iraniano e pela
rejeição de novas agressões militares.
A
autonomia brasileira exige diálogo, rejeição às agressões militares e defesa do
direito de todos os países, inclusive Brasil e Irã, de desenvolver tecnologia
nuclear para fins pacíficos, sob salvaguardas internacionais. Se Estados
Unidos, Israel e outros países utilizam essa tecnologia, seu domínio não pode
constituir privilégio de poucos.
A
Declaração de Teerã, firmada por Brasil, Turquia e Irã em maio de 2010,
demonstrou que o Sul Global pode construir alternativas negociadas. Essa
experiência deve orientar iniciativas pela paz, pela não-proliferação e pelo
acesso à energia nuclear para fins científicos, médicos e de desenvolvimento.
Sob
Lula, o Brasil deve fortalecer o BRICS e o Mercosul como eixos de sua inserção
internacional, aprofundando a cooperação, ampliando alternativas de
financiamento e consolidando parcerias científicas, econômicas e tecnológicas.
Essa atuação deve transformar a integração regional e a articulação do Sul
Global em desenvolvimento, autonomia e maior capacidade de decisão no cenário
mundial.
O
fortalecimento do Mercosul é estratégico para a soberania brasileira, porque
amplia mercados, articula cadeias produtivas e viabiliza projetos de
infraestrutura que conectam nossas economias.
A
integração regional fortalece a indústria, gera empregos e amplia o poder de
negociação dos países do bloco diante das grandes potências. Uma região capaz
de coordenar interesses e compartilhar capacidades tem melhores condições de
transformar autonomia política em desenvolvimento.
O
Brasil deve afirmar seu compromisso com o Sul Global e a soberania dos povos,
defender a liberdade da Palestina, respeitar a soberania do Irã e trabalhar
pelo fim definitivo do colonialismo na África, com o reconhecimento da
República Árabe Saaraui Democrática.
O novo
mandato do presidente Lula precisa transformar solidariedade em ação
diplomática e autodeterminação em compromisso efetivo. Nenhum povo pode ter seu
destino submetido à ocupação ou à agressão militar. Nosso futuro não pode ser
entregue às prioridades dos Estados Unidos e de Israel.
Fonte:
Esquerda Diário/Opera Mundi

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