segunda-feira, 2 de novembro de 2026

O panorama internacional pós-eleições no Brasil

Quase duas semanas depois das eleições no Brasil, e poucos dias antes das eleições de meio mandato (midterms) nos Estados Unidos, é importante rastrear as movimentações internacionais e seu arranjo.

Ficou claro que as presidenciais brasileiras ganharam uma repercussão muito além da estrita votação nacional. Em primeiro lugar, porque a reeleição de Lula significou um revés geopolítico ao projeto de “onda laranja sul-americana” de Donald Trump, que estava convicto de poder contar com um preposto da Casa Branca em Brasília, preferível mesmo diante da “boa química” com Lula.

“Este é um golpe indiscutível para a estratégia regional de Trump”, disse Benjamin Gedan, diretor do programa de América Latina do Stimson Center, sobre a derrota de Bolsonaro. “[Trump] era percebido como alguém que estava passando por cima da América do Sul, tendo invadido a Venezuela e visto aliados próximos vencerem eleições na Argentina e no Chile, na Bolívia e na Colômbia. Esse impulso tinha dado a impressão de que ele podia determinar resultados políticos em toda a América Latina – e ele claramente gostava disso”.

Trump classificou o resultado de “vergonha e um desastre”, mas reconheceu tacitamente não poder fazer nada de concreto em auxílio de seus subordinados bolsonaristas. Tira-lhe hoje a musculatura política uma série de derrotas importantes, como a greve geral em Minneapolis que o fez recuar parcialmente na campanha anti-imigratória, e especialmente a derrota militar na Guerra contra o Irã.

Em não menor medida, sai derrotado pessoalmente Marco Rubio, secretário de Estado de Trump. Rubio foi encarregado da estratégia da recuperação do “Hemisfério Ocidental” para a esfera de influência estadunidense, como dique de contenção à influência da China. Preparou o terreno para este momento com uma turnê através da Colômbia, Equador e Peru, alinhando os governo de direita da América do Sul setentrional a um projeto securitário, militarista e de controle de fronteiras, ao qual deseja incluir a Amazônia brasileira. Rubio, que comandou a invasão dos EUA na Venezuela e sua transformação em um protetorado neocolonial, assim como a campanha de asfixia da economia cubana, esteve por trás da imposição de tarifas contra o Brasil, e enviou seu subalterno, o pétit Javier Milei, para impulsionar a campanha de Flávio em território brasileiro. O fracasso de Rubio, reduzido a agente de viagens de Flávio para Miami, será lido entretanto como um alerta para a aceleração da agenda “anti-narcoterroristas” dos Estados Unidos através do Escudo das Américas, arquitetura do Pentágono a fim de incrementar as digitais imperialistas no Cone Sul.

Aliás, a operação de fuga de Flávio, organizada e orquestrada entre Washington, Buenos Aires e Quito, é parte do Escudo das Américas. Assim, o perseguidor dos trabalhadores imigrantes nos EUA com o ICE acolhe seus aliados criminosos, milicianos e narcotraficantes para viver bem na Flórida.

Trump ainda conta com vários subservientes chefes de Estado na América Latina. Javier Milei, denunciado pela deputada socialista Myriam Bregman como operador de segunda categoria da fuga bolsonarista, é o mais destacado, acompanhado por Abelardo de la Espriella na Colômbia, Nayib Bukele em El Salvador, José Antônio Kast no Chile, Keiko Fujimori no Peru, Rodrigo Paz na Bolívia, Daniel Noboa no Equador (outro cúmplice da fuga bolsonarista). Todos eles representam, com distintas colorações, a corte da obediência à agenda de Washington.

Não obstante, contar com um mandatário da extrema direita na maior economia sul-americana era um troféu considerado essencial para Trump, e que amorteceria o impacto da mais que provável derrota nas (midterms) norte-americanas (em que as projeções dão como praticamente certa a derrota de Trump na Câmara dos Representantes). Não foi do agrado trumpista, além disso, que vários dos seus aliados, como Espriella, Kast e Fujimori, tenham rapidamente reconhecido o triunfo eleitoral de Lula, antes da recomendação estadunidense.

Os Democratas, por sua vez, receberam com satisfação o triunfo eleitoral de Lula, que utilizam para acicatar sua própria campanha contra Trump. Alexandria Ocasio-Cortez, Zohan Mamdani e Bernie Sanders parabenizaram Lula, mas também o fizeram personalidades do establishment Democrata, como Gregory Meeks (D-N.Y.), responsável partidário na Comissão de Negócios Estrangeiros da Câmara dos Representantes, e o ex-candidato presidencial e atual governador de Minnesota, Tim Waltz, que descreveu a reeleição de Lula como “uma vitória mundial”. Esta ala do imperialismo norte-americano, responsável pela articulação do golpe institucional em 2016, tem seus próprios interesses, e busca em Lula um aliado com o qual enfraquecer as digitais trumpistas na região após as eleições em novembro.

Por outro lado, o revés de Trump no Brasil foi comemorado pela China, cuja influência em rápido crescimento na América Latina Trump vinha tentando combater com sua chamada “Doutrina Donroe” de dominação regional. Xi Jinping parabenizou Lula com uma mensagem de longo prazo: “Nos últimos anos, o presidente Lula e eu mantivemos estreita comunicação por diversos meios, liderando conjuntamente a construção de uma comunidade China-Brasil com um futuro compartilhado para um mundo mais justo e um planeta mais sustentável, rumo a novos progressos. A natureza global, estratégica e de longo prazo da relação bilateral tornou-se mais proeminente, servindo como modelo de unidade e cooperação entre os países do Sul Global”. “[Lula] frustrou efetivamente a estratégia de Trump para a região… Trump não conseguiu colocar o Brasil, a maior nação da América do Sul, sob seu domínio”, entusiasmou-se Hu Xijin, um proeminente propagandista de Pequim.

Na Europa, os chefes de Estado imperialistas aproveitaram o momento de atritos com os EUA, em função da Guerra da Ucrânia, para contrariar Trump. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, Pedro Sánchez, Emmanuel Macron e Friedrich Merz parabenizaram Lula. O governo alemão reagiu à fuga de Flávio enaltecendo o “estado de direito brasileiro”. No Estado espanhol e na França, os governos usam os resultados à maneira dos Democratas, para impulsionar suas próprias campanhas contra a extrema direita que fortaleceram - na França vemos uma enorme rebelião nacional da juventude secundarista contra Macron e o Rassemblement National de Marine Le Pen, contra a precarização da educação e do trabalho, enquanto em terras espanholas é Sánchez que se depara com protestos de envergadura contra a crise da moradia e o encarecimento da vida.
Está mais do que claro que a luta contra a ingerência estrangeira dos Estados Unidos diz respeito ao combate a ambas as alas do imperialismo ianque, Republicanos e Democratas. A China, por sua vez, não representa qualquer alternativa progressista às imposições dos Estados Unidos: Beijing tem interesses próprios no terreno do extrativismo de matérias-primas, minerais estratégicos e terras raras, assim como na expansão do controle energético na região e a ampliação dos mercados para seus produtos.

A imprensa internacional repercutiu algumas chaves da situação. “Políticos brasileiros de todo o espectro político rejeitaram as tentativas de Flávio Bolsonaro de minar a recente eleição presidencial do país, a qual o político de direita perdeu antes de fugir para os EUA, onde se apresentou como um líder no exílio”, escreveu o Financial Times. O periódico The Guardian diz que “Apesar da decisão de Trump de oferecer abrigo a Bolsonaro – que enfrenta várias investigações criminais no Brasil –, muitos observadores suspeitam que seja improvável que o presidente dos EUA compre uma grande briga com Lula por causa da situação de seu aliado de direita”. O The New York Times augura que “A assistência da Casa Branca a Bolsonaro pode escalar as tensões entre o governo Trump e Lula, que acusou Trump de interferir nos assuntos internos do Brasil”. Todos notam o enfraquecimento relativo da política trumpista na região, pelo impulso que pode dar a opositores: algo que o The New Yorker chama de “contraofensiva anti-direitista”. Uma situação que inclusive reanima anti-imperialismos em uma escala cada vez mais internacional. Não é por acaso que o Vietnã ressurge no imaginário com a recente derrota no Oriente Médio diante dos fenômenos desenvolvidos naquela época.

Tudo isso precisa ser posto em perspectiva, para evitar desproporções. A reeleição de Lula no Brasil, como já explicamos, em nenhum caso significa o desaparecimento do bolsonarismo, muito menos da ofensiva imperialista sobre o país e toda a América Latina. Tendo colhido derrotas humilhantes no Oriente Médio, o imperialismo estadunidense buscará desesperadamente vitórias “fáceis” em sua alegada “zona imediata de influência” para neutralizar sua crise diante da sua frente interna e consolidar esta parte do hemisfério. Cuba, Venezuela, e outros países latinoamericanos aparecem no radar. A contenção da China é inegociável para o establishment bipartidário estadunidense, que vai além de Trump. As crescentes ameaças a Cuba podem implicar ofensivas inesperadas, que tratem de alterar a relação de forças.

A realidade é que a prolongada desaceleração econômica mundial, o agravamento das disputas geopolíticas, a militarização crescente dos conflitos interestatais e a deterioração das condições de vida de milhões de trabalhadores configuram um cenário marcado por uma profunda instabilidade, com propensões a guerras regionais e uma tendência cada vez mais acentuada para formas autoritárias de governo, o fortalecimento dos aparatos repressivos e a crescente militarização de sua política.

É nesse contexto que a América Latina voltou a adquirir importância estratégica para o imperialismo estadunidense para reafirmar sua autoridade política e militar. A chamada estratégia da “Grande América do Norte” sintetiza essa orientação. Por trás desse conceito encontra-se a tentativa de reorganizar o continente como uma zona econômica, política e militar subordinada aos interesses estratégicos de Washington. Esta situação só fará acelerar as tendências à crise dos regimes políticos e potencializar o desencadeamento de processos de luta de classes, acelerando o ascenso do movimento de massas.

Embora se posicione contra Trump e fale por vezes em soberania nacional, Lula fez amplos gestos conciliadores a Trump desde 2024, enaltecendo a “química e a petroquímica” com o Republicano. Chegou a dizer que com Trump teve um caso de “amor à primeira vista”, depois da Assembleia Geral da ONU de 2025 em Nova York. Lula, ademais, não fez nenhuma oposição séria contra a intervenção política e militar na Venezuela, e com Claudia Sheinbaum continua negando o envio de petróleo para Cuba, contra o embargo norte-americano.

Essa moderação conciliadora é um convite para a valentia do imperialismo. Não é apenas o destino do Brasil que está em jogo, e nem pode o país defender-se sozinho contra a ingerência norte-americana. As forças sociais que derrotaram a escala 6x1, que tomaram nas mãos a decisão de ir às ruas em todo o país contra a extrema direita (muitas vezes contra a orientação do PT), são aquelas que podem incendiar o terreno contra Trump.

Enquanto as energias das massas continuarem subordinadas a variantes do chamado “progressismo” e do frenteamplismo, que tem como projeto a administração do capitalismo com doses homeopáticas de concessões, as crises continuarão se reproduzindo e se agravando. Enfrentar a extrema direita sem enfrentar o poder econômico capitalista e o imperialismo é preparar a ressurreição dos piores inimigos das massas. É preciso pôr fim à este ciclo incessante de reciclagem de novas direitas por parte do programa de conciliação de classes petista. O governo Lula-Alckmin, “sucumbindo ao pensamento dominante, à austeridade e gerenciando o neoliberalismo”, como disse Lula na Conferência Progressista, prepara novos Bolsonaros. Mais que nunca é necessário um programa de independência de classe anti-imperialista que prepare a superação do PT pela esquerda e abra caminho à construção de um partido revolucionário internacionalista no Brasil.

Como escrevi neste postal sobre a juventude que enfrenta a época contemporânea, as enormes manifestações da luta de classes na França, e também no Estado espanhol, na Sérvia, na Albânia e na Itália, mostram o caminho para nossa luta no Brasil. Hoje, os franceses antecipam um caminho disruptivo com envergadura internacional. Nada mais inspirador que saber que esta geração que quer acabar com a contemporaneidade capitalista ergue o punho e, com bandeiras penduradas nos muros de suas escolas, ameaçam a classe dominante: “se nos enganam, jogamos um novo Maio de 68 sobre vocês”.

¨      A vitória de Lula e os desafios da política externa. Por Sayid Marcos Tenório

A emblemática vitória de Lula no segundo turno afirma um Brasil que decide seu próprio destino e atua pela construção de uma ordem internacional menos desigual. Na minha avaliação, o resultado impõe uma derrota ao projeto bolsonarista de subordinar a política externa brasileira aos interesses dos Estados Unidos e de Israel.

O balanço eleitoral apresentado registra 64.256.232 votos para Lula, equivalentes a 51,79% dos válidos, contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro, ou 48,21%. A vantagem foi de 4.430.191 votos. No primeiro turno, Lula havia recebido 45,16%, diante dos 47,03% do adversário.

A vitória de virada revelou a reação de uma candidatura que retomou a mobilização popular e conseguiu ampliar sua votação em mais de dez milhões de votos.

A vitória de Lula e a centralidade da soberania em seu discurso abrem caminho para um novo patamar de atuação do Brasil no cenário internacional. Ao afirmar o direito de decidir seu próprio destino, o país pode fortalecer a luta de povos que enfrentam a ocupação e a negação de seus direitos, como o palestino e o saaraui, oferecendo uma referência de autonomia e solidariedade.

Lula denunciou o genocídio em Gaza, condenou a perseguição sionista ao povo palestino e cobrou uma resposta internacional à devastação. Sua postura confrontou a complacência de governos que oferecem proteção política e apoio militar a Israel, reafirmando que nenhum Estado está acima do direito internacional, tampouco os Estados Unidos e Israel.

Na Palestina, Lula recebeu 1.000 votos, ou 95,60%, contra 46 de Flávio. Embora o voto tenha múltiplas motivações, interpreto essa preferência como afinidade com a defesa dos direitos palestinos sustentada pelo presidente. 

Em Israel, Flávio recebeu 699 votos, contra 166 de Lula. Na minha leitura, essa preferência sugere identificação com o apoio de Jair e Flávio Bolsonaro às políticas de Netanyahu, orientadas pelo supremacismo sionista em detrimento dos direitos palestinos.

A relação de Lula com a Palestina tem história. Em 2010, seu governo reconheceu o Estado palestino nas fronteiras de 1967. Como examino em meu livro “Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência”, reconhecer a autodeterminação palestina significa tratar esse povo como sujeito de direitos e de soberania.

O novo mandato de Lula precisa converter essa posição em medidas concretas, como interromper o fornecimento de petróleo e aço a Israel e rever e cancelar contratos de compra de armas e equipamentos tecnológicos israelenses.

O Brasil deve contribuir para encerrar a ocupação e proteger a população palestina. A solidariedade exige decisões diplomáticas, comerciais e militares coerentes, capazes de enfrentar a impunidade e sustentar o direito palestino à liberdade.

Ao condenar os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra a República Islâmica do Irã, o Brasil afirmou sua autonomia diplomática e a defesa da soberania iraniana. O novo mandato precisa transformar essa posição em iniciativas diplomáticas pela paz, pelo respeito à autodeterminação do povo iraniano e pela rejeição de novas agressões militares.

A autonomia brasileira exige diálogo, rejeição às agressões militares e defesa do direito de todos os países, inclusive Brasil e Irã, de desenvolver tecnologia nuclear para fins pacíficos, sob salvaguardas internacionais. Se Estados Unidos, Israel e outros países utilizam essa tecnologia, seu domínio não pode constituir privilégio de poucos.

A Declaração de Teerã, firmada por Brasil, Turquia e Irã em maio de 2010, demonstrou que o Sul Global pode construir alternativas negociadas. Essa experiência deve orientar iniciativas pela paz, pela não-proliferação e pelo acesso à energia nuclear para fins científicos, médicos e de desenvolvimento.

Sob Lula, o Brasil deve fortalecer o BRICS e o Mercosul como eixos de sua inserção internacional, aprofundando a cooperação, ampliando alternativas de financiamento e consolidando parcerias científicas, econômicas e tecnológicas. Essa atuação deve transformar a integração regional e a articulação do Sul Global em desenvolvimento, autonomia e maior capacidade de decisão no cenário mundial.

O fortalecimento do Mercosul é estratégico para a soberania brasileira, porque amplia mercados, articula cadeias produtivas e viabiliza projetos de infraestrutura que conectam nossas economias.

A integração regional fortalece a indústria, gera empregos e amplia o poder de negociação dos países do bloco diante das grandes potências. Uma região capaz de coordenar interesses e compartilhar capacidades tem melhores condições de transformar autonomia política em desenvolvimento.

O Brasil deve afirmar seu compromisso com o Sul Global e a soberania dos povos, defender a liberdade da Palestina, respeitar a soberania do Irã e trabalhar pelo fim definitivo do colonialismo na África, com o reconhecimento da República Árabe Saaraui Democrática.

O novo mandato do presidente Lula precisa transformar solidariedade em ação diplomática e autodeterminação em compromisso efetivo. Nenhum povo pode ter seu destino submetido à ocupação ou à agressão militar. Nosso futuro não pode ser entregue às prioridades dos Estados Unidos e de Israel.

 

Fonte: Esquerda Diário/Opera Mundi

 

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