quinta-feira, 5 de novembro de 2026

O que a vitória democrata significa para a economia dos EUA sob Trump

Para os milhões de americanos que participaram das eleições legislativas de meio de mandato dos Estados Unidos, encerradas na terça-feira (03/11), a economia foi o tema mais importante da disputa. 

Mas o presidente Donald Trump, cujo Partido Republicano perdeu as maiorias na Câmara dos Representantes e no Senado, ainda tem dois anos de mandato na Casa Branca. 

O que, então, as vitórias da oposição democrata de fato significam para a economia e a política econômica dos EUA?

<><> Reação do mercado

A reação inicial dos mercados foi moderada, mas com tendência negativa. As bolsas globais caíram ligeiramente, enquanto o dólar seguiu o mesmo caminho.

Com os democratas agora detendo maiorias confortáveis nas duas casas do Congresso e Trump ainda na Casa Branca, isso pode levar a um impasse político em Washington. Trump já afirmou que se tornará o "Senhor Veto", indicando que bloqueará projetos que os democratas aprovarem no Legislativo.

"A magnitude dos ganhos dos democratas nas eleições de meio de mandato não altera muito as perspectivas de políticas públicas no curto prazo, já que o partido ainda não dispõe de uma maioria capaz de superar uma obstrução parlamentar no Senado, e o presidente Trump tem poder de veto para bloquear legislações", escreveu Stephen Brown, economista-chefe para a América do Norte da Capital Economics.

Para Jacob Funk Kirkegaard, pesquisador do Peterson Institute for International Economics, "estamos olhando para dois anos de impasse completo".

No entanto, alguns investidores parecem preocupados com a possibilidade de os democratas conseguirem impor regulamentações para a inteligência artificial (IA), especialmente se também conquistarem a Casa Branca em 2028. A crescente oposição entre amplas maiorias da população dos EUA aos centros de processamento de dados, a principal infraestrutura por trás da IA, ajudou a garantir vitórias para muitos candidatos democratas.

Kirkegaard, que também é pesquisador sênior do Centro Europeu de Estudos Econômicos Bruegel, aponta que a votação mostrou a extensão dessa oposição. Mesmo que os democratas não consigam impor regulamentações, ele acredita que a resistência local dificultará a construção de centros de dados, o que poderia afetar as avaliações de mercado das grandes empresas de tecnologia que se beneficiaram do boom da IA.

"Esta eleição mostra que a sustentação política da narrativa de crescimento rápido e agressivo da IA é frágil", afirma. "Isso não significa que ela vá parar ou ser tornada ilegal, mas a dinâmica dessa narrativa de crescimento mudou."

Brown destaca que, se os democratas vencerem a Presidência em 2028, estarão em posição ideal para promover mudanças importantes. "Isso inclui a possibilidade de aumentos de impostos para empresas e indivíduos de alta renda, bem como regulamentações que poderiam atrasar a implementação da IA."

<><> E as políticas tarifárias de Trump?

Segundo uma pesquisa realizada pelo Pew Research Center no início de outubro, 56% dos americanos afirmam que as políticas tarifárias de Trump terão impactos predominantemente negativos para o país. Outros 20% afirmam que terão impactos predominantemente positivos.

Esse sentimento claramente contribuiu para a vitória de muitos democratas nas eleições de meio de mandato, especialmente em estados onde as tarifas tiveram efeitos particularmente negativos. Isso inclui estados com setores dependentes de exportações, como Texas, Michigan, Iowa e Illinois, que foram por tarifas retaliatórias, além de estados com elevado volume de comércio com o Canadá.

Ainda assim, a menos que haja uma mudança de posição sem precedentes por parte de Trump, que defende ideologicamente as tarifas há quase 50 anos, não está claro como os democratas poderão impor mudanças substanciais à principal política econômica do presidente.

"Trump não será moderado", disse Deborah Elms, chefe de política comercial da Fundação Hinrich, em Singapura, à DW anteriormente neste ano. "Espere que ele continue com suas políticas de disrupção comercial e de tarifas enquanto permanecer no Salão Oval."

Embora a Constituição dos EUA atribua ao Congresso o poder de arrecadar e organizar tarifas, diversas leis aprovadas ao longo dos anos concederam aos presidentes autoridade para implementar tarifas quando alegam determinadas condições, como questões de segurança nacional ou emergências econômicas.

Trump já utilizou esses instrumentos para impor suas taxas e pode continuar a fazê-lo, apesar de algumas contestações judiciais. No entanto, embora o Congresso não possa necessariamente forçar o fim das tarifas já existentes, agora ele pode adotar novas medidas legais contra elas para evitar uma escalada ainda maior.

<><> Guerra no Irã e preços do petróleo

Kirkegaard avalia que, embora Trump e os democratas claramente não devam atuar em conjunto, a dimensão da derrota republicana pode forçar Trump a ser menos errático em sua formulação de políticas, desde a escalada da guerra comercial com o Canadá até sua política em relação ao Irã.

Após as derrotas de terça-feira, Trump afirmou que iria "trabalhar com" os democratas. Ao Financial Times, ele disse, antes da votação, que era improvável uma ampliação da guerra no Irã.

Caso um acordo seja alcançado com o Irã, os altos preços da energia, uma questão central nesta eleição, poderiam finalmente recuar, atendendo os eleitores preocupados com o custo de vida.

"É preciso chegar a um acordo com o Irã e reduzir os preços da gasolina", afirma Kirkegaard. "Do ponto de vista político, essa é agora a questão mais importante."

George Saravelos, analista do Deutsche Bank FX Research, acredita que os mercados estão começando a se tornar mais otimistas nesse aspecto.

"Com os fluxos de petróleo pelo Oriente Médio tendo se recuperado substancialmente, o mercado está precificando um elevado prêmio de risco imediato associado a uma nova escalada e a interrupções no fornecimento de energia", escreveu em relatório.

<><> Trump poderá negociar?

Apesar da dimensão da vitória democrata, o fato de Trump continuar na Casa Branca complicará todos os esforços para impor mudanças em suas principais políticas econômicas.

Ainda assim, o Congresso poderá exercer pressão significativa. Outra questão considerada vital pelos eleitores foi a corrupção e a crença de que o governo Trump se envolveu em corrupção e enriquecimento pessoal durante o exercício do poder.

Isso aumenta a possibilidade de que o novo Congresso controlado pelos democratas lance investigações legais e possivelmente promova mais um processo de impeachment contra Trump, o que poderia forçar o presidente a negociar em questões econômicas para garantir sua sobrevivência política.

"É possível encontrar 10 ou 12 senadores republicanos que, diante de evidências esmagadoras de corrupção, estejam dispostos a votar por artigos de impeachment? Eu não descartaria essa possibilidade", afirma Kirkegaard. "E esse é um cenário em que Trump poderia, de repente, mostrar-se muito mais disposto, por exemplo, a abandonar a maior parte de suas tarifas."

Ainda que os eleitores tenham demonstrado uma rejeição clara às políticas econômicas de Trump, os novos senadores, deputados e deputadas democratas enfrentarão uma batalha difícil para tentar revertê-las.

¨      O impacto da derrota nas eleições de meio de mandato para Trump

Os democratas conquistaram o controle tanto do Senado quanto da Câmara dos Representantes nesta terça-feira (03/11), com milhões de eleitores expressando uma forte reprovação ao governo do presidente Donald Trump.

Os resultados representam uma mudança profunda no equilíbrio político em Washington e obrigarão Trump a enfrentar um Congresso controlado pela oposição durante os dois últimos anos de seu mandato presidencial.

"Os americanos votaram por mudança, e agora os democratas precisam entregar resultados", afirmou Chuck Schumer, líder da minoria democrata no Senado.

Com os democratas prestes a controlar ambas as câmaras do Congresso, a capacidade de Trump de levar adiante sua agenda política nos dois anos finais do mandato será significativamente enfraquecida.

É provável que o restante de seu mandato seja consumido por investigações lideradas pelos democratas sobre a sua gestão e os seus negócios e, possivelmente, até por um novo processo de impeachment.

Além de abrir investigações sobre o governo, os democratas poderão barrar projetos de lei e dificultar os planos orçamentários de Trump. Também terão voz na confirmação de altos funcionários do governo e de juízes federais. Um Senado controlado pelos democratas poderá bloquear nomeações de Trump, incluindo eventuais indicações para a Suprema Corte em caso de vacância.

Mas Trump continuará tendo consideráveis poderes constitucionais na política externa, uma das áreas em que presidentes lame duck ("pato manco", expressão usada para definir um presidente com poder reduzido diante de um Congresso hostil) ainda dispõem de ampla margem de atuação, assim como nas áreas de comércio e tarifas.

Apesar das preocupações dos democratas de que Trump pudesse tentar contestar os resultados eleitorais, como ocorreu em 2020, o presidente aceitou o resultado e parabenizou os democratas em entrevistas.

<><> Das investigações ao impeachment

As expressivas derrotas dos republicanos nas eleições de meio de mandato abrem caminho para investigações e possíveis processos de impeachment que deixariam o presidente republicano na defensiva em seus dois últimos anos no cargo.

A partir de janeiro, espera-se que os democratas usem seu poder para investigar o governo Trump, sua família e seus aliados, além de exigir concessões em projetos legislativos importantes.

Líderes democratas já vinham sinalizando quais seriam seus principais alvos de investigação: as políticas do governo Trump, a conduta de seus integrantes e as relações entre autoridades governamentais e empresas privadas que buscaram influência junto à Casa Branca.

Entre as prioridades estão os negócios da família Trump, a condução das investigações relacionadas a Jeffrey Epstein e alegações mais amplas de corrupção corporativa.

O secretário de Defesa, Pete Hegseth, e o magnata da tecnologia Elon Musk – que foi um dos principais conselheiros de Trump – estão entre os possíveis alvos de investigações.

Processos de impeachment de Trump e de integrantes de seu gabinete de governo também não podem ser descartados.

<><> "Veto forte"

Uma maioria democrata contará com o controle das comissões parlamentares, orçamentos maiores, mais funcionários e o poder de emitir intimações, obrigando o governo a responder ao Congresso.

Em resposta, a Casa Branca poderá retomar a estratégia usada durante o primeiro governo Trump de retardar o fornecimento de documentos e depoimentos solicitados pelo Congresso e invocar o privilégio executivo para restringir o acesso a determinadas informações.

O presidente já indicou que se prepara para grandes disputas legislativas, mas também afirmou que quer trabalhar com os democratas em temas como imigração. Ele ameaçou vetar quaisquer projetos que considere "insanos", dizendo possuir um "veto forte". Na noite de terça-feira, Trump publicou uma foto de seu tradicional boné vermelho com a palavra "VETO".

Mesmo com a chamada "onda azul", os democratas não deverão obter a maioria qualificada de dois terços necessária para derrubar um veto presidencial.

<><> Alívio na pressão de Trump sobre o Brasil?

"Para o Brasil, a mudança mais significativa não seria necessariamente encontrar um Trump mais moderado, mas sim um presidente com menor capacidade política de impor unilateralmente suas decisões", afirma à DW a cientista política Gisele Agnelli, autora de Democracia Made in USA.

Nos últimos dias de campanha, 25 democratas já haviam publicado uma carta pedindo formalmente explicações ao secretário de Estado, Marco Rubio, pela recepção concedida ao senador Flávio Bolsonaro (PL), que fugiu para Miami após perder a eleição presidencial.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, a deputada Pramila Jayapal, uma das signatárias da carta, indicou na semana passada que, com maioria no Congresso, a oposição pretende investigar a atuação de Trump e da Meta no contexto das eleições brasileiras.

Mas a Casa Branca ainda mantém autoridade significativa para conduzir a política externa e implementar tarifas sem a aprovação do Congresso, embora esses poderes tenham sido limitados por decisões da Suprema Corte tomadas no início deste ano.

A vitória dos democratas, portanto, não elimina automaticamente a ameaça do tarifaço contra o Brasil, mas pode criar um ambiente mais favorável para negociações bilaterais, devolvendo ao país "a possibilidade de negociar com diferentes centros de poder dentro dos Estados Unidos", avalia Agnelli.

<><> Apoio à Ucrânia

Quando a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia começou, o presidente democrata Joe Biden ocupava a Casa Branca. Em conjunto com a Europa, os Estados Unidos foram um parceiro confiável de Kiev, oferecendo apoio financeiro, assistência militar e, sobretudo, grandes volumes de armamentos.

Sob Trump, a situação mudou. O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, teve uma recepção extremamente desconfortável durante visita à Casa Branca em 2025, e hoje Trump admite abertamente que se relaciona melhor com o presidente russo, Vladimir Putin, do que com Zelenski.

Os Estados Unidos suspenderam sanções contra a Rússia e reduziram a ajuda financeira e militar à Ucrânia. Os democratas, com a maioria nas duas câmaras do Congresso, poderão colocar o fortalecimento do apoio à Ucrânia no centro da agenda.

"Os democratas criticam Trump por não fazer o suficiente pela Ucrânia", diz Brandon Conradis, ex-jornalista da DW e atualmente editor da Bloomberg Government. "Eles podem defender a ampliação desse apoio."

<><> Guerra com o Irã

Trump iniciou, ao lado de Israel, a guerra contra o Irã em 28 de fevereiro sem consultar o Congresso. Pela Constituição dos Estados Unidos, cabe ao Congresso aprovar uma declaração formal de guerra contra outro país.

Os democratas votaram repetidamente contra a guerra e chegaram a aprovar, junto com alguns republicanos, uma resolução para encerrar as hostilidades. O governo Trump, entretanto, ignorou a medida.

"Não acredito que o Congresso tenha muito poder nessa questão", afirma o analista Michael O'Hanlon, diretor de pesquisa em política externa da Brookings Institution. "Mas talvez possa impedir uma grande escalada ao negar financiamento para isso."

<><> Ajuda ao desenvolvimento

Logo após iniciar seu segundo mandato, Trump promoveu cortes drásticos no financiamento de projetos de ajuda humanitária ao redor do mundo voltados ao combate ao ebola, à aids e à fome. Entre outras medidas, encerrou as atividades da Usaid, agência americana responsável pela assistência internacional ao desenvolvimento.

É questionável se um Congresso com maioria democrata vai conseguir reativar a agência contra a vontade do presidente. Ainda assim, poderia aprovar recursos adicionais para ajuda internacional e investigar o controverso fechamento da Usaid.

"Os democratas também utilizariam sua função de fiscalização para examinar minuciosamente o fechamento da Usaid", diz Conradis. "Haveria audiências, e os responsáveis pelo encerramento da agência seriam convocados a depor perante o Congresso."

Mas, em última análise, os Estados Unidos continuariam sendo um país governado por um presidente republicano. Não haverá uma mudança completa de rumo. "Não é como se tudo mudasse com os democratas no controle do Congresso", afirma Conradis. "Mas algumas coisas certamente mudariam, porque a distribuição de poder passaria a ser muito diferente da anterior."

 

Fonte: DW Brasil

 

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