Raphael
Bicudo: A esperança em Lula IV
A
quarta vitória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da
República pode ser interpretada, à luz do pensamento de Celso Furtado, como uma
oportunidade de recolocar no centro do debate brasileiro uma questão
fundamental: qual projeto de desenvolvimento o Brasil pretende construir e quem
deve participar das decisões que definem os rumos desse processo?
Para
Celso Furtado, o desenvolvimento não poderia ser reduzido ao crescimento do
Produto Interno Bruto (PIB), à expansão dos investimentos ou à modernização
tecnológica. Embora esses elementos sejam importantes, o desenvolvimento
constitui um processo histórico, social e político, que envolve a transformação
das estruturas produtivas, a redução das desigualdades, a ampliação da
capacidade de uma sociedade decidir autonomamente sobre seu futuro e expressar
seu potencial criativo.
Essa
perspectiva permite estabelecer uma relação importante entre a renovação do
mandato de Lula e o desafio de superar os limites históricos do desenvolvimento
brasileiro. A questão central não seria apenas fazer a economia crescer, mas
definir para quem, com quais objetivos e sob quais mecanismos políticos e
sociais esse crescimento será realizado.
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Planejamento – superar a improvisação e recuperar a capacidade de decidir
Uma das
contribuições mais importantes de Celso Furtado consiste em compreender o
planejamento como instrumento de transformação das estruturas que reproduzem o
subdesenvolvimento. Em sua perspectiva, o mercado, por si só, não garante que
os ganhos de produtividade sejam distribuídos socialmente, que os investimentos
se orientem para as necessidades coletivas ou que o crescimento produza
mudanças estruturais e se irradie pelo conjunto da sociedade.
O
subdesenvolvimento brasileiro não é simplesmente uma etapa atrasada de um
caminho universal rumo à modernidade. É uma formação histórica específica,
constituída por relações de dependência externa, concentração da renda,
heterogeneidade produtiva e desigualdades sociais persistentes. Por isso,
superá-lo exige uma ação consciente sobre as estruturas econômicas e sociais.
Em
Brasil: a construção interrompida (1992) e O longo amanhecer (1999), Celso
Furtado aponta, sob diferentes formulações, para a necessidade de recuperar a
capacidade de formular um projeto nacional. O planejamento deve articular
investimento produtivo, política industrial, ciência e tecnologia, educação,
infraestrutura e distribuição da renda, desenvolvimento regional, estabelecendo
prioridades de longo prazo que não dependam exclusivamente das expectativas
imediatas dos mercados e de políticas macroeconômicas de curto prazo.
A
quarta eleição de Lula pode, nesse sentido, representar uma oportunidade de
reconstrução dessa capacidade de planejamento. O desafio não consiste apenas em
ampliar programas sociais ou estimular o consumo – programas legítimos, mas em
estabelecer uma estratégia duradoura de transformação produtiva, capaz de
enfrentar a desindustrialização, a dependência tecnológica, a vulnerabilidade
externa e a precarização do trabalho.
Isso
exige reconhecer que as políticas fiscal, monetária e cambial são instrumentos
importantes, mas não constituem, isoladamente, uma estratégia de
desenvolvimento. A estabilidade macroeconômica deve contribuir para a
transformação estrutural, e não se converter em um objetivo que subordine
permanentemente o investimento público, as políticas industriais e as
necessidades sociais.
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O povo como protagonista
Entretanto,
há um segundo aspecto, igualmente decisivo, do pensamento furtadiano: o
planejamento não pode ser confundido com uma decisão tecnocrática, realizada
exclusivamente por especialistas, burocracias estatais ou representantes dos
interesses empresariais.
Para
Celso Furtado, o desenvolvimento precisa estar subordinado a finalidades
socialmente definidas. Isso significa reconhecer a população não apenas como
destinatária dos resultados da política econômica, mas como participante da
definição de suas prioridades, principalmente, quando consideramos o papel
significativo que teve no segundo turno das eleições através das manifestações
por todo o país.
O
planejamento democrático pressupõe que a sociedade possa discutir e influenciar
questões fundamentais: quais setores devem receber investimentos públicos? Como
distribuir os ganhos de produtividade? Quais regiões precisam de maior atenção?
Como articular crescimento econômico, preservação ambiental, redução das
desigualdades e ampliação dos direitos sociais? Como minimizar as desigualdades
regionais? Quais as variáveis que impactam sobre a pobreza multidimensional?
Essa
concepção aproxima o pensamento de Celso Furtado da ideia de democracia
substantiva. Não basta garantir formalmente o direito ao voto; é necessário
ampliar as condições para que a população participe efetivamente das decisões
que afetam sua vida.
A
participação popular pode ocorrer por meio de conselhos de políticas públicas,
conferências nacionais, orçamento participativo, organizações sindicais,
movimentos sociais, universidades e instâncias democráticas de acompanhamento
dos investimentos públicos. Esses mecanismos devem possuir capacidade real de
influenciar as decisões, em vez de funcionarem apenas como espaços consultivos
sem consequências práticas. Como enfatiza a literatura sobre o pensamento de
Furtado, o planejamento democrático requer amplo consenso social e uma
racionalidade que ultrapasse os resultados de curto prazo.
A
vitória eleitoral de Lula, em 25 de outubro de 2026, com 51,79% dos votos
válidos, assegurou-lhe um quarto mandato presidencial, que permite avançar em
várias frentes com apoio da sociedade e principalmente da juventude, mesmo
considerando a votação expressiva do principal partido de oposição. A
legitimidade democrática precisa ser renovada continuamente pela transparência,
pela participação social e pela capacidade de responder às necessidades
concretas da população.
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Crescimento econômico para quem?
Uma
leitura furtadiana do novo mandato também exige recolocar a questão
distributiva no centro da política econômica. O crescimento do PIB não é
suficiente para caracterizar o desenvolvimento quando seus benefícios
permanecem concentrados e parcelas expressivas da população continuam
submetidas à pobreza, ao desemprego, à informalidade e à insuficiência dos
serviços públicos.
O
desafio brasileiro é combinar a expansão da demanda interna com a transformação
da estrutura produtiva. O aumento do consumo das famílias pode estimular a
atividade econômica, ampliar mercados e favorecer o investimento. Entretanto,
se não for acompanhado da melhoria da distribuição de renda, de aumento da
capacidade produtiva nacional, inovação tecnológica e diversificação
industrial, poderá esbarrar novamente em restrições externas, dependência de
importações e pressões sobre o balanço de pagamentos, caso haja mudanças no
cenário internacional.
Essa
questão remete diretamente à análise de Furtado sobre a relação entre
crescimento, estrutura produtiva e distribuição da renda. O desenvolvimento
exige modificar a maneira como a economia produz, incorpora tecnologia, emprega
trabalhadores e distribui seus resultados.
Assim,
uma estratégia nacional deveria articular, dentre um conjunto de medidas: (i)
reindustrialização e inovação: recuperar a capacidade produtiva, tecnológica e
científica do país, reduzindo vulnerabilidades externas; (ii) distribuição da
renda e valorização do trabalho: ampliar o mercado interno sem depender
exclusivamente do endividamento das famílias ou de estímulos temporários ao
consumo.
(iii)
Planejamento regional: enfrentar as desigualdades territoriais e promover
oportunidades econômicas em regiões historicamente marginalizadas; (iv)
investimento público e coordenação estatal: mobilizar recursos para
infraestrutura, transição energética, educação, saúde, ciência e tecnologia e
questão ambiental; (v) participação popular: submeter prioridades, metas e
resultados a processos democráticos de discussão e avaliação.
Essas
dimensões não devem ser tratadas como políticas isoladas. Precisam integrar um
projeto capaz de combinar eficiência econômica, justiça social e autonomia
nacional.
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O risco de uma vitória eleitoral sem transformação estrutural
A
reflexão de Celso Furtado também oferece elementos para uma avaliação crítica
do próprio governo Lula. A eleição de uma liderança comprometida com a redução
da pobreza e a ampliação dos direitos sociais não garante, automaticamente, a
superação do subdesenvolvimento.
O risco
seria limitar o novo mandato à administração das restrições existentes,
conciliando políticas sociais com uma estrutura produtiva pouco dinâmica,
elevada concentração econômica e reduzida capacidade de planejamento de longo
prazo.
Outro
risco seria reduzir o planejamento à elaboração de programas governamentais,
sem continuidade institucional, metas estruturais, financiamento adequado e
mecanismos de participação social. Um projeto nacional de desenvolvimento exige
coordenação entre os diferentes níveis de governo, articulação entre políticas
macroeconômicas (meio) com políticas regional, industrial, agrária e agrícola,
saúde, educação, infraestrutura, ciência e tecnologia (fins) e capacidade de
enfrentar conflitos distributivos.
Isso
implica reconhecer que o desenvolvimento não resulta de uma conciliação
automática de interesses. As escolhas sobre tributação, juros, gasto público,
crédito, política industrial e distribuição dos recursos nacionais envolvem
disputas entre grupos sociais com interesses distintos.
A
perspectiva furtadiana convida, portanto, a perguntar quais interesses orientam
as decisões do Estado e em que medida essas decisões contribuem para modificar
as estruturas que reproduzem o subdesenvolvimento.
O
planejamento democrático não elimina os conflitos, mas procura torná-los
visíveis e submetê-los à deliberação pública, de modo que as decisões
econômicas possam ser justificadas por objetivos coletivos, e não apenas por
critérios de rentabilidade privada ou conveniência política imediata.
A
quarta vitória de Lula abre um novo capítulo da história política brasileira. À
luz de Celso Furtado, sua importância não deve ser avaliada apenas pela
continuidade de políticas sociais ou pela perspectiva de crescimento econômico,
mas pela capacidade de transformar a legitimidade eleitoral em um projeto
nacional de desenvolvimento.
A
questão decisiva é saber se o país conseguirá recuperar a capacidade de
planejar seu futuro, reconstruir sua base produtiva, enfrentar as desigualdades
e ampliar a autonomia de suas decisões econômicas.
Mas há
uma condição fundamental: o povo não pode ser apenas o beneficiário do
desenvolvimento; precisa participar da definição de seus objetivos, de seus
instrumentos e de seus resultados.
Essa é
uma das dimensões mais atuais do pensamento furtadiano. Planejar significa
escolher conscientemente os rumos da sociedade. Desenvolver significa
transformar as estruturas que limitam as possibilidades de realização humana.
Democratizar o desenvolvimento significa assegurar que essas escolhas sejam
debatidas e influenciadas por aqueles que vivem suas consequências.
O novo
mandato de Lula terá, assim, a oportunidade – e a responsabilidade – de ir além
da administração da conjuntura econômica. O desafio será construir uma
estratégia que articule crescimento sustentado, transformação estrutural,
distribuição da renda, soberania nacional e participação democrática.
Em
termos furtadianos, não se trata apenas de fazer o Brasil crescer, mas de criar
as condições para que a sociedade brasileira possa decidir seu próprio futuro.
Afinal, o desenvolvimento é uma construção histórica e política, cujo sentido
depende das escolhas coletivas de uma sociedade.
Fonte:
A Terra é Redonda

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