Terceiro
turno, a batalha da vez
A Bolsa
de Valores comemorou o resultado do primeiro turno batendo recorde de ganhos,
com uma alta de 7,7%, completada com o recuo do dólar em 4%. Os especuladores
fizeram sua festa. Contudo, a aposta do mercado, que tinha nome e programa,
foi, para alívio do país, derrotada nas urnas na segunda volta, assustando a
coalizão financeiro-rentista que capturou o orçamento da União e, por ofício,
transfere renda para uma minoria mínima, aprofundando a desigualdade social.
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A
reação não se fez esperar: no pregão do dia 26, puniu o voto. O Ibovespa caiu
13,88%, o dólar subiu 8,21% e os juros futuros saltaram para 15,25%.
A
revanche do capital não é uma reação conjuntural de operadores, mas a forma
política necessária de um capital que não se valoriza pela produção, e precisa
submeter a política eleitoral e o orçamento público à sua reprodução. A análise
política explicita o movimento: depois de apostar no bolsonarismo e perder, a
Faria Lima cobra de Lula o programa derrotado nas urnas. O dito “mercado” não
aceita o resultado eleitoral como definição da vontade política; desloca a
disputa para o orçamento e para a política monetária, tentando transformar o
programa derrotado nas urnas em precondição da governabilidade.
Quando
a via eleitoral não entrega as condições de reprodução daquilo que Marx (Livro
III de O Capital) definiu como “capital fictício”, a estratégia do mercado
financeiro é impor, pela via do constrangimento econômico, a subordinação da
política à lógica de valorização de uma riqueza que não produz. Marx mostra que
o capital fictício é uma forma de riqueza que se autonomiza da produção e, por
isso, tem uma relação intrínseca com a crise econômica e com a necessidade de
capturar o Estado. No Brasil, essa forma se tornou dominante como rentismo,
reconfigurando a dependência e transformando o Estado em garantidor da
remuneração fictícia. Daí a inquietação da classe dominante.
Tudo
isso explica os editoriais da grande imprensa e o discurso dos “especialistas”
selecionados a dedo, a depender dos quais o novo ministro da Economia, não
podendo ser o próprio, deve ser um clone de Joaquim Levy.
Por que
o Brasil conseguiu construir um Estado e uma economia de dimensões
continentais, mas teve tanta dificuldade para construir uma classe dirigente
comprometida com um projeto nacional de desenvolvimento?
O
patriciado, majoritariamente desapartado da produção, é incuravelmente alheio
aos interesses nacionais, porque seu ofício, de onde recolhe o mando, é a
especulação financeira, vinculada aos humores do capital, por definição um
ativo internacional, gerido pelas bolsas de valores (nomeadamente Wall Street)
e pelas corporações que regem as sendas do capital globalizado.
Após
mais de cinco séculos de tentativa de construir uma nação e um grande país,
rico e soberano, chegamos ao século XXI ainda como uma província dependente,
tanto do ponto de vista econômico quanto do ponto de vista ideológico.
Exportadores de produtos agrícolas e minerais sem valor agregado, convivemos
com a crise da indústria de transformação. A modernização “conservadora”, com a
qual se identifica a ditadura militar, associou industrialização, capital
externo e concentração de renda. Pôs por terra o projeto
nacional-desenvolvimentista fundado na industrialização e na expansão do Estado
como indutor do desenvolvimento, que havia sido retomado por Getúlio Vargas em
1951 e que, de uma forma ou de outra, chega a 1964, em cuja sequência a classe
dominante se reconfigura, tendo como eixo a financeirização da economia e o
rentismo, característicos de nossos tempos, que se expressam mais claramente na
política de juros altos — que aumenta o endividamento das famílias e o custo do
capital — e no diktat da “austeridade fiscal”, codinome da asfixia dos gastos
sociais, de resto indispensáveis.
A
acumulação capitalista pouco depende das transformações estruturais; por isso
mesmo, a grande burguesia, como classe proprietária, reage às inovações e se
apega à sustentação do statu quo. Assim se explica por que a riqueza aqui
produzida não está comprometida com o desenvolvimento do país.
Enquanto
o país se regozija com seu próprio triunfo, saudado em todos os quadrantes como
uma vitória da democracia, exemplo de um povo que tomou a si a condução de seu
destino quando tudo parecia perdido, a classe dominante, já desde o dia
imediato ao segundo turno, vale-se de todos os muitos meios ao seu alcance para
tentar desnaturar o sentido histórico do pronunciamento da soberania popular.
Derrotada nas urnas, derrotada eleitoralmente e, mais do que tudo, derrotada
politicamente, intenta ditar o programa do novo governo, e o faz, valendo-se de
extremada desfaçatez, brandindo o discurso da extrema-direita.
O
“mercado”, esta instituição que ninguém vê, mas que está em toda parte — nos
governos, no Congresso, no Judiciário —, perdeu com o senador homiziado nos
EUA, mas quer ganhar o governo Lula, impondo-lhe o receituário fiscalista.
Vencendo, conquistará dois troféus: desestabilizará o governo e punirá o
eleitorado brasileiro que maciçamente optou pela democracia e pelo avanço das
conquistas sociais. Que querem? Que o governo de centro-esquerda, por
formar-se, puna as grandes massas que reelegeram Lula, adotando o programa
mínimo da direita, fragorosamente rejeitado nas urnas: desvincular do salário
mínimo os benefícios dos aposentados (25 milhões), as pensões do BPC (o
benefício pago a idosos pobres ou com deficiência) e, suprassumo das maldades,
cortar os pisos constitucionais da saúde e da educação pública. Por óbvio,
nenhuma palavra sobre a farra das verbas orçamentárias, nenhuma palavra sobre a
farra das isenções fiscais, tampouco sobre os privilégios tributários e a gorda
remuneração do capital financeiro, via juros estratosféricos. A propósito: o
Banco Itaú anuncia lucro líquido recorde de 12,6 bilhões (Valor. 4.11.26).
Trata-se,
repito, de uma classe dominante consabidamente divorciada do destino nacional.
Filha dileta do escravismo, da produção primária dependente das encomendas das
grandes potências, da Colônia até o fim da Primeira República, sobrevive e
impera mediante a exploração do trabalho e o controle do Estado. Esta relação
ajuda a explicar por que tantas de suas frações — com destaque para o rentismo
(de que a Faria Lima é o quartel general) — puderam prosperar sem assumir um
compromisso com a construção de uma economia nacional.
Não
estamos em face de um acaso, mas do fruto de um processo de continuidade
histórica: o senhor de terras e de escravos (o africano importado e o índio
preado); o grande exportador de matérias-primas (do açúcar ao café) e minérios
in natura; o rentista e os segmentos contemporâneos do capital financeiro, a
serviço da especulação.
São
esses interesses que ditam o discurso dos meios de comunicação hegemônicos (os
jornalões e a grande rede de televisão); foram eles que levaram o grande
capital a apoiar a proposta neofascista e, nada obstante a rejeição proclamada
pelo veredito do segundo turno, são ainda esses interesses que pretendem ditar
regras e condicionar o destino do país, coartado por uma lógica perversa de
acumulação, de apropriação da riqueza e de uma relação com o Estado que
subordina aos seus ditames o que poderia ser um projeto nacional, fundado no
desenvolvimento social, na soberania e na democracia, apontando para uma nova
sociedade.
A
colonização portuguesa estruturou a economia de seu quinhão americano em torno
da extração de riquezas e da produção de gêneros destinados ao mercado externo.
A ocupação territorial, a organização da propriedade e a ordem produtiva foram
profundamente condicionadas por essa finalidade, donde a ausência de um projeto
nacional; da Colônia até 1888, era impossível pensar em nação quando nossa
gente se dividia entre a mão de obra escrava, responsável pela produção, e uma
minoria branca que simplesmente acumulava o resultado do trabalho alheio. E
como intentá-lo hoje, quando a classe dominante dá as costas ao país e idolatra
o imperialismo, apesar do trumpismo decadente?
Somos
uma sociedade que, durante mais de cinco séculos, organizou parcela decisiva de
sua produção mediante a apropriação do trabalho — alheio, repita-se —,
construiu obstáculos históricos à universalização dos direitos e à valorização
do trabalho livre e aboliu da história o papel do povo e de seus heróis, para
exaltar bandidos como os Bandeirantes.
Colônia de um império decadente, ocupamos um vasto território, chegamos
mesmo a povoá-lo, ciscando o litoral, sem conhecer a diferença entre ocupar um
território, explorar sua gente e suas riquezas e construir uma nação. Crescemos
sem clareza do que éramos e, principalmente, do que pretendíamos ser.
A
questão permanece: qual é o nosso projeto?
As
eleições recém-encerradas devem ser vistas como uma promessa de construção do
que Darcy Ribeiro chamava de “projeto de ser”.
Não
incorro no simplismo de reduzir nossa tragédia à interdependência entre a
grande propriedade e o escravismo, mas é preciso pôr de manifesto que o
escravismo extrapola os limites de uma simples economia, pois é a matriz de
tudo o que a ele se sucede, como a dependência externa, a concentração da
propriedade e a organização do Estado.
Ao
escravismo se articulam a conformação das relações sociais, a organização do
trabalho, o caráter da propriedade, a hierarquia e os papéis da cidadania; a
formação da ideologia da classe dominante, racista e preconceituosa,
irreparavelmente reacionária, espargindo a ideologia da dependência; por fim, o
sentimento de inferioridade que aplaca necessidades revolucionárias.
Nelson
Rodrigues nos falava no “complexo de vira-lata” que fazia do brasileiro um
Narciso às avessas, aquele que cospe na própria imagem. O dramaturgo,
escrevendo em 1958, antecipava-se na definição do caráter do bolsonarismo,
alienado, distante de nossas raízes culturais e, no contrapelo das matrizes
fascistas, terrivelmente entreguista. Nada obstante haver-se tornado movimento
de massas, e eis como deve ser enfrentado, o bolsonarismo expressa uma
ideologia racista em país mestiço; machista quando, em nossa população, as
mulheres são maioria.
Rejeitado
pelo plebiscito em que se converteu o segundo turno, derrotado política e
eleitoralmente, o bolsonarismo — como expressão fascista — segue vivo, como a
peçonha que ainda não teve sua cabeça esmagada. Seu antídoto é a mobilização
popular. Esta é a lição do segundo turno.
• Lula reforça compromisso fiscal, mas
avisa: “não levaremos o povo pobre a nenhum sacrifício”
O
presidente Lula (PT) reforçou o compromisso da sua gestão com a
responsabilidade fiscal durante uma reunião extraordinária do Conselho Nacional
de Política Energética realizada nesta sexta-feira (6). O chefe do Executivo
federal comparou a seriedade fiscal do Brasil à de outras nações e criticou a
percepção de parte do sistema financeiro sobre as contas públicas. De acordo
com o presidente, a dívida interna brasileira é proporcionalmente menor que a
de potências globais como Estados Unidos, França, Japão e Itália. As
declarações foram detalhadas pelo governo para evidenciar o rigor na condução
da economia e afastar narrativas de descontrole orçamentário.
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Presidente defende rigidez das contas e critica cobranças do mercado financeiro
Lula
argumentou que a avaliação da dívida pública brasileira frequentemente inclui
elementos que distorcem a realidade econômica do país. Segundo o presidente, a
equipe econômica, liderada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, deve
apresentar esses dados com clareza à imprensa para demonstrar o real patamar
das obrigações financeiras do Estado. “Quantos países têm a seriedade fiscal
que nós temos? Quantos? Qual é a dívida interna dos Estados Unidos? Da França?
Do Japão? Da Itália? Perto da nossa, é o dobro em relação ao PIB“, declarou.
O
titular do Planalto também apontou que a atual administração assumiu o comando
com um déficit primário de 2,8% e conseguiu entregar o orçamento com superávit.
Na visão do presidente, as exigências do mercado financeiro muitas vezes
extrapolam os limites da realidade social do país. “Não é o que o sistema
financeiro quer, porque ele quer tudo. Não. É o que a gente pode fazer”,
pontuou, destacando o esforço diário de sua equipe econômica na manutenção das
metas fiscais.
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Governo assegura que população de baixa renda não arcará com ajustes
Durante
o pronunciamento, Lula garantiu categoricamente que os estratos mais
vulneráveis da população não serão penalizados por medidas de ajuste fiscal. O
mandatário afirmou que sua trajetória política é a principal garantia dessa
diretriz. “A única coisa que eles têm que saber é que o pobre não pagará a
conta. Nós não levaremos o povo pobre a nenhum sacrifício. E eu tenho comigo a
minha história”, afirmou.
Para
fundamentar sua defesa da responsabilidade fiscal associada à justiça social,
Lula relembrou sua atuação em mandatos anteriores, destacando que foi o único
presidente entre 2003 e 2010 a registrar superávit primário anualmente. O
governante pontuou que o Brasil foi o único país do G20 a atingir essa marca
com patamares de até 2,5%, mesmo implementando políticas de inclusão social e
valorização do salário mínimo que contrariavam previsões de analistas sobre
pressões inflacionárias.
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Histórico pessoal e investimento em infraestrutura marcam a gestão
O
presidente atribuiu sua formação econômica a ensinamentos familiares
transmitidos por sua mãe, Dona Lindu. Segundo o relato, os princípios de
controle de gastos aprendidos na infância foram transpostos para a
administração pública federal. Lula ponderou, contudo, que a disciplina
orçamentária não impede a realização de investimentos estratégicos voltados ao
desenvolvimento nacional e à construção de ativos duradouros para o país.
A
gestão econômica também foi defendida com base na superação de crises
históricas e na consolidação das reservas internacionais brasileiras. O
presidente lembrou o pagamento da dívida externa e a transição do país de
devedor a credor internacional perante o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Ao concluir, o chefe de Estado elogiou a dedicação dos servidores e ministros
envolvidos na condução do orçamento, ressaltando o esforço contínuo para
equilibrar a responsabilidade fiscal com a justiça social.
Fonte:
Por Roberto Amaral, em Brasil 247

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