Como
partido ligado à Universal vai comandar quase todo o Sudeste
Mais de
70 milhões de brasileiros estarão sob governos estaduais do Republicanos a
partir de janeiro de 2027. Historicamente ligado à Igreja Universal do Reino de
Deus (IURD), o partido conquistou três dos quatro estados do Sudeste nas
eleições de 2026, com as vitórias de Tarcísio de Freitas, em São Paulo,
Cleitinho Azevedo, em Minas Gerais, e Lorenzo Pazolini, no Espírito Santo.
O
resultado representa uma ampliação do poder da legenda, que passou a reunir
lideranças de diferentes origens políticas sem romper seus vínculos históricos
com a igreja.
Para
especialistas ouvidos pela DW, as vitórias revelam uma estratégia de expansão
que combina a estrutura partidária consolidada com a incorporação de candidatos
competitivos, mesmo quando não possuem ligação direta com a Universal.
"Esses
resultados demonstram um crescimento da legenda e, principalmente, da sua
capacidade de atrair lideranças competitivas, expandindo o partido e também as
suas alianças políticas", afirma a cientista política Claudia Cerqueira,
que pesquisa a relação entre a Universal e o Republicanos.
O
partido, que havia somado apenas dois governadores em 2022, ainda reelegeu o
governador de Mato Grosso, Otaviano Pivetta, chegando a quatro no total.
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Relação da IURD com partido é histórica
A
relação entre a Universal e o partido, que já teve outros nomes, é histórica e
estrutural, com a presença de integrantes ligados à cúpula religiosa na direção
partidária. "Foi a Igreja que criou o partido para poder ter braços
políticos, para poder tentar influenciar em temas que eram do seu
interesse", diz Cerqueira.
Segundo
ela, a influência da IURD vai além do apoio eleitoral, refletindo na composição
dos dirigentes partidários e na tomada de decisão dos membros do partido.
"Não existia instâncias decisórias hierárquicas, no sentido de aqui tem
uma cúpula e abaixo da cúpula a gente tem outra instância, não. Tudo vinha de
cima para baixo mesmo, era até uma estrutura muito parecida com o que acontece
dentro da Igreja Universal do Reino de Deus", afirma.
Essa
verticalização marca uma simbiose da Igreja com o partido, que é impulsionado
pela IURD por meio de forte presença territorial, alto poder de mobilização e
uma estrutura centralizada — diferenciais decisivos na campanha.
A
diferença para outras eleições é que, agora, o partido ampliou seu espaço no
poder Executivo, deixando de lado os cargos do Legislativo — foco da disputa
política de outrora. A legenda elegeu 40 deputados federais em 2022 e 41 em
2026.
Para
Nara Salles, cientista política e pesquisadora do Centro de Estudos de Opinião
Pública (Cesop) da Unicamp, a conquista de três governos estaduais no Sudeste
demonstra que o partido tem força, organização e capilaridade, mas também que
se abriu para novas alianças e quadros. "São muitos os fatores que se
relacionam com o voto, incluindo características dos próprios candidatos e da
configuração da disputa em cada estado", diz.
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Novos integrantes e políticas públicas
Um dos
pontos que levou à expansão no Executivo foi a chegada de políticos que não
vieram da IURD ao Republicanos, marcando uma abertura do partido para novas
alianças.
Marco
Antonio Carvalho Teixeira, cientista político e professor de Gestão Pública da
FGV, aponta que os três governadores do Sudeste possuem perfis diferentes entre
si, apesar de serem conservadores: Tarcísio é oriundo do bolsonarismo, Pazolini
é político de formação e Cleitinho é um político "de luz própria".
"A
gente precisa ver como o Republicanos vai organizar, a partir do partido, essa
liderança nacional daqui pra frente. A interferência da Igreja Universal é
dentro muito mais dos governos, em área social, que é típica da atuação da
igreja, mas a estratégia política do partido passa por negociação com esses
personagens que, necessariamente, não são da igreja. Então, não há aí um perfil
de política pública. O perfil está muito mais associado à liderança
individual", completa.
De
acordo com Salles, apesar de serem lideranças distintas do Republicanos, os
novos governadores do Sudeste estão em uma legenda que se apresenta como
conservadora e, por isso, devem ter políticas públicas com elementos em comum.
"Os
três governadores eleitos no Sudeste apresentaram posicionamentos semelhantes
em algumas pautas nacionais, como a defesa da anistia aos envolvidos nos atos
de 8 de janeiro. Tarcísio e Cleitinho também defenderam explicitamente a
anistia a Jair Bolsonaro. Isso indica uma convergência política e ideológica,
embora não signifique necessariamente que compartilhem um projeto de governo
comum", afirma.
Em
relação às políticas públicas, Salles diz que a população pode esperar governos
posicionados à direita, com foco na segurança pública, incentivos à iniciativa
privada e posições conservadoras, especialmente em pautas relacionadas aos
costumes.
"Essas
são orientações que, de modo geral, estão presentes na identidade política do
Republicanos e nas posições de suas lideranças. Entretanto, é importante
considerar que o partido reúne políticos com trajetórias distintas e que as
políticas públicas implementadas também dependem das prioridades de cada
governador, das condições econômicas e sociais dos estados e das alianças
políticas estabelecidas. Portanto, embora seja possível identificar algumas
orientações comuns, não significa que teremos governos com agendas
idênticas", diz.
Para
Claudia Cerqueira, para entender como as políticas públicas poderão ou não ser
moldadas pela influência da IURD, a sociedade precisa acompanhar a nomeação das
equipes gestoras.
"Teríamos
que ficar de olho nas nomeações, na composição das equipes, se eles vão
utilizar interlocutores, se tem decisões concretas em cada governo que utilizam
pessoas relevantes de dentro do núcleo da igreja, dado que o núcleo duro da
igreja da igreja também está relacionado com o núcleo do partido", afirma.
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Tarcísio 2030
A
expansão do Republicanos também coloca a legenda em posição de participar das
articulações para as eleições presidenciais de 2030. Reeleito governador de São
Paulo, Tarcísio de Freitas admitiu, em entrevista ao jornal O Estado de S.
Paulo, que poderá disputar a Presidência daqui a quatro anos, embora tenha
condicionado uma eventual candidatura aos resultados de seu segundo mandato e à
avaliação de seus aliados.
Para os
especialistas ouvidos pela DW, uma eventual candidatura presidencial também
poderá colocar em evidência os limites da influência da Universal sobre um
partido que passou a reunir lideranças políticas de diferentes origens.
Cerqueira
destaca que uma entrada de Tarcísio na disputa pela Presidência poderá mostrar
até onde o Republicanos quer ir.
"É
um político que vem do governo do maior estado do país, não tem grandes
escândalos envolvendo seu nome e pode se tornar o primeiro presidente da
República pelo Republicanos, o que seria um ganho e tanto para o partido",
pontua. "Se acontecer em 2030, será interessante observar como a Igreja
poderá se envolver ou querer se envolver, inclusive na indicação de ministros
e, eventualmente, de secretários de pastas importantes. Vamos ver como isso vai
se desenrolar."
Fonte:
DW Brasil

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