O
erro mais comum na redação do Enem e como evitar que ele derrube sua nota
O peso
que ela tem na nota do Enem e as dificuldades de muitos alunos com a escrita
fazem com que a redação seja uma das partes mais temidas pelos estudantes que
se preparam para o primeiro dia do Exame Nacional do Ensino Médio, marcado para
este domingo (8/11).
Em
linhas gerais, é bom lembrar que ela é avaliada sob cinco competências, cada
uma valendo de zero a 200 pontos:
• Domínio da escrita formal; compreensão e
desenvolvimento da proposta (tema);
• Saber selecionar, relacionar, organizar
e interpretar argumentos, informações e opiniões na defesa de um ponto de
vista;
• Demonstrar ter conhecimento dos
mecanismos linguísticos para construir uma argumentação;
• Saber elaborar uma proposta de
intervenção (conclusão) para o problema abordado no tema, sempre respeitando os
direitos humanos.
A BBC
News Brasil conversou com três pessoas que corrigem simulados de redação em
cursinhos e projetos preparatórios voltados a jovens de escolas públicas,
ouvindo deles quais são os erros comuns de estrutura (para além de erros de
ortografia, gramática e pontuação) que levam à perda de pontos nos textos.
Veja,
também, algumas precauções para ajudar na escrita de uma redação que alcance a
nota mil.
>>>
Erro 1: Não construir uma linha de argumentação
É muito
comum que as redações se "percam" ao longo do texto, sem seguir a
linha exigida pelo Enem — de introdução, desenvolvimento do texto e conclusão,
diz Eva Albuquerque, professora de redação do Cursinho da Poli, em São Paulo.
Nesses
casos, falta o que ela chama de um "projeto de texto": o aluno não
tem claro como vai abordar o tema, quais argumentos vai usar e qual proposta de
intervenção (ou seja, como acha que o problema precisa ser atacado).
# Como
se precaver: Primeiro, lembre-se de que a redação tem que ter começo, meio e
fim, interconectados entre si — em outras palavras, uma introdução que
apresente uma tese bem elaborada, uma boa argumentação com dados factuais e
referências, e uma conclusão, embasada pelos dados apresentados no próprio
texto, diz Fabiano Gonçalves, gerente de operações educacionais do Instituto
Proa.
Eva
Albuquerque sugere também dedicar alguns minutos, antes mesmo de começar o
rascunho, a planejar o esqueleto de seu texto — assim como um arquiteto planeja
a casa que vai construir:
• Como vou entrar no tema?
• Quais meus argumentos principais e
secundários?
• Qual vai ser a minha conclusão?
Uma
grande dificuldade dos jovens é justamente ter repertório para construir uma
boa argumentação, interpretar dados e colocar informações em contexto, afirma
Fabiano Gonçalves.
Esse
repertório vem de nossas experiências pessoais e culturais: os livros que
lemos, filmes, passeios em museus, notícias que acompanhamos, os debates que
temos com os amigos, familiares e professores. E, também, nossos conhecimentos
das demais disciplinas, como história, geografia e até mesmo a matemática.
Quanto
mais o jovem tiver dessa "bagagem", mais fácil vai ser acessar
informações na cabeça para construir uma argumentação coerente e relevante na
redação do Enem.
Gonçalves
sugere também treinar antes o uso do tempo, cronometrando para escrever sobre
um determinado tema dentro de uma hora, que é mais ou menos o tempo que se
dedica à redação no dia do Enem.
O
ideal, para quem puder, é fazer simulados que sejam corrigidos por pessoas que
entendam as competências exigidas no Enem.
>>>
Erro 2: Escrever em primeira pessoa
Fazer a
redação em primeira pessoa ("eu"), escrever "acho que" ou
"opino que", ou fazer conclusões que não tenham nenhuma relação com
os argumentos citados no texto, é motivo comum de perda de pontos na redação.
"Isso
é visto como uma evidência de que o aluno não entende a estrutura das redações
exigidas pelo Enem, que devem ser embasadas por dados e fatos", explica
Gonçalves.
# Como
se precaver: Diferenciar fatos de opiniões é um bom começo para não se perder,
diz Albuquerque.
"A
proposta de intervenção (ou seja, a conclusão) é algo pessoal, mas não pode ser
escrita em primeira pessoa, porque ela é embasada pelas referências (de
argumento) do texto. Se minha conclusão é de que 'sou contra o Exército nas
ruas', tenho de dizer que isso pode ser ruim por tais e tais motivos, mas não
'porque eu acho'."
>>>
Erro 3: Fugir do tema proposto
Quando
o aluno não entende bem o tema proposto pelo Enem ou quando se dispersa ao
longo do texto, é comum que as conclusões não sejam consistentes com o que os
corretores esperam.
Albuquerque
conta que, no Enem de 2017, cujo tema da redação eram os "desafios para a
formação educacional de surdos no Brasil", alguns alunos se perderam em
assuntos relacionados, mas diferentes, como a educação de cadeirantes.
# Como
se precaver: O jeito é ficar muito atento, ao longo de todo o texto, e
"puxar a si mesmo" para o tema central se você vir que começa a se
dispersar dele.
"Cuidado
para não tangenciar, que é estar próximo do tema, mas não falando do tema em
si", adverte Daniely do Nascimento, que já foi corretora do Enem e
corretora voluntária no projeto Salvaguarda, que atende a jovens de escolas
públicas em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.
>>>
Erro 4: Repetir frases e 'encher linguiça'
Corretores
afirmam que muitos simulados contêm muitas frases, palavras e argumentos
repetidos, que acrescentam pouca informação ao texto.
"Muitos
alunos tentam encher linguiça, criar volume de linhas escritas, com frases
genéricas que não dizem nada", diz Fabiano Gonçalves, do Instituto Proa.
# Como
se precaver: Olhe para cada palavra e frase e se pergunte: ela agrega
informação ao texto? Se você retirá-la e isso fizer pouca diferença no texto, é
sinal de que ela não agrega valor à sua redação.
"Lembre-se
de que o espaço previsto pelo Enem dá justo para apresentar o tema, falar sobre
ele e daí apresentar uma conclusão", diz Gonçalves.
>>>
Erro 5: Usar linguagem informal
A
primeira competência exigida pelo Enem é o domínio da escrita formal. Mesmo
assim, esse é um dos itens mais descumpridos pelos alunos, afirma Daniely do
Nascimento.
"É
muito comum que os jovens escrevam abreviações, como 'vc' e 'pq', porque estão
acostumados a escrever assim na internet", diz ela. Mas gírias e
expressões que usamos apenas na linguagem oral (e nas redes sociais) são
garantia de pontos perdidos na redação.
# Como
se precaver: Nada de abreviações, e evite também palavras usadas na linguagem
oral, como "ficou ligado", "bem", "você", e
expressões variantes, "bem, para começar", "de repente você vê
que…".
Mas,
atenção: isso não significa usar palavras difíceis, apenas usar a norma culta.
"O
aluno que tenta ser muito rebuscado no texto acaba se atrapalhando ainda mais,
porque ele não domina aquela linguagem", diz Eva Albuquerque. "O
ideal é ser objetivo e claro."
>>>
Erro 6: Fazer um texto desorganizado
Frases
incompletas, em que a informação não fica clara para o corretor, ou parágrafos
soltos, que não tenham conexão com o que veio antes ou vem depois, podem levar
a perdas de pontos em duas das cinco competências exigidas pelo Enem, adverte
Nascimento.
Isso
porque a redação acaba não tendo coesão.
# Como
se precaver: Elaborar um "projeto de texto", como o sugerido no item
1 por Eva Albuquerque, pode ajudar a evitar essa desorganização.
A
professora do Cursinho da Poli afirma, ainda, que, para alunos que tenham
dificuldade em iniciar um texto, uma boa estratégia é citar alguma referência
histórica ou obra cultural relacionada ao tema da redação.
Por
exemplo, se o tema é violência urbana, pode-se abrir citando algum episódio
recente de bala perdida que tenha causado comoção, algum caso histórico no
Brasil ou mesmo alguma frase relevante de livro, filme ou seriado que aborde o
mesmo assunto.
Mas é
preciso ter cuidado para não cair em uma "enrascada", diz Nascimento.
"Às vezes os alunos citam autores só por citar, sem ter nenhuma conexão
com a argumentação do texto."
Para a
professora, o melhor jeito de ter um texto organizado é praticar antes.
"Não dá para ficar um ano sem escrever e deixar para fazê-lo só no dia do
Enem. Escrita é treino — é escrever e ler bastante para além das redes
sociais", diz Nascimento.
Fonte:
BBC News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário