Chamado
da Amazônia Indígena Brasileira ao presidente Lula
Nós,
povos e organizações indígenas da Amazônia brasileira, representados pela
Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab),
reconhecemos a vontade expressa nas urnas e a sua reeleição à Presidência da
República. Neste momento em que a democracia brasileira encontra-se em mais um
ciclo de disputas e desafios, compreendemos esse resultado como uma
oportunidade de resistência diante das ameaças que seguem colocadas aos
direitos dos povos indígenas, especialmente no que diz respeito à garantia dos
nossos territórios.
Sua
reeleição representa mais uma possibilidade de avançarmos na defesa dos nossos
direitos constitucionais e de enfrentarmos os retrocessos que continuam sendo
articulados em diferentes espaços de poder. É diante desse novo ciclo político
que nos dirigimos ao senhor, para apresentar nossas preocupações, reafirmar
nossas prioridades e cobrar o cumprimento dos compromissos assumidos com os
povos indígenas do Brasil.
Mesmo
diante das dificuldades impostas aos povos indígenas para exercer seu direito
ao voto, contribuímos para a manutenção da democracia brasileira. No Vale do
Javari, no Amazonas, eleitores indígenas tiveram negado o pedido de transporte
fluvial gratuito, alimentação e água potável para chegar às urnas. No Pará,
aldeias inteiras dos povos Araweté, Arara, Parakanã, Xikrin e Munduruku tiveram
que navegar por até mil quilômetros por rio para votar, sem qualquer auxílio do
poder público. Parentes Tiriyó e Kaxuyana, no Amapá, foram impedidos de votar
no primeiro turno por não compreenderem a língua portuguesa, e tiveram a
presença de tradutores impedida na seção eleitoral. Esses casos mostram que o
direito ao voto indígena não foi facilitado. A democracia só se concretiza
plenamente quando todas as pessoas têm condições de exercer seus direitos.
Apesar dos desafios, a Amazônia indígena brasileira reafirmou seu compromisso
com a democracia e com a construção dos rumos políticos do país. Fizemos a
nossa parte para fortalecer a democracia brasileira, e esperamos que, neste
novo mandato, o Estado brasileiro também faça a sua parte para assegurar que
nossos direitos sejam respeitados.
A sua
reeleição, no entanto, não elimina nossas preocupações com o cenário político
nacional. O Congresso está ocupado pela forte presença de representantes da
extrema-direita, setor que historicamente tem atuado contra os interesses dos
povos indígenas, defendendo iniciativas que favorecem a exploração econômica
dos territórios e restringem direitos estabelecidos na Constituição. Esse
cenário exige que o governo federal esteja atento às ameaças que partem do
Legislativo e comprometido com a proteção dos direitos dos povos originários.
O Marco
Temporal e a PEC 48/2023 são exemplos concretos dessa ofensiva, que busca impor
obstáculos à demarcação das Terras Indígenas e fragilizar garantias
fundamentais. Diante desse cenário, a resistência exigirá organização,
mobilização, pressão política e atuação permanente do movimento indígena junto
aos Três Poderes. Esperamos que seu governo assuma um papel firme na defesa dos
nossos direitos constitucionais, enfrentando as tentativas de retrocesso e
garantindo que as conquistas históricas dos povos indígenas não sejam colocadas
em negociação.
Durante
o seu atual governo, vivenciamos a retomada do diálogo entre o movimento
indígena e o poder público federal, interrompido durante a gestão de Jair
Bolsonaro. A criação do Ministério dos Povos Indígenas, a retomada das
demarcações, a homologação de 20 Terras Indígenas no Brasil e a presença de
lideranças indígenas em cargos estratégicos representam conquistas importantes
para a reconstrução da política indigenista brasileira. A aprovação da lei que
cria a primeira Universidade Federal Indígena também constitui um marco, fruto
de uma luta histórica dos nossos povos e do reconhecimento da importância dos
conhecimentos indígenas na construção de um país mais justo e plural. São
avanços que precisam ser reconhecidos, fortalecidos e transformados em políticas
públicas permanentes.
Mas
ainda há muito a ser feito. A violência contra os povos indígenas, as invasões
territoriais, o garimpo ilegal, o desmatamento, as pressões de setores
econômicos e a demora nos processos demarcatórios continuam ameaçando nossas
comunidades e nossos modos de vida. A retomada do diálogo institucional é
importante, mas precisa resultar em respostas concretas às demandas dos
territórios. Em seu plano de governo, o senhor reafirmou compromissos com a
proteção dos territórios indígenas, da biodiversidade e dos modos de vida dos
nossos povos. Esse compromisso é fundamental para que sigamos lutando por
nossos direitos em um ambiente democrático, de participação e diálogo. O
movimento indígena, entretanto, não abrirá mão de sua autonomia e seguirá
cobrando que as promessas assumidas sejam efetivamente cumpridas, com
prioridade para a demarcação e a proteção de todas as Terras Indígenas, o
fortalecimento dos órgãos de fiscalização e proteção e a garantia de condições
dignas de vida para os povos da Amazônia brasileira.
Existem
pelo menos 27 Terras Indígenas na Amazônia prontas para serem demarcadas. Por
isso, fazemos um chamado para que seu novo mandato priorize a conclusão desses
processos e avance, de forma efetiva, na demarcação dos nossos territórios.
Nossos povos esperam pelo reconhecimento de seus direitos, nossas comunidades
precisam de proteção e territórios fundamentais para a continuidade de nossos
modos de vida. A demarcação não pode permanecer apenas como uma promessa. A
Amazônia indígena espera que o senhor transforme os compromissos assumidos em
ações e faça da proteção dos nossos territórios uma das marcas deste novo
governo.
Nesse
sentido, reafirmamos a importância do projeto de país “Nosso Território, Nossa
Vida”, construído pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e suas
organizações regionais, entre elas a Coiab. Entre nossas prioridades, estão a
demarcação e a proteção de todas as Terras Indígenas até 2030, o reconhecimento
dos territórios como fundamentais à soberania nacional, a participação efetiva
dos povos indígenas nas decisões que afetam seus destinos e o fortalecimento de
políticas públicas que respeitem nossos direitos e conhecimentos tradicionais.
Este
projeto não se limita às reivindicações indígenas. Ao defender nossos
territórios, defendemos também as florestas, os rios, a biodiversidade e as
condições necessárias para a existência de todas as formas de vida.
A
Amazônia desempenha um papel essencial no equilíbrio climático do planeta, e os
povos indígenas são protagonistas dessa proteção, pois nossos territórios
preservam a floresta e nossas ciências indígenas oferecem caminhos
indispensáveis para enfrentar a crise climática. Não existe futuro sustentável
para a Amazônia sem a garantia dos direitos territoriais indígenas. Por isso, a
defesa de nossos territórios deve ser compreendida como uma responsabilidade
coletiva e uma prioridade estratégica para o Brasil e para toda a humanidade.
Esperamos
que essa compreensão oriente as decisões do seu governo e que a proteção da
Amazônia esteja diretamente vinculada ao reconhecimento dos direitos de quem
historicamente cuida dela.
Dada a
importância dos povos indígenas da Amazônia para o presente e o futuro do
Brasil, é indispensável que tenhamos participação efetiva nos espaços
institucionais de decisão. A escolha de representantes para cargos e instâncias
estratégicas do governo deve considerar a escuta, o diálogo e a consulta às
organizações e lideranças indígenas, respeitando sua autonomia e reconhecendo a
legitimidade de quem conhece as realidades dos territórios e representa as
demandas de seus povos.
Reivindicamos,
portanto, que a participação indígena não seja apenas simbólica, mas se
concretize na construção, na implementação e no acompanhamento das políticas
públicas que afetam nossas vidas. Queremos estar presentes nos espaços em que
as decisões são tomadas, contribuindo com nossas experiências, conhecimentos e
propostas para a construção de um país mais justo e democrático.
No
contexto internacional, o avanço de forças de extrema-direita e a aproximação
de lideranças políticas da Bacia Amazônica com a agenda de Donald Trump,
caracterizada pela exploração predatória dos recursos, acendem um alerta para o
futuro da Amazônia. A disputa por minerais estratégicos, terras raras e outras
riquezas presentes em territórios indígenas aumenta a pressão sobre os povos e
as florestas. Diante dessas ameaças, é fundamental que o Brasil fortaleça suas
políticas de proteção ambiental, a cooperação com os demais países amazônicos e
o respeito aos direitos dos povos originários. Também é necessário que o
movimento indígena amplie sua articulação regional e internacional, mantenha
sua capacidade de incidência e permaneça atuante contra iniciativas que
coloquem em risco a integridade dos territórios e a autonomia dos povos
originários. Esperamos que o Brasil siga comprometido com uma agenda
internacional que coloque a proteção da Amazônia e os direitos indígenas no
centro das decisões, sem permitir que os interesses econômicos se sobreponham à
vida e à soberania dos nossos povos.
Presidente
Lula, a sua vitória também conta com a presença da Amazônia e de seus povos
originários. Em uma região decisiva para o equilíbrio climático do planeta,
onde a defesa da vida está diretamente ligada à proteção dos territórios
indígenas, nossa participação política expressa a força de quem há gerações
luta pela democracia, pelos direitos coletivos e pela preservação da floresta.
A Amazônia não é apenas parte do território brasileiro: é parte fundamental de
sua identidade, de sua soberania e de seu futuro.
A Coiab
reafirma seus compromissos históricos com a defesa dos direitos originários, a
demarcação e a proteção das Terras Indígenas, o fortalecimento das organizações
indígenas de base, a valorização das lideranças e dos conhecimentos
tradicionais e a defesa de uma Amazônia onde os povos indígenas possam viver
com dignidade, autonomia e segurança. É com esses compromissos que nos
dirigimos ao senhor, para reafirmar que o movimento indígena seguirá sendo um
interlocutor ativo, autônomo e vigilante, disposto ao diálogo, mas também
determinado a cobrar as respostas que nossos territórios necessitam.
Seguiremos
atuando na articulação política, na denúncia das violações de direitos, no
diálogo com instituições nacionais e internacionais e na mobilização permanente
em defesa dos territórios. Reconhecemos a importância dos espaços democráticos
e institucionais, mas sabemos que cada conquista do movimento indígena é
resultado de muita luta, organização e resistência coletiva. Por isso,
esperamos que o novo governo caminhe ao lado dos nossos povos, reconhecendo que
a participação indígena e a garantia dos nossos direitos são condições
indispensáveis para a construção de um Brasil democrático, plural e
comprometido com o futuro.
Neste
novo ciclo político, convocamos os povos indígenas, organizações, lideranças,
movimentos sociais, aliados e toda a sociedade comprometida com a vida a
permanecerem unidos e mobilizados. Somente com a força da organização coletiva
é possível transformar compromissos assumidos em direitos efetivos. A defesa
dos nossos territórios não pode esperar. Nossa luta atravessa gerações,
sustenta a vida e aponta caminhos para o futuro.
Presidente
Lula, os povos indígenas da Amazônia brasileira querem subir a rampa com o
senhor. Queremos que esse gesto represente mais do que um momento simbólico, e
demonstre que caminhamos juntos na construção de um governo que reconheça nossa
história, respeite nossa autonomia e garanta nossos direitos. Queremos subir a
rampa levando a força e a voz das nossas organizações e comunidades, a
esperança de que os compromissos assumidos se transformem em ações concretas,
começando pela demarcação e proteção dos nossos territórios.
A
Amazônia indígena tem que fazer parte da construção do país. Estamos dispostos
a dialogar, contribuir e construir caminhos coletivos, mas esperamos
reciprocidade, compromisso e respostas concretas às nossas demandas. Que este
novo mandato seja marcado pelo avanço das demarcações, pelo fortalecimento das
políticas indigenistas e pela garantia de que nenhum povo tenha que continuar
lutando para ver reconhecidos os direitos que a Constituição já lhe assegura.
A
defesa da Amazônia não pode esperar. Nossa luta atravessa gerações, sustenta a
vida e aponta caminhos para o futuro. Seguimos juntos, defendendo nossos
direitos, nossos territórios e nosso futuro.
Fonte:
Por Coiab

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