Meio
intelectual, meio janonista
A
enorme repercussão, nacional e internacional, dos feitos de André Janones no
pleito deste ano é mais do que merecida. Ao organizar o canal do Exército de
Lula no Whatsapp, Janones ofereceu ao campo progressista uma estratégia
eleitoral eficaz em redes sociais para o combate da extrema direita, isto é,
instruiu milhões de pessoas a agir num terreno de batalha hostil definido pelo
modelo de negócios das big techs. Devidamente articulado às ruas, esse
movimento de massa, coeso e militante, tornou possível o que, semanas antes,
parecia improvável.
Há
outra lição, porém, pouco comentada, captada em matéria sobre Janones no New
York Times: “ele não é apenas crítico da direita, mas também do que os
brasileiros chamam de ‘esquerda caviar’, a quem acusa de ‘elitismo e arrogância
intelectual’ e de afastar a classe trabalhadora”.
O
problema é mais complicado do que parece à primeira vista e exige uma discussão
menos presa ao registro comum, e frágil, das disputas em torno das “guerras
culturais”.
Primeiro:
de fato, uma das estratégias principais das novas direitas, especialmente em
suas origens nos Estados Unidos, foi denunciar o que viam como a hipocrisia
moral de indivíduos associados ao campo progressista, ou seja, quem
reivindicava princípios igualitaristas em abstrato, mas, na prática
(principalmente nas disputas culturais), se comportava de modo
anti-igualitário. Não foram poucos os que, mesmo críticos dessas novas
direitas, enveredaram pela mesma via. Não faltou espaço no debate público aos que
sentiam o prazer, e os dividendos, em apontar o dedo para o descompasso entre
ideias e práticas.
Esse
argumento das novas direitas, aí inclusa a extrema direita, nunca foi capaz de,
sozinho, dar conta do embate moral de fundo. Dizer que um progressista não age
de acordo com o que declara não diminui em nada, a rigor, a força normativa de
princípios igualitaristas. Pior ainda quando a crítica vem de uma direita
radical religiosa, dado que ela mesma promete justiça e igualdade, mas só
depois da morte.
A
retórica da reação não se reduziu à tese da hipocrisia, mas ela cumpriu, seja
como for, seu papel com êxito inegável, especialmente na medida em que estendeu
transversalmente a retórica reacionária do topo e à base da sociedade. Ou seja,
uniu moralmente (e culturalmente) tanto uma minoria que se beneficia da
manutenção da desigualdade, quanto uma massa que teria uma vida melhor se ela
fosse atenuada.
Por que
a tese reacionária da hipocrisia contra o campo progressista funcionou? A
resposta exige uma explicação sociológica: a adesão a pautas igualitaristas por
classes médias intelectualizadas não tem como dissolver, por mais fiel que o
agente tente ser em relação a suas ideias, a força da distinção que todo agente
precisa “jogar” para manter-se em sua posição privilegiada de classe. Há um
lastro material, enfim, na tese da hipocrisia moral dos progressistas de classe
média, ou seja, o fato de sua posição objetiva na estrutura social tender
necessariamente a contrastar com suas inclinações políticas. No limite, é o
mundo social, e não a incoerência pessoal, que produz os sintomas de esquerda
caviar – embora, é claro, algumas pessoas sequer pensam em fazer algo para
diminuir o problema.
E
Janones, o que ele tem a ver com isso? É claro que seu exército de milhões é
heterogêneo e engloba diversas classes, mas, no que se refere à classe média
progressista, dado o pânico ante o desastre, Janones ofereceu uma solução
potente, ainda que contextual, às contradições entre as disposições objetivas e
inclinações subjetivas desse grupo.
Primeiro,
mostrou que eram ignorantes no que se refere à ação política nas redes e, como
um professor, ensinou aos leigos o que fazer. Segundo, por meio de retórica
militar, exigiu de todos abdicar daquilo que lhes é mais caro, a sensação de
serem indivíduos únicos e especiais que, com suas ideias próprias e autonomia,
não se deixam levar por ações de massa. Não foram poucos os que seguiram suas
ordens, mas, para os pares (no privado), lamentavam o caráter raso do
“janonismo cultural”. Terceiro, impôs a pauta do dia que todos deveriam seguir.
Deu conta, enfim, de impor a unidade no interior da diversidade do campo
progressista. Quarto, a escolha das pautas era orientada pelos problemas que
afetam diretamente a maioria da classe trabalhadora brasileira.
Ao fim,
a classe média intelectualizada do campo progressista agradeceu ser feita de
militante de base. Consagrou Janones, que chegou a ganhar um jantar especial
com artistas famosos na casa de Caetano Veloso, um sonho inalcançável para 99%
dos seus pares.
Resta
saber que lição os progressistas da classe média intelectualizada irão levar
para o restante da guerra que se estende no novo mandato de Lula, isto é, se
irão manter sua militância, nas ruas e nas redes, em favor de reformas
estruturais de combate à desigualdade (o que significa vencer o “terceiro
turno” contra a “Faria Lima”) e se descobrirão como retomar da extrema direita,
em favor do igualitarismo, a hegemonia moral na sociedade. O que significa, nos
limites do que é possível socialmente, uma profunda autorreflexão sobre suas
práticas de distinção cultural em relação à esmagadora maioria do povo.
Fonte:
Por Sávio Cavalcante, no Le Monde

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