Debate
sobre juros tem tudo a ver com mobilização juvenil e popular que levou Lula à
vitória, diz André Singer
A vitória do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições deste ano
foi, em grande parte, sustentada pela mudança de postura do governo, que passou
a dialogar com as necessidades reais da população. Extinguir as bets,
reconhecer o alto preço dos alimentos e criar medidas com impacto direto no
bolso da população foram iniciativas cruciais para
a virada do primeiro para o segundo turno, analisa o cientista
político André Singer, professor titular do Departamento de Ciência
Política da Universidade de São Paulo (USP). Mas o autor do recém-lançado Impasse
- O Brasil diante da onda reacionária (Companhia das Letras), dentre outras
obras, afirma que, a despeito da vitória no Brasil e da mais recente derrota de
Donald Trump nas eleições de
meio de mandato nos Estados Unidos, a democracia ainda corre risco.
"Estamos
diante de uma extrema-direita violenta e abertamente antidemocrática",
afirma Singer em entrevista à BBC News Brasil.
Uma das
explicações para o avanço da direita radical, segundo o pesquisador, seria o
agravamento das desigualdades causado pela crise financeira de 2008, apontada
como a pior recessão global desde a Grande Depressão de 1929. De lá para cá,
não importa muito quem vem ganhando as eleições: a vida das pessoas não está
melhorando, defende Singer. "A sociedade continua com a corda no pescoço e
sem horizonte de futuro para si e para os seus filhos", afirma. Parte
dessa população, portanto, se deslocou para a direita radical, que avançou
muito nos últimos anos em todo o mundo. "A boa notícia que eu posso dar
para quem é favorável à democracia, como é meu caso, é que a extrema-direita
também não está encontrando solução para essas pessoas."
<><>
Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
·
A antropóloga Rosana Pinheiro Machado, que pesquisa
também os efeitos da plataformização do trabalho, defende que uma nova classe
aspiracional, que busca prosperar financeiramente e se
frustra por considerar que suas necessidades não são contempladas pelas
políticas públicas atuais, representa uma "bomba-relógio" que quase
estourou nessas eleições. Essa bomba está desarmada ou apenas sua explosão foi
adiada?
André
Singer -
Vamos tomar essa imagem da bomba-relógio como ponto de partida. Eu diria que
aconteceu uma coisa excepcional: ela, digamos, estourou no primeiro turno e
"desestourou" no segundo. Na verdade, ela foi revertida, como se o
efeito dela tivesse virado ao contrário. E esse é o fenômeno incrível, porque
nós temos que lembrar que o presidente Lula ganhou de Flávio Bolsonaro pelo
dobro da diferença com que ele ganhou de Jair Bolsonaro em 2022. Então, o final
do processo é o inverso do que aconteceu no primeiro turno. E eu estou falando
não apenas dos números, mas de uma interpretação política profunda do que
aconteceu. De tal maneira que a ideia da bomba-relógio é excelente, mas acho
que o que aconteceu entre o primeiro e o segundo turno foi a reversão desse
processo. O que não significa que a bomba tenha sido desativada, mas ela teve,
do ponto de vista estritamente político, e quem analisa política precisa
analisar cada conjuntura, uma reversão desse processo no segundo turno.
·
E por quê? O que aconteceu? Já dá para apontar fatores
concretos para essa reversão?
Singer
- Foram
três fatores. Começa com uma mudança de postura do presidente e, portanto, do
caráter do governo. Esse talvez seja o aspecto menos notado. O presidente, a
meu ver, mudou a campanha completamente em meados de setembro. Na verdade, o
marco específico é o comício de Porto Alegre em 11 de setembro, quando ele
reconheceu que os preços do supermercado estavam caros, citando especificamente
o café e a carne. A partir daí, ocorre uma grande mudança. Ele começou a tomar
medidas no sentido de dialogar com as necessidades da população. E talvez a
mais emblemática tenha sido a proibição das bets. Porque o que acontece aqui é
uma confluência de diversos fatores: aumento do custo de vida, uma crise de
endividamento das famílias e, em terceiro lugar, a epidemia das bets. Não digo
que seja só isso, mas em parte ocorre porque as pessoas estavam endividadas e
tentavam conseguir uma renda extra para pagar suas dívidas. E o mecanismo das
bets é feito para que a pessoa perca. Então, a maioria dessas pessoas acabava
mais endividada, numa situação muito angustiante. Se olharmos para essa tríade,
dá para perceber bem o que aconteceu. Claro que não foi só a proibição das
bets. Houve uma série de medidas, até envolvendo os MEIs, o Desenrola 3, o
reajuste do Bolsa Família, a aprovação do fim da escala 6x1, a [proposta da]
tarifa zero no transporte público no fim de semana... Nós tivemos um pacote
que, na minha opinião, mudou o caráter do governo. A isso se somou uma espécie
de explosão social no segundo turno. Os jovens, sobretudo, foram em massa para
as ruas num fenômeno que eu não via desde 2013. Diria até que é um fenômeno
análogo [a 2013]. As manifestações da Avenida Paulista dos dias 11 e 24 de
outubro são equivalentes à grande manifestação da direita pelo impeachment da
presidente Dilma [Rousseff] em março de 2016.
·
Mas essas grandes manifestações que ocorreram em 2013 e
depois em 2016 eram contra algo: o aumento da tarifa ou o governo Dilma. Era
muito difícil juntar gente na rua a favor de algo...
Singer
- As
manifestações que foram convocadas contra o governo Bolsonaro durante o final
da pandemia não tiveram resultado. Nenhuma manifestação alcança a dimensão das
que ocorreram nos dias 11 e 24 se elas não tiverem um conteúdo popular. Você
não enche a Avenida Paulista daquele jeito sem as camadas populares estarem
envolvidas. A grande novidade é que tem, de fato, um aspecto positivo e
propositivo, que era pela reeleição do presidente Lula, mas vamos lembrar
também que era muito contra a extrema-direita. Havia um espectro da
extrema-direita que quase se materializou no primeiro turno, porque, para a
surpresa geral, uma vez que as pesquisas diziam o contrário, Flávio Bolsonaro
ficou à frente por dois pontos percentuais. Também essa postura de medo e de
repúdio à extrema-direita foi muito importante naquelas manifestações. Essa é a
dobradinha fundamental, entre a mudança da postura do governo e uma explosão
social comparável à de 2013, com repercussões em 2016, porque a gente sabe que
2016 foi um pouco a continuação de 2013. Junto com isso, houve a operação
digital, vamos chamar assim, do Exército
do Janones, que capilarizou este movimento para o país inteiro,
porque uma coisa extraordinária foi o fato de que essas manifestações ocorreram
em centenas de cidades. Isso, num país continental como o Brasil, é muito
significativo. Tivemos um movimento nacional raramente visto, de grande
significado.
·
O senhor entrou no Exército do Janones?
Singer
- Eu,
pessoalmente, não participei, porque eu não sei operar isso e estava
absolutamente concentrado no trabalho que eu tinha que fazer, mas eu acompanhei
bastante.
·
Pelo que se tem falado até agora, a eleição virou pela
combinação de dois fatores: a mobilização social, inflamada pelo medo do avanço
da direita radical, e medidas que afetam diretamente e imediatamente o bolso.
Singer
-
Exatamente, e é nesse sentido que digo que a eleição inverteu o efeito da
bomba-relógio que explodiu no primeiro turno. De fato, o grupo que estava
oscilando e queria decidir a eleição é esse grupo de eleitores que recebe de
dois a cinco salários mínimos de renda familiar mensal, que é um grupo que
escolhe de maneira pragmática, olhando para a sua situação, que é uma situação
bastante difícil. Evidentemente que não é tão difícil quanto a dos que estão na
base da pirâmide social. Mas aqui precisa lembrar que os programas históricos
do lulismo, como o Bolsa Família, protegem, de alguma forma, esse segmento mais
vulnerável, por exemplo, no interior do país, no interior do Nordeste, onde o
custo de vida é menor. E esse setor de dois a cinco salários mínimos, em geral,
tem que conviver com o custo de vida maior, que é o custo de vida
metropolitano.
·
O fim da jornada 6x1 foi algo que, desde o começo da
campanha, Lula tentava muito aprovar para usar como plataforma. Qual é o peso
dessa mudança? Porque muita gente é informal.
Singer
-
Você tem razão de que tem muita gente que é informal, que são
microempreendedores, já devemos mencionar o fato de que houve um pacote muito
significativo para os microempreendedores individuais, dialogando diretamente
com esse setor e essas necessidades. Mas ainda tem um contingente importante de
trabalhadores CLT. Às vezes, se tem a impressão de que todos viraram
trabalhadores por plataformas, o que não é verdade. É um contingente expressivo
e talvez crescente, mas ainda há um enorme contingente de trabalhadores e
empregados. A medida da mudança da jornada de trabalho é fundamental, porque
dialoga diretamente com essa juventude que foi para a rua. E essa juventude foi
para a rua em parte porque percebeu que o governo tinha realmente se
comprometido com essa medida. Não era uma promessa de campanha.
·
A campanha petista se favoreceu da defesa de Flávio
Bolsonaro da negociação entre patrão e empregado? O senador também disse que,
se ganhasse as eleições, mudaria a Constituição...
Singer
- Ela
se favoreceu bastante. Flávio Bolsonaro errou, do ponto de vista tático, ao
desconsiderar que o primeiro turno não é o segundo. Ele não era o presidente e
metaforicamente se sentou na cadeira antes da hora. Esse é um erro que nenhum
candidato pode cometer, porque é fatal. No caso dele, teve um preço alto. Mas,
além de ser um erro tático, há uma questão de fundo aí. Na verdade, a proposta do
Flávio Bolsonaro era a de um contrato aberto de recebimento do
trabalhador por horas trabalhadas, que ele combinaria, por livre vontade, entre
aspas, com o empregador. Isso significa simplesmente eliminar toda a proteção
trabalhista, que é, no fundo, o que estava na cabeça dele, porque não é por
acaso que ele passou toda a campanha até o primeiro turno falando que se mirava
no [presidente
da Argentina, Javier] Milei. É uma posição ultraliberal. Quando ele
vê a maré do movimento social, ele começa a
recuar de todas as suas propostas, inclusive do exemplo do Milei, e
dizer que ele ia manter todos os benefícios sociais, que se comprometia com o
fim da 6x1 etc. Mas o segundo turno da eleição teve um aspecto muito
interessante para quem estuda comportamento eleitoral, que é mostrar que existe
uma certa racionalidade no eleitor, porque o eleitor percebe, ele tem uma
sensibilidade, sobretudo para o que lhe interessa diretamente. Então, não foi
só o erro tático logo depois do primeiro turno que, de fato, ele cometeu, mas
também o conjunto.
·
Lula foi reeleito, mas em toda a América a direita
radical vem avançando muito nos últimos anos. Por que o discurso se radicalizou
tanto? E é possível conter essa radicalização?
Singer
-
Não é o discurso que se radicalizou, é a ação. Estamos diante de uma
extrema-direita violenta e abertamente antidemocrática. Aqui no Brasil, tivemos
o caso máximo, que é uma tentativa de golpe de Estado. Então, não é um problema
de discurso, é um problema de fundo. Por que isso acontece? Há um debate
aberto. A minha hipótese é que o neoliberalismo, após o crash de 2008,
agravou as desigualdades em todo o mundo. O neoliberalismo, de certa forma, faz
com que o resultado da eleição não mude muito a situação de vida dessa parte da
população. Então, ganha A, ganha B, ganha C, ganha D, mas a sociedade continua
muito com a corda no pescoço e sem horizonte de futuro para si e para os seus
filhos. Um bloco dessa população se deslocou para a extrema-direita e deu uma
sustentação para posições de extrema-direita que seriam, em princípio, de
estratos médios. A boa notícia que eu posso dar para quem é favorável à
democracia, como é meu caso, é que a extrema-direita também não está
encontrando solução para essas pessoas. A derrota de Trump nas eleições de meio
de mandato significa que, nos próximos dois anos, ele não vai ter o mesmo poder
que teve nos dois primeiros. A vitória do presidente Lula no Brasil tem uma
dimensão parecida, fazendo com que o quadro nas Américas, neste momento, fique
mais equilibrado, criando um espaço de esperança, digamos assim, que tem que
ser aproveitado, porque a ameaça não vai parar.
·
Essa ida do Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos pode,
de alguma maneira, interferir na retomada de relações do Lula com o Trump? Como
essa ida do Flávio para lá pode interferir nas relações bilaterais?
Singer
- Em
um primeiro momento não interfere, porque o Flávio cometeu um
segundo erro tático, a meu ver, ao não reconhecer o resultado da
eleição. Ele vinha se apresentando, isso desde antes do primeiro turno —
portanto, não foi um movimento ocasional — como o Bolsonaro moderado,
explicitamente. Ele estava, obviamente, dialogando com o fato de que o
candidato natural seria o Tarcísio de Freitas. E o Bolsonaro pai decidiu
indicar o filho mais velho para deixar claro que é quem decidiu, e que ele
queria ter na urna o nome dele. O Flávio cometeu um terceiro erro ao sair do
Brasil de uma maneira inteiramente desacreditada. Claro que deve ter
bolsões bolsonaristas que acreditam que a eleição foi fraudada e que podem
acreditar em coisas absurdas, mas são grupos pequenos. A opinião pública
brasileira é unânime em reconhecer, mesmo nos setores de direita, que a eleição
foi completamente justa, que a prorrogação do prazo era necessária, porque
havia dificuldades em várias cidades, como Salvador e São Paulo, tanto é assim
que o PL entrou junto com o PT, com o mesmo pedido de extensão do prazo, o que
desmonta completamente a hipótese de fraude. A saída dele do Brasil o
deslegitima como líder. Então, em um primeiro momento, não afeta em nada.
Inclusive porque o presidente Trump tomou
uma posição distante do assunto, dizendo que houve problemas na
eleição brasileira, mas que ele gosta do Lula, estas declarações
desencontradas, que são típicas da atual Casa Branca. O problema é saber o que
vai acontecer daqui para frente. Porque agora começa lentamente um processo novo,
que é o processo que vai dar no quarto governo do presidente Lula. Nem começou.
·
Olhando para 2030 e sucessão, dá para pensar em lições
que dá para tirar dessa eleição de agora?
Singer
-
2030 não está na mesa neste momento, porque tem muita coisa até lá. A única
razão pela qual 2030 está na mesa é porque, em sistemas presidencialistas,
quando acaba uma eleição, todo mundo começa a pensar na próxima. E é normal que
seja assim, porque faz parte do mecanismo previsto. O governador [de São Paulo]
Tarcísio Freitas [Republicanos] já está se mexendo para ser o candidato em
2030. Mas eu não identifico nada parecido do lado vencedor desta eleição. O que
eu acho que se pode tirar são conclusões a respeito do processo ocorrido entre
o primeiro e o segundo turno e dos possíveis efeitos que isso vem a ter no
quarto governo.
·
A pergunta sobre sucessão é inevitável, dado que Lula não
vai poder mais disputar. Tarcísio é um candidato natural, como já era até
Bolsonaro decidir pelo Flávio. Fernando Haddad nos deu uma entrevista na qual levantou a
possibilidade de haver prévias no PT para presidente. Que é algo
que não acontece há muito tempo no partido. O que o senhor acha dessa ideia?
Singer
- O
mecanismo das prévias é sempre um bom mecanismo, eu acho. Ele é interessante,
democrático, permite participação. Inclusive, rende eleitoralmente, porque ele
já começa o processo. Tudo depende de como as coisas estiverem postas no
momento em que tiver que ser tomada essa decisão, mas, em princípio, acho uma
boa ideia.
·
Ainda falando sobre os campos com quem Lula deve
dialogar, ele fez um discurso em Santa Catarina durante a campanha dizendo que
o agro tinha que "se ajoelhar" a ele, em razão dos recursos e do
volume de crédito disponibilizados pelo governo à agricultura. Ao mesmo tempo
em que o governo abre muito as portas no sentido financeiro, com o Plano Safra,
por outro lado, o agro é, em grande parte, muito bolsonarista. Falta um diálogo
com esse setor da sociedade?
Singer
-
Não acho que falte diálogo. O que eu acho que acontece é que realmente essa
fração, vamos chamar assim, da burguesia, tem se encastelado numa posição muito
contrária ao PT, ao lulismo, ao próprio presidente Lula. Mas a gente tem que
considerar o seguinte: o diálogo está aberto porque é visível, inclusive nesse
terceiro mandato, que o governo trata esse setor da economia como um setor
prioritário, porque ele é mesmo. Da maneira como a economia brasileira está
conformada hoje, ninguém que seja responsável pode desconhecer a importância do
agro, é o setor mais dinâmico da economia brasileira. O PT, o lulismo e as
forças que se organizaram em torno do terceiro mandato do presidente Lula têm
que ter no horizonte a reindustrialização do país. Não existe possibilidade de
a gente dar o passo necessário para incluir a parte pobre do Brasil sem uma perspectiva
de bons empregos. E não é só o emprego CLT, é também a possibilidade de
prosperidade para os trabalhadores que são hoje empreendedores individuais.
Esse é o grande desafio histórico do Brasil. Agora, como fazer a
reindustrialização, aí sabemos que é um problema gigante, porque isso envolve
questões internacionais e uma reorientação da economia que não é fácil de se
fazer. Mas, isto colocado como um elemento de grande transformação, o agro tem que
estar junto. Não pode não estar junto, porque é o setor mais dinâmico, mais
próspero da economia brasileira. Nenhum governo que tenha o mínimo de
responsabilidade vai deixar de dialogar com o agro. Se você buscar nos jornais,
não houve conflito com o agro durante o terceiro mandato do presidente Lula.
Isso é um pouco uma construção. Chegado o momento da eleição, essa fração da
burguesia se alinha, como se alinhou de novo, com o bolsonarismo. E aí começa
um problema sério. Porque tem muitos pontos de contato. De um lado, a ideia de
que os conflitos sociais precisam ser tratados com mais dureza. Isso é uma
tradição, porque é um setor da economia para o qual, por exemplo, evitar
invasões de terras, ocupação de terras, é muito prioritário. Ao mesmo tempo, é
um setor que tem uma concepção, uma visão de mundo, por assim dizer, mais
radical do que outras, dentro da própria burguesia. Mas é bom lembrar que,
neste ano, 2026, a burguesia não se manifestou a favor do presidente Lula em
nenhum dos seus setores. Isso, inclusive, não deixou o agro tão isolado assim
quanto ele poderia ter estado, por exemplo, em 2022. Mesmo prestando atenção no
movimento desse setor, tem vozes dizendo que não podemos continuar com essa
opção de extrema-direita. Mas elas são minoritárias. Em outras palavras, houve
um alinhamento do agronegócio com a extrema-direita no Brasil, o que é um
tremendo problema para o Brasil. E é um problema para todos nós. Isso dá um
suporte que, junto com as confissões evangélicas, é o grande esteio do
bolsonarismo. Um grande desafio seria ter, nas próximas eleições, por exemplo,
uma direita que estes setores certamente apoiariam, mas que não fosse uma
extrema-direita.
·
Seria voltar aos velhos tempos? Quando havia um PSDB
forte?
Singer
- O
PSDB, na minha opinião, é um partido de centro. Digo isso com uma certa dose de
cautela, porque é muito difícil classificar os partidos no Brasil. Porque, de
maneira geral, os partidos no Brasil são muito voláteis nas suas posições
programáticas, oscilam muito. E é muito difícil fixar quem está no centro, quem
está na centro-direita, quem está na direita. Mas, feitas essas ressalvas, eu
tendo a considerar hoje que o melhor lugar para a gente entender o PSDB é o
centro. Então, naquele período, 1994, 2014, a direita estava apoiando o centro.
Agora, estou sendo menos otimista. Estou dizendo uma direita, mas uma direita
democrática, porque o problema nosso no Brasil e no resto do mundo, em certa
medida também, é isolar a extrema-direita. E eu digo isso porque, do contrário,
vamos continuar tendo a democracia ameaçada, e isso quase nos engessa, porque
você precisa dar prioridade à democracia. Ao mesmo tempo, a democracia não vai
sobreviver se ela não for capaz de atender à maioria da população. Porque aí a
maioria da população não a reconhecerá como um regime político que interessa.
·
E o que está em jogo no Lula 4? O cenário é o de um
Congresso hostil, com medidas que o presidente Lula tomou de última hora antes
da eleição, em meio ao debate sobre um ajuste fiscal. O que esse governo
precisa fazer para responder a esses anseios da população?
Singer
- Na
minha opinião, o desafio do quarto mandato é equacionar os problemas
socioeconômicos de modo a produzir um alívio imediato em amplos setores
populares e, ao mesmo tempo, abrir horizontes de progresso futuro. Em outras
palavras, aumentar gradativamente o conquistado e reencontrar o caminho do
desenvolvimento perdido. Para isso, será preciso enfrentar as pressões que
começaram na manhã seguinte ao segundo turno, com a queda da bolsa e a subida
do dólar. O ajuste fiscal exigido por agentes do mercado financeiro
significaria desindexar os benefícios previdenciários do salário mínimo e
retirar os pisos da educação e da saúde da Constituição. O presidente prometeu
preservar os direitos sociais existentes e tenho certeza de que o fará. A proposta
lançada pelo economista André Lara Resende para reduzir a taxa de
juros, por outro lado, tem o mérito de deslocar o debate, mostrando que a maior
parte da dívida pública se deve à altura em que a Selic é mantida pelo Banco
Central. Como careço de conhecimento técnico a respeito, evito afirmar que a
fórmula de Resende deva ser adotada. O fato de ter reaparecido neste momento,
entretanto, tem tudo a ver com o sentido do segundo turno, quando uma intensa
movimentação juvenil e popular, pendente para a esquerda, virou o resultado. Os
jovens foram às ruas, sensibilizados pelo fim da escala 6X1, transporte
gratuito no fim de semana e, indiretamente, pela proibição das bets, entre
outras medidas tomadas a partir de meados de setembro. Diante dessa novidade
política, faz sentido sugerir propostas inovadoras para a gestão da economia,
de modo a romper os nós que amarraram o terceiro mandato do presidente Lula. Por
fim, o aumento do peso representado pela extrema-direita no Senado e na Câmara
é indiscutível. Tivemos um primeiro turno à direita e um segundo, à esquerda, o
que é pouco comum. Por maiores que sejam as bancadas do PL, contudo, não
constituem maioria. Precisarão negociar o tempo todo e, penso, o seu foco será
reabilitar Jair Bolsonaro de modo a que possa concorrer em 2030. As duas
principais pautas socioeconômicas de Lula — isenção do Imposto de Renda para
quem ganha até R$ 5 mil e mudança da jornada de trabalho — foram aprovadas
praticamente por unanimidade.
·
O senhor, sendo uma pessoa que estuda as relações de
trabalho, de que forma está enxergando a redução da jornada 6x1? Estamos
entrando numa nova era do trabalho no Brasil?
Singer
- Eu
acho que estamos entrando, sem dúvida, numa nova era do trabalho no mundo todo,
em função do encolhimento da indústria, que é um fenômeno duplo. Em parte, ela
se deslocou para a Ásia, mas em parte também a indústria absorve menos gente,
em função da tecnologia. O que significa que tem uma área de serviços se
ampliando muito, porque o agro também absorve pouca gente, então há uma
expansão do setor de serviços. Por outro lado, tem a plataformização desse
setor de serviços, o que implica mudanças profundas no sentido de fragmentação
da classe trabalhadora. A classe trabalhadora já não se encontra mais em
fábricas em que havia milhares de pessoas trabalhando juntas e, por dividirem o
trabalho, ele se torna cooperativo. Ele pode não parecer, porque é voltado para
a acumulação do capital, mas é cooperativo. E é isso que fez o movimento
operário ser muito forte, porque, se os trabalhadores decidem parar, para tudo.
Hoje não tem mais isso. Ainda existe esse setor, mas ele se reduziu, ao mesmo
tempo em que cresceu muito um setor fragmentado, que trabalha individualmente,
separadamente, você não encontra seu colega. E a plataformização significa que
você tem um mecanismo algorítmico que te força a competir com o seu colega, em
lugar de cooperar com o seu colega. Isso muda tudo. Essa mudança faz com que os
mecanismos tradicionais construídos pelo movimento operário não funcionem mais.
Essa é a explicação, na verdade, porque estamos diante de uma situação em que
as alternativas da classe trabalhadora ficaram muito enfraquecidas. E agora,
com a chegada da redução, acho que vai ficando claro para um número maior de
pessoas que, na realidade, não seria tão importante ter mais dinheiro quanto
ter mais tempo. Essa questão do tempo sobre o dinheiro, comparativamente,
ganhou uma proeminência que não tinha antes. Só que, num país semiperiférico
como o Brasil, isto não se aplica. Tanto é assim que uma parte das pessoas vai
usar a folga que ganhou com a mudança da jornada de trabalho para fazer
trabalho extra. Porque justamente a sua renda não dá conta das contas que tem a
pagar. De modo que a gente precisa fazer uma espécie de adaptação desse mundo
que a gente vê nos países ricos para as condições nossas que são bastante
diferentes.
·
Do primeiro para o segundo turno, Lula reclamou da
organização da campanha e da comunicação, que sempre é o primeiro setor a ser
culpado. E aí, depois que ele ganhou, ele falou que agora vai ser diferente,
vai falar com as pessoas todos os dias, começou a fazer vídeos de selfie, mudou
o jeito como ele tentava se aproximar dos eleitores. Daria para dar um conselho
para o presidente em relação à comunicação nesse momento?
Singer
- Não.
Absolutamente (risos). Eu acho que eu não sou a pessoa feita para isso. Quer
dizer, a comunicação está passando por uma revolução completa, uma
transformação total, que provavelmente a minha geração já não entende bem como
isto está de fato se dando. Eu até reconheço que é uma lacuna minha e que eu
vou tentar estudar, ler a respeito e ver se os autores me orientam, do ponto de
vista teórico. Do ponto de vista prático, não tenho nenhuma ilusão de que eu
consiga me adaptar. Como eu quero continuar trabalhando, eu vou tentar
entender, mas eu definitivamente não sou a pessoa indicada para dar conselhos
ao presidente nesta área. Mas, do ponto de vista prático, o exemplo é o segundo
turno. Ele se adaptou àquilo que era necessário, parece que foi bem, se
comunicando e fazendo seu papel dentro desse novo formato comunicativo.Mas
repare que eu disse na minha resposta que eu acho que a comunicação é auxiliar.
Continuo achando, como analista político, que os grandes movimentos são os
movimentos da política. O que a comunicação pode fazer é potencializar,
capilarizar e assim por diante.
Fonte:
BBC News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário