Fugas
e entreguismo
A
história brasileira é pródiga em personagens que descobriram, nos momentos de
maior dificuldade política, as vantagens de procurar abrigo em outras paragens.
Alguns fizeram disso uma estratégia de Estado; outros parecem ter encontrado na
diplomacia internacional uma extensão de suas próprias circunstâncias
domésticas.
Em
1807, diante do avanço das tropas napoleônicas sobre Portugal, cortesia do
sogro espanhol, D. João, então príncipe regente, decidiu atravessar o Atlântico
com a família real, a corte e boa parte do aparelho administrativo português.
Não era pouca bagagem. Embarcaram funcionários, nobres, documentos, tesouros e
até a biblioteca real. Juntaram, com mais ou menos pressa, o que puderam, e
atravessaram o oceano esperando que Napoleão não os seguisse. Precisavam de
logística, e sobretudo, proteção.
Nesse
sentido, a viagem tinha um patrocinador bastante interessado: a Inglaterra.
Lord Strangford, diplomata britânico, personagem fundamental nas articulações
da transferência. A proteção naval inglesa, naturalmente, não era gratuita. Em
fevereiro de 1810, vieram os tratados de Aliança e Amizade e de Comércio e
Navegação. A Coroa portuguesa preservava, um tanto precariamente, sua dinastia,
enquanto os ingleses consolidavam seus privilégios econômicos. Cada qual
salvava aquilo que mais lhe interessava.
E os
ingleses não foram modestos na hora de apresentar a conta pelo translado. Pelo
Tratado de Comércio e Navegação, assinado em 19 de fevereiro de 1810, as
mercadorias britânicas passaram a pagar uma tarifa alfandegária de apenas 15%
para entrar nos domínios portugueses. Era uma condição particularmente
vantajosa: os produtos ingleses pagavam menos impostos que os produtos
portugueses, cuja tarifa inicial era de 16%, e muito menos que os produtos
estrangeiros em geral, submetidos à alíquota de 24%.
Em
outras palavras, a potência industrial que escoltava a monarquia portuguesa
recebia tratamento comercial privilegiado justamente no mercado que aquela
monarquia acabara de abrir.
Mas
havia mais. Os britânicos conquistaram o direito de contar com um Juiz
Conservador da Nação Britânica, uma espécie de magistrado próprio para proteger
seus interesses jurídicos nos domínios portugueses. Também receberam garantias
para o exercício privado de sua religião protestante e condições favoráveis à
navegação e ao comércio. Não era apenas uma abertura de mercado: eram vantagens
comerciais, jurídicas e institucionais.
A
ironia é que a Inglaterra, em plena Revolução Industrial, encontrava no Brasil
um mercado consumidor para suas manufaturas, especialmente tecidos, ferragens e
artigos industriais. Enquanto os ingleses exportavam produtos de maior valor
agregado, os domínios portugueses continuavam organizados em torno da produção
primária, da agricultura de exportação e do trabalho escravizado. A assimetria
não era apenas diplomática: era também produtiva.
D. João
não entregou formalmente o Brasil aos ingleses, mas lhes concedeu condições
excepcionais para comerciar e proteger seus interesses. A proteção naval tinha
seu preço, e o preço foi pago também em privilégios econômicos. O entreguismo,
naturalmente, ainda não tinha esse nome, mas já possuía seus instrumentos
jurídicos.
Mais de
dois séculos depois, a história parece oferecer uma curiosa oportunidade de
exercício comparativo, com as devidas ressalvas.
Flávio
Bolsonaro também protagonizou uma saída do território nacional em
circunstâncias políticas adversas. Mas a história, que às vezes tem um senso de
humor bastante particular, reservou-lhe um cenário diferente. Não havia
Napoleão atravessando a fronteira, nem tropas francesas ameaçando Lisboa. Havia
uma conjuntura política e judicial brasileira, uma medida cautelar, um processo
em curso, que resultaram em uma viagem internacional cujas circunstâncias
passaram a ser objeto de questionamentos.
Se D.
João encontrou em Strangford seu interlocutor privilegiado, Flávio Bolsonaro
encontrou em Marco Rubio uma referência política e estratégica. E aqui aparece
outro elemento interessante dessa aproximação histórica: a riqueza nacional
como moeda de relacionamento com uma potência estrangeira.
Flávio
Bolsonaro não se limitou a elogiar as possibilidades econômicas das terras
raras brasileiras. Na conferência conservadora CPAC, nos Estados Unidos, em
março de 2026, apresentou o Brasil como a solução para que os americanos
reduzissem sua dependência da China em minerais críticos. Segundo ele, o Brasil
possuía a segunda maior reserva mundial e seria a única alternativa real à
China para o chamado mundo livre.
O
discurso não deixava dúvidas sobre o destinatário da oferta: os Estados Unidos.
As terras raras brasileiras foram apresentadas como insumos estratégicos para a
indústria tecnológica, a inteligência artificial e, particularmente, a
indústria de defesa americana.
Em
maio, depois de se reunir com Donald Trump, chefe de Marco Rubio, Flávio
Bolsonaro foi mais explícito sobre o que pretendia oferecer. Declarou que, em
um eventual governo seu, haveria uma parceria estratégica de longo prazo entre
Brasil e Estados Unidos no setor de minerais críticos, com investimento
protegido e reindustrialização compartilhada. Também apresentou a possibilidade
de um acordo comercial e de investimentos histórico entre os dois países.
Não
parou aí. Na mesma aproximação, pediu que os Estados Unidos classificassem o
PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras e defendeu
a participação brasileira em um chamado “Escudo das Américas”, uma articulação
de segurança regional alinhada aos interesses de Washington.
O
pacote, portanto, era bastante amplo: minerais estratégicos, cooperação militar
e de segurança, aproximação diplomática e integração econômica com os Estados
Unidos. Uma espécie de programa de alinhamento geopolítico oferecido a Donald
Trump como perspectiva para um eventual governo brasileiro.
E há um
detalhe adicional. Um documento elaborado por André Marinho, aliado político de
Flávio Bolsonaro, apresentou diretrizes para uma parceria mineral entre Brasil
e Estados Unidos. Entre as propostas estavam reformas na legislação minerária e
no licenciamento, participação de capital americano nos ativos brasileiros,
garantia de demanda pelos minerais por parte dos Estados Unidos e integração do
processamento e da industrialização nacionais às cadeias produtivas ocidentais.
O
documento também projetava investimentos de dezenas de bilhões de dólares ao
longo de uma década. André Marinho confirmou sua autoria, mas negou que o
material tivesse sido produzido para a campanha de Flávio Bolsonaro.
Não se
trata, evidentemente, de um tratado assinado ou de uma transferência formal das
reservas minerais brasileiras. Mas a proposta e as declarações públicas
oferecem uma questão interessante: em que condições o Brasil participaria dessa
reorganização internacional das cadeias de minerais estratégicos? Como
fornecedor de matérias-primas ou como protagonista de uma política de
industrialização própria?
A
diferença de época também merece registro. D. João negociava com a Inglaterra
quando o poder britânico se encontrava em expansão e a Europa estava em guerra.
Flávio Bolsonaro procura estreitar relações com os Estados Unidos em plena
disputa geopolítica com a China. Os impérios mudaram, os recursos cobiçados
mudaram, mas a velha questão permanece: quem oferece proteção e quem coloca os
recursos à disposição?
Há,
ainda, uma diferença de escala digna de nota. D. João levou consigo uma corte
inteira, instalou órgãos administrativos, criou instituições e transformou o
Rio de Janeiro na sede do “Reino Unido a Portugal e Algarves”. Flávio
Bolsonaro, em sua viagem, pertence a outra categoria de deslocamentos
políticos.
Talvez
a ironia mais interessante esteja justamente nisso: a história brasileira,
especialmente em suas figuras mais autoritárias e prepotentes, parece conservar
uma tradição de procurar grandes protetores estrangeiros nos momentos de
dificuldade.
Em
1807, a proteção vinha acompanhada de uma esquadra britânica; em 2026, a
aproximação se apresenta sob a linguagem das parcerias estratégicas, dos
investimentos, da segurança hemisférica e da segurança mineral, em troca do
“enxoval democrático” que os EUA destinam a suas zonas de interesse pelo
planeta, que vai desde sanções comerciais até invasão e sequestro de lideranças
nacionais.
D. João
deixou Portugal, atravessou o oceano e chegou ao Brasil. No caminho, Strangford
encontrou uma oportunidade para negociar privilégios comerciais. Em 1810, os
ingleses conseguiram tarifas alfandegárias inferiores às aplicadas aos próprios
portugueses, jurisdição especial para seus súditos e vantagens para suas
atividades mercantis. Não foi pouca coisa. A monarquia salvou a Coroa, mas a
economia dos seus domínios pagou a conta.
Flávio
Bolsonaro, derrotado nas urnas de um processo democrático mundialmente
reconhecido, viu sua segurança jurídica diminuir frente aos numerosos indícios
de crimes diversos em seu nome e, menos de 48 horas após consolidar-se o
resultado eleitoral, após uma última promessa de não fugiria, fugiu, indo aos
americanos oferecer uma perspectiva de acesso estratégico às riquezas minerais
brasileiras, além de propor um alinhamento pleno nas áreas comercial,
diplomática e de segurança, em troca da sua própria.
D. João
VI teve medo de Napoleão e da guilhotina itinerante que ele representava à
época para as monarquias europeias. Flávio Bolsonaro teve medo de Alexandre de
Moraes, Flávio Dino, Cristiano Zanin e de ir parar na Papuda, junto com Daniel
Vorcaro e outros tantos que ainda não adoeceram o suficiente para requerer
prisão domiciliar, como seu pai corajosamente pediu, mas esse é outro assunto…
Um
deixou como legado os tratados de 1810. O outro apresenta uma agenda de
parceria estratégica com Washington que envolve terras raras, minerais críticos
e segurança continental. Nesse sentido, é importante mencionar que no caso de
D. João, as partes honraram o acordo.
Já
Flávio Bolsonaro, por sua vez, simplesmente fugiu para o império da vez após
ser derrotado nas urnas, e estar sem condições de cumprir sua parte. Talvez por
isso sua recepção tenha sido tão reticente e precária. O próprio Marco Rubio
parece reticente ao se referir ao assunto. Como dizem na feira, “moço bonito
não paga, mas também não leva…”
A
história não se repete exatamente, como já advertia Karl Marx, mas às vezes
parece ter uma preferência bastante persistente por certos roteiros. E, no
Brasil, a proteção estrangeira costuma vir acompanhada de uma fatura. A questão
é descobrir quem paga a conta e quem fica com os benefícios. O entreguismo, ao
que parece, também sabe se adaptar às novas tecnologias. Em uma nota positiva,
para o momento, podemos afirmar que o povo brasileiro, dessa vez, tratou a
covardia como ela merece. Nós aqui, na história, estamos atualizando as
definições de covardia e entreguismo… a figura desengonçada e pachorrenta do
monarca fujão da casa de Bragança acaba de ir para o segundo lugar.
Fonte:
Por Luiz Eduardo Simões de Souza, em A Terra é Redonda

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