Quem
paga a conta do ajuste?
Mal
terminam as eleições e começa um ritual conhecido, e que se repete a cada vez
que um projeto mais focado em reduzir desequilíbrios sociais se sagra vencedor.
Economistas de mercado, analistas financeiros e representantes da Faria Lima
anunciam a urgência de um novo ajuste fiscal. Sem ele, alertam, a dívida
pública se tornará insustentável, a confiança dos investidores desaparecerá e o
crescimento econômico estará ameaçado.
Para
2027, o receituário inclui propostas de cortes de centenas de bilhões de reais,
frequentemente acompanhadas da desvinculação constitucional dos gastos com
saúde e educação, da revisão de aposentadorias, de ajustes drásticos nos
Benefícios de Prestação Continuada (BPC) e em outros programas sociais, e por
aí vai.
Há quem
relativize o problema, lembrando que Japão, Estados Unidos e Itália convivem
com relação dívida/PIB superior à brasileira. A comparação é pertinente, mas
insuficiente: o custo dos juros, os prazos, a moeda de emissão e as condições
de financiamento diferem significativamente entre esses países.
Existe
um caminho intermediário: reconhecer que a trajetória da dívida exige atenção,
sem aceitar que sua solução deva se concentrar na redução das despesas sociais.
Mas esse caminho precisa enfrentar uma questão raramente explicitada: quem tem
poder para determinar quais despesas serão cortadas e quais interesses serão
preservados?
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A dívida tem dois lados
A
dívida bruta brasileira alcançou R$ 11,1 trilhões em setembro de 2026,[i]
equivalentes a 82,9% do PIB. Desde o final de 2022, aumentou aproximadamente 11
pontos percentuais. São números preocupantes, mas sua interpretação exige
distinguir as diferentes causas do endividamento.
Nos
primeiros nove meses de 2026, segundo o Banco Central, os juros incorporados à
dívida contribuíram para elevar sua relação com o PIB em 7,2 pontos
percentuais, enquanto o crescimento nominal da economia atuou no sentido
contrário, reduzindo-a em 3,9 pontos.
Nos
doze meses encerrados em setembro, os juros nominais do setor público (pagos
aos detentores de títulos) alcançaram R$ 1,2 trilhão, equivalentes a 8,99% do
PIB. O déficit primário, que exclui os juros, correspondeu a apenas 0,52% do
PIB.
O
resultado primário é um indicador legítimo, internacionalmente utilizado para
avaliar as receitas e despesas não financeiras do governo. Mas não representa o
resultado completo das contas públicas. Sua centralidade no Brasil, consolidada
a partir dos acordos com o FMI no final dos anos 1990, acaba frequentemente
deslocando a discussão para aquilo que o Estado gasta antes de considerar o
custo de sua dívida.
A
distinção entre esses dois tipos de despesas de natureza distinta (gastos do
Estado e custo da dívida) é tecnicamente justificável, mas sua tradução
política não é neutra. Quando o debate sobre ajuste se concentra nas despesas
primárias, o que entra diretamente na mira são aposentadorias, benefícios
assistenciais e serviços públicos, enquanto os juros são frequentemente
tratados como uma consequência inevitável das condições econômicas.
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Juros elevados – causa ou consequência?
O
economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, recolocou
essa contradição no centro do debate. Em ensaio publicado em setembro em suas
redes sociais e republicado recentemente no site A Terra é Redonda,
argumentou que os juros excessivamente elevados constituem um dos principais
motores do crescimento da dívida brasileira. Questionou também um pressuposto
recorrente no discurso convencional: o de que reduzir a taxa básica de juros
provoca necessariamente aceleração da inflação, enquanto sua elevação contribui
sempre para a moderação dos preços.
A
interpretação convencional sustenta que juros mais altos desestimulam consumo e
investimento, reduzem as pressões de demanda e contribuem para moderar os
preços. A curva de Phillips, originalmente formulada como uma relação inversa
entre inflação e desemprego, integra essa tradição de análise macroeconômica.
Entretanto,
a estabilidade dessa relação tem sido amplamente questionada. A inflação também
depende de choques de oferta, preços internacionais, câmbio, estruturas de
mercado e expectativas. A pandemia tornou particularmente evidentes os limites
de explicações que atribuem a dinâmica dos preços quase exclusivamente ao
aquecimento da demanda.
André
Lara Resende vai além. Recorrendo à Teoria Fiscal do Nível de Preços (TFNP),
desenvolvida entre outros por John Cochrane, sustenta que juros nominais
persistentemente elevados podem contribuir para sustentar inflação mais alta no
longo prazo. Nessa interpretação, uma redução dos juros, acompanhada de
condições fiscais e institucionais adequadas, não precisaria provocar a
aceleração inflacionária prevista pelas análises convencionais.
O que
está por trás dessa concepção é que a inflação pode funcionar como mecanismo de
ajuste do valor real das obrigações nominais do Estado. Assim, o aumento da
taxa nominal não reduz necessariamente o nível corrente dos preços (que depende
de uma série de outras variáveis além da própria política monetária), mas pode
elevar o nível futuro e, portanto, a inflação esperada.
Quando
o Banco Central eleva os juros, o custo de carregamento da dívida pública
também aumenta, pois, à medida que vencem, os títulos têm de ser refinanciados
a taxas mais altas, elevação que ocorre instantaneamente quando os papéis são
pós-fixados. Mantida a trajetória da dívida, o Estado vai precisar de
superávits primários cada vez maiores para honrar suas obrigações. A depender
da reação da política fiscal em relação à elevação dos juros, e da confiança no
comportamento futuro da trajetória fiscal, a inflação pode subir para fazer o
ajuste.
Em
outras palavras, a visão convencional concebe a política fiscal como devendo
ser totalmente passiva em relação à política monetária, ajustando-se a seus
ditames (e aos interesses de quem detém a riqueza financeira). Um novo regime
monetário-fiscal, no qual as duas políticas andassem de modo coordenado, daria
papel ativo à política fiscal, permitindo combinar responsabilidade fiscal,
inflação sob controle e juros muito mais reduzidos do que os praticados
atualmente no país (os mais elevados do mundo, como se sabe).
A
controvérsia ganhou um capítulo especialmente relevante em novembro, quando o
próprio John Cochrane examinou a proposta de André Lara Resende baseada nos
princípios da TFNP. Reconheceu sua coerência teórica e a possibilidade de juros
menores aliviarem a dívida sem necessariamente elevar a inflação. Ressalvou,
contudo, que esse resultado depende da confiança na trajetória fiscal futura,
da evolução dos juros reais e das condições cambiais.
A
discussão, portanto, não autoriza substituir um dogma por outro. Juros menores
podem estimular a demanda e pressionar o câmbio no curto prazo, enquanto juros
elevados aumentam as despesas financeiras do Estado. A questão é compreender a
intensidade desses mecanismos, suas defasagens e as condições em que
prevalecem.
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Uma particularidade decisiva – a composição da dívida pública
Em
setembro de 2026, 51,6% da Dívida Pública Federal estava vinculada a taxas
flutuantes, principalmente à Selic. Isso significa que uma elevação da taxa
básica aumenta rapidamente a remuneração de parte expressiva dos títulos já
emitidos, ampliando os encargos financeiros do Tesouro. Nos títulos prefixados,
ao contrário, uma alta das taxas de mercado tende a reduzir o preço de
negociação dos papéis, sem alterar os pagamentos originalmente contratados.
Nesse caso, apenas no momento da rolagem da dívida é que tal elevação será
sentida.
A
elevada indexação da dívida brasileira à Selic torna seu custo especialmente
sensível à política monetária. Essa estrutura, que amplifica o impacto fiscal
das elevações de juros, também permite que reduções da taxa básica diminuam
rapidamente a remuneração dos títulos pós-fixados existentes. Trata-se de uma
característica singular do financiamento público brasileiro, que ajuda a
explicar por que o custo da dívida no Brasil reage tão intensamente às decisões
do Banco Central.
O
próprio André Lara Resende identifica nessa característica uma oportunidade de
transição a juros menores. Mas uma mudança duradoura exigiria enfrentar também
a estrutura de indexação da dívida. A desindexação gradual dos títulos públicos
em relação à Selic poderia integrar uma agenda mais ampla de reformas
monetárias e financeiras, reduzindo a transmissão automática das elevações da
taxa básica ao custo do endividamento e conferindo maior previsibilidade à
gestão da dívida pública.
Essa
transformação, porém, não seria instantânea nem isenta de custos. A
substituição de títulos pós-fixados por títulos prefixados ou de prazo mais
longo dependeria das condições de mercado, da confiança dos investidores e dos
prêmios de risco exigidos. Além disso, não eliminaria os efeitos da política
monetária sobre as novas emissões e o refinanciamento dos títulos vincendos.
Ainda assim, permanece uma questão fundamental: por que a arquitetura
financeira que amplifica os custos da política monetária recebe menos atenção
pública do que as propostas de contenção dos benefícios sociais?
A
relação dívida/PIB, afinal, possui dois lados. Seu numerador depende, entre
outros fatores, dos resultados fiscais e dos juros incorporados ao estoque da
dívida. Seu denominador depende do crescimento nominal da economia. Cortar
gastos pode melhorar as contas (e o numerador), mas também comprometer a
expansão do PIB (e o denominador), em especial quando afeta infraestrutura,
educação, saúde e investimentos produtivos.
Isso
não significa que qualquer despesa pública gere crescimento ou que a economia
possa prescindir de responsabilidade fiscal. Significa que o resultado de uma
política de ajuste deve ser avaliado não apenas pela economia orçamentária
imediata, mas também por seus efeitos macroeconômicos, os quais alteram o
denominador da relação dívida/PIB, e principalmente por seus deletérios efeitos
sociais.
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Quem paga a conta do ajuste?
O
debate exige memória histórica. O teto de gastos, aprovado no governo Temer,
entrou em vigor em 2017, com regras específicas para saúde e educação a partir
de 2018. Durante o governo Bolsonaro, sofreu sucessivas alterações e exceções.
Segundo
o ex-ministro Fernando Haddad, o governo Lula herdou, do governo anterior,
pressões fiscais próximas de R$ 270 bilhões, envolvendo despesas não
adequadamente previstas para benefícios sociais e previdenciários, precatórios
postergados e compensações aos estados pelas perdas decorrentes das mudanças no
ICMS, com repercussões também sobre os municípios. Em 2023, o teto foi
substituído pelo novo arcabouço fiscal, que estabeleceu outras regras e
responsabilidades para a gestão das contas públicas.
Reconhecer
esse legado não dispensa o governo atual de responder por suas próprias
decisões, mas impede que a trajetória da dívida seja atribuída exclusivamente
às despesas sociais recentes.
Há
ainda outro conjunto expressivo de escolhas fiscais pouco presente nas
propostas convencionais de ajuste. Para 2025, estimavam-se aproximadamente R$
544 bilhões em renúncias tributárias e R$ 134 bilhões em benefícios financeiros
e creditícios federais, totalizando cerca de R$ 678 bilhões em subsídios de
diferentes naturezas.
Vários
desses instrumentos possuem justificativas econômicas e sociais legítimas,
incluindo o apoio aos pequenos negócios, à agricultura familiar, à inovação e
ao desenvolvimento regional. Outros, todavia, podem preservar vantagens
setoriais sem contrapartidas proporcionais.
Mas
quem são seus beneficiários efetivos? Quais incentivos são indispensáveis,
quais deveriam ser reformulados e quais sobrevivem principalmente pela
capacidade de pressão de seus destinatários? Esse mapeamento merece uma
investigação própria. Por ora, basta perguntar por que o rigor exigido dos
beneficiários do Bolsa Família e do BPC não deveria alcançar também a avaliação
dos subsídios econômicos.
A
discussão remete à própria origem da Economia Política. Antes da consolidação
da expressão “economics” no final do século XIX, a produção, a
distribuição da riqueza e os conflitos entre classes e grupos sociais ocupavam
explicitamente o centro da discussão. A alteração drástica nos axiomas,
fundamentos, leis e variáveis da disciplina e a formalização dos modelos
econômicos não eliminou esses conflitos, tampouco tornou politicamente neutras
as decisões sobre juros, tributação e despesas públicas.
O
mercado financeiro, as associações empresariais e os setores econômicos
organizados dispõem de instrumentos de representação, acesso a informações e
capacidade de pressão distintos daqueles disponíveis aos aposentados de baixa
renda, trabalhadores informais e beneficiários de programas sociais. Essa
assimetria não determina automaticamente cada decisão, mas influencia quais
alternativas ganham visibilidade e legitimidade no debate público.
Responsabilidade
fiscal não pode significar apenas contenção das despesas primárias, assim como
responsabilidade monetária não pode dispensar a avaliação dos efeitos
econômicos e distributivos dos juros.
O
desafio não é escolher entre austeridade radical e complacência fiscal. É
construir uma política econômica que considere simultaneamente dívida, juros,
crescimento, arrecadação, subsídios e qualidade das despesas públicas.
O
caminho intermediário pode ser necessário. Mas, sem reconhecer a desigualdade
das forças que disputam o orçamento, corre-se o risco de chegar sempre ao mesmo
destino: a conta do ajuste apresentada pelo andar de cima e por seus
porta-vozes e paga, sobretudo, pelo andar de baixo.
Fonte:
Por André Kwak e Leda Paulani, em A Terra é Redonda

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