Juventude:
E se a Geração Z fosse comunista?
A
rebelião dos estudantes do ensino médio em curso fez florescer por toda parte,
nos cartazes e nas palavras de ordem, referências à revolução. Por toda parte,
os capitalistas querem disciplinar a juventude, submetê-la, confiná-la à
solidão, à brutalidade e à violência. E se a geração Z fosse aquela que se
permitisse a possibilidade da ruptura e de outro horizonte? E se o futuro
almejado pela Gen Z fosse, simplesmente, o comunismo? Este artigo surge de uma
reflexão alimentada pelos debates organizados nas aulas de greve da
Universidade de Mirail, ocupada desde o início dos bloqueios e das mobilizações
dos estudantes do ensino médio, e voltada para eles...
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O fim do fim da história
As
referências à revolução floresceram por toda parte nos cartazes e nas palavras
de ordem dos estudantes do ensino médio em rebelião. A Gen Z que se mobiliza
proclama isso com orgulho: “Já tivemos a revolução de 1789, nossos avós fizeram
o ‘68”, e agora a geração 6-7 se prepara “para nos tirar da época
contemporânea”. A fórmula parece absurda: "o que pode significar sair da
época em que nos encontramos, por definição?", perguntam os boomers,
perplexos. Mas é justamente aí que reside a importância desse paradoxo. Querer
“sair da época contemporânea” é apontar para a possibilidade de superar os
limites daquilo que está dado. É fazer irromper a possibilidade do futuro para
além do que existe, é sair de nós mesmos tal como fomos moldados, sair das
escolas-quartéis e dos papéis preestabelecidos. É tomar as ruas e semear ali a
possibilidade do que virá depois.
Marx
dizia que o comunismo transformaria o período capitalista na pré-história da
humanidade, uma maneira de dizer que a humanidade aprisionada nesta sociedade
burguesa pode mudar o curso da história. Por sua vez, Walter Benjamin, em suas
teses “Sobre o conceito de história”, propunha uma concepção da história que
aposta na possibilidade de uma interrupção, de uma ruptura radical: o
materialismo histórico “capta essa oportunidade e faz uma determinada época
saltar para fora do curso homogêneo da história; uma determinada vida, para
fora de uma época; e uma determinada obra, para fora de toda a atividade
laboral de uma vida”.
A
juventude lançou-se com confiança, coragem, humor e determinação a esse combate
por outra vida. Ancorou sua luta no legado revolucionário e insurrecional do
país. Toma-se a Bastilha, refaz-se o Maio de 68: as imagens da revolução
infiltram-se tanto nos jornais quanto nos feeds das redes sociais. As novas
inspirações e aspirações se entrelaçam, e esses olhares voltados para o passado
servem para questionar melhor o futuro. “Articular historicamente o passado não
significa conhecê-lo ‘tal como efetivamente foi’, mas apropriar-se de uma
lembrança tal como ela relampeja num instante de perigo”, adverte Benjamin. No
ringue da história, portanto, vários golpes. Primeiro soco: recusar-se a
esquecer as revoltas do passado. Segundo golpe: recusar-se a permitir que os
burgueses sejam os únicos a escrever a história. Com um único golpe, colocamos
Booba (“Os vencedores a escrevem, os vencidos contam a história”) e Sarkozy
contra as cordas. E, por fim, eles são nocauteados: o 17 de outubro lhes diz:
“Somos os filhos dos argelinos que não conseguiram afogar”.
A
memória e a história tornam-se armas para romper com a rotina do presente. Elas
colocam nosso futuro em risco e, por isso, com impaciência e atrevimento, a
juventude pergunta: o que nos reservam? Além de genocídios e crises climáticas
recorrentes, de processos de seleção e de miséria? Pois a grande recusa a uma
sociedade que oprime e reprime a juventude é também uma recusa à apatia. Se
esta geração, criada sob a ideia de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do
que o fim do capitalismo, sai para gritar nos bloqueios que está fazendo a
revolução, é porque algo está acontecendo. A rebelião dos estudantes do ensino
médio segue o caminho das revoltas internacionais que irrompem entre a
juventude, desde o “Blocchiamo tutto”, na Itália, até os levantes inéditos no
Marrocos, na Indonésia ou mesmo no Nepal. Se a Geração Z “falta à aula para nos
dar uma lição”, é para nos dizer que a história está longe de ter terminado,
que merece ser abalada, revolucionada, e que a luta de classes ainda não disse
sua última palavra.
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A possibilidade do coletivo
Ao ler
os cartazes e ouvir as palavras de ordem, percebe-se, sem dúvida, uma rejeição,
uma profunda rebelião. Mas, em um nível mais profundo, percebe-se a
solidariedade, a emergência de um corpo coletivo que se afirma contra o
conjunto das divisões socialmente produzidas. Como destaca Carlotta Benvegnu, a
composição social do movimento “encerra em si a estratificação subjetiva de uma
década de lutas, na qual sujeitos, à primeira vista muito diferentes entre si —
sindicalistas, Coletes Amarelos, jovens insurretos não brancos — travaram
batalhas separadamente, quase nunca juntos, quase nunca com as mesmas palavras
de ordem e as mesmas práticas”. Sandro Mezzadra dizia observar, ao descrever o
movimento “Blocchiamo Tutto”, iniciado pelos trabalhadores portuários de Gênova
em outubro passado, uma heterogeneidade que se transformou em poder. Na
rebelião dos estudantes do ensino médio, heterogeneidade é o que não falta!
Vimos jovens privilegiados solidarizarem-se com jovens de bairros populares,
denunciarem o racismo que estes sofrem por parte da instituição escolar, e não
apenas da polícia. Essa heterogeneidade transforma-se em poder quando todos e
todas se mobilizam juntos, não apenas para infernizar o Ministério da Educação,
mas, sobretudo, em nome de um futuro que valha a pena ser vivido.
Essa
vontade de estar juntos, de lutar juntos, aponta explicitamente para a
superação das segregações raciais, de gênero ou de classe. Em um vídeo, um
jovem explica: “pensamos em vocês, meninas, parece que não há absorventes
suficientes na escola, e o bloqueio também quer que vocês não precisem sair
correndo para procurar absorventes”. A vontade de lutar juntos rompe tabus tão
fortes quanto o da menstruação. Os jovens se sentem encorajados a falar sobre
isso. Chama a atenção o fato de que várias figuras de destaque da mobilização
sejam meninas jovens que não têm medo de levantar a voz e reivindicar seus
direitos. Elas denunciam o tratamento que sofrem, particularmente as jovens dos
bairros populares e de origem imigrante, somando-se, assim, às enormes ondas de
luta contra a violência patriarcal que abalam o planeta há quase dez anos.
A
“noite das barricadas”, neste 17 de outubro, ampliou essa solidariedade. A
juventude dos bairros populares, a das universidades, mas também os
trabalhadores e as trabalhadoras de todos os setores começaram a marchar
juntos. O governo e os porta-vozes do poder, embora um pouco desconcertados,
aproveitaram a ocasião para tentar dividir o movimento, isto é, essa forma de
contrapoder que se constituiu na ação. Os “vândalos”, os manifestantes, os
bons, os maus, os gentis, os perversos: durante todo o dia, os editorialistas
lamentaram os contêineres de lixo incendiados e as vitrines quebradas. Mas o
que os “saques motivados pelo custo de vida” de 17 de outubro colocaram em
evidência foi a necessidade de ajuda mútua, de recuperar aquilo que é nosso,
para as mães e as irmãs e, às vezes, até mesmo “quando passamos pela famosa
rede de perfumarias Sephora. A Sephora é uma rede multinacional francesa de
perfumarias e lojas de (…)], levamos algumas coisas para nossas namoradas”,
como se pode ler nas redes sociais.
Começa
a tomar forma uma nova subjetividade que aposta no coletivo. Um esboço que
poderia se tornar realidade social se a revolta atual se transformasse em uma
greve geral. O caminho para chegar até lá está repleto de obstáculos; a
rebelião precisa estruturar sua ira em assembleias gerais para enfrentar a
repressão e tecer laços com o movimento operário. Essa é a tarefa da
auto-organização, que precisa ser construída. É isso que o agrupamento “El Puño
en Alto” pretende fazer no movimento. Mas construir a greve geral para chegar
aonde?
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“A casa comum de todos os sonhos de justiça”
E se a
casa comum de todas essas aspirações da juventude fosse o comunismo? E se a
geração descrita como individualista e fechada em si mesma estivesse lutando
para afirmar que acredita na possibilidade de um mundo radicalmente novo?
Nesse
ponto, concordamos com a aposta feita por Joseph Andras em seu último livro, La
vie bonne. Notre socialisme, no qual defende a ideia de que é preciso
voltar a lutar com uma bússola: o socialismo, cuja evolução, contradições e
combates ele revisita. O socialismo é “a possibilidade de uma vida boa para o
maior número de pessoas”. Uma primeira definição audaciosa, que se opõe
frontalmente à caricatura que os manuais de história atualmente utilizados nas
salas de aula fazem dele. Durante uma mobilização, uma estudante do segundo ano
do ensino médio me perguntou: “Você acha que posso desenhar a foice e o martelo
no meu cartaz? Isso não está relacionado a Stalin? Foi o que nos disseram nas
aulas de história...”. Respondi: “Esse símbolo não tem nada a ver com a URSS,
que foi sua traição; você pode levantá-lo sem nenhuma vergonha”. “Que bom”, ela
me disse, “porque gosto do comunismo como símbolo, gosto dessa ideia de
igualdade”.
Que
belo tapa na cara! Todos os Trump e Milei do mundo podem tentar proibir a
palavra nas universidades ou criminalizá-la, mas a ideia continua viva. O
fantasma do comunismo assusta alguns, enquanto encanta outros. Uma estudante
mobilizada, durante uma oficina alternativa organizada na Universidade de
Mirail, em Toulouse, no contexto da greve, resumia essa ambivalência à sua
maneira: o termo “contém tudo o que há de melhor e de pior no mundo, é
extremamente ambíguo”.
Vamos
esclarecer essa ambiguidade. Para pensar o comunismo em seus melhores aspectos,
precisamos articular duas coisas. De um lado, aquilo que surge de comunista nas
palavras, nas palavras de ordem das mobilizações e nas práticas que se
expressam nos bloqueios. De outro, estão os objetivos, o projeto mais amplo
pelo qual se luta. De um lado, está o comunismo como “movimento real que abole
e supera o estado de coisas atual”, como diziam Marx e Engels em "A
ideologia alemã". De outro, está o horizonte de uma sociedade radicalmente
diferente. “Sair da época contemporânea” implica pensar tanto o movimento
quanto seu horizonte; ambos são mutuamente indispensáveis.
O
projeto do comunismo consiste, antes de tudo, na abolição da propriedade
privada dos meios de produção. Longe da caricatura de um comunismo que
obrigaria todos a compartilhar a escova de dentes ou os sapatos, trata-se de
acabar com a apropriação, por parte de uma minoria, dos meios de produção que
alimentam, vestem e abrigam a maioria. A abolição da propriedade privada
permitiria organizar democraticamente a sociedade. “De cada um segundo suas
capacidades, a cada um segundo suas necessidades”, dizia Marx. Cada indivíduo
poderia participar da organização da sociedade, sem a coerção patronal. Os bens
e serviços deixariam de ser distribuídos de acordo com o mérito, o esforço ou a
riqueza das pessoas e passariam a ser distribuídos conforme as necessidades de
todos. Não seriam mais necessárias as reduções permanentes do próprio consumo.
O comunismo se fundamenta em um princípio de igualdade entre todos e todas na
maneira de decidir como reorganizar a sociedade e o trabalho, com quais
objetivos e por quais meios.
Mas
esses novos modos de produção e essas novas formas de vida social não podem ser
inteiramente planejados aqui e agora, a partir dos nossos bloqueios nas
universidades e escolas. Só poderão ser definidos com maior precisão à medida
que avançar o processo que nos conduzirá até eles. O princípio da igualdade
fundamenta-se em um princípio de liberdade, no coração do “movimento real”: a
emancipação, a expansão da liberdade em toda a amplitude de suas
possibilidades, é, ao mesmo tempo, o fim e o meio do comunismo. “No lugar da
antiga sociedade burguesa, com suas classes e seus antagonismos de classe,
surge uma associação na qual o livre desenvolvimento de cada um é a condição
para o livre desenvolvimento de todos”, escreveram Marx e Engels no Manifesto
do Partido Comunista, em 1848. Como explicava o pensador marxista Harry
Braverman em sua obra "Trabalho e capital monopolista: A degradação do
trabalho no século XX", publicada originalmente em 1974: “O socialismo,
como modo de produção, não surge ‘automaticamente’, como aconteceu com o
capitalismo, em resposta às forças cegas e orgânicas do mercado: ele deve ser
trazido à existência, com base em uma tecnologia adequada, pela atividade
consciente e deliberada da coletividade humana”.
Se o
comunismo é a derrubada da sociedade tal como ela é, daquela que impõe a
jornada das 8h às 18h, os ritmos infernais de trabalho e os fins de mês que
nunca chegam, se é a expropriação dos meios de produção da burguesia e a
organização da sociedade de baixo para cima, é porque essa é a condição para
que surjam outros ritmos de vida e de trabalho, outra vida cotidiana, na qual a
preguiça, o tempo livre, a cultura e o debate deixem de ser apenas um direito e
se tornem uma realidade compartilhada.
Outro
cartaz constata ainda: “Tenho tantas aulas que já não tenho tempo para marcar
um encontro duplo". Vivemos em uma sociedade na qual já não há tempo para
o amor, para os encontros, nem possibilidade de transar e se divertir de
verdade. O comunismo, ao contrário, é a possibilidade de novas formas de
relacionamento, libertadas dos gêneros que classificam e aprisionam. E é
precisamente na luta que percebemos que essas relações podem se transformar,
quando levantamos juntos um contêiner de lixo para bloquear uma passagem ou
quando nos damos os braços para enfrentar a repressão. Simone Weil falava,
referindo-se às greves de 1936, de uma alegria pura, sem mistura. Dizia que “se
trata, depois de sempre ter cedido, de ter suportado tudo, de ter aguentado
tudo em silêncio durante meses e anos, de finalmente ousar ficar de pé”. Essa é
a alegria expressa pelo Homem-Aranha, pelo Batman, pelas batalhas de aura,
pelos patinetes elétricos, pelas humilhações impostas aos policiais
infiltrados... É a alegria de ser diferente, de ser diferente junto com os
outros.
Em
suma, um belo tapa na cara daqueles que dizem que as redes sociais teriam
simplesmente alienado os jovens. Aqui, essas plataformas digitais se voltam
contra o poder e permitem organizar a rebelião. Dessa vez, a escola deixa de
ser o lugar do tédio e se torna o lugar das possibilidades, a cristalização dos
problemas de uma sociedade e o símbolo da luta que permitirá resolvê-los. Os
jovens cheios de alegria escapam da deprê do pessimismo e de suas narrativas e
se lançam por qualquer brecha para nos dar uma lição de vida neste mundo que,
sinceramente, já não dá mais para aguentar.
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Não é sério ser comunista?
Começaremos
respondendo que talvez não se seja sério aos 17 anos, mas que, de qualquer
forma, aos 14 anos já se pode perder um olho por defender outro futuro. O que
realmente não é sério é defender um sistema tão podre quanto o capitalismo
contemporâneo. Quem pode defender seriamente um sistema em que nosso cotidiano
é marcado por ondas de calor, pela destruição da vida, pelo genocídio em Gaza e
pela marcha rumo à guerra? Um sistema em que se morre por causa da cor da pele,
como aconteceu em Trappes nesta sexta-feira, em um atentado racista? Quem pode
defender um sistema no qual um punhado de grandes grupos capitalistas decide o
que é produzido, como é produzido e com que finalidade? Mas não podemos
alimentar ilusões. Para instaurar outro modo de produção da riqueza, para
abolir a exploração e as fontes da opressão, teremos de ser mais fortes do que
aqueles que as defendem. À base de disparos de balas de borracha (LBD),
cassetetes, granadas de dispersão e gás lacrimogêneo, a polícia defende o
capital. Cantar “Abaixo o Estado policial!” é uma coisa. Cabe também a nós
levar isso a sério e colocar essa palavra de ordem em prática até as últimas
consequências.
George
Jackson, militante comunista negro, encarcerado pelo Estado racista
estadunidense e morto na prisão, escrevia de sua cela na Califórnia:
Se
fracassarmos, por covardia ou por falta de imaginação, os futuros escravos nos
amaldiçoarão, assim como às vezes amaldiçoamos aqueles de ontem. Não quero
morrer deixando para trás apenas algumas canções tristes e um pequeno monte de
terra. Quero deixar um mundo livre do lixo, da poluição, do racismo, do poder
fundado na miséria, do nacionalismo e das guerras que ele acarreta, dos
exércitos, da intolerância, das camarilhas, de cem falsidades diferentes e de
uma economia usurária e desregulamentada.
Palavras
que ecoam aquilo que a Gen Z reivindica hoje: é preciso sair da época
contemporânea, vingar os escravizados de ontem e proclamar nosso direito, sem
qualquer limite, à possibilidade de um futuro livre.
Fonte:
Por Alberta Nur, em Esquerda Diário

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