Hungria
abre os arquivos secretos da era comunista
Em 4 de
novembro de 1956, dezenas de milhares de soldados e tanques soviéticos
invadiram a Hungria, reprimindo brutalmente a insurreição anticomunista do
país. Seguiram-se décadas de ditadura, sustentadas pela brutal polícia secreta
húngara, encarregada de manter o sistema em funcionamento.
Nesta
quarta-feira, 4 de novembro, o país passa a fazer um acerto de contas com esse
capítulo sombrio de sua história.
O
governo do primeiro-ministro Péter Magyar determinou a divulgação integral dos
chamados "arquivos dos agentes" da polícia secreta do país, que
contêm os nomes de informantes da segurança do Estado húngaro. Alguns
colaboraram por vontade própria, enquanto outros repassaram informações sem ter
plena consciência disso.
Magyar
e seu partido, o Tisza, já haviam prometido tornar públicos os "arquivos
dos agentes" caso fossem eleitos. A divulgação é um acontecimento
histórico, pois ocorre após mais de três décadas de intenso debate sobre como
lidar com documentos tão sensíveis. A decisão também deve alimentar novas
discussões sobre culpa e responsabilidade durante a era comunista.
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Divulgação foi combatida por anos
Os
húngaros pedem há anos a divulgação dos arquivos. Após a queda do Muro de
Berlim, em 1989, e o fim do domínio soviético, ativistas de direitos civis e
pequenos partidos políticos húngaros defenderam que os documentos fossem
tornados públicos. As exigências por sua divulgação se repetiram ao longo das
décadas seguintes.
Ainda
assim, o primeiro-ministro pós-comunista da Hungria, Jozsef Antall, um
conservador, rejeitou a ideia, assim como o Fidesz, partido de Viktor Orbán,
que permaneceu longos anos no poder. Segundo a plataforma de notícias húngara
Telex, a legenda bloqueou tentativas de abrir os arquivos e votou mais de 30
vezes contra propostas desse tipo desde 2010.
Uma
divulgação parcial dos arquivos da segurança do Estado ocorreu nos anos 1990,
quando o parlamento húngaro aprovou, em 1994, a chamada "lei dos
agentes". A legislação determinava que integrantes do governo,
parlamentares e determinados servidores públicos passassem por verificações
para identificar se haviam trabalhado para os antigos serviços de segurança do
Estado.
Desde
1997, cidadãos húngaros podem consultar seus próprios arquivos e, em 2003, as
permissões foram ampliadas. No entanto, eles nunca puderam descobrir os nomes
dos informantes.
A
legislação relativa aos arquivos continha dispositivos sujeitos a ampla
interpretação, permitindo que órgãos governamentais, como o Ministério do
Interior, impedissem a transferência de documentos da polícia secreta para o
Arquivo Histórico da Segurança do Estado Húngaro (ABTL), caso considerassem que
isso poderia comprometer a segurança nacional.
Essa
divulgação seletiva não apenas impediu a sociedade húngara de conhecer a
verdade sobre seu serviço de segurança do Estado, como também tornou possível o
uso político dos arquivos em disputas de poder, por exemplo por meio do
vazamento de informações comprometedoras sobre políticos.
Um
desses casos envolveu o ex-primeiro-ministro húngaro Peter Medgyessy, exposto
em 2002 pelo jornal Magyar Nemzet, alinhado ao Fidesz, por ter atuado como
agente secreto durante a era comunista.
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Possíveis consequências políticas
O
governo de Magyar está pondo fim a essa situação. A partir desta quarta-feira
(04/11), bases de dados contendo todos os nomes dos informantes e informações
essenciais sobre eles passam a ficar disponíveis na internet.
Outras
bases de dados também serão divulgadas. Entre elas está uma das mais extensas
coleções de informações sobre pessoas recrutadas para trabalhar para a agência
de segurança do Estado da Hungria. As cláusulas de sigilo previstas na antiga
"lei dos agentes" também foram flexibilizadas, o que significa que um
volume significativamente maior de arquivos deverá ficar acessível no futuro.
A
divulgação iminente de dados sobre até 60 mil dos cerca de 150 mil informantes
da polícia secreta pode ter importantes consequências políticas. Ainda assim, o
diretor do ABTL, Bendeguz Gergo Cseh, alertou recentemente que "não se
pode acreditar em tudo o que os órgãos de segurança do Estado e seus arquivos
afirmam". Segundo ele, muitos documentos eram incompletos e pouco
confiáveis, e diversos arquivos foram destruídos.
Outros
também demonstram ceticismo em relação à divulgação. O historiador Janos M.
Rainer, especialista na ditadura húngara, declarou que a publicação teria feito
mais sentido logo após a queda do regime. Divulgar os arquivos depois de tantos
anos seria mais um gesto simbólico, argumentou.
Para o
historiador Krisztian Ungvary, que pesquisou extensivamente os arquivos da
segurança do Estado, a publicação tem um peso maior. Ela permitirá que
historiadores realizem novas pesquisas e que a sociedade participe de debates
renovados, disse Ungvary à DW. Na sua avaliação, a Hungria se beneficiará dessa
reflexão, pois "as mentiras coletivas inevitavelmente levam a uma relação
conturbada com a política, e o preço que pagamos por isso foram 16 anos de
governo do Fidesz".
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Acerto de contas político
Para
Magyar, tornar essas informações públicas tem grande importância. A ideia de
enfrentar o passado, especialmente os anos do regime de Orbán, é um de seus
temas favoritos.
Quando
o parlamento húngaro alterou a lei referente aos arquivos, em meados de
setembro, Magyar escreveu no Facebook que "após um atraso de 36 anos, o
Parlamento húngaro decidiu hoje, por iniciativa do Tisza, tornar públicos os
'arquivos dos agentes'. O Fidesz não apoiou a proposta. Pergunto-me por
quê.".
A
observação fazia alusão ao fato de que muitas figuras proeminentes do Fidesz e
do círculo mais próximo de Orban foram integrantes do Partido Comunista húngaro
ou da polícia secreta.
O nome
mais conhecido deste último grupo provavelmente é Jozsef Horvath,
ex-funcionário em tempo integral do departamento da segurança do Estado húngaro
responsável por reprimir a oposição interna.
Sob o
governo Orbán, Horvath trabalhou como agente de inteligência e assessor de
segurança. Em 2024, tornou-se diretor de pesquisas do Escritório para a
Proteção da Soberania, órgão criado pelo então primeiro-ministro. A agência
ficou conhecida por expor supostos inimigos do regime de Orbán,
classificando-os como "agentes estrangeiros".
Fonte:
DW Brasil

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