Professor
de Cambridge defende ajuste fiscal 'suave'
Não há
"atalhos" para equilibrar as contas públicas e cortar os juros no Brasil, defende o
economista Tiago Cavalcanti, brasileiro professor titular da Universidade de
Cambridge, no Reino Unido.
Na sua
visão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisa anunciar
rapidamente medidas críveis para um ajuste fiscal gradual ao longo dos próximos
anos.
A
primeira delas seria anunciar sua nova equipe econômica, com nomes
comprometidos com o equilíbrio das contas públicas, e garantir apoio político
ao grupo.
"Você
pode fazer o compromisso de longo prazo. Então, não precisa cortar [de uma
vez], vamos suavizar isso ao longo dos anos", propõe, em entrevista à BBC
News Brasil.
Para
Cavalcanti, o controle dos gastos não é incompatível com a promessa de Lula de
não cortar programas sociais. Por outro lado, ele considera que é necessário
mudar a regra que garante reajuste de salário mínimo acima da inflação sempre
que há crescimento da economia — algo que Lula prometeu manter.
Na sua
visão, enquanto as contas públicas não estiverem equilibradas, o governo
deveria garantir apenas a reposição da inflação. O reajuste do salário mínimo
tem impacto importante nas despesas porque é o piso para as aposentadorias e
pensões do INSS e de benefícios como o BPC — essas despesas representam mais de
40% dos gastos primários da União.
"Eu
acho que recuperar o poder de compra [reajustando o salário mínimo pela
inflação] é possível. Agora, quando você promete, além de recuperar o poder de
compra, dar aumentos acima da inflação, e isso vai ter repercussões em todos os
salários, aposentadorias, etc, já acho que começa a não ser mais compatível
[com o ajuste fiscal]", disse.
Com
sólida formação acadêmica, Cavalcanti tem doutorado e mestrado em Economia pela
University of Illinois, nos Estados Unidos. Além de atuar em Cambridge, é
professor da Fundação Getúlio Vargas. No início do ano, foi cotado para assumir
uma das duas diretorias que estão vagas no Banco Central desde janeiro. Passada
a eleição, há expectativa de que Lula anuncie seus indicados.
À BBC
News Brasil, Cavalcanti critica a proposta de rápida redução da taxa básica de
juros (Selic) apresentada por André Lara Resende, economista
conhecido como um dos pais do Plano Real, que acabou com a hiperinflação nos
anos 90.
Resende
diz que os juros altos são o principal problema da economia brasileira, já que
boa parte da dívida pública brasileira é atrelada à Selic e, por isso, sobe
aceleradamente quando o Banco Central eleva a taxa. Ele propõe um novo Conselho
Fiscal e Monetário Nacional que definiria metas fiscais e monetárias para um
período de quatro a cinco anos à frente. O objetivo seria levar à Selic para
7,5% ao ano em 12 meses.
A
proposta tem dividido economistas no país, entre críticas e apoios. O ministro
da Fazenda, Dario Durigan, porém, descartou a proposta e negou que Lula fosse
receber Lara Resende para uma reunião.
"Houve
países que experimentaram isso, por exemplo a Turquia, onde teve muita pressão
do [presidente] Erdogan, a taxa de juros caiu bastante em um período bem curto
e o país foi para um nível de hiperinflação em pouquíssimo tempo", afirma
Cavalcanti.
"É
difícil você pensar em evidência empírica [que sustente essa proposta]",
reforçou.
Em entrevista à BBC News Brasil,
Resende rebateu as críticas.
"É
um voluntarismo político absurdo [comparar] um ditador que impôs a queda dos
juros como se ele tivesse alguma coisa [semelhante] ao que eu estou propondo
intelectualmente para que seja debatido e analisado", disse, sobre a
comparação com o que fez Erdogan.
Confira
abaixo trechos da entrevista:
·
Lula se reuniu nesta quinta-feira com economistas
alinhados ao PT e há a expectativa de futuras conversas com economistas de
outras vertentes. Como vê essa movimentação?
Tiago
Cavalcanti - Do
ponto de vista político, eu acho que faz sentido. Houve todo um apoio [durante
as eleições] dessas pessoas que já estão historicamente perto de Lula. Não vejo
como um problema fundamental ainda. Outra questão é sobre o que vai ser feito.
·
O governo precisa agir mais rápido? Seria necessária
alguma resposta ao desafio fiscal?
Tiago
Cavalcanti –
Sim. Meu medo é o seguinte: em economia, expectativas são essenciais para
várias coisas. Algumas coisas parecem distantes, que não nos afetam, mas elas
afetam diretamente.
Uma
delas é o câmbio. O câmbio afeta diretamente a inflação e tudo o que
desencadeia sobre os custos, principalmente no curto prazo. Então ancorar as
expectativas é bem importante.
Tivemos
uma experiência lá em 2003, quando as expectativas foram ancoradas bem antes de
o próprio governo começar, quando Lula assumiu compromissos antes de ser
eleito. Ele se comprometeu com várias metas macroeconômicas do ponto de vista
fiscal, monetário, de cumprimento de contratos, que foram importantes pra
ancorar as expectativas e dúvidas que existiam sobre o presidente.
Meu
medo é que, se essas coisas [expectativas sobre a economia] desancorarem tão
fortemente, o governo acabará adotando uma estratégia não de longo prazo. Ele
tentará achar alguns atalhos para brigar contra essas expectativas ou contra o
mercado. Então, para isso, é fundamental tentar ancorar essas expectativas o
mais rápido possível.
Isso
vai evitar que os investidores comecem a apostar contra o país, tirando o
dinheiro do Brasil e depreciando o câmbio, com efeitos na inflação e nos juros
de longo prazo, o que afeta investimentos.
·
E que tipo de sinais seriam necessários? Eu imagino que
não bastaria um discurso. Precisaria haver medidas e sinalizações convincentes.
Tiago
Cavalcanti –
É preciso haver coisas práticas agora, não tem como fugir. Uma estratégia é
você primeiro anunciar o Ministério da Fazenda, juntamente com economistas que
vão fazer parte desse ministério. Eu não sei exatamente quem poderia ser, se o
[governador do Piauí] Rafael Fonteles, que estão falando, ou o
[vice-presidente] Geraldo Alckmin, ou um economista. Seria importante escutar o
mercado, mas sem ser refém dele.
O
presidente tem vários nomes e está tentando conversar com outras pessoas, com o
mercado, para montar uma equipe que as pessoas acreditem que poderá dar a
solidez macroeconômica que o Brasil precisa para fazer política social. É
preciso tentar anunciar algo o mais rápido possível, inclusive com diretores do
Banco Central, que está com duas diretorias vagas.
E o
segundo momento é fazer escolhas mais de política. E aí eu acho que existem
dois cenários. Um seria fazer um ajuste fiscal imediato com metas ambiciosas,
mas isso seria muito custoso. A outra forma, que eu acho é a melhor, é uma
coisa mais suave, de longo prazo, mas com metas críveis, que trouxesse a dívida
pública do Brasil para uma trajetória sustentável.
·
O governo argumenta que há muitos indicadores positivos
na economia. Essa queda tão forte do mercado após a eleição se justifica?
Tiago
Cavalcanti – Talvez
na cabeça do presidente e dos economistas mais próximos, eles pensem assim:
"poxa, o mercado disse que a gente iria ter uma crise e a gente teve
quatro anos de crescimento bem razoável, de 3%, inflação nunca ficou muito
acima [da meta], o desemprego bateu recorde de baixa. A gente teve vários
sinais de que foi bem melhor do que o mercado dizia. Então, por que a gente vai
escutar dessa vez, né?".
Mas eu
acho que [a reação do mercado] é justificada pelo fato de que a inflação está
acima da meta, a inadimplência está elevada, existe uma questão sobre a
recuperação judicial [de empresas] em todo o país e a taxa de juros está muito
elevada no Brasil.
Essa
taxa de juros é impossível. Com essa taxa de juros de 13,75% e taxa de juros
real de 9% mais ou menos, é muito difícil ter investimento na economia, em que
você possa ter um retorno sem risco de curto prazo.
E você
tem a questão do endividamento das famílias, das empresas, porque isso também
vai afetar os juros na ponta, que é uma outra questão no Brasil. Os juros
bancários são elevadíssimos.
E outra
questão é a dívida. Você fica numa dívida com uma trajetória totalmente
insustentável quando tem uma taxa de juros real de 9%. A economia teria que
crescer duas ou três vezes mais do que ela está crescendo agora para a dívida
pública parar de crescer em relação à renda.
É
preciso a gente abaixar essa taxa de juros de forma sustentada para a economia
crescer e levar a dívida para uma trajetória sustentável. Isso é fundamental.
·
O ajuste fiscal é compatível com as promessas de campanha
do Lula ou um ajuste implicaria em algum estelionato eleitoral?
Tiago
Cavalcanti – Eu
não olhei os números com muito cuidado, então, qualquer afirmação que eu faça
agora vai ser meio imprecisa. Mas, o que o Brasil gasta em proporção ao PIB,
considerando todos os gastos, é muito mais do que vários países. Não gastamos
muito mais em relação à educação e à saúde, mas gastamos em outras coisas. Eu
acredito que dá para cortar em subsídios tributários e ajustar os loopholes
[brechas] no Imposto de Renda.
Em
todas essas questões, eu acho que é possível fazer ajustes, e talvez minimizar
os cortes nos gastos com o social, com a educação, com a saúde que é o
compromisso do governo.
Mas uma
questão que precisa ser pensada é a regra do salário mínimo no Brasil.
·
Lula prometeu manter o reajuste do salário mínimo acima
da inflação durante a campanha. Isso é compatível com o ajuste fiscal?
Tiago
Cavalcanti –
Eu acho que recuperar o poder de compra [reajustando pela inflação] é possível.
Agora, quando você promete, além de recuperar o poder de compra, que vai dar
aumentos acima da inflação, eu já acho que começa a não ser mais compatível.
Isso
poderia ser repensado: "A gente precisa fazer algum sacrifício. Vamos
tirar dos mais pobres? Não, mas vamos ao menos manter um aumento que dê a
inflação e mantenha o poder de compra". Isso é totalmente compatível com a
filosofia do governo.
Mas
você dar aumentos além da inflação eu acho que deveria ser em situações em que
o governo pudesse fazer isso. E o governo vem aumentando o salário mínimo acima
da inflação nos últimos anos.
·
Após a reeleição de Dilma Rousseff em 2014, havia um
cenário de desequilíbrio fiscal que foi seguido de forte crise econômica. O
cenário atual lembra 2014, ou é diferente?
Tiago
Cavalcanti –
Eu quero acreditar que lembre mais 2003 [quando Lula assumiu a Presidência pela
primeira vez]. Você pode fazer o compromisso de longo prazo. Então, não precisa
cortar [de uma vez]. Vamos suavizar isso ao longo dos anos. Por exemplo, no
caso do salário mínimo, vamos primeiro recuperar o poder de compra [reajustando
apenas pela inflação]. Daqui a pouco, se a gente tiver um superávit maior, faz
um ajuste acima da inflação.
É assim
que se faz, por exemplo, no Reino Unido. Anualmente, faz um orçamento. Você não
tem uma regra de indexação dessa forma, uma regra dura. Tem uma regra em que
você olha a situação econômica do país, vê onde vai cortar e qual vai ser o
orçamento do próximo ano dentro das possibilidades.
O que
eu até acho engraçado no Brasil é que tem toda essa briga de heterodoxos e
ortodoxos, dos desenvolvimentistas com os neoclássicos liberais. Eu acho que
políticas sociais são fundamentais para uma sociedade muito desigual como a do
Brasil. Mas, quando você vai conversar em economia, aqui [no Reino Unido]
existe muito mais homogeneidade de quais são os passos que devem ser seguidos
do que no Brasil, onde há quase duas visões completamente dicotômicas.
Aqui, a
gente ensina a economia de uma forma em que os preços são endógenos, respondem
a mecanismos de demanda e oferta. As taxas de juros vão responder a mecanismos
de expectativas de retorno e risco, às demandas e ofertas por títulos, etc., em
um mundo globalizado, em que o capital pode sair de um lado para o outro.
Essa
briga no Brasil acho que atrapalha um pouquinho.
Houve
países que experimentaram isso, por exemplo a Turquia. Teve muita pressão do
[presidente] Erdogan, a taxa de juros caiu bastante em um período bem curto, e
o país foi para um nível de hiperinflação em pouquíssimo tempo.
Não
estou dizendo que isso vai acontecer no Brasil, porque acho que o Banco Central
tem mecanismos muito mais sólidos de proteção do que na Turquia, mas são
experiências que a gente pode trazer para o Brasil.
A gente
teve o exemplo aqui da Liz Truss, que ficou pouquíssimo tempo como primeira
ministra do Reino Unido. Ela anunciou um pacote em que você tinha a dívida
pública crescente, déficit crescente, e ela anunciou cortes nos impostos, com a
perspectiva de que a economia iria crescer e isso ia aumentar a arrecadação,
conseguindo gerar receita para pagar as dívidas no futuro.
Houve
uma reação negativa muito forte do mercado. Ela tentou voltar atrás, mas já era
tarde demais e teve que renunciar.
·
Quando você falou sobre a taxa de juros de 7% estava se
referindo a proposta do André Lara Resende para redução da Selic?
Tiago
Cavalcanti –
Sim. É difícil você pensar em evidência empírica [que sustente essa proposta].
Vamos dizer que existe um modelo econômico em que a taxa de juros, quando cai,
possa diminuir a inflação por um fator de prêmio de risco, porque a dívida fica
menos pressionada. Vamos olhar a evidência empírica.
Me
mostre evidências empíricas em que isso realmente aconteceu, de forma sólida,
com economistas que publicam nos periódicos que têm pareceres anônimos, que
acreditam que a metodologia é válida e os dados são válidos.
Existem
experiências bem sucedidas nesses casos? É difícil para mim pegar algum exemplo
de que isso tenha acontecido de forma sólida.
Fonte:
BBC News Brasil

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