quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Trump prepara terreno para não reconhecer vitória de Lula

A revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, não é um episódio isolado nem uma simples retaliação diplomática. É mais um movimento do governo Donald Trump para ampliar a tensão com o Brasil, desgastar Lula e preparar o ambiente político para uma possível contestação do resultado das eleições brasileiras.

A justificativa oficial dos Estados Unidos é a de “reciprocidade”. O governo estadunidense afirma que reagiu à demora do Brasil em aprovar o nome do novo embaixador norte-americano em Brasília e à decisão brasileira de negar vistos a dois funcionários do Departamento de Estado dos EUA. É uma desculpa tão esfarrapada quanto aquela usada para justificar o tarifaço contra o Brasil.

Não havia desequilíbrio comercial que sustentasse tecnicamente as tarifas impostas por Trump. A motivação sempre foi política: pressionar o governo Lula, punir autoridades e favorecer o bolsonarismo. Agora, a mesma estratégia reaparece no terreno diplomático.

O governo brasileiro respondeu com uma nota contundente. Lembrou que não existe prazo determinado para a concessão de agrément a um embaixador e afirmou que os dois funcionários norte-americanos pretendiam vir ao Brasil para questionar o sistema eleitoral.

A conclusão do comunicado do governo Lula foi direta:

“Fica óbvio o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente.”

O Itamaraty apenas colocou no papel aquilo que a sucessão de acontecimentos já demonstra.

“A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo”.

<><> Uma crise construída deliberadamente

Desde o ano passado, o governo Trump vem transformando instrumentos econômicos e diplomáticos em armas contra o Brasil.

Vieram o tarifaço, as restrições de vistos, as sanções a autoridades brasileiras e a pressão sobre o Judiciário. Em diversas ocasiões, o próprio governo norte-americano relacionou as punições à situação política e judicial de Jair Bolsonaro.

Não se tratava de corrigir relações comerciais, defender princípios jurídicos ou proteger interesses diplomáticos legítimos. Tratava-se de prejudicar o Brasil para enfraquecer Lula e beneficiar os Bolsonaro.

Eduardo Bolsonaro assumiu papel central nessa ofensiva. Instalado nos Estados Unidos, passou a fazer lobby por sanções contra autoridades e instituições brasileiras, trabalhando para que uma potência estrangeira impusesse prejuízos ao seu próprio país em benefício de sua família.

A tentativa de enviar dois funcionários do Departamento de Estado ao Brasil também integra essa estratégia. Segundo autoridades brasileiras, eles pretendiam questionar a integridade das eleições. Os EUA alegaram que seria uma missão rotineira, destinada a discutir democracia, liberdade de expressão e integridade eleitoral.

Mas o governo Trump não desembarcaria no Brasil como observador neutro. Já havia adotado sanções para defender Bolsonaro, recebido Eduardo Bolsonaro em articulações contra o país e demonstrado alinhamento explícito com a candidatura de Flávio.

Ao negar os vistos, o Brasil impediu que representantes do governo norte-americano reproduzissem, com selo diplomático, a encenação realizada por Jair Bolsonaro em 2022, quando convocou embaixadores para atacar as urnas eletrônicas. Agora, Trump utiliza essa negativa para ampliar a crise.

O método é simples: cria-se uma situação inaceitável para o Brasil. Quando o governo brasileiro reage, a reação passa a ser apresentada como prova de hostilidade.

<><> Flávio prepara a narrativa da fraude

Dentro do Brasil, Flávio Bolsonaro cumpre sua parte. O candidato do PL repetiu seu pai e reuniu diplomatas estrangeiros, colocando em dúvida a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro. Para sustentar sua narrativa, usou uma investigação, justamente dos EUA, sobre urnas e empresas ligadas ao processo eleitoral da Venezuela. O caso não tinha relação com as urnas utilizadas no Brasil. Mesmo assim, Flávio misturou Venezuela, Smartmatic, inteligência norte-americana e eleições brasileiras para produzir uma associação falsa. Não foi confusão. Foi estratégia.

O objetivo não é convencer especialistas, mas criar vídeos, manchetes e declarações que possam circular no exterior e servir de argumento depois da votação.

A narrativa já está montada.

Se Flávio vencer, as urnas serão confiáveis. Se Lula vencer, o sistema será atacado, o TSE será acusado de parcialidade e o governo brasileiro será apresentado como hostil aos Estados Unidos por ter barrado funcionários do Departamento de Estado e demorado a aceitar o embaixador indicado por Trump. A crise diplomática fabricada agora poderá ser usada mais adiante como justificativa para questionar ou não reconhecer o resultado.

Trump já fez isso nos Estados Unidos. Em 2020, ele não inventou a narrativa de fraude depois da derrota para Joe Biden. Passou meses preparando seus apoiadores para rejeitar qualquer resultado que não fosse sua vitória. Quando perdeu, a mentira já estava pronta. É o mesmo terreno que está sendo preparado no Brasil.

<><> Sem Centrão, sobra a chapa PL-TSE-CIA

Enquanto Trump organiza a frente externa, Flávio enfrenta um problema doméstico: seu isolamento partidário.

Sem conseguir construir uma aliança nacional consistente com os partidos do Centrão, o senador teve de se contentar com uma coligação alternativa: PL-TSE-CIA.

O PL fornece a legenda. O TSE, sob a presidência de Kassio Nunes Marques e a vice-presidência de André Mendonça, vem emitindo sinais preocupantes. E o governo norte-americano, com seus serviços diplomáticos e de inteligência, acompanha e interfere cada vez mais abertamente no processo político brasileiro.

Nunes Marques e Mendonça foram indicados ao Supremo por Jair Bolsonaro. Durante o atual processo eleitoral, ambos já tomaram diversas decisões favoráveis a Flávio e desfavoráveis a Lula.

Nunes Marques, por exemplo, suspendeu a divulgação de uma pesquisa da AtlasIntel que mostrava queda de Flávio Bolsonaro. Antes da decisão, alterou uma regra interna do tribunal que permitiu à presidência da Corte assumir diretamente casos daquela natureza. Como se não bastasse, o ministro ainda atendeu a pedido de Flávio e censurou o governo Lula, vetando “destaque à atuação pessoal” do presidente nas peças institucionais.

Já André Mendonça determinou a remoção nas redes de uma imagem que associava Flávio ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e ao PCC, mandou o governo Lula abrir gastos com publicidade desde o início do mandato, entre inúmeras outras decisões do tipo. Isso tudo antes mesmo do início oficial das campanhas eleitorais.

Quanto à CIA, seria ingênuo imaginar que sua atuação se limita a agentes secretos escondidos em porões. A inteligência norte-americana opera também por meio da coleta de informações, de articulações institucionais e do suporte à estratégia externa dos Estados Unidos — e o conjunto de fatos já expostos indica que acompanha de perto e atua, por diferentes vias, na ofensiva de Washington sobre o processo eleitoral brasileiro.

<><> A justificativa para o dia seguinte

Todos esses movimentos apontam na mesma direção. Trump desgasta Lula, pune o Brasil, protege o bolsonarismo, cria crises diplomáticas e alimenta dúvidas sobre o sistema eleitoral. Flávio espalha a narrativa de fraude entre diplomatas estrangeiros. Eduardo Bolsonaro articula sanções em Washington. E o TSE emite decisões que favorecem o candidato do PL.

Caso Lula vença, Trump poderá alegar que o governo brasileiro era hostil aos Estados Unidos, recusou seus representantes, impediu a entrada de funcionários norte-americanos e conduziu uma eleição sem garantias suficientes.

A história será falsa, mas os argumentos já estarão organizados. A revogação do visto da embaixadora brasileira serve exatamente para isso: aumentar a tensão, criar mais um precedente e fortalecer a narrativa de que a relação entre os dois governos se tornou incompatível.

A nota do governo Lula acertou ao identificar o objetivo eleitoral da medida. Trump não está apenas tentando eleger Flávio Bolsonaro. Está preparando o terreno para contestar uma vitória de Lula.

•        Brasil decide por reciprocidade após EUA revogarem visto de embaixadora

Os Estados Unidos revogaram o visto de entrada da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti na tarde de terça-feira (4). A medida não torna ilegal a permanência da diplomata no território americano, e ela pode seguir exercendo suas funções em Washington. O problema prático surge se ela deixar o país: sem visto válido, não poderá retornar.

O governo Lula decidiu que a ação não ficará sem resposta formal. Uma reunião foi agendada para esta quarta-feira (5) para definir a forma exata da reciprocidade brasileira. As opções em discussão incluem uma medida equivalente na esfera de vistos ou outra ação de gravidade diplomática comparável. A situação tem uma complicação adicional: o Brasil está sem embaixador dos EUA em seu território. A representação estadunidense em Brasília é exercida por uma encarregada de negócios interina, cargo de status inferior ao de embaixadora, o que limita as possibilidades de espelhamento direto da medida.

<><> As justificativas e acusações de interferência

O Departamento de Estado dos EUA apresentou como justificativa para a revogação a demora do Brasil em conceder o agrément, o aval diplomático formal, para que Daniel Perez assuma a embaixada americana em Brasília. Auxiliares de Trump chegaram a vincular explicitamente a situação: o visto de Viotti só seria restabelecido caso o governo Lula aprovasse a nomeação de Perez.

O Palácio do Planalto rejeitou essa versão em termos inequívocos. Em nota divulgada na noite de terça-feira (4) pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, o governo brasileiro classificou as duas justificativas apresentadas pelos EUA como “falsas” e afirmou que a medida integra uma “escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo”. O comunicado foi além: acusou Washington de tentar interferir diretamente no processo político nacional e na eleição presidencial brasileira, e reiterou que o pedido de agrément para Perez segue em análise, conforme previsto pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, que não estabelece prazo para a concessão do aval.

<><> Contexto da tensão diplomática

A revogação do visto de Viotti não surgiu do nada. O próprio governo brasileiro tratou de enquadrá-la como o mais recente capítulo de uma sequência de atritos. Cerca de dez dias antes da medida americana, o Itamaraty havia negado vistos a dois funcionários do governo dos EUA que planejavam vir ao Brasil com o objetivo declarado de questionar a integridade do sistema eleitoral brasileiro. O governo Lula classificou a tentativa como “inaceitável interferência no processo político nacional”.

“A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo. Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente.”

Há ainda a questão do protocolo quebrado na própria nomeação de Daniel Perez. Segundo o governo brasileiro, a administração Trump anunciou publicamente o nome do candidato a embaixador antes de apresentar o pedido formal de agrément ao governo brasileiro, invertendo a praxe diplomática consagrada pelo artigo 4 da Convenção de Viena, que prevê consulta prévia e sigilo até a concessão da anuência. Além disso, seguem em vigor sanções individuais impostas pelos EUA contra autoridades brasileiras, incluindo ministros do Supremo Tribunal Federal e integrantes do primeiro escalão do Executivo, com base no que o governo Lula chama de “alegação infundada de perseguição política ao ex-presidente Bolsonaro”. O presidente Lula havia solicitado pessoalmente a Trump, em visita a Washington em maio, o levantamento dessas sanções, sem resultado.

<><> Próximos passos e implicações

A reunião marcada para esta quarta-feira (5) definirá a forma concreta da resposta brasileira. O governo avalia tanto uma medida espelhada na esfera de vistos quanto outra ação de peso diplomático equivalente. A ausência de um embaixador estadunidense em Brasília complica o espelhamento direto, mas não elimina as opções disponíveis ao Itamaraty.

Para além da mecânica diplomática, fontes do governo brasileiro avaliam que a revogação do visto carrega um “tom eleitoral” deliberado, com a administração Trump buscando pressionar o cenário político interno às vésperas da eleição presidencial brasileira. Essa leitura explica a disposição do governo Lula de não deixar a situação sem resposta: ceder, na avaliação interna, equivaleria a aceitar uma chantagem e sinalizar vulnerabilidade diante de pressões externas sobre o processo eleitoral. A embaixadora Viotti, por ora, permanece em Washington e segue em funções.

 

Fonte: Fórum

 

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