Memristores:
os chips que imitam o cérebro
Em
1971, o engenheiro eletricista filipino Leon Chua previu a existência de um
componente eletrônico passivo, capaz de “lembrar” quanta corrente havia passado
por ele mesmo após ser desligado. Ele o chamou de memristor, contração de
memory resistor. Passaram 37 anos até que a Hewlett-Packard (HP) construísse o
primeiro protótipo concreto, em 2008. Hoje, pesquisadores no Brasil transformam
essa ideia em algo ainda mais ambicioso: chips que, além de processar
informação, também “aprendem”, imitando mecanismos de memória do cérebro humano
em silício e em óxidos metálicos.
A
chamada computação neuromórfica é promissora. Enquanto o cérebro humano consome
cerca de 20 watts (W) – algo parecido com uma lâmpada comum – processando
informações com eficiência que nenhum supercomputador atual replica,
inteligências artificiais de última geração demandam energia equivalente a de
cidades inteiras e ocupam galpões com servidores refrigerados. Uma das
principais diferenças é de arquitetura: enquanto computadores convencionais
separam processamento de armazenamento, o cérebro faz as duas coisas no mesmo
lugar, no nível das sinapses, onde os neurônios se conectam.
Os
memristores prometem superar esse gargalo. “A vantagem genérica de dispositivos
com memória é a capacidade de fazer operações lógicas e armazenar os resultados
no mesmo espaço”, explica o físico cubano Victor Lopez-Richard, do Departamento
de Física da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). “Isso reduz a
necessidade de interconectores, diminui o tamanho do dispositivo e,
consequentemente, o consumo de energia.”
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Imitando neurônios
A cada
disparo de um neurônio, a conexão com o neurônio seguinte pode se fortalecer ou
enfraquecer – fenômeno conhecido como plasticidade sináptica. Em um dos tipos
mais estudados desse processo, conexões entre neurônios que disparam
repetidamente em sequência tendem a se fortalecer, contribuindo para a formação
de determinadas memórias e para o aprendizado. Os memristores replicam esse
comportamento ao alterar sua resistência elétrica em resposta aos pulsos
recebidos.
Para
explicar esse funcionamento, o físico Marcio Peron Franco de Godoy, também da
UFSCar, recorre ao cotidiano: “Quando fecho uma porta, dali a segundos posso
esquecer se a tranquei ou não. Mas eu não esqueço o nome da minha mãe. Isso é
uma memória de longa duração – algo que pode ser emulado com dispositivos
memristores.”
A
analogia com a biologia, porém, tem limites que Lopez-Richard faz questão de
demarcar. “Nossos dispositivos não reproduzem sinapses, propriamente, porque
não transportam íons, mas elétrons que se armazenam em certos lugares. Em
termos metafóricos, é um processo semelhante.”
O
resultado mais recente da pesquisa de Lopez-Richard, que conta com
financiamento da FAPESP, vai além dos memristores convencionais: um transistor
polimorfo que é capaz de assumir diferentes funções – transistor, capacitor ou
memristor –, dependendo da configuração do circuito. Em artigo publicado na
Nature Communications em abril, Lopez-Richard e colaboradores mostram que, na
prática, o mesmo componente realiza cálculos e aprende com os padrões dos dados
que processa. “A gente ensina o dispositivo a reconhecer um padrão e depois
apresenta outros padrões que, em princípio, ele poderia ajudar a reconhecer”,
descreve. Outra vantagem: o dispositivo opera à temperatura ambiente, sem
necessidade de resfriamento extremo. “A ideia é criar dispositivos que funcionem
em condições normais, sem necessidade de criogenia e com baixo consumo de
energia.”
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Quando o calor ajuda
Godoy
relembra que chegou aos memristores por um caminho inesperado. Especialista em
óxidos semicondutores — materiais cuja capacidade de conduzir eletricidade pode
ser controlada —, ele trabalhava com sensores de gás à base de óxido de zinco
quando descobriu que aquele material também era capaz de guardar memória.
“Quando
o material era exposto a um ambiente com ozônio, mudava a resistência elétrica,
o que indicava uma capacidade de memorização”. Lopez-Richard chamou a atenção
de Godoy para essa propriedade e, em colaboração, seus grupos de pesquisa
passaram a investigar esses materiais como sensores para dispositivos
neuromórficos, uma nova geração de eletrônicos inspirados nas conexões entre
neurônios.
Em
seguida, uma surpresa ampliou o potencial dos experimentos. Normalmente,
efeitos de memória em semicondutores enfraquecem com a elevação da temperatura.
No óxido de zinco, contudo, aconteceu o oposto. “Aumentamos a temperatura e ele
ficou melhor. Em vez de medir a capacidade memristiva em 20 °C, passamos a
medir em 30 °C, 40 °C, e o desempenho aumentou”, recorda Godoy. A implicação
prática é significativa: “Observamos, com o avanço da IA, processadores cada
vez mais rápidos e eficientes, mas que aquecem. Se viabilizarmos dispositivos
que trabalhem sem necessidade de resfriamento, seria vantajoso”, completa.
O grupo
de Godoy introduziu também a luz como elemento capaz de acionar memristores, em
pesquisa financiada pela FAPESP. “Estamos trabalhando com a luz para ‘ensinar’
o material, para imprimir memória nele”, explica Godoy. Outra inovação
relevante é a escolha do óxido de zinco na composição dos dispositivos. Além do
desempenho técnico, o material é abundante, barato e não tóxico. “O zinco é um
material usado inclusive em cremes dentais. Mesmo na forma de óxido, o impacto
ambiental dele é menor”, detalha Godoy.
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Curativo que sente
O
físico João Vitor Paulin, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio
Claro, por sua vez, aposta em um material orgânico e biodegradável para
desenvolver transistores eletroquímicos com comportamento memristivo, aliando
objetivos médicos e ambientais: a melanina. Presente na pele, nos cabelos e nos
olhos, essa molécula natural apresenta uma propriedade incomum, a capacidade de
transportar tanto íons quanto elétrons. “A melanina faz essa conexão entre a
eletrônica tradicional e o que a gente considera a ‘eletrônica’ do corpo
humano”, explica Paulin, cuja pesquisa também conta com o apoio da FAPESP.
O
interesse começou quando Paulin percebeu a sensibilidade da melanina na faixa
de pH entre 5 e 8, crítica para o monitoramento de feridas. “Quando o pH está
baixo, quer dizer que o processo de cicatrização está correndo bem; quando está
alto, pode ter proliferação de bactérias”, explica. A proposta é um transistor
integrado a um curativo comum, como um band-aid, para monitorar em tempo real
ferimentos crônicos, como os de pacientes diabéticos.
Nessa e
em qualquer outra aplicação prática de memristores, dois dos principais
desafios são produzir os dispositivos em escala e integrá-los a sistemas de
informação complexos. Uma das apostas para superar esses gargalos é o uso de
materiais bidimensionais (2D), formados por monocamadas com apenas alguns
átomos de espessura e propriedades incomuns – como flexibilidade mecânica,
condutividade elétrica e térmica.
Luiz
Gustavo Simão Albano, físico e pesquisador no Laboratório Nacional de
Biociências (LNBio), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais
(CNPEM), em Campinas, explica que essas monocamadas podem ser crescidas em
wafers de silício de até 8 polegadas, aproximando a tecnologia de aplicações
industriais. “Camadas extremamente finas demandam um campo elétrico menor para
operar, o que reduz o consumo energético”, explica.
Segundo
Albano, a precisão dessas estruturas também ajuda a controlar as
características físicas e operacionais dos memristores, além de facilitar sua
integração a sistemas eletrônicos convencionais. Entre as aplicações estudadas
estão armazenamento de imagens, criptografia e radiofrequência – especialmente
pensando nas redes 6G. Albano conta com financiamento da FAPESP para o
desenvolvimento da pesquisa.
“Pretendemos
estender esse projeto para aplicações voltadas à saúde, como biossensores com
potencial para aplicações em diagnóstico e monitoramento médico – incluindo
tecnologias voltadas ao SUS, acessíveis e aplicáveis à realidade da saúde
pública brasileira”, diz. O projeto mantém colaboração internacional com o
grupo do físico Jiwoong Park, da Universidade de Chicago (EUA), parceiro
frequente da empresa Samsung em pesquisas de materiais avançados e dispositivos
nanoeletrônicos.
A
distância entre protótipos e produtos comercializáveis, no entanto, ainda é
considerável. Para Lopez-Richard, o principal gargalo técnico é a não
linearidade dos dispositivos. “Estamos trabalhando com sistemas não lineares,
fora do equilíbrio. Os modelos em física, por sua vez, normalmente são modelos
de equilíbrio. Isso quer dizer que estamos abordando temas que ficam nos
limites das ferramentas teóricas que temos disponíveis hoje”, esclarece.
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Conexões internacionais
Em
Lisboa, o engenheiro Rodrigo Ferrão de Paiva Martins, da Universidade Nova de
Lisboa e presidente da Academia Europeia de Ciências, lidera um dos grupos mais
ativos do mundo no desenvolvimento de memristores. Sua trajetória neste campo
começou em 2008 com um transístor de papel que apresentou um comportamento de
memória inesperado. “Em vez de tratar isso como falha, encaramos como uma
descoberta inovadora”, relembra.
Martins
mantém parcerias com pesquisadores brasileiros na Unesp e na Unicamp. “Essas
colaborações têm sido fundamentais e frutíferas”, ressalta. Sobre o futuro, o
pesquisador afirma que a meta é criar ideias disruptivas, desenvolvendo e
produzindo dispositivos em nanoescala que façam mais e melhor, utilizando menos
materiais. “Se desejamos avançar, devemos começar pelo ecodesign: selecionar
materiais sustentáveis, produzi-los com o menor consumo possível de energia e
assegurar que, ao final, sejam totalmente recicláveis”.
Embora
ainda emergente, o campo da eletrônica neuromórfica no Brasil já dá sinais de
que pode se tornar memorável, articulando centros de pesquisas de várias áreas
– como física, engenharia e medicina. “No Brasil, a área não é totalmente
integrada ainda, mas ganhamos maturidade para congregar pessoas e discutir
futuros nessa linha”, avalia Lopez-Richard. “Queremos criar um fórum
internacional de discussões específicas sobre efeito de memória, inclusive
trazendo pessoas que estudam o cérebro.”
Enquanto
isso, em laboratórios do Brasil, Portugal e outras partes do mundo, componentes
inspirados em neurônios, mais finos do que um fio de cabelo, aprendem a guardar
memória graças ao trabalho de muitos cérebros humanos.
Fonte:
Por Tiago Jokura – Revista Pesquisa Fapesp

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