sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Vice de Flávio Bolsonaro poupou ‘big boss’ da fraude do INSS em relatório da CPMI

O candidato a vice-presidente da República na chapa de Flávio Bolsonaro, o deputado federal Alfredo Gaspar, do PL de Alagoas, poupou Wilson Roberto Gomes, condenado por lavar dinheiro para o tráfico de drogas, no relatório que apresentou, em março passado, ao final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito instalada para investigar a fraude dos descontos indevidos em aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social, que ficou conhecida como a CPMI do INSS.

A omissão não pode ser atribuída a desconhecimento: durante as investigações da comissão, o próprio Gaspar chegou a questionar nominalmente um dos investigados sobre a relação dele com Gomes.

A atitude é contraditória devido ao currículo do deputado: ex-promotor de justiça que diz ter atuado contra o crime organizado no Ministério Público de Alagoas, Gaspar deveria ter familiaridade com o assunto, mas ignorou evidências fartas na CPMI do INSS. A comissão tinha em mãos, por exemplo, provas de que Gomes fez movimentações bancárias incompatíveis com a sua renda declarada enquanto a fraude estava em vigor. Ainda assim, no documento de 4 mil páginas em que pediu o indiciamento de 216 pessoas, o ex-promotor blindou o empresário. Ironicamente, o trabalho na CPMI tornou-se um dos principais cartões de visita de Gaspar na campanha bolsonarista.

Apesar de ter sido poupado no relatório da CPMI, o nome de Wilson Gomes estava na boca do vice de Flávio Bolsonaro durante a investigação parlamentar. Na sessão de 4 de dezembro de 2025 da comissão, Gaspar perguntou a um dos investigados, Américo Monte Júnior, qual era “a sua relação com Wilson Roberto Gomes”. A pergunta não foi respondida, porque o interrogado conseguiu um habeas corpus do ministro do STF Kassio Nunes Marques, que lhe garantiu o direito de ficar calado.

Cruzando documentos da CPMI com outros registros, incluindo uma foto inédita, o Intercept Brasil descobriu que Gomes era chamado de big boss – ou chefão – no núcleo conhecido como os Golden Boys, ou Garotos de Ouro, grupo que teria desviado R$ 700 milhões das aposentadorias. Segundo os próprios investigados, Gomes teria sido o elo entre a quadrilha e José Carlos Oliveira, que presidiu o INSS de novembro de 2021 a março de 2022, quando assumiu o cargo de ministro do Trabalho e da Previdência do governo Bolsonaro. Posteriormente, ele mudou de nome para Ahmed Mohamad Oliveira.

Como relator da CPMI, Gaspar era o responsável por redigir as conclusões da investigação, que durou sete meses, e tinha como objetivo identificar os responsáveis pelos descontos indevidos que prejudicaram milhões de beneficiários e desviaram mais de R$ 6,3 bilhões do INSS. Ao ser levado para a apreciação dos demais membros da comissão, porém, o parecer de Gaspar foi rejeitado.

Ao Intercept, Gaspar negou ter havido qualquer “blindagem” durante o trabalho da CPMI e disse que não incluiu Gomes em seu relatório por falta de provas de envolvimento dele com os desvios no INSS.

Conhecido como Xixa, Wilson Gomes é pai de Felipe Macedo Gomes, um dos empresários suspeitos de roubar os aposentados. A ficha criminal de Wilson inclui uma condenação de 5 anos e 4 meses de prisão, em regime semiaberto, por usar uma revendedora de carros para lavar dinheiro de um traficante, flagrado em 1998 com 16 quilos de cocaína em uma aeronave. O empresário foi condenado em primeira instância em agosto de 2007, mas a sentença só transitou em julgado em junho de 2021. Por causa da demora, houve a prescrição e a pena não foi aplicada.

Segundo os próprios investigados pela fraude no INSS, foi Wilson Gomes quem negociou o primeiro acordo do grupo no INSS diretamente com José Carlos Oliveira, então ministro de Bolsonaro. “Faz pro meu filho como se fosse pra mim”, pediu Gomes a Oliveira, segundo relato de um dos empresários envolvidos no esquema, revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo em setembro passado.

A amizade entre o ministro e o empresário seria antiga. Uma reportagem do Metrópoles afirma que ambos perderam parentes em uma chacina em 15 de junho de 2013, no bairro de Moema, na zona sul de São Paulo. Na ocasião, bandidos desceram de um veículo, armados com fuzis e pistolas, e executaram três homens: Chafic Rassul Neto, Glauco Lepiane de Oliveira e Marco Aurélio Gomes – este último, irmão de Wilson Gomes. As mortes nunca foram esclarecidas.

Os Golden Boys são investigados por fraudar contracheques de aposentados e pensionistas por meio de quatro associações de fachada: Amar Brasil Clube de Benefícios, Master Prev, Associação Nacional de Defesa dos Direitos dos Aposentados e Pensionistas, a Andapp, e Associação de Amparo Social ao Aposentado e Pensionista, a Aasap. Além de Felipe, filho de Wilson Gomes, segundo o relatório da CPMI, compunham o núcleo: Igor Dias Delecrode, Anderson Cordeiro de Vasconcelos, Américo Monte Júnior, Marco Aurélio Gomes Junior e Mauro Palombo Concílio.

O grupo assinou seu primeiro acordo de cooperação técnica com o INSS em 9 de agosto de 2022, no governo Bolsonaro, quando o Ministério do Trabalho e da Previdência era chefiado por Oliveira. O acordo autorizava o desconto em folha da mensalidade da suposta associação das vítimas do golpe a uma das entidades de fachada – a fraude estaria na falsificação das assinaturas dos aposentados autorizando esse desconto. Outros três acordos foram assinados durante o governo Lula, antes de uma auditoria identificar as irregularidades.

No mesmo mês em que os Golden Boys fecharam o primeiro acordo, o então presidente do INSS do governo Bolsonaro assinou uma nota técnica que derrubou um mecanismo que protegia os aposentados – a exigência de renovação periódica, a cada três anos, para que sindicatos e associações fizessem descontos na folha de pagamento dos beneficiários –, facilitando a fraude nos meses seguintes.

Um relatório da Polícia Federal aponta que Oliveira recebeu R$ 100 mil em propina de uma associação, pagos com dinheiro desviado das aposentadorias. O ex-ministro chegou a usar tornozeleira eletrônica, mas o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal – o STF –, revogou a medida no início de setembro.

Oliveira assumiu o ministério no final de março de 2022, na vaga deixada por Onyx Lorenzoni, que saiu para disputar o governo do Rio Grande do Sul. Naquela campanha eleitoral, Lorenzoni recebeu uma doação de R$ 60 mil de Felipe Gomes.

As conexões do filho do big boss vão além da política institucional. Ele é próximo do pastor André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha. Em 2024, no auge da farra do INSS, a construtora de Felipe patrocinou o réveillon da igreja no Allianz Parque, estádio do Palmeiras, na capital paulista.

A campanha de Flávio Bolsonaro tenta associar o escândalo do INSS a Fábio Luís Lula da Silva – o Lulinha, filho do presidente Lula, que teria ajudado a lobista Roberta Luchsinger a prospectar negócios com o Executivo. Contudo, os laços do clã Bolsonaro com a fraude vão além de Oliveira.

Segundo o ICL Notícias, uma empresa da família Bolsonaro divide sala em Brasília com pelo menos 16 firmas de Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. Além disso, o UOL revelou em 10 de outubro que Flávio compartilhava uma conta bancária com o advogado Willer Tomaz, amigo do senador e suspeito de lavar dinheiro desviado dos aposentados.

<><> Um helicóptero para o ‘big boss’

Uma câmera de segurança gravou, em 22 de maio de 2025, um diálogo entre dois Golden Boys, Vasconcelos e Delecrode, que revela a negociação de Wilson Gomes com o ministro de Bolsonaro. No vídeo, os empresários afirmam que o pai de Felipe embolsou R$ 7 milhões do esquema.

Wilson Gomes também era citado em documentos que foram fornecidos aos membros da CPMI – mais especificamente, em relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf, que descreviam movimentações suspeitas feitas por empresas ligadas aos Golden Boys.

Durante a fraude do INSS, a conta bancária de Gomes registrou uma movimentação incompatível com sua renda declarada. Entre dezembro de 2024 e junho de 2025, quase R$ 10 milhões transitaram pela conta. Desse total, mais de R$ 4,2 milhões vieram direto de contas ligadas aos Golden Boys.

No mesmo período, Gomes repassou pelo menos R$ 5 milhões à Naverio Navegação do Rio Amazonas Ltda, empresa que lhe vendeu um helicóptero Robinson R66 em 10 de fevereiro de 2025. A transação explica a queixa de Vasconcelos no vídeo revelado pelo Estadão, em que o empresário diz não saber que “ia dar um helicóptero pro big boss”. A aeronave chegou a ser bloqueada por determinação do ministro do STF André Mendonça em outubro de 2025, como mostram documentos da Agência Nacional de Aviação Civil, a Anac, aos quais o Intercept teve acesso.

Embora o vídeo não cite o verdadeiro nome do big boss, uma foto obtida pelo Intercept desfaz o mistério. Em uma postagem de Dia dos Pais, a família usa a expressão para homenagear Wilson Gomes, enquanto posa em frente a um fuzil enquadrado na parede.

Na imagem, Felipe aparece à esquerda. Do outro lado de Wilson está Ygor Buttarello Gomes, mais um filho do big boss. Assim como o pai, Ygor foi exposto em relatórios do Coaf entregues aos membros da CPMI, mas também foi ignorado por Gaspar. Entre novembro de 2024 e maio de 2025, ele movimentou em sua conta bancária um valor quase 50 vezes maior que a sua renda mensal declarada – parte do dinheiro veio direto dos Golden Boys.

As conexões vão além das contas bancárias. Ygor é dono de uma joalheria registrada, desde agosto de 2024, no mesmo prédio onde operava uma das associações de fachada investigadas, no bairro do Brooklin Paulista, em São Paulo.

A exemplo do pai, Ygor também tem a ficha suja: em 2019, foi sentenciado por repassar notas falsas em um posto de gasolina. O Ministério Público Federal apontou que ele tinha consciência do crime e carregava outras 45 cédulas falsificadas quando foi flagrado pela polícia.

<><> ‘Não houve blindagem’

Por meio de sua assessoria de imprensa, o deputado Alfredo Gaspar negou que tenha havido qualquer blindagem ou proteção política no seu trabalho na CPMI do INSS e justificou a ausência do nome de Wilson Gomes do relatório afirmando que “o PT e seus aliados impediram o aprofundamento das investigações, barrando requerimentos e pedidos de quebra de sigilo conforme seus interesses políticos”.

Gaspar disse ainda que os governistas, no final da CPMI, “apresentaram um relatório que não corresponde à verdade, à seriedade e à responsabilidade exigidas para esclarecer o maior escândalo contra os aposentados”. A acusação se refere a um texto alternativo, elaborado pela base do governo, que não chegou a ser levado para votação na comissão — e que também não mencionava Wilson Gomes.

“No caso de Wilson Gomes e Ygor Buttarello Gomes, entre outros, havia necessidade de buscar mais informações durante os trabalhos, mas, quando questionado, Américo Monte Júnior optou pelo silêncio e não esclareceu os fatos”, diz o candidato a vice na chapa de Flávio.

Ele argumenta que não encontrou “elementos probatórios suficientes/mínimos para justificar indiciamento de Wilson Gomes e Ygor Buttarello por participação na fraude do INSS” e que “a ausência de um nome no relatório não impede de que novas apurações sejam e tenham sido feitas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público”. 

A nota também argumenta que a elaboração do relatório foi “estritamente técnica, baseada em dados objetivos e sem qualquer parcialidade política ou ideológica”, e que foi pedido o indiciamento de todos “cuja participação nos crimes contra os aposentados pode ser comprovada”, o que incluir o ex-ministro da Previdência José Carlos Oliveira, “sem blindagem ou proteção a ninguém”.

O escritório Fernando José da Costa Advogados, que representa Wilson Roberto Gomes, disse que o empresário jamais manteve qualquer relação com as associações investigadas, não recebeu nenhum valor delas nem prestou serviços a elas ou ao INSS. “Referências feitas por terceiros a seu nome não demonstram, por si só, qualquer participação em atividades relacionadas ao INSS ou às entidades mencionadas”, diz.

Segundo a nota, “as questões suscitadas são objeto de procedimentos que tramitam sob sigilo no Supremo Tribunal Federal, perante o qual a defesa já apresentou os esclarecimentos e documentos que demonstram a regularidade do patrimônio de seu cliente”.

Sobre a condenação por lavagem de dinheiro, a defesa afirma que é um processo da década de 1990, “sem qualquer relação com os fatos ora investigados, no qual foi reconhecida judicialmente a extinção da punibilidade”. O escritório não respondeu às perguntas da reportagem sobre Ygor Buttarello Gomes.

Já o ex-ministro José Carlos Oliveira, em nota, refutou as afirmações de que tenha recebido qualquer vantagem financeira ou praticado ato ilícito durante suas gestões.

O ex-ministro confirmou conhecer membros da família de Felipe Macedo Gomes, mas garantiu que nunca manteve “laços de amizade com a família, especialmente com os envolvidos no episódio ocorrido, sendo inadequada qualquer tentativa de estabelecer associação entre os fatos e o ex-ministro”. Também negou que tenha recebido qualquer solicitação de Wilson Gomes para a aprovação de acordos junto ao INSS.

“Sobre o Acordo de Cooperação Técnica (ACT) firmado entre o INSS e a entidade mencionada, é importante registrar que o ex-ministro não teve qualquer ingerência no processo de celebração do referido instrumento”, diz ainda a nota.

Felipe Macedo Gomes, Américo Monte Júnior, Anderson Cordeiro de Vasconcelos e Igor Dias Delecrode informaram, por notas enviadas por seus advogados, que “todos os esclarecimentos específicos já foram prestados às Autoridades Públicas”.

Os quatro afirmaram desconhecer “a existência, a autenticidade e a integridade do vídeo” publicado pelo Estadão.  No caso de Vasconcelos, a nota acrescenta que, caso as imagens existam, foram obtidas “de maneira ilícita e criminosa”. Por fim, o comunicado informa que os empresários estão com todos os seus bens bloqueados pela Justiça (leia as respostas na íntegra).

A reportagem também procurou Mauro Palombo Concílio e a defesa de Marco Aurélio Gomes Júnior, mas não recebeu retorno. O espaço segue aberto para manifestação.

 

Fonte: Por Gisele Lobato, para The Intercept

 

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