Vice
de Flávio Bolsonaro poupou ‘big boss’ da fraude do INSS em relatório da CPMI
O
candidato a vice-presidente da República na chapa de Flávio Bolsonaro, o
deputado federal Alfredo Gaspar, do PL de Alagoas, poupou Wilson Roberto Gomes,
condenado por lavar dinheiro para o tráfico de drogas, no relatório que
apresentou, em março passado, ao final da Comissão Parlamentar Mista de
Inquérito instalada para investigar a fraude dos descontos indevidos em
aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social, que ficou conhecida como
a CPMI do INSS.
A
omissão não pode ser atribuída a desconhecimento: durante as investigações da
comissão, o próprio Gaspar chegou a questionar nominalmente um dos investigados
sobre a relação dele com Gomes.
A
atitude é contraditória devido ao currículo do deputado: ex-promotor de justiça
que diz ter atuado contra o crime organizado no Ministério Público de Alagoas,
Gaspar deveria ter familiaridade com o assunto, mas ignorou evidências fartas
na CPMI do INSS. A comissão tinha em mãos, por exemplo, provas de que Gomes fez
movimentações bancárias incompatíveis com a sua renda declarada enquanto a
fraude estava em vigor. Ainda assim, no documento de 4 mil páginas em que pediu
o indiciamento de 216 pessoas, o ex-promotor blindou o empresário.
Ironicamente, o trabalho na CPMI tornou-se um dos principais cartões de visita
de Gaspar na campanha bolsonarista.
Apesar
de ter sido poupado no relatório da CPMI, o nome de Wilson Gomes estava na boca
do vice de Flávio Bolsonaro durante a investigação parlamentar. Na sessão de 4
de dezembro de 2025 da comissão, Gaspar perguntou a um dos investigados,
Américo Monte Júnior, qual era “a sua relação com Wilson Roberto Gomes”. A
pergunta não foi respondida, porque o interrogado conseguiu um habeas corpus do
ministro do STF Kassio Nunes Marques, que lhe garantiu o direito de ficar
calado.
Cruzando
documentos da CPMI com outros registros, incluindo uma foto inédita, o
Intercept Brasil descobriu que Gomes era chamado de big boss – ou chefão – no
núcleo conhecido como os Golden Boys, ou Garotos de Ouro, grupo que teria
desviado R$ 700 milhões das aposentadorias. Segundo os próprios investigados,
Gomes teria sido o elo entre a quadrilha e José Carlos Oliveira, que presidiu o
INSS de novembro de 2021 a março de 2022, quando assumiu o cargo de ministro do
Trabalho e da Previdência do governo Bolsonaro. Posteriormente, ele mudou de
nome para Ahmed Mohamad Oliveira.
Como
relator da CPMI, Gaspar era o responsável por redigir as conclusões da
investigação, que durou sete meses, e tinha como objetivo identificar os
responsáveis pelos descontos indevidos que prejudicaram milhões de
beneficiários e desviaram mais de R$ 6,3 bilhões do INSS. Ao ser levado para a
apreciação dos demais membros da comissão, porém, o parecer de Gaspar foi
rejeitado.
Ao
Intercept, Gaspar negou ter havido qualquer “blindagem” durante o trabalho da
CPMI e disse que não incluiu Gomes em seu relatório por falta de provas de
envolvimento dele com os desvios no INSS.
Conhecido
como Xixa, Wilson Gomes é pai de Felipe Macedo Gomes, um dos empresários
suspeitos de roubar os aposentados. A ficha criminal de Wilson inclui uma
condenação de 5 anos e 4 meses de prisão, em regime semiaberto, por usar uma
revendedora de carros para lavar dinheiro de um traficante, flagrado em 1998
com 16 quilos de cocaína em uma aeronave. O empresário foi condenado em
primeira instância em agosto de 2007, mas a sentença só transitou em julgado em
junho de 2021. Por causa da demora, houve a prescrição e a pena não foi
aplicada.
Segundo
os próprios investigados pela fraude no INSS, foi Wilson Gomes quem negociou o
primeiro acordo do grupo no INSS diretamente com José Carlos Oliveira, então
ministro de Bolsonaro. “Faz pro meu filho como se fosse pra mim”, pediu Gomes a
Oliveira, segundo relato de um dos empresários envolvidos no esquema, revelado
pelo jornal O Estado de S. Paulo em setembro passado.
A
amizade entre o ministro e o empresário seria antiga. Uma reportagem do
Metrópoles afirma que ambos perderam parentes em uma chacina em 15 de junho de
2013, no bairro de Moema, na zona sul de São Paulo. Na ocasião, bandidos
desceram de um veículo, armados com fuzis e pistolas, e executaram três homens:
Chafic Rassul Neto, Glauco Lepiane de Oliveira e Marco Aurélio Gomes – este
último, irmão de Wilson Gomes. As mortes nunca foram esclarecidas.
Os
Golden Boys são investigados por fraudar contracheques de aposentados e
pensionistas por meio de quatro associações de fachada: Amar Brasil Clube de
Benefícios, Master Prev, Associação Nacional de Defesa dos Direitos dos
Aposentados e Pensionistas, a Andapp, e Associação de Amparo Social ao
Aposentado e Pensionista, a Aasap. Além de Felipe, filho de Wilson Gomes,
segundo o relatório da CPMI, compunham o núcleo: Igor Dias Delecrode, Anderson
Cordeiro de Vasconcelos, Américo Monte Júnior, Marco Aurélio Gomes Junior e
Mauro Palombo Concílio.
O grupo
assinou seu primeiro acordo de cooperação técnica com o INSS em 9 de agosto de
2022, no governo Bolsonaro, quando o Ministério do Trabalho e da Previdência
era chefiado por Oliveira. O acordo autorizava o desconto em folha da
mensalidade da suposta associação das vítimas do golpe a uma das entidades de
fachada – a fraude estaria na falsificação das assinaturas dos aposentados
autorizando esse desconto. Outros três acordos foram assinados durante o
governo Lula, antes de uma auditoria identificar as irregularidades.
No
mesmo mês em que os Golden Boys fecharam o primeiro acordo, o então presidente
do INSS do governo Bolsonaro assinou uma nota técnica que derrubou um mecanismo
que protegia os aposentados – a exigência de renovação periódica, a cada três
anos, para que sindicatos e associações fizessem descontos na folha de
pagamento dos beneficiários –, facilitando a fraude nos meses seguintes.
Um
relatório da Polícia Federal aponta que Oliveira recebeu R$ 100 mil em propina
de uma associação, pagos com dinheiro desviado das aposentadorias. O
ex-ministro chegou a usar tornozeleira eletrônica, mas o ministro André
Mendonça, do Supremo Tribunal Federal – o STF –, revogou a medida no início de
setembro.
Oliveira
assumiu o ministério no final de março de 2022, na vaga deixada por Onyx
Lorenzoni, que saiu para disputar o governo do Rio Grande do Sul. Naquela
campanha eleitoral, Lorenzoni recebeu uma doação de R$ 60 mil de Felipe Gomes.
As
conexões do filho do big boss vão além da política institucional. Ele é próximo
do pastor André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha. Em 2024, no auge da
farra do INSS, a construtora de Felipe patrocinou o réveillon da igreja no
Allianz Parque, estádio do Palmeiras, na capital paulista.
A
campanha de Flávio Bolsonaro tenta associar o escândalo do INSS a Fábio Luís
Lula da Silva – o Lulinha, filho do presidente Lula, que teria ajudado a
lobista Roberta Luchsinger a prospectar negócios com o Executivo. Contudo, os
laços do clã Bolsonaro com a fraude vão além de Oliveira.
Segundo
o ICL Notícias, uma empresa da família Bolsonaro divide sala em Brasília com
pelo menos 16 firmas de Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. Além
disso, o UOL revelou em 10 de outubro que Flávio compartilhava uma conta
bancária com o advogado Willer Tomaz, amigo do senador e suspeito de lavar
dinheiro desviado dos aposentados.
<><>
Um helicóptero para o ‘big boss’
Uma
câmera de segurança gravou, em 22 de maio de 2025, um diálogo entre dois Golden
Boys, Vasconcelos e Delecrode, que revela a negociação de Wilson Gomes com o
ministro de Bolsonaro. No vídeo, os empresários afirmam que o pai de Felipe
embolsou R$ 7 milhões do esquema.
Wilson
Gomes também era citado em documentos que foram fornecidos aos membros da CPMI
– mais especificamente, em relatórios do Conselho de Controle de Atividades
Financeiras, o Coaf, que descreviam movimentações suspeitas feitas por empresas
ligadas aos Golden Boys.
Durante
a fraude do INSS, a conta bancária de Gomes registrou uma movimentação
incompatível com sua renda declarada. Entre dezembro de 2024 e junho de 2025,
quase R$ 10 milhões transitaram pela conta. Desse total, mais de R$ 4,2 milhões
vieram direto de contas ligadas aos Golden Boys.
No
mesmo período, Gomes repassou pelo menos R$ 5 milhões à Naverio Navegação do
Rio Amazonas Ltda, empresa que lhe vendeu um helicóptero Robinson R66 em 10 de
fevereiro de 2025. A transação explica a queixa de Vasconcelos no vídeo
revelado pelo Estadão, em que o empresário diz não saber que “ia dar um
helicóptero pro big boss”. A aeronave chegou a ser bloqueada por determinação
do ministro do STF André Mendonça em outubro de 2025, como mostram documentos
da Agência Nacional de Aviação Civil, a Anac, aos quais o Intercept teve
acesso.
Embora
o vídeo não cite o verdadeiro nome do big boss, uma foto obtida pelo Intercept
desfaz o mistério. Em uma postagem de Dia dos Pais, a família usa a expressão
para homenagear Wilson Gomes, enquanto posa em frente a um fuzil enquadrado na
parede.
Na
imagem, Felipe aparece à esquerda. Do outro lado de Wilson está Ygor Buttarello
Gomes, mais um filho do big boss. Assim como o pai, Ygor foi exposto em
relatórios do Coaf entregues aos membros da CPMI, mas também foi ignorado por
Gaspar. Entre novembro de 2024 e maio de 2025, ele movimentou em sua conta
bancária um valor quase 50 vezes maior que a sua renda mensal declarada – parte
do dinheiro veio direto dos Golden Boys.
As
conexões vão além das contas bancárias. Ygor é dono de uma joalheria
registrada, desde agosto de 2024, no mesmo prédio onde operava uma das
associações de fachada investigadas, no bairro do Brooklin Paulista, em São
Paulo.
A
exemplo do pai, Ygor também tem a ficha suja: em 2019, foi sentenciado por
repassar notas falsas em um posto de gasolina. O Ministério Público Federal
apontou que ele tinha consciência do crime e carregava outras 45 cédulas
falsificadas quando foi flagrado pela polícia.
<><>
‘Não houve blindagem’
Por
meio de sua assessoria de imprensa, o deputado Alfredo Gaspar negou que tenha
havido qualquer blindagem ou proteção política no seu trabalho na CPMI do INSS
e justificou a ausência do nome de Wilson Gomes do relatório afirmando que “o
PT e seus aliados impediram o aprofundamento das investigações, barrando
requerimentos e pedidos de quebra de sigilo conforme seus interesses
políticos”.
Gaspar
disse ainda que os governistas, no final da CPMI, “apresentaram um relatório
que não corresponde à verdade, à seriedade e à responsabilidade exigidas para
esclarecer o maior escândalo contra os aposentados”. A acusação se refere a um
texto alternativo, elaborado pela base do governo, que não chegou a ser levado
para votação na comissão — e que também não mencionava Wilson Gomes.
“No
caso de Wilson Gomes e Ygor Buttarello Gomes, entre outros, havia necessidade
de buscar mais informações durante os trabalhos, mas, quando questionado,
Américo Monte Júnior optou pelo silêncio e não esclareceu os fatos”, diz o
candidato a vice na chapa de Flávio.
Ele
argumenta que não encontrou “elementos probatórios suficientes/mínimos para
justificar indiciamento de Wilson Gomes e Ygor Buttarello por participação na
fraude do INSS” e que “a ausência de um nome no relatório não impede de que
novas apurações sejam e tenham sido feitas pela Polícia Federal e pelo
Ministério Público”.
A nota
também argumenta que a elaboração do relatório foi “estritamente técnica,
baseada em dados objetivos e sem qualquer parcialidade política ou ideológica”,
e que foi pedido o indiciamento de todos “cuja participação nos crimes contra
os aposentados pode ser comprovada”, o que incluir o ex-ministro da Previdência
José Carlos Oliveira, “sem blindagem ou proteção a ninguém”.
O
escritório Fernando José da Costa Advogados, que representa Wilson Roberto
Gomes, disse que o empresário jamais manteve qualquer relação com as
associações investigadas, não recebeu nenhum valor delas nem prestou serviços a
elas ou ao INSS. “Referências feitas por terceiros a seu nome não demonstram,
por si só, qualquer participação em atividades relacionadas ao INSS ou às
entidades mencionadas”, diz.
Segundo
a nota, “as questões suscitadas são objeto de procedimentos que tramitam sob
sigilo no Supremo Tribunal Federal, perante o qual a defesa já apresentou os
esclarecimentos e documentos que demonstram a regularidade do patrimônio de seu
cliente”.
Sobre a
condenação por lavagem de dinheiro, a defesa afirma que é um processo da década
de 1990, “sem qualquer relação com os fatos ora investigados, no qual foi
reconhecida judicialmente a extinção da punibilidade”. O escritório não
respondeu às perguntas da reportagem sobre Ygor Buttarello Gomes.
Já o
ex-ministro José Carlos Oliveira, em nota, refutou as afirmações de que tenha
recebido qualquer vantagem financeira ou praticado ato ilícito durante suas
gestões.
O
ex-ministro confirmou conhecer membros da família de Felipe Macedo Gomes, mas
garantiu que nunca manteve “laços de amizade com a família, especialmente com
os envolvidos no episódio ocorrido, sendo inadequada qualquer tentativa de
estabelecer associação entre os fatos e o ex-ministro”. Também negou que tenha
recebido qualquer solicitação de Wilson Gomes para a aprovação de acordos junto
ao INSS.
“Sobre
o Acordo de Cooperação Técnica (ACT) firmado entre o INSS e a entidade
mencionada, é importante registrar que o ex-ministro não teve qualquer
ingerência no processo de celebração do referido instrumento”, diz ainda a
nota.
Felipe
Macedo Gomes, Américo Monte Júnior, Anderson Cordeiro de Vasconcelos e Igor
Dias Delecrode informaram, por notas enviadas por seus advogados, que “todos os
esclarecimentos específicos já foram prestados às Autoridades Públicas”.
Os
quatro afirmaram desconhecer “a existência, a autenticidade e a integridade do
vídeo” publicado pelo Estadão. No caso
de Vasconcelos, a nota acrescenta que, caso as imagens existam, foram obtidas
“de maneira ilícita e criminosa”. Por fim, o comunicado informa que os
empresários estão com todos os seus bens bloqueados pela Justiça (leia as
respostas na íntegra).
A
reportagem também procurou Mauro Palombo Concílio e a defesa de Marco Aurélio
Gomes Júnior, mas não recebeu retorno. O espaço segue aberto para manifestação.
Fonte:
Por Gisele Lobato, para The Intercept

Nenhum comentário:
Postar um comentário