O
trabalhador quer viver. Mas quem lhe dará esse direito?
Há uma
pergunta que deveria ocupar o centro do debate sobre o futuro do trabalho no
Brasil. Afinal, quanto da própria vida um trabalhador precisa entregar para ter
o direito de sobreviver? Oito horas por dia? Dez? Seis dias por semana? E
quanto tempo deve sobrar para os filhos, para a família, para estudar,
descansar ou simplesmente não fazer nada? Parece uma discussão elementar, mas,
em pleno século XXI, ainda precisamos defender algo que deveria ser óbvio. O
trabalhador não nasceu para viver exclusivamente em função do emprego.
A
discussão sobre o fim da escala 6×1, que chegou ao plenário do Senado nesta
semana, trouxe para o centro da disputa presidencial duas concepções bastante
diferentes sobre a organização do trabalho. Luiz Inácio Lula da Silva defende a
redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, com dois dias de descanso
remunerados e sem diminuição dos salários. Flávio Bolsonaro, por sua vez,
defende uma alternativa baseada na flexibilização dos contratos, na negociação
individual, na remuneração proporcional às horas trabalhadas e sem descanso
remunerado.
A
proposta defendida por Lula parte do princípio de que a redução da jornada deve
representar uma conquista efetiva para quem trabalha. Já a proposta encampada
por Flávio Bolsonaro, apresentada pelo senador Rogério Marinho, permite que
trabalhadores optem por contratos remunerados por hora, com reflexos
proporcionais sobre férias, décimo terceiro e FGTS. Seus defensores argumentam
que isso ampliaria a liberdade de escolha e poderia facilitar contratações. As
entidades sindicais alertam para o risco de enfraquecimento da proteção
coletiva e de redução da renda.
E é
justamente nessa palavra, liberdade, que mora uma das questões mais importantes
dessa discussão.
Porque
existe uma diferença enorme entre a liberdade escrita numa proposta legislativa
e a liberdade experimentada por quem precisa pagar aluguel, comprar comida e
sustentar uma família. Um trabalhador que depende daquele emprego para
sobreviver tem realmente as mesmas condições de negociação que o empresário
responsável por contratá-lo? Até que ponto uma escolha pode ser considerada
livre quando uma das partes precisa desesperadamente do salário e a outra
controla a oferta de trabalho?
É por
isso que os direitos trabalhistas existem. Não surgiram de um favor dos
patrões, tampouco da generosidade de governos. Foram conquistados ao longo de
décadas de mobilização, greves, enfrentamentos e organização coletiva. A
limitação da jornada, o descanso remunerado, as férias e o décimo terceiro
representam conquistas históricas justamente porque a relação entre capital e
trabalho nunca foi uma negociação entre forças equivalentes.
Quem
trabalha no comércio conhece essa realidade. Conhece o domingo perdido, o
aniversário do filho comemorado às pressas, a consulta médica adiada, o cansaço
acumulado e a sensação de que a vida acontece sempre nos intervalos do
expediente. Para milhões de trabalhadores e trabalhadoras, a escala 6×1 não é
um conceito econômico ou uma discussão acadêmica. É uma rotina que consome
praticamente toda a semana e deixa apenas um dia para resolver as obrigações
domésticas, descansar e tentar recuperar as energias.
O
debate sobre a jornada também exige que se fale de produtividade, custos
empresariais e organização dos serviços. Essas questões são legítimas e
precisam ser enfrentadas. Mas não podem servir para retirar da discussão aquilo
que deveria estar em primeiro lugar. O desenvolvimento econômico precisa ser
compatível com a melhoria das condições de vida de quem produz a riqueza do
país.
Reduzir
a jornada sem reduzir salários significa reconhecer que os ganhos de
produtividade e os avanços tecnológicos também devem beneficiar os
trabalhadores e as trabalhadoras. Afinal, se a economia evolui, se as empresas
modernizam seus processos e se a tecnologia permite produzir mais em menos
tempo, por que a redução do tempo dedicado ao trabalho não pode fazer parte
dessa transformação?
A
experiência histórica demonstra que a duração da jornada nunca foi uma condição
inflexível. Direitos que hoje parecem naturais já foram considerados
impossíveis, caros demais ou prejudiciais à economia. O descanso semanal, as
férias remuneradas e a jornada de oito horas enfrentaram resistências antes de
se consolidarem. Por isso, o debate atual não deve se limitar à pergunta sobre
quanto custa reduzir a jornada. É igualmente necessário perguntar quanto custa,
para a sociedade, manter milhões de pessoas submetidas a rotinas exaustivas.
Há
também uma dimensão que os números econômicos dificilmente conseguem traduzir.
Tempo livre não é desperdício. É convivência familiar, participação
comunitária, formação profissional, cultura, saúde e cidadania. Um país que
discute a redução da jornada está discutindo, no fundo, que lugar deseja o
trabalho deve ocupar na vida das pessoas.
O
segundo turno das eleições tornou essa discussão ainda mais visível. Lula e
Flávio Bolsonaro apresentam caminhos diferentes para uma questão que afeta
diretamente milhões de brasileiros. Cabe examinar não apenas as promessas, mas
também o conteúdo das propostas, seus mecanismos de proteção e seus possíveis
efeitos sobre salários, direitos e condições de trabalho.
Como
trabalhador e dirigente sindical, considero indispensável que qualquer mudança
na legislação tenha como ponto de partida a valorização do trabalho, o
fortalecimento da negociação coletiva e a garantia de que os avanços econômicos
sejam acompanhados por avanços sociais.
O
Brasil precisa discutir como produzir riqueza, gerar empregos e fortalecer suas
empresas. Mas precisa, com a mesma seriedade, discutir como garantir que
trabalhadores e trabalhadoras tenham tempo e condições para usufruir da vida
que ajudam a construir.
Porque
trabalhar é parte da vida. Não pode ser a vida inteira.
Fonte:
Por Julimar Roberto, em Brasil 247

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