sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Beatriz Bissio: eleição entre Lula e Flávio Bolsonaro decide o rumo do Brasil e da América do Sul

A democracia no Brasil vive seu maior teste desde a recuperação da legalidade constitucional em meados dos anos 1980 e a aprovação da nova Constituição, em 1988.

Neste primeiro turno da eleição geral – Presidência, Congresso, governadores e câmaras legislativas dos estados –, o Brasil votou dividido entre duas candidaturas que diferiam profundamente entre si: de um lado, a do presidente Lula, que pleiteia sua reeleição – o que seria seu quarto mandato, não consecutivo –, com uma plataforma de defesa da soberania, da democracia, do Estado como indutor da justiça social e de uma ativa diplomacia que inclui a atuação nos Brics; de outro, a candidatura de Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente Bolsonaro, que não pode concorrer porque está preso e com seus direitos políticos cassados.

Essa candidatura defende um neoliberalismo extremo, com destruição da proteção social do Estado, o alinhamento acrítico aos interesses estadunidenses, em particular à agenda de Donald Trump, aí incluída, claro, a aliança com Israel e tudo o que ela representa.

Isso inclui uma atitude hostil em relação aos investimentos chineses, apesar de sua importância para o país, além de um extremo individualismo e da devoção (real ou cínica?) ao conservadorismo nos costumes pregado pelas igrejas neopentecostais.

Tudo isso sem mencionar os escândalos de corrupção em que o candidato está sendo investigado, as declarações de que entregaria as terras raras (das quais o Brasil é o segundo detentor mundial, depois da China) e os minerais críticos aos Estados Unidos; as fotos mostrando sua participação em “festinhas” organizadas pelo representante do que seria, no Brasil, o equivalente ao caso Epstein nos EUA; e os vínculos, nunca por ele negados, com matadores de aluguel e grupos paramilitares.

A eleição será definida no segundo turno, em 25 de outubro. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro ficou na frente, com 47,03% dos votos, e Lula em segundo lugar, com 45,16%. O resultado é interpretado como consequência não só de questões domésticas, mas também do crescimento da extrema-direita no mundo.

No caso brasileiro, esse fenômeno se manifestou claramente pela primeira vez pela vitória, em 2018, do pai do atual candidato, Jair Bolsonaro. E o avanço das forças de extrema-direita no país agora fica explícito pela adesão recebida pelo candidato Flávio Bolsonaro.

Aliás, esse avanço estaria alavancado, segundo denúncias feitas inclusive por ex-integrantes da CIA, que estão sendo apuradas pela Polícia Federal, por forte apoio desde o exterior.

Um apoio traduzido em fortunas de dinheiro, informações dos serviços de inteligência dos Estados Unidos e de Israel, que incluem resultados de pesquisas comportamentais e sofisticados meios técnicos, caracterizando variadas formas de intromissão estrangeira, como aconteceu nas eleições recentes no Chile, na Bolívia, no Equador, no Peru, na Colômbia… Tudo isso demonstra que o presidente Lula enfrenta nesta campanha uma oposição muito melhor estruturada nacional e internacionalmente e, portanto, mais perigosa do que a de 2022.

O resultado final da eleição no Brasil vai ter desdobramentos em toda a América Latina, em particular na América do Sul, pelo peso demográfico, econômico e político do Brasil. Basta lembrar que, a partir da ditadura instalada no Brasil em 1964, iniciou-se o “efeito dominó” de instalação de regimes autoritários (e as escolas de tortura) no Chile, no Uruguai, na Argentina, no Peru… O Brasil hoje está cercado de governos de extrema-direita, com a única exceção do Uruguai.

Se um governo de extrema-direita e servil aos interesses estadunidenses se instalar no país, os Estados Unidos, via “Doutrina Monroe”, terão assegurado o controle desta região, por eles considerada o “pátio traseiro”. E a recuperação da soberania e da democracia na América do Sul poderá levar décadas. Um analista político brasileiro publicou um artigo que é também uma chamada de atenção para este fato, assinalando que uma vitória da extrema-direita no segundo turno das eleições no Brasil pode ser a última oportunidade em que todos os brasileiros vivos neste momento tenham o direito de votar…

Não é por acaso que o presidente Lula recebeu, desde diferentes setores sociais e políticos latino-americanos, calorosas declarações de apoio. A importância da resistência do Brasil ao completo domínio da região pela ultradireita e por Washington é facilmente compreensível além das fronteiras.

Em relação aos motivos do avanço de Flávio Bolsonaro, entre outros, é necessário analisar dois fatores: o elevado índice de abstenção, um pouco superior a 20% do eleitorado, ou seja, 33 milhões de eleitores; e a queda nos votos recebidos pelo presidente Lula na votação deste domingo: 4 milhões de votos a menos que na eleição de 2022, sendo que a vantagem do candidato Flávio Bolsonaro sobre o presidente Lula foi de apenas 2 milhões de votos.

Esses dois fatores mostram um mal-estar de uma parte do eleitorado com o alto custo de vida e os índices de violência (que a imprensa mainstream se encarrega de mostrar e voltar a mostrar). São problemas reais que a população brasileira das grandes cidades, principalmente os trabalhadores mais pobres, os desempregados e aqueles que vivem de trabalho com aplicativos, enfrentam no seu dia a dia.

Em relação à violência, a mensagem mais direta e até brutal de Flávio Bolsonaro (a frase popular é “bandido bom é bandido morto”) pode soar mais convincente, apesar de que, nos quatro anos de governo de Jair Bolsonaro, não houve melhoras nesse terreno; ao contrário, houve um avanço da letalidade da atuação policial.

Já em relação ao tema do custo de vida, a extrema-direita coloca a responsabilidade no presidente Lula, que tem insistido, corretamente, nas muitas políticas públicas que seu governo conseguiu implementar, mesmo enfrentando um Congresso hostil. E, sem elas, a vida do trabalhador seria muito pior, é verdade. Porém, a complexidade dos fatores que incidem nos preços dos alimentos e dos combustíveis não é de fácil explicação durante uma campanha. E, no cotidiano dos segmentos menos favorecidos, não são as políticas sociais nem os indicadores da macroeconomia o que se sente mais diretamente, mas os preços do supermercado, que não permitem chegar ao fim do mês com comida na mesa.

Para vencer esse mal-estar e essa decepção com a democracia, seria necessário indicar saídas para esse amargo cotidiano. E, para isso, como deixar de fazer uma análise um pouco mais sofisticada, mostrando a perversidade de um sistema de exploração, cuja expressão mais visível é o neoliberalismo econômico?

Nada disso é fácil de explicar numa campanha eleitoral. Pior ainda em campanhas com mídias sociais divulgando notícias falsas e tendenciosas e a mídia tradicional fazendo o jogo desse neoliberalismo, endeusando o ajuste fiscal e o arrocho salarial e condenando todo investimento em prol dos mais necessitados e em serviços públicos (educação, saúde, transporte) de qualidade. Para quem defende o tão falado “teto de gastos”, tudo isso é “gasto”; não aceitam discuti-lo como investimento.

É necessário, então, pensando no médio e longo prazo, definir tarefas permanentes de formação política, coisa que a esquerda por estas latitudes abandonou há muito tempo, lamentavelmente. E combinar essas tarefas com uma política adequada de comunicação, que leve em consideração as características continentais do país, sua diversidade regional, educacional, cultural e geracional. Tarefa que possivelmente exigirá organizar uma “força-tarefa” que, desde já, comece a estudar o tema, as possibilidades reais de implementação de medidas e que comece a propor iniciativas.

A curto e médio prazo, também é necessário enfrentar a principal mensagem de certas igrejas neopentecostais, as igrejas da “Teologia da Prosperidade” – atores decisivos da campanha da ultradireita. Nas suas mensagens, essas igrejas tergiversam a interpretação das dificuldades cotidianas: enfatizam a saída individualista, a realização pessoal (no terreno material, claro) e não falam da sociedade nem de práticas políticas voltadas para o bem comum. A sua mensagem prospera rapidamente entre uma população que não tem acesso a uma educação de qualidade nem condições de desenvolver o senso crítico.

Porém, sabemos que é mentiroso afirmar que o sucesso (de muito poucos) é fruto do esforço individual, recompensado por Deus; assim, o fracasso (de muitos) também seria consequência de uma atitude individual inadequada, punida por Deus.

Mas essa pregação contribui para o crescimento exponencial dos problemas de saúde mental e até do suicídio. O “fracasso” deve ser corretamente mostrado como fruto de um sistema opressor com expressões domésticas e internacionais e da falta de apoio e vontade política para implementar medidas que necessariamente deveriam ir contra esse sistema. Mas a política é apresentada por essas igrejas como “corrupta” e até maligna…

Todos esses temas merecem uma análise de maior profundidade e envergadura. O Brasil tem um desafio agora: uma campanha de três semanas para tentar derrotar a ultradireita, que já se assegurou, no primeiro turno, do controle do Congresso e da maior parte dos estados da federação.

E que, por ter esse controle, fará o possível não só para evitar a vitória de Lula, mas – caso derrotada – utilizará essa maioria para deixar o presidente sem margem de manobra para aprovar medidas que contrariem sua agenda e, quem sabe, voltar a criar as condições para algo mais grave, como aconteceu com a presidenta Dilma Rousseff.

Mesmo assim, lutar para manter a Presidência é o desafio neste momento, sem ignorar as dificuldades que virão. Então, é necessário arregaçar as mangas, ir para as ruas, conversar com os eleitores que se abstiveram de votar e com os descontentes com o que a democracia lhes oferece. É necessário atuar com inteligência nas redes sociais e, sempre, sempre, apelar à emoção, já que muitos especialistas consideram que é ela que define o voto do eleitor. Para tal, será necessário falar com toda clareza sobre o que representaria uma vitória de Flávio Bolsonaro. Há muito a ser mostrado para a população em relação a este tema, que não foi bem trabalhado na campanha para o primeiro turno.

A maior parte da população brasileira não tem uma ideia realista do sofrimento que a espera se a extrema-direita vencer o pleito. Porque o voto em Flávio Bolsonaro não foi, em boa medida, um voto ideológico, mas um voto de descontentamento, de protesto, muitas vezes elaborado a partir de falsidades irradiadas pelas mídias sociais capturadas pelas big techs, que tiveram terreno fértil diante de uma realidade que não corresponde às expectativas legítimas de muitos cidadãos comuns.

Será necessário, nessas três semanas, colocar para o eleitor – em particular para os mais jovens – o preço que pagou o Brasil pelos 21 anos de ditadura. A luta que exigiu a reconquista da democracia, que envolveu o sacrifício pessoal, a tortura, o derramamento de sangue, o exílio de milhares de brasileiros. A democracia que temos não é a que desejaríamos? Aí devemos lembrar do recado do presidente Lula na última entrevista de sua campanha: a democracia é uma construção de todos nós; temos que participar da vida política – jovens, não tão jovens, velhos! Só assim teremos, também, o direito de criticar.

¨      Por que brasileiros e argentinos fazem política de formas tão diferentes. Por Enrique Box

Um erro comum entre os argentinos que avaliam a política do Brasil é acreditar que se trata simplesmente de um país que está “aqui ao lado”, onde se fala um idioma muito parecido.

Mas o Brasil tem razões antropológicas que justificam uma idiossincrasia muito diferente, além de regras próprias de formalidade, ética e comportamento interpessoal.

A ponta do novelo poderia estar em nossos diferentes processos de independência. As Províncias do Sul chegaram a ela com muito derramamento de sangue, em um percurso de batalhas infernais.

No Brasil, o imperador português Dom Pedro I abdicou em Portugal e declarou a independência do “Império do Brasil”. Um pouco mais tarde, as tropas do Marechal Deodoro da Fonseca derrubaram através de um golpe o gabinete imperial, instaurando a República. Não sem mártires, não sem lutas internas (Bahia, Pará e a Cisplatina), mas nada que possa ser comparado.

O Brasil se construiu monoliticamente brasileiro. A Argentina, como “crisol de raças”, que não apenas não conseguiu amalgamar-se, como também importou as neuroses e rivalidades europeias centenárias, que choveram pelos pampas para “fare la América e voltar”.

Os brasileiros não pensam em ir embora. E os que vão, só pensam em “voltar”.

Graças a esses parâmetros e, em termos gerais, atrevo-me a dizer que os argentinos se tornaram de temperamento restritivo e os brasileiros, propositivos.

Em contrapartida, o povo brasileiro sempre esteve à margem das grandes decisões nacionais. Não consultado e de forma alguma considerado, teve um substrato fértil para sua folclórica e escassa politização.

Dos porões da fome que sepulta corpos, esperanças e futuro, surgiu Lula. Surgiu no país onde morriam trezentas crianças por dia por doenças relacionadas à fome.

Lula, o amigo de Lech Wałęsa, que distribuía panfletos com Franco Montoro na saída das fábricas, despertando desconfianças em Leonel Brizola e na então eleitoralmente incipiente esquerda brasileira.

Lula não se reconhece como sendo de “esquerda”, mas conquistou para o povo brasileiro um padrão que Michelle Bachelet nem Gabriel Boric conseguiram para o povo chileno, para citar um exemplo.

Melhor um democrata autêntico do que um esquerdista fajuto.

Mas, em tempos em que a única verdade é a narrativa virtual, os fatos concretos não são suficientes.

Lula não conseguiu vencer no primeiro turno, mas tampouco Bolsonaro “versão remix” (com o endosso da candidatura do pai presidiário ao filho enlameado por crimes e corrupção). Se Bolsonaro filho tivesse vencido, seria presidente. O que houve foi um empate técnico, mas, curiosamente, a esquerda repete a narrativa de que “Bolsonaro ganhou”, fazendo concessões cognitivas incompreensíveis.

O governo Lula ostenta:

  • Superávit comercial.
  • Crescimento contínuo do PIB.
  • Inflação sob controle.
  • Fome zero!
  • Recuperação do poder de compra no mercado interno.
  • O índice Bovespa acumulou um ganho de 34% em 2025, superando pela primeira vez os 160 mil pontos; ao mesmo tempo, o real brasileiro registrou sua maior valorização frente ao dólar em nove anos.
  • “Risco-país” muito baixo.
  • Um histórico invejável de investimentos.
  • Um índice de desemprego brilhantemente recuperado; a taxa de desemprego continua caindo, atingindo 5,6% no trimestre encerrado em maio de 2026, o melhor nível para esse período desde 2012. O desemprego já havia caído para 5,8% no início do ano.
  • A renda média real dos trabalhadores atingiu seu nível mais alto já registrado, subindo de 3.198 reais para 3.507 reais, com uma redução significativa da pobreza.
  • A proporção da população pertencente à classe média atingiu 61%.
  • Forte recuperação dos investimentos por meio do “Novo PAC” e do plano “Nova Indústria Brasil”.
  • Atração de investimento estrangeiro real (não empréstimos para endividamento): em 2025, o Brasil atraiu 77,7 bilhões de dólares em investimento estrangeiro direto, a maior quantidade em sete anos, consolidando-se como o segundo destino de investimento estrangeiro mais atraente.

(Dados de estatísticas internacionais)

Por que, diante de um cenário como esse, Lula não conseguiu vencer no primeiro turno, diante do risco de que retorne o desastre do governo de Bolsonaro pai?

Mas, embora Lula esteja em empate técnico com Bolsonaro remix, nas eleições para senadores e deputados ele perde de forma lastimável. Qual é o fenômeno? Por que o povo vota nele, mas joga esquizofrenicamente contra ele, dificultando sua governabilidade caso vença? (Como ocorre atualmente com o “Centrão”, como mercado de transações, e não de ideologias.)

Será porque Lula soube conquistar a confiança do povo, mas o PT não?

Será porque o povo reconhece sua capacidade, mas principalmente uma sensibilidade e humildade que faltam a um partido que se tornou hermético, no qual a juventude não encontra respostas para suas legítimas e necessárias aspirações políticas?

Ou será também que, por alguma condição inexplicável, o PT abdica da comunicação, entregando ao poder o controle da retórica? (Arte e técnica de usar a linguagem de maneira clara, elegante e eficaz para persuadir, convencer, comover ou condicionar um público.)

Como é possível que os evangélicos tenham a emissora de TV Record e centenas de rádios… e o PT e/ou o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, nada?

Vocês não acreditam que o povo possa ser manipulado pelos grandes meios de comunicação? Então não acreditam no efeito placebo. Caramba… mas esse efeito funciona, e mais do que muitos gostariam.

Diz-se que sete repetições equivalem a uma convicção (efeito da ilusão da verdade). Sabe-se que uma convicção sem conhecimento leva ao fanatismo. É heurístico, mas tem confirmação experimental.

Essa “suspeita inocência” de abdicar da comunicação é uma careta continental, do Rio Bravo para o sul. E digo “suspeita inocência” porque não acredito que não tenham percebido algo tão evidente.

Agora está em jogo não apenas o destino do Brasil, mas também o do continente; e já sabemos que os omissos nunca se responsabilizam. Guardo a esperança de que haja água, músculo e cérebro para evitar o incêndio, mas o alerta não deve deixar de ser dado.

Paciência, sou Enrique Box, o Dr. Ovelha Negra

(Especialista no que não faz a menor ideia.)

P.S.: Mas, se preferirem, culpem o povo; é mais cômodo bater no mais fraco.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global

 

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