sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Cannabrava: Direita furibunda ameaça a democracia

O quadro que emerge das urnas é assustador. A direita não esconde o que pretende fazer com o poder conquistado no Congresso. Flávio Bolsonaro, que disputará o segundo turno com o presidente Lula, anuncia que seu campo político terá força para eleger os presidentes da Câmara e do Senado e fala até em uma reforma constitucional para, segundo suas palavras, “redemocratizar” o país.

Quando aqueles que atacaram as instituições passam a anunciar que vão “redemocratizar” a democracia, é preciso prestar muita atenção ao significado das palavras.

O PL saiu das eleições com uma bancada gigantesca: 127 deputados e 28 senadores. Somados aos demais partidos conservadores e de direita, esses números podem constituir uma maioria capaz não apenas de bloquear um eventual segundo governo Lula, mas de impor uma agenda própria. Portanto, mesmo que Lula vença o segundo turno, a ameaça não desaparece. Começará imediatamente outra batalha: a batalha pela governabilidade e pela preservação das instituições democráticas.

E existe uma questão ainda mais grave: o Supremo Tribunal Federal. O próximo presidente terá a oportunidade de indicar novos ministros em razão das aposentadorias previstas durante o mandato.

Se a isso se acrescentar a hipótese extrema de processos de impeachment contra ministros considerados desafetos pelo bolsonarismo, poderá ocorrer uma transformação profunda na composição do STF. Não estamos falando de uma abstração jurídica. Estamos falando da instituição que tem a última palavra na defesa da Constituição.

O senador Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, já advertiu o presidente do STF, Edson Fachin, de que o Senado não se omitirá diante das denúncias relacionadas ao Banco Master. Evidentemente, toda denúncia fundamentada deve ser investigada e ninguém pode estar acima da lei.

Outra coisa, porém, é transformar a necessária apuração de responsabilidades em instrumento para submeter ou controlar politicamente o Supremo. Uma democracia não sobrevive quando um Poder pretende subjugar os demais.

Há também a ameaça aos direitos econômicos e sociais. O projeto anunciado pela direita aponta para mais privatização, desnacionalização, precarização do trabalho e redução da presença do Estado. Entram nessa conta o salário mínimo, as aposentadorias e os programas sociais. É aí que uma discussão aparentemente distante sobre Congresso, Supremo e Constituição chega à mesa do trabalhador. Democracia não é apenas votar a cada quatro anos. É também emprego, salário, aposentadoria, educação, saúde e direito a uma vida digna.

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Por isso, não basta dizer que Lula precisa vencer. É preciso compreender que sua eventual vitória não resolverá o problema criado pela nova correlação de forças no Parlamento. Lula precisará mobilizar a população agora para ganhar a eleição e, se reeleito, continuar mobilizando-a para governar. Sem pressão popular organizada, um Congresso majoritariamente de direita terá condições de bloquear projetos, impor retrocessos e colocar permanentemente o governo contra a parede.

A história ensina que movimentos autoritários raramente se apresentam dizendo que pretendem destruir a democracia. Muitas vezes afirmam justamente o contrário: apresentam-se como seus salvadores enquanto esvaziam, por dentro, as instituições democráticas. Por isso, é preciso cautela com palavras aparentemente inocentes como “redemocratizar”, sobretudo quando pronunciadas por forças que durante anos investiram contra o sistema eleitoral, o Supremo e as próprias regras do jogo democrático.

O debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, marcado para o dia 18 pela Band em parceria com o Estadão, será uma oportunidade para colocar essas diferenças diante do eleitor. Mais do que comparar personalidades, será preciso comparar projetos. Que país cada candidato pretende construir? Qual será a política para o salário, o emprego, a Previdência, as empresas públicas e os programas sociais? Que relação manterá com o Congresso e com o Supremo? Que lugar reservará ao Brasil diante dos interesses estrangeiros?

A eleição presidencial, portanto, não encerra a disputa. Ela apenas define quem ocupará o Palácio do Planalto. O problema maior continuará diante de nós: uma correlação de forças no Congresso capaz de ameaçar conquistas sociais, a soberania nacional e o equilíbrio entre os Poderes. Reeleger Lula tornou-se, nesse cenário, uma tarefa essencial para quem pretende defender a democracia. Mas será apenas o primeiro passo. Depois das urnas, será necessário organizar a sociedade, mobilizar o povo e disputar, todos os dias, os rumos do país.

•        Do luto à luta

Confesso: a primeira sensação diante do resultado das urnas foi de luto. É difícil encontrar outra palavra para definir o que senti ao ver Flávio Bolsonaro chegar ao segundo turno com 47,3% dos votos, contra 45,16% de Lula. São pouco mais de dois pontos percentuais de diferença, cerca de 2,2 milhões de votos. Não é pouco. E, quando se olha para o conjunto do resultado eleitoral, o quadro se torna ainda mais grave.

Buscando entender o que aconteceu, encontrei uma frase que circula há anos, de autoria incerta: “O povo que elege os corruptos, os renegados, os impostores, os ladrões e os traidores não é vítima. Ele é cúmplice.”

É uma afirmação brutal, mas que nos obriga a refletir. Não para condenar milhões de eleitores, mas para perguntar por que uma parcela tão grande da sociedade brasileira fez essa escolha. A democracia exige que respeitemos o resultado das urnas, mas não que renunciemos ao direito de interrogá-lo e procurar compreender suas causas.

E as urnas não escolheram apenas o presidente. Talvez o resultado mais preocupante esteja na composição do Parlamento, majoritariamente de direita, particularmente no Senado. O PL conquistou uma bancada poderosa, elegeu seus dois candidatos em Mato Grosso, Michelle Bolsonaro venceu no Distrito Federal e Tarcísio de Freitas foi reeleito governador de São Paulo no primeiro turno.

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Em São Paulo, duas mulheres altamente qualificadas ficaram de fora do Senado. A nova correlação de forças abre caminho para uma ofensiva ainda maior contra o Supremo Tribunal Federal e para tentativas de impeachment de seus ministros.

Não se trata, portanto, simplesmente de saber quem ocupará o Palácio do Planalto. Está em disputa a própria orientação política do Estado brasileiro. Um presidente governa com o Congresso que as urnas lhe entregam.

E o Congresso que emerge desta eleição é ainda mais conservador e hostil a qualquer projeto de transformação social. Mesmo uma vitória de Lula no segundo turno significará enfrentar, desde o primeiro dia, uma correlação de forças extremamente adversa.

Mas eleição se decide com votos. E é justamente nos números que encontramos uma possibilidade concreta de reversão. Mais de 30 milhões de eleitores não compareceram às urnas. A diferença entre Flávio Bolsonaro e Lula foi de aproximadamente 2,2 milhões de votos. Se apenas três milhões daqueles que se abstiveram decidirem comparecer e votar em Lula no segundo turno, o jogo pode virar. É nesse enorme contingente que a campanha precisa concentrar boa parte de seus esforços.

Os demais candidatos, juntos, não chegaram a 8% dos votos válidos. E seria ilusório imaginar que esses votos serão automaticamente transferidos para Lula. Boa parte deles pertence ao campo da direita. A tarefa, portanto, é mais difícil do que construir acordos entre candidatos e partidos. É preciso falar diretamente com a população, principalmente com aqueles milhões de brasileiros que não foram votar.

Lula apareceu depois da apuração confiante. Disse que é bom no “mata-mata” e advertiu os bolsonaristas para se prepararem porque pretende derrotá-los. Confiança é necessária, mas não basta. A campanha do segundo turno precisa ser mais propositiva. Precisa mostrar concretamente ao eleitor que não estão em disputa apenas dois nomes, duas personalidades ou duas biografias. Estão em confronto dois projetos de país.

É preciso discutir emprego, salário, saúde, educação, moradia, segurança, desenvolvimento e soberania. Explicar que tipo de Brasil cada candidatura pretende construir. De um lado, um projeto de país soberano, capaz de decidir seu próprio destino e colocar suas riquezas a serviço de seu povo.

Do outro, um projeto subordinado aos interesses do grande capital financeiro e do imperialismo. É essa diferença que precisa chegar às ruas, às periferias, às fábricas, às escolas, às universidades e, sobretudo, aos milhões que se abstiveram.

O resultado do primeiro turno foi uma derrota e seria um erro tentar escondê-la. É preciso compreender por que quase metade dos brasileiros votou no bolsonarismo, por que a direita avançou no Parlamento e por que tantos milhões simplesmente não foram votar. Procurar essas respostas é indispensável para enfrentar o segundo turno — e também para compreender o Brasil que emergiu das urnas.

Podemos estar de luto. Mas não podemos ficar paralisados pelo luto. A campanha do segundo turno começa agora. Há milhões de votos a disputar e um país inteiro a convencer.

Como escreveu Gonçalves Dias na Canção do Tamoio:

“A vida é combate,

Que os fracos abate,

Que os fortes, os bravos,

Só pode exaltar.”

É hora de transformar o luto em luta.

•        Lula tem como virar, mas vai precisar fazer uma revolução na comunicação. Por Renato Rovai

O resultado do primeiro turno para Lula precisa ser analisado sem exageros que podem nos levar ou a culpar o povo pelos nossos erros ou a criar um clima de barata-voa, buscando culpados internos. O fato é que Lula perdeu cerca de três pontos percentuais em relação a 2022, saindo de 48,4% para 45,1%. Os Bolsonaros, por outro lado, avançaram de 43,5% para 47%.

É uma mudança importante. E mostra que não dá para tratar o resultado como se nada tivesse acontecido. Mas não é uma catástrofe. Foi um 3 para lá e um 3 para cá.

Por isso, não dá para concluir que a eleição está decidida. Ela está sendo jogada e, ainda bem, Lula, em seu discurso de ontem, dialogou com esse sentimento.

Flávio Bolsonaro tem um problema importante pela frente: sua rejeição é muito alta. A questão agora é saber qual é o teto dele.

Se ele conseguir ultrapassar rapidamente os 50% e abrir uma vantagem muito grande nas próximas pesquisas, a situação de Lula ficará bastante complicada. Mas, se começarmos o segundo turno com uma disputa equilibrada, há jogo.

E é justamente aí que Lula precisa mudar.

Onde perdemos votos? Fundamentalmente no Sudeste. São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro foram uma catástrofe para Lula. Mas também nas cidades pequenas, com menos de 50 mil habitantes. Nelas, Lula perdeu 7% dos votos que teve em 22.

É preciso diminuir a vantagem dos adversários nesses estados do Sudeste, se possível virando em Minas, o que não será fácil. Esse é um dos principais desafios para o segundo turno.

Também houve alguma perda no Nordeste. Mas nada significativo. A diferença é que ali existe uma estrutura política capaz de reagir.

Governadores como Jerônimo Rodrigues, Rafael Fontelles e Elmano de Freitas se reelegeram. Há disputa de segundo turno no Rio Grande do Norte. Foram eleitos senadores em Pernambuco, Ceará, Bahia e Rio Grande do Norte. Existe uma estrutura política que pode ser mobilizada.

E há outro elemento que considero muito importante: uma nova geração entrou em campo.

Tem gente jovem que construiu sua votação a partir da internet, sem grandes estruturas financeiras, e que conseguiu excelentes resultados. Isso aconteceu no Paraná, em São Paulo, no Rio, em Minas e em vários outros lugares.

É essa garotada que precisa ir para o comando da campanha. É essa garotada que tem que liderar a comunicação de Lula.

Eu não estou dizendo que as estruturas tradicionais devem desaparecer. Estou dizendo que o segundo turno precisa incorporar uma outra lógica de comunicação.

Essa gente fez voto com internet, criatividade e capacidade de conversar diretamente com as pessoas. É justamente isso que uma campanha de segundo turno precisa saber aproveitar.

Eu fui um dos primeiros a dizer que a campanha de comunicação de Lula no primeiro turno estava errando demais. E o resultado mostrou que havia razões para essa crítica.

Agora não adianta ficar fazendo autocrítica durante semanas. É preciso agir rápido. E a primeira decisão da campanha de Lula precisa ser essa: mudar a comunicação e entregar para quem obteve bons resultados nas urnas.

O segundo turno exige coragem para reconhecer os erros e, principalmente, capacidade para fazer uma virada de campanha rápida, principalmente quando se está atrás.

Não é hora de ficar batendo boca e pensando no umbigo.

É hora de jogar o jogo que está posto.

Lula ainda tem como virar. Mas, para isso, vai precisar ter ousadia para mudar a campanha, abrir espaço para uma nova geração e encontrar uma comunicação capaz de diminuir a vantagem adversária onde ela foi maior.

 

Fonte: Por Paulo Cannabrava Filho, em Diálogos do Sul Global/Fórum

 

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