Cannabrava:
Direita furibunda ameaça a democracia
O
quadro que emerge das urnas é assustador. A direita não esconde o que pretende
fazer com o poder conquistado no Congresso. Flávio Bolsonaro, que disputará o
segundo turno com o presidente Lula, anuncia que seu campo político terá força
para eleger os presidentes da Câmara e do Senado e fala até em uma reforma
constitucional para, segundo suas palavras, “redemocratizar” o país.
Quando
aqueles que atacaram as instituições passam a anunciar que vão “redemocratizar”
a democracia, é preciso prestar muita atenção ao significado das palavras.
O PL
saiu das eleições com uma bancada gigantesca: 127 deputados e 28 senadores.
Somados aos demais partidos conservadores e de direita, esses números podem
constituir uma maioria capaz não apenas de bloquear um eventual segundo governo
Lula, mas de impor uma agenda própria. Portanto, mesmo que Lula vença o segundo
turno, a ameaça não desaparece. Começará imediatamente outra batalha: a batalha
pela governabilidade e pela preservação das instituições democráticas.
E
existe uma questão ainda mais grave: o Supremo Tribunal Federal. O próximo
presidente terá a oportunidade de indicar novos ministros em razão das
aposentadorias previstas durante o mandato.
Se a
isso se acrescentar a hipótese extrema de processos de impeachment contra
ministros considerados desafetos pelo bolsonarismo, poderá ocorrer uma
transformação profunda na composição do STF. Não estamos falando de uma
abstração jurídica. Estamos falando da instituição que tem a última palavra na
defesa da Constituição.
O
senador Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, já
advertiu o presidente do STF, Edson Fachin, de que o Senado não se omitirá
diante das denúncias relacionadas ao Banco Master. Evidentemente, toda denúncia
fundamentada deve ser investigada e ninguém pode estar acima da lei.
Outra
coisa, porém, é transformar a necessária apuração de responsabilidades em
instrumento para submeter ou controlar politicamente o Supremo. Uma democracia
não sobrevive quando um Poder pretende subjugar os demais.
Há
também a ameaça aos direitos econômicos e sociais. O projeto anunciado pela
direita aponta para mais privatização, desnacionalização, precarização do
trabalho e redução da presença do Estado. Entram nessa conta o salário mínimo,
as aposentadorias e os programas sociais. É aí que uma discussão aparentemente
distante sobre Congresso, Supremo e Constituição chega à mesa do trabalhador.
Democracia não é apenas votar a cada quatro anos. É também emprego, salário,
aposentadoria, educação, saúde e direito a uma vida digna.
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Por
isso, não basta dizer que Lula precisa vencer. É preciso compreender que sua
eventual vitória não resolverá o problema criado pela nova correlação de forças
no Parlamento. Lula precisará mobilizar a população agora para ganhar a eleição
e, se reeleito, continuar mobilizando-a para governar. Sem pressão popular
organizada, um Congresso majoritariamente de direita terá condições de bloquear
projetos, impor retrocessos e colocar permanentemente o governo contra a
parede.
A
história ensina que movimentos autoritários raramente se apresentam dizendo que
pretendem destruir a democracia. Muitas vezes afirmam justamente o contrário:
apresentam-se como seus salvadores enquanto esvaziam, por dentro, as
instituições democráticas. Por isso, é preciso cautela com palavras
aparentemente inocentes como “redemocratizar”, sobretudo quando pronunciadas
por forças que durante anos investiram contra o sistema eleitoral, o Supremo e
as próprias regras do jogo democrático.
O
debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, marcado para o dia 18 pela Band em
parceria com o Estadão, será uma oportunidade para colocar essas diferenças
diante do eleitor. Mais do que comparar personalidades, será preciso comparar
projetos. Que país cada candidato pretende construir? Qual será a política para
o salário, o emprego, a Previdência, as empresas públicas e os programas
sociais? Que relação manterá com o Congresso e com o Supremo? Que lugar
reservará ao Brasil diante dos interesses estrangeiros?
A
eleição presidencial, portanto, não encerra a disputa. Ela apenas define quem
ocupará o Palácio do Planalto. O problema maior continuará diante de nós: uma
correlação de forças no Congresso capaz de ameaçar conquistas sociais, a
soberania nacional e o equilíbrio entre os Poderes. Reeleger Lula tornou-se,
nesse cenário, uma tarefa essencial para quem pretende defender a democracia.
Mas será apenas o primeiro passo. Depois das urnas, será necessário organizar a
sociedade, mobilizar o povo e disputar, todos os dias, os rumos do país.
• Do luto à luta
Confesso:
a primeira sensação diante do resultado das urnas foi de luto. É difícil
encontrar outra palavra para definir o que senti ao ver Flávio Bolsonaro chegar
ao segundo turno com 47,3% dos votos, contra 45,16% de Lula. São pouco mais de
dois pontos percentuais de diferença, cerca de 2,2 milhões de votos. Não é
pouco. E, quando se olha para o conjunto do resultado eleitoral, o quadro se
torna ainda mais grave.
Buscando
entender o que aconteceu, encontrei uma frase que circula há anos, de autoria
incerta: “O povo que elege os corruptos, os renegados, os impostores, os
ladrões e os traidores não é vítima. Ele é cúmplice.”
É uma
afirmação brutal, mas que nos obriga a refletir. Não para condenar milhões de
eleitores, mas para perguntar por que uma parcela tão grande da sociedade
brasileira fez essa escolha. A democracia exige que respeitemos o resultado das
urnas, mas não que renunciemos ao direito de interrogá-lo e procurar
compreender suas causas.
E as
urnas não escolheram apenas o presidente. Talvez o resultado mais preocupante
esteja na composição do Parlamento, majoritariamente de direita,
particularmente no Senado. O PL conquistou uma bancada poderosa, elegeu seus
dois candidatos em Mato Grosso, Michelle Bolsonaro venceu no Distrito Federal e
Tarcísio de Freitas foi reeleito governador de São Paulo no primeiro turno.
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Em São
Paulo, duas mulheres altamente qualificadas ficaram de fora do Senado. A nova
correlação de forças abre caminho para uma ofensiva ainda maior contra o
Supremo Tribunal Federal e para tentativas de impeachment de seus ministros.
Não se
trata, portanto, simplesmente de saber quem ocupará o Palácio do Planalto. Está
em disputa a própria orientação política do Estado brasileiro. Um presidente
governa com o Congresso que as urnas lhe entregam.
E o
Congresso que emerge desta eleição é ainda mais conservador e hostil a qualquer
projeto de transformação social. Mesmo uma vitória de Lula no segundo turno
significará enfrentar, desde o primeiro dia, uma correlação de forças
extremamente adversa.
Mas
eleição se decide com votos. E é justamente nos números que encontramos uma
possibilidade concreta de reversão. Mais de 30 milhões de eleitores não
compareceram às urnas. A diferença entre Flávio Bolsonaro e Lula foi de
aproximadamente 2,2 milhões de votos. Se apenas três milhões daqueles que se
abstiveram decidirem comparecer e votar em Lula no segundo turno, o jogo pode
virar. É nesse enorme contingente que a campanha precisa concentrar boa parte
de seus esforços.
Os
demais candidatos, juntos, não chegaram a 8% dos votos válidos. E seria
ilusório imaginar que esses votos serão automaticamente transferidos para Lula.
Boa parte deles pertence ao campo da direita. A tarefa, portanto, é mais
difícil do que construir acordos entre candidatos e partidos. É preciso falar
diretamente com a população, principalmente com aqueles milhões de brasileiros
que não foram votar.
Lula
apareceu depois da apuração confiante. Disse que é bom no “mata-mata” e
advertiu os bolsonaristas para se prepararem porque pretende derrotá-los.
Confiança é necessária, mas não basta. A campanha do segundo turno precisa ser
mais propositiva. Precisa mostrar concretamente ao eleitor que não estão em
disputa apenas dois nomes, duas personalidades ou duas biografias. Estão em
confronto dois projetos de país.
É
preciso discutir emprego, salário, saúde, educação, moradia, segurança,
desenvolvimento e soberania. Explicar que tipo de Brasil cada candidatura
pretende construir. De um lado, um projeto de país soberano, capaz de decidir
seu próprio destino e colocar suas riquezas a serviço de seu povo.
Do
outro, um projeto subordinado aos interesses do grande capital financeiro e do
imperialismo. É essa diferença que precisa chegar às ruas, às periferias, às
fábricas, às escolas, às universidades e, sobretudo, aos milhões que se
abstiveram.
O
resultado do primeiro turno foi uma derrota e seria um erro tentar escondê-la.
É preciso compreender por que quase metade dos brasileiros votou no
bolsonarismo, por que a direita avançou no Parlamento e por que tantos milhões
simplesmente não foram votar. Procurar essas respostas é indispensável para
enfrentar o segundo turno — e também para compreender o Brasil que emergiu das
urnas.
Podemos
estar de luto. Mas não podemos ficar paralisados pelo luto. A campanha do
segundo turno começa agora. Há milhões de votos a disputar e um país inteiro a
convencer.
Como
escreveu Gonçalves Dias na Canção do Tamoio:
“A vida
é combate,
Que os
fracos abate,
Que os
fortes, os bravos,
Só pode
exaltar.”
É hora
de transformar o luto em luta.
• Lula tem como virar, mas vai precisar
fazer uma revolução na comunicação. Por Renato Rovai
O
resultado do primeiro turno para Lula precisa ser analisado sem exageros que
podem nos levar ou a culpar o povo pelos nossos erros ou a criar um clima de
barata-voa, buscando culpados internos. O fato é que Lula perdeu cerca de três
pontos percentuais em relação a 2022, saindo de 48,4% para 45,1%. Os
Bolsonaros, por outro lado, avançaram de 43,5% para 47%.
É uma
mudança importante. E mostra que não dá para tratar o resultado como se nada
tivesse acontecido. Mas não é uma catástrofe. Foi um 3 para lá e um 3 para cá.
Por
isso, não dá para concluir que a eleição está decidida. Ela está sendo jogada
e, ainda bem, Lula, em seu discurso de ontem, dialogou com esse sentimento.
Flávio
Bolsonaro tem um problema importante pela frente: sua rejeição é muito alta. A
questão agora é saber qual é o teto dele.
Se ele
conseguir ultrapassar rapidamente os 50% e abrir uma vantagem muito grande nas
próximas pesquisas, a situação de Lula ficará bastante complicada. Mas, se
começarmos o segundo turno com uma disputa equilibrada, há jogo.
E é
justamente aí que Lula precisa mudar.
Onde
perdemos votos? Fundamentalmente no Sudeste. São Paulo, Minas Gerais e Rio de
Janeiro foram uma catástrofe para Lula. Mas também nas cidades pequenas, com
menos de 50 mil habitantes. Nelas, Lula perdeu 7% dos votos que teve em 22.
É
preciso diminuir a vantagem dos adversários nesses estados do Sudeste, se
possível virando em Minas, o que não será fácil. Esse é um dos principais
desafios para o segundo turno.
Também
houve alguma perda no Nordeste. Mas nada significativo. A diferença é que ali
existe uma estrutura política capaz de reagir.
Governadores
como Jerônimo Rodrigues, Rafael Fontelles e Elmano de Freitas se reelegeram. Há
disputa de segundo turno no Rio Grande do Norte. Foram eleitos senadores em
Pernambuco, Ceará, Bahia e Rio Grande do Norte. Existe uma estrutura política
que pode ser mobilizada.
E há
outro elemento que considero muito importante: uma nova geração entrou em
campo.
Tem
gente jovem que construiu sua votação a partir da internet, sem grandes
estruturas financeiras, e que conseguiu excelentes resultados. Isso aconteceu
no Paraná, em São Paulo, no Rio, em Minas e em vários outros lugares.
É essa
garotada que precisa ir para o comando da campanha. É essa garotada que tem que
liderar a comunicação de Lula.
Eu não
estou dizendo que as estruturas tradicionais devem desaparecer. Estou dizendo
que o segundo turno precisa incorporar uma outra lógica de comunicação.
Essa
gente fez voto com internet, criatividade e capacidade de conversar diretamente
com as pessoas. É justamente isso que uma campanha de segundo turno precisa
saber aproveitar.
Eu fui
um dos primeiros a dizer que a campanha de comunicação de Lula no primeiro
turno estava errando demais. E o resultado mostrou que havia razões para essa
crítica.
Agora
não adianta ficar fazendo autocrítica durante semanas. É preciso agir rápido. E
a primeira decisão da campanha de Lula precisa ser essa: mudar a comunicação e
entregar para quem obteve bons resultados nas urnas.
O
segundo turno exige coragem para reconhecer os erros e, principalmente,
capacidade para fazer uma virada de campanha rápida, principalmente quando se
está atrás.
Não é
hora de ficar batendo boca e pensando no umbigo.
É hora
de jogar o jogo que está posto.
Lula
ainda tem como virar. Mas, para isso, vai precisar ter ousadia para mudar a
campanha, abrir espaço para uma nova geração e encontrar uma comunicação capaz
de diminuir a vantagem adversária onde ela foi maior.
Fonte:
Por Paulo Cannabrava Filho, em Diálogos do Sul Global/Fórum

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