Perguntas
incômodas sobre os que não votaram
Talvez
seja difícil encontrar frase melhor para pensar o Brasil que chega a este
segundo turno. Não porque as pessoas estejam simplesmente “perdidas” – e muito
menos porque exista eleitor moralmente superior a outro –, mas porque uma
democracia começa a adoecer quando uma parcela enorme da população deixa de
enxergar na política um lugar onde sua vida possa efetivamente mudar.
Em 4 de
outubro, mais de 33,4 milhões de eleitores não compareceram às urnas no
primeiro turno, uma abstenção de 21,08% do eleitorado – a maior em uma eleição
presidencial desde 1998. O segundo turno, marcado para 25 de outubro, será
disputado por Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva. Antes de perguntar
em quem essas pessoas votariam, talvez seja necessário fazer uma pergunta
anterior: o que precisaria acontecer para que elas voltassem a acreditar que a
política merece seu tempo?
A
resposta certamente não cabe em uma única explicação. Há desinteresse,
dificuldades materiais, problemas de transporte, trabalho, doença, distância,
desinformação, desencanto – e há também uma percepção cada vez mais disseminada
de que “não importa quem ganhe”. Essa talvez seja a mais perigosa, porque uma
democracia não se enfraquece apenas quando alguém tenta tomar o poder pela
força; ela também se desgasta quando as pessoas deixam de acreditar que
participar faz diferença. É nesse ponto que a velha discussão sobre o chamado
“pobre de direita” precisa ser refeita, não para repetir o diagnóstico fácil,
mas para perguntar o que ele não explica.
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A pergunta errada: quando o diagnóstico vira obstáculo
“Como
pode existir pobre de direita?” Uma pessoa pobre pode ser conservadora,
liberal, socialista, religiosa, nacionalista, progressista ou qualquer
combinação dessas coisas. Classe social não determina automaticamente
consciência política, assim como renda não vem acompanhada de manual de
instruções ideológicas. O problema é transformar “pobre de direita” em
explicação: a expressão descreve uma posição eleitoral, mas não explica por que
ela existe.
Quando
a esquerda olha para um trabalhador que vota à direita e responde apenas “ele
não entendeu os próprios interesses”, comete um erro duplo – primeiro,
transforma o eleitor em objeto de tutela; segundo, deixa de investigar por que
suas próprias propostas deixaram de produzir identificação. Talvez a pergunta
correta seja outra: o que aconteceu para que pessoas que dependem de políticas
públicas deixassem de enxergá-las como expressão de seus próprios direitos?
Essa pergunta dói mais, porque obriga a olhar para dentro.
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Política social não é esmola: quando o direito parece favor e o futuro parece
impossível
A
Constituição de 1988 não trata educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia,
transporte, segurança, previdência e assistência social como favores: reconhece
direitos sociais e estabelece deveres e objetivos para o Estado. O próprio
texto constitucional define entre os objetivos fundamentais da República a
construção de uma sociedade livre, justa e solidária, a redução das
desigualdades e a erradicação da pobreza. Isso deveria ser banal, mas não é.
Quando uma família recebe uma transferência de renda, não está recebendo uma
gentileza pessoal do governante; quando uma criança frequenta uma escola
pública, não está recebendo uma concessão; quando alguém entra em um hospital
público, o Estado não está fazendo caridade. Está cumprindo uma função que a
Constituição lhe atribui.
Defender
direitos sociais não significa transformar toda política social existente em
sucesso absoluto: uma política pode reduzir a fome sem eliminar a pobreza,
ampliar o acesso à universidade sem enfrentar a precarização do trabalho,
garantir renda sem produzir autonomia, impedir que alguém caia no abismo sem
construir uma ponte para sair dele. Essa diferença é fundamental, porque a vida
não pode ser organizada eternamente entre sobreviver e esperar.
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O Estado que chega tarde
Há uma
dimensão da pobreza que aparece pouco nas estatísticas: a experiência da
espera. Esperar pela consulta, pela vaga na creche, pelo ônibus, pela casa,
pelo emprego, pelo saneamento – esperar que o filho consiga uma oportunidade,
que a violência diminua, que alguém olhe para aquele bairro. Esperar, esperar,
esperar. E esperar não é apenas uma condição material; é também uma pedagogia
política que ensina, todos os dias, ao cidadão a desconfiar da promessa
pública. Quando o Estado chega tarde demais, deixa de ser percebido como
garantia e passa a ser percebido como promessa – e promessa repetida sem
entrega produz descrença. É nesse terreno que discursos autoritários podem
prosperar – não porque todo cidadão que vota à direita seja autoritário, mas
porque o sofrimento social cria demanda por explicações, e a extrema direita
frequentemente oferece algumas das mais simples: há sempre um culpado. O
criminoso, o imigrante, o professor, a universidade, a esquerda, o servidor
público, o “sistema”, a minoria. O alvo muda; a estrutura permanece.
A
política deixa de perguntar como distribuir riqueza, poder e oportunidades e
passa a perguntar quem merece ser punido. É nesse mesmo movimento que a
segurança pública se converte em um dos principais terrenos da fabricação de
inimigos. Mas segurança pública também é direito, e combater o crime não é
sinônimo de autoritarismo. O problema começa quando a proteção do cidadão é
substituída pela produção de suspeitos – quando pobreza, diferença ou
pertencimento político passam a funcionar como prova de culpa. É uma troca
perigosa, porque o ressentimento mobiliza, mas não constrói escola, não
constrói hospital, não transforma pesquisa em tecnologia. Não constrói
soberania.
Há uma
memória que o Brasil ainda não conseguiu elaborar. Mais de 700 mil pessoas
morreram na pandemia de COVID-19 – e morreram em uma pandemia agravada por
decisões, omissões e escolhas do governo federal: minimização da doença,
promoção de tratamentos sem eficácia comprovada e uma condução da vacinação que
foi objeto de graves críticas e investigação parlamentar. A CPI da Pandemia
atribuiu ao governo federal papel preponderante na condução da resposta à crise
e recomendou indiciamentos, inclusive do então presidente. A pandemia não
terminou quando os hospitais esvaziaram. Ela permanece como um trauma não
elaborado, como uma pergunta sem resposta: como foi possível que um país
inteiro assistisse, em tempo real, à produção industrial da morte e ainda assim,
anos depois, um campo político associado àquele governo volte a disputar a
Presidência com força suficiente para chegar ao segundo turno?
Talvez
porque a memória, no Brasil, seja tratada como assunto de arquivo, não como
matéria de disputa. Talvez porque o luto tenha sido privatizado – cada família
enterrando seus mortos em silêncio, sem que a sociedade pudesse dizer em voz
alta: isso não foi apenas um acidente sanitário. Houve escolhas políticas,
omissões e decisões que tiveram consequências concretas sobre a vida de
centenas de milhares de pessoas. Disputar a memória da pandemia não é
revanchismo. É impedir que o esquecimento prepare o terreno para a repetição. É
dizer que as mais de 700 mil pessoas que morreram não são números: são pessoas
de carne e osso, histórias, ausências que continuam a organizar a vida de quem
ficou. E é por isso que o segundo turno não é apenas uma eleição. É uma escolha
sobre o que faremos com essa memória.
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Quando a austeridade estreita o futuro: orçamento é política
Não é
correto afirmar que toda política de austeridade produz fascismo – embora
determinadas políticas de austeridade, em certos contextos, possam alimentar
condições sociais e políticas favoráveis ao crescimento da extrema direita.
Tampouco existe uma equação automática entre contenção fiscal e extrema
direita. Mas existe uma questão política incontornável: o que acontece quando a
capacidade do Estado de responder aos problemas sociais é permanentemente
comprimida?
O Novo
Arcabouço Fiscal é objeto de uma disputa legítima entre diferentes correntes
econômicas – David Deccache, por exemplo, argumenta que as regras do novo
regime fiscal restringem a capacidade do governo de ampliar gastos sociais,
reduzir desigualdades e realizar investimentos necessários ao desenvolvimento.
Essa é uma interpretação situada em uma determinada corrente do debate
econômico e está longe de ser consensual. Justamente por isso, essa disputa
deveria sair dos círculos especializados e entrar no debate público.
O
problema não é reconhecer que existem limites fiscais; o problema é transformar
esses limites em uma variável puramente técnica que encerra, antes mesmo de
começar, uma discussão que é essencialmente política. Quanto gastar? Onde
investir? Quem proteger? Quem tributar? Que setores desenvolver? Que futuro
financiar? Orçamento não é apenas contabilidade – orçamento é escolha. Se
existe um limite para determinado gasto, existe também uma escolha sobre aquilo
que não será feito. Por isso, a pergunta não deveria ser apenas “quanto o
Estado pode gastar?”, mas: que Estado queremos construir – e quanto estamos
dispostos a financiar para que ele exista?
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A dívida também precisa ser discutida
É
preciso falar de dívida pública sem slogans – mas também sem esconder seus
números. Segundo os cálculos de Paulo Kliass, elaborados a partir das
estatísticas oficiais do Banco Central, as despesas com juros da dívida pública
somaram R$ 1,2 trilhão nos doze meses encerrados em junho de 2026. Apenas
naquele mês, foram cerca de R$ 111 bilhões. Dados oficiais divulgados
posteriormente ajudam a dimensionar essa escala: em agosto de 2026, a dívida
pública federal alcançou R$ 9,29 trilhões, enquanto os juros incorporados
naquele mês chegaram a R$ 88,39 bilhões; com dados até julho, a Consultoria de
Orçamento da Câmara registrava R$ 1,15 trilhão em juros acumulados em doze
meses. Os números variam conforme o período e a metodologia, mas ajudam a
dimensionar a escala do problema. A pergunta, portanto, não é se a dívida custa
caro. É quem paga essa conta e o que deixa de ser feito quando ela chega a essa
escala.
Esses
dados não significam que “todo o dinheiro vai para os bancos”. Tampouco
permitem concluir que a dívida pública possa simplesmente ser ignorada. Juros,
amortizações e refinanciamento são conceitos diferentes, e uma discussão séria
precisa respeitar essa diferença. Mas os números permitem formular uma pergunta
que não deveria ser ignorada: por que as despesas sociais precisam justificar
continuamente sua existência enquanto a despesa financeira parece escapar, no
debate público, do mesmo escrutínio político e midiático?
Em
2026, essa escala tornou-se difícil de ignorar. Enquanto o debate gira em torno
de cortes, contingenciamentos e limites para políticas sociais e investimentos,
as despesas com juros da dívida ultrapassam a escala de um trilhão de reais em
doze meses. A questão, portanto, não é escolher entre “responsabilidade fiscal”
e “irresponsabilidade fiscal”. É perguntar: responsabilidade fiscal para quem,
para quê e com quais prioridades?
Se o
país precisa reorganizar suas contas, essa reorganização deveria alcançar o
conjunto do orçamento. Se existem limites para financiar políticas públicas,
também é legítimo discutir os mecanismos que determinam o custo financeiro do
Estado. A dívida precisa deixar de ser um assunto reservado a especialistas e
tornar-se uma questão democrática. Não para produzir uma conclusão antecipada.
Mas para que a sociedade possa perguntar quanto paga, por que paga, quem recebe
e que projeto de país esse pagamento torna possível.
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O problema também está dentro da esquerda
É aqui
que a autocrítica se torna indispensável. A extrema direita não cresce apenas
pelo que diz; também cresce nos espaços que outras forças políticas deixam de
ocupar. Se a esquerda promete transformação e entrega apenas administração da
escassez, produz frustração; se promete democratização e não democratiza o
poder, produz cinismo; se defende direitos, mas não consegue melhorar a
experiência concreta de quem depende deles, permite que alguém apareça dizendo
“eu sei por que sua vida está ruim” e ofereça uma explicação simples. Uma
esquerda que pede confiança apenas porque é menos ruim que a alternativa corre
o risco de transformar a própria política em gerenciamento permanente do medo.
Ela precisa fazer uma pergunta mais difícil: o que ainda falta para que a vida
das pessoas seja digna?
Transferência
de renda não substitui emprego digno; acesso à universidade não substitui
política industrial; escola pública não pode funcionar como depósito de
crianças enquanto os adultos trabalham jornadas intermináveis; o SUS precisa de
financiamento, mas também de capacidade tecnológica; habitação não pode
significar simplesmente construir unidades distantes de tudo; combater a fome
sem transformar a estrutura produtiva mantém milhões de pessoas permanentemente
vulneráveis. O desafio não é apenas fazer o Estado chegar – é fazer com que ele
chegue antes que a esperança vá embora.
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O futuro precisa voltar ao orçamento
É aqui
que a discussão fiscal encontra a discussão sobre futuro – e é aqui que a
imagem do Estado que chega tarde retorna com força. Não se trata de revogar uma
regra e imaginar que todos os problemas desaparecerão; a pergunta mais
interessante é: que pacto fiscal seria necessário para financiar um projeto
de país que não seja apenas administração da escassez? Isso não abre um
programa de governo, mas um conjunto de perguntas que qualquer projeto de país
precisaria enfrentar.
- Que indústria o
Brasil quer ter?
Que medicamentos, equipamentos médicos, semicondutores, sistemas de
energia, tecnologias agrícolas, satélites e tecnologias de defesa queremos
ser capazes de produzir? Indústria, ciência e tecnologia não deveriam ser
departamentos separados – são partes da mesma pergunta: quanto de
autonomia um país quer possuir? Política industrial é também política de
soberania. E qual é o custo de não produzir?
- Que cidade
estamos construindo quando entregamos cada casa? Construir
moradia significa construir cidades – emprego, infraestrutura, transporte,
saneamento, arquitetura, engenharia, materiais, energia. Uma política
habitacional robusta pode ser simultaneamente política social e política
econômica. Mas também exige escolhas: onde construir, para quem, com que
padrão de urbanização e a que custo ambiental.
- Quem ficará com
o tempo economizado pela tecnologia? A redução da jornada e o fim da
escala 6×1 não são apenas reivindicações trabalhistas – são uma pergunta
sobre o destino dos ganhos de produtividade. Se máquinas, softwares e
inteligência artificial aumentam a produtividade, quem fica com o tempo
que a tecnologia economizou? Se a sociedade produz mais em menos horas,
por que o trabalhador necessariamente precisa trabalhar mais para
continuar vivendo? Se a tecnologia economiza tempo, o trabalhador também
deveria receber parte desse tempo de volta.
- De quem o Estado
arrecada?
Não basta perguntar quanto o Estado arrecada; é preciso perguntar de quem
arrecada. Uma sociedade em que o consumo pesa proporcionalmente mais sobre
os pobres do que sobre os mais ricos precisa discutir progressividade
tributária, renda, patrimônio, lucros e dividendos. Tributação não é
apenas mecanismo de arrecadação – também é mecanismo de distribuição de
poder.
- Que conhecimento
um país precisa produzir para poder decidir? Um país que
importa tecnologia estratégica compra também parte de sua autonomia.
Universidades, institutos de pesquisa e centros tecnológicos precisam ser
tratados como infraestrutura nacional. Ciência não é luxo – é capacidade
de decidir. Um país que não pesquisa suficientemente não apenas sabe
menos; escolhe menos.
- Qual é o limite
entre autonomia técnica e responsabilidade democrática? O Brasil
precisa discutir quais limites fiscais e monetários está disposto a
estabelecer para preservar sua capacidade de escolha. O Novo Arcabouço
Fiscal deve ser revogado e substituído por uma regra compatível com
investimento, crescimento e redução das desigualdades? A autonomia do
Banco Central, tal como estabelecida atualmente, produz o equilíbrio
adequado entre autonomia técnica, estabilidade de preços, emprego,
crescimento e responsabilidade democrática? Essas perguntas não são
técnicas – são políticas. E precisam ser respondidas no debate público.
- Quais ativos são
estratégicos demais para serem mercadorias? Energia, água,
mineração, infraestrutura, tecnologia e comunicações devem estar
submetidos apenas à lógica de mercado? O que o país perde quando transfere
ao setor privado capacidade produtiva, infraestrutura, conhecimento e
poder de decisão? E, quando uma privatização compromete interesses
estratégicos, não deveria existir também a possibilidade de recuperar o
controle público? O Brasil precisa decidir o que não pode ser tratado
apenas como mercadoria.
- Que transição
energética queremos construir? Se minerais como lítio, níquel, cobre,
grafita, manganês, nióbio e terras raras serão cada vez mais importantes
para a transição energética, o Brasil continuará exportando minério e
importando tecnologia? Ou usará esses recursos para desenvolver indústria,
ciência e cadeias produtivas de maior valor agregado? A recém-criada
Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos já reconhece sua
importância para a transição energética, a soberania tecnológica e a
redução de emissões. Mas será que ela basta? É possível combater a crise
climática criando novas zonas de sacrifício ambiental? Mineral crítico
deve ser apenas commodity de exportação ou instrumento de soberania?
- Como controlar
um Estado maior?
Se defendemos mais capacidade estatal para enfrentar os dramas da
população, surge uma pergunta legítima: como impedir captura, desperdício,
corrupção e burocratização? Nenhum projeto de Estado democrático pode
ignorar essa questão. A resposta não pode ser simplesmente reduzir o
Estado, mas torná-lo transparente, participativo e submetido ao controle
social.
- Como
democratizar as decisões? Democracia não pode começar e terminar
na urna. Orçamento participativo, conselhos, consultas públicas, controle
social – a própria Constituição, em seu art. 193, parágrafo único, prevê a
participação da sociedade na formulação, no monitoramento, no controle e
na avaliação das políticas sociais. A democracia precisa sair do
calendário eleitoral e entrar na vida cotidiana.
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Soberania também é decidir o próprio orçamento
Existe
uma conexão que costuma desaparecer quando economia e política externa são
discutidas separadamente: capacidade produtiva é também capacidade diplomática.
Um país que não possui capacidade produtiva suficiente depende de outros; um
país dependente tecnologicamente possui menos margem de negociação; um país que
precisa recorrer permanentemente a estruturas externas para financiar, produzir
ou adquirir bens estratégicos possui menos alternativas; e um país com menos
autonomia econômica possui menos espaço para exercer soberania política.
A
disputa global por minerais como lítio, terras raras e nióbio é uma das novas
fronteiras da soberania – e o Brasil precisa decidir se será fornecedor de
matéria-prima ou protagonista da transição energética. A transição energética
não pode significar apenas substituir a dependência do petróleo pela
dependência de minerais críticos importados. Significa construir capacidade
produtiva, tecnológica e industrial para que o país não troque uma forma de
dependência por outra.
Por
isso, soberania não significa fechar fronteiras – significa construir
alternativas, cooperar sem depender, negociar sem obedecer, produzir aquilo que
é estratégico sem depender de fornecedores externos, pesquisar para ampliar a
própria capacidade de escolha, defender interesses nacionais sem transformar o
mundo em uma guerra permanente de blocos.
O
debate sobre iniciativas de segurança e cooperação promovidas pelos Estados
Unidos na América Latina – como o Escudo das Américas, lançado em março de 2026
e que hoje reúne os Estados Unidos e outros 14 países da América Latina e do
Caribe – precisa ser feito nesse horizonte: não como escolha simplista entre
“ser pró-EUA” ou “ser anti-EUA”, mas como discussão sobre qual margem de
autonomia o Brasil deseja possuir no sistema internacional. Soberania é
capacidade de escolha, e capacidade de escolha exige capacidade material.
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E os mais de 33 milhões que não foram votar?
Talvez
seja aqui que o segundo turno encontre sua questão mais profunda. Não
deveríamos olhar para quem não votou como uma massa a ser conquistada –
deveríamos perguntar o que precisaria acontecer para que essas pessoas
voltassem a acreditar que a política merece seu tempo. Talvez alguns estejam
indiferentes, talvez outros estejam decepcionados, talvez muitos simplesmente
não acreditem que a política consiga alterar suas vidas. Essa última hipótese
deveria assustar mais do que qualquer pesquisa eleitoral, porque uma democracia
não pode depender eternamente da capacidade de seus candidatos de mobilizar
medo contra medo. Ela precisa oferecer razões para participar – razões
materiais, razões políticas, razões de futuro. Não basta dizer “vote porque a
outra opção é pior”; uma democracia precisa ser capaz de dizer algo maior:
“participe porque existe algo que podemos construir”.
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Ainda há tempo
Talvez
a tarefa deste segundo turno seja maior do que escolher entre dois nomes: é
descobrir se a política brasileira ainda consegue produzir uma conversa sobre
futuro. Uma conversa em que o pobre não seja tratado como eleitor irracional,
em que o beneficiário de uma política social não seja tratado como devedor de
gratidão, em que o trabalhador não seja transformado em empreendedor por
decreto, em que o jovem não seja obrigado a escolher entre precariedade e
emigração, em que ciência seja entendida como soberania, em que
responsabilidade fiscal não signifique abrir mão da responsabilidade social do
Estado, em que tecnologia não seja apenas uma promessa de produtividade para
empresas, mas também uma possibilidade de devolver tempo às pessoas, em que
democracia não seja apenas o direito de votar, mas também o direito de
participar das decisões que organizam a vida coletiva.
O
segundo turno pode ser tratado apenas como uma batalha eleitoral, mas também
pode ser uma oportunidade para fazer perguntas maiores. Que Estado queremos?
Quem deve financiar esse Estado? O que queremos produzir? Quanto queremos
trabalhar? Quem ficará com os ganhos da tecnologia? Como queremos viver? Que
lugar queremos ocupar no mundo? Que futuro queremos oferecer aos nossos filhos?
Essas perguntas não pertencem a um partido – pertencem à sociedade. E não serão
respondidas sozinhas. Precisam ser discutidas nos bairros, nas escolas, nas
universidades, nos sindicatos, nas associações, nos locais de trabalho, nos
movimentos sociais, nos espaços culturais e nas ruas. Não para substituir a
democracia eleitoral, mas para fazê-la respirar. Porque o problema do Brasil
não é apenas quem está perdido – é quanta gente passou tempo demais esperando.
Esperando a consulta, a casa, o emprego, a escola, o ônibus, a oportunidade, a
política cumprir o que prometeu.
Quando
a espera se torna permanente, a esperança começa a parecer ingenuidade, e nesse
momento qualquer promessa de ordem pode parecer mais concreta do que uma
promessa de futuro. Talvez seja por isso que a frase de Criolo permaneça tão
necessária: “As pessoas não são más, elas só estão perdidas. Ainda há tempo.”
Mas tempo não é uma política pública – é apenas a possibilidade de começar
antes que seja tarde.
Fonte:
Por Rafael Guerra de Oliveira, em Outras Palavras

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