Mulheres
Yanomami lançam manifesto contra Flávio Bolsonaro
“Eu não
quero o filho do Bolsonaro. Não quero nossos filhos cheios de malária de novo”,
alerta Noemia, a primeira a falar em um vídeo gravado pelas mulheres Yanomami
contra a eleição de Flávio Bolsonaro, no final de setembro. O material faz
parte de um manifesto lançado por lideranças femininas para o segundo turno das
eleições gerais deste ano.
Noemia
vive na região da maloca Papiu, uma das mais afetadas pelo garimpo na Terra
Indígena Yanomami — a maior do Brasil em extensão, com população de 31 mil
habitantes e área comparável à de Portugal.
Ela
teme que o candidato do PL impulsione o retorno ao território da crise
sanitária e das atividades econômicas ilegais, como o garimpo, durante o
governo de Jair Bolsonaro.
Entre
2019 e 2022, 420 crianças com menos de cinco anos morreram por causas
evitáveis, como malária, desnutrição e verminoses. O número de óbitos é quase o
dobro em relação aos quatro anos anteriores, de acordo com o Siasi (Sistema de
Informação da Atenção à Saúde Indígena, do SUS (Sistema Único de Saúde). Desse
total, 47 foram vítimas da malária. Outras 115 estavam desnutridas.
“O
rastro de Bolsonaro é contaminado por doenças, está cheio de malária, diarreia,
verminoses, feridas, pneumonia, tomado pela desnutrição, vômito e coceira. O
caminho de Bolsonaro é assim e por isso nós, mulheres da floresta, não queremos
que seu filho Flávio assente na cadeira de presidente”, diz uma carta assinada
por mulheres Yanomami.
Reunidas
na comunidade de Rokoari, as lideranças lembraram dos impactos do garimpo em
seu território. No manifesto em vídeo, elas temem que Flávio reproduza “o
caminho sujo” de seu pai Jair, e declaram apoio à reeleição de Lula.
Em
janeiro de 2023, primeiro mês do terceiro governo Lula, o colapso do sistema de
saúde levou à declaração de situação de emergência. “Não queremos voltar a
chorar”, afirma Adneia Yanomami.
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Ao menos 4 mil indígenas ficaram sem assistência médica
No auge
da invasão garimpeira, pelo menos seis postos de saúde foram fechados ou
destruídos, interrompendo a assistência a 72 comunidades com mais de 4 mil
indígenas, aponta um relatório do MPF (Ministério Público Federal).
“O
desastre socioambiental promovido pelo garimpo ilegal e a correspodente omissão
do estado brasileiro em garantir segurança territorial ao povo Yanomami
tiveram, por fim, o efeito disruptivo de colapsar a já fragilizada assistência
sanitária no território”, diz o documento.
Um
desses postos é o Homoxi, responsável pelo atendimento de cerca de 250
indígenas. Localizado ao lado de uma cratera de garimpo, o posto foi incendiado
em dezembro de 2022 – a suspeita recai sobre garimpeiros invasores do
território.
Outra
unidade interditada foi a de Kayanau. Ali, os profissionais de saúde que
permaneciam na área estimaram a presença de 1,6 mil garimpeiros, além de um
“intenso fluxo de aeronaves, prostituição e abandono da agricultura”.
O
garimpo e a violência também dificultaram o envio de remédios a regiões só
acessíveis por via aérea.
A
Repórter Brasil teve acesso a um ofício da Hutukara Associação Yanomami de
setembro de 2022 que descreve um quadro de desabastecimento em postos de saúde
próximos a duas regiões invadidas: Xitei e Surucucu.
Em um
período de três semanas, entre agosto e setembro, seis crianças morreram — uma
delas por um tipo de pneumonia causada pela “infestação massiva de vermes”.
Segundo
a associação, não havia “medicamentos necessários para o controle de
verminoses, impossibilitando o tratamento e a prevenção em comunidades
inteiras”.
Além da
dificuldade de abastecimento, investigações do MPF apontam indícios de um
suposto esquema de fraude e desvio de verbas públicas na saúde da TI.
Segundo
o órgão, o Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami empenhou R$ 3 milhões
em 2021 para a aquisição de medicamentos essenciais.
Há
suspeitas, porém, de que apenas uma fração dos remédios tenha sido entregue,
apesar do pagamento integral das notas fiscais.
De
acordo com o relatório do MPF, mais de 10 mil crianças indígenas teriam ficado
sem tratamento contra verminoses,
provocando quadros severos da doença – com relatos de crianças expelindo
vermes pela boca.
Cerca
de 20 mil garimpeiros invadiram o território, em estimativa da Fundação dos
Povos Indígenas (Funai) feita em fevereiro de 2023. Mais de 1,5 mil pontos de
mineração ilegal estavam operando entre 2020 e 2022, segundo o Centro Gestor
Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia. No total, 2,2 mil hectares
foram devastados nesse período.
Fonte:
Repórter Brasil

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