Milícias,
Faria Lima e governos: a zona cinza
A
leitura dominante do crime organizado cai numa armadilha liberal e moralista:
trata narcotráfico e milícias como desvios, anomalias do mercado, invasores que
corrompem um Estado originalmente sadio. Essa leitura oculta o dado
fundamental. O crime organizado territorial, em suas formas consolidadas, é
fração do capital e tecnologia de gestão urbana e política.
Para
situar a milicianização brasileira às vésperas de 2027, o paralelo com a Itália
do fim do século XX é útil, desde que preciso. A lição italiana não é a de um
político que entregou o Estado à máfia, mas a de um sistema político em colapso
que normalizou uma contiguidade já existente entre capital legal e capital
violento.
O fio
condutor desta leitura é a obra de Roberto Saviano. Em Gomorra, os
camorristas não chamam sua organização de máfia, mas de Sistema: o crime
não é exceção à ordem econômica, é um de seus modos de funcionamento. A lógica
do empresário criminoso e o pensamento dos chefões, escreve Saviano, coincidem
com o neoliberalismo mais radical.
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A zona cinzenta e a lição italiana
Em Gomorra
(2006), Saviano mostrou que a força da Camorra está menos na violência que na
capacidade de convertê-la em capital imobiliário, industrial e de serviços:
construção civil, confecção para grifes, descarte de resíduos tóxicos. Em ZeroZeroZero
(2013), seguiu a mesma lógica na escala global da cocaína, e fez da ‘Ndrangheta
calabresa protagonista.
A
penetração das máfias meridionais no Norte não começou com Silvio Berlusconi.
Remonta ao soggiorno obbligato, que a partir dos anos 1960 mandou
mafiosos para o exílio forçado no Norte, aos sequestros dos anos 1970 e à
lavagem de dinheiro na Milão dos anos 1980. A Operação Infinito (2010)
encontraria dezenas de células da ‘Ndrangheta na Lombardia.
Berlusconi
chegou ao poder em 1994 sobre os escombros do sistema partidário demolido pela Mani
Pulite. Seu braço direito e cofundador da Forza Italia, Marcello
Dell’Utri, foi condenado em definitivo pela Corte de Cassação, em 2014, a sete
anos por concorso esterno em associação mafiosa — a participação de
quem, sem ser membro, presta serviços à organização. A sentença o reconheceu
como mediador entre Berlusconi e a Cosa Nostra de 1974 a 1992, período
que inclui a contratação do mafioso Vittorio Mangano na mansão de Arcore, a residência do
então primeiro-ministro nos arredores de Milão.
Os
fatos posteriores a 1992 não foram considerados provados, e Berlusconi nunca
foi condenado por crimes de máfia. O ponto é estrutural, não judicial: a
desregulamentação, o ataque sistemático à magistratura e a retórica do
empreendedor contra o Estado deram à contiguidade um ambiente em que ela pôde
se normalizar.
A
sociologia italiana chamou esse espaço de zona grigia, tomando a
expressão de Primo Levi. Rocco Sciarrone a define como a área em que
empresários, profissionais liberais, políticos e mafiosos trocam favores sem
fronteiras nítidas. A máfia não invadiu o Norte; foi incorporada à economia
formal pela construção, pelo setor imobiliário, pelos resíduos e pelas obras
públicas.
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A forma brasileira: a milícia como mercadoria política
Michel
Misse chamou de “mercadorias políticas” os bens cuja troca combina recursos
econômicos e poder de coerção. A milícia vende a própria capacidade coercitiva
do Estado, privatizada por seus agentes e convertida em renda.
Ao
contrário do tráfico de varejo, que opera à margem e em confronto com a
polícia, a milícia nasce dentro do aparato repressivo: policiais, ex-militares,
bombeiros, agentes penitenciários. José Cláudio Souza Alves, em Dos barões
ao extermínio, e Bruno Paes Manso, em A República das Milícias,
reconstituem a passagem do esquadrão da morte ao domínio territorial de
negócios — a milícia como franquia de extrativismo urbano.
Roberto
Saviano chega ao Rio em ZeroZeroZero. Ali as milícias surgem como
autodefesa contra o tráfico e acabam como suas concorrentes na venda de
proteção, sob a complacência de uma política que, enquanto pôde, as tratou como
mal menor. A origem na autodefesa é a versão que as milícias contam de si
mesmas; a pesquisa brasileira as situa dentro da polícia. O diagnóstico
político, porém, coincide: o “mal menor” foi a forma pela qual o Estado as
incorporou.
Sua
base de acumulação é o confisco direto da renda da classe trabalhadora
periférica: taxas de “proteção”, monopólio do gás de cozinha, controle da água,
da TV a cabo e da internet, transporte alternativo e, sobretudo, grilagem e
incorporação imobiliária. Na Muzema, zona oeste do Rio, onde dois prédios
erguidos sob domínio miliciano desabaram em 2019 e mataram 24 pessoas,
repete-se o que Saviano descreveu na Campânia: o cimento liga a violência ao
capital fixo.
A
atualização de 2025 do Mapa Histórico dos Grupos Armados (GENI/UFF e
Instituto Fogo Cruzado) mostra que, em 2024, 34,9% dos moradores da Grande Rio
— perto de 4 milhões de pessoas — viviam sob domínio ou influência armada. O
domínio tem cor e classe: na capital, a renda per capita nessas áreas é de R$
1.267, pouco mais de um terço dos R$ 3.521 das áreas livres; na metrópole,
pretos, pardos e indígenas são 69,1% dos moradores sob controle miliciano, ante
55,2% no restante.
Nenhum
grupo cobre mais chão que as milícias: 49,4% da área sob domínio armado, cerca
de 201 km², mais de quatro vezes o que controlavam em 2007. O método é chegar
antes — ao loteamento sem título, ao bairro sem asfalto, à franja onde a cidade
cresce — e cobrar pedágio sobre tudo o que a urbanização traz. É a expansão
urbana convertida em renda armada.
A
fronteira entre milícia e tráfico, nítida no discurso, é porosa na prática.
Desde o fim dos anos 2010, investigações documentam “narcomilícias” que vendem
drogas e se aliam a facções como o Terceiro Comando Puro. A lógica é a do
negócio, não a da identidade.
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Um processo estrutural, uma aceleração política
Se o
crime territorial é estrutura, sua expansão não pertence a um único governo. As
milícias cariocas cresceram sob governos estaduais de várias colorações,
inclusive o de Sérgio Cabral, aliado do governo federal petista — o mesmo
período em que a CPI das Milícias da Alerj, em 2008, indiciou mais de duzentas
pessoas sem desmontar o negócio.
O maior
surto de crescimento registrado pelo Mapa, de 31,6% na área dominada, ocorre
entre 2016 e 2020: o estado do Rio quebra, as UPPs são desmontadas e a
intervenção federal de 2018 assiste ao avanço sem detê-lo.
A
partir de 2020, a curva miliciana se inverte. A Operação Intocáveis, do
Ministério Público, a morte de Wellington da Silva Braga, o Ecko, e as brigas
pela sucessão deixaram territórios desguarnecidos, que o Comando Vermelho
ocupou: hoje ele domina 47,2% da população sob controle armado. Um poder que
depende de redes com o Estado cresce depressa e se quebra quando elas são
cortadas.
O ciclo
bolsonarista no governo federal (2019–2022) acrescentou aceleração e
legitimação. A flexibilização das armas multiplicou os registros de
colecionadores, atiradores e caçadores (CACs), até ser revertida pelo Decreto
11.615/2023. O enfraquecimento da fiscalização ambiental e fundiária abriu
espaço à violência privada nas fronteiras agrícolas. E o discurso da autodefesa
armada deu cobertura moral à coerção paraestatal.
O
decreto conteve novas compras; o arsenal acumulado ficou.
Os
dados são do painel da Polícia Federal, que em julho de 2025 herdou do Exército
a base de registros. São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná concentram os
maiores acervos. A pistola é o tipo mais comum, e o 9 mm, o calibre mais
registrado — o mesmo que mais ganhou espaço nas apreensões, como mostra o
gráfico mais abaixo.
Os
casos reunidos pelo Instituto Sou da Paz aparecem em 19
unidades da federação, com São Paulo, Espírito Santo e Rio Grande do Sul na
frente, e atendem a clientelas variadas: PCC e CV, milícias urbanas e rurais,
grupos de extermínio, grileiros. No caso-limite, um casal esgotou a cota de CAC
comprando 26 fuzis idênticos para o Comando Vermelho.
Ao
igualar atiradores novatos e veteranos e ampliar as cotas, as regras de 2019 a
2022 abriram caminho ao que o crime mais procura: fuzis e pistolas 9 mm.
A
proximidade entre esse campo político e o mundo miliciano tem registro público.
Como deputado estadual, Flávio Bolsonaro homenageou na Alerj o policial Adriano
da Nóbrega, depois apontado como chefe do Escritório do Crime, e empregou em
seu gabinete a mãe e a ex-mulher dele. As investigações sobre o gabinete foram
anuladas pelos tribunais superiores por razões processuais, sem julgamento de
mérito.
Fora do
Rio, a expansão do modelo é desigual. Belém é o caso mais documentado, com
chacinas atribuídas a grupos de extermínio e uma CPI das Milícias na Assembleia
do Pará em 2015. Em outras regiões avançam a hegemonia de facções e a
letalidade policial, fenômenos aparentados, mas distintos.
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Do território à Faria Lima
Se a
milícia é o equivalente brasileiro do controle territorial mafioso, o
equivalente da ‘Ndrangheta em Milão é o Primeiro Comando da Capital. A Operação
Carbono Oculto, lançada em agosto de 2025 pela Receita, pela Polícia Federal e
pelo Ministério Público paulista, mostrou o dinheiro da facção circulando por
importadoras, distribuidoras e postos de combustível até desaguar em gestoras e
fintechs no centro financeiro de São Paulo.
O
balanço da Transparência Internacional – Brasil dá a escala: mais de
350 investigados, mais de quatro dezenas de fundos sob suspeita, um patrimônio
que ia de usinas de etanol e um terminal portuário a imóveis e caminhões. No
dia em que os alvos vieram a público, a Reag Investimentos perdeu mais de 15%
em bolsa.
O
Estado respondeu na linguagem da regulação, não da polícia: a Instrução
Normativa nº 2.278/2025 da Receita estendeu às fintechs os deveres de
informação dos bancos, e o Congresso aprovou o projeto do devedor contumaz,
contra empresas que fazem da sonegação um método.
É a
zona cinzenta em sua forma acabada. O dinheiro do varejo de drogas e do
contrabando entra em postos, distribuidoras e veículos financeiros legais,
operados por profissionais que não portam armas. A fronteira deixa de ser
geográfica, entre a favela e o asfalto, e passa a ser contábil.
Saviano
descreveu esse movimento em ZeroZeroZero. Nenhum papel cotado em bolsa,
escreve, gera o lucro da cocaína, “o último bem que permite a acumulação
originária de capitais”. E esse dinheiro encontra os bancos quando eles mais
precisam: o livro lembra que, em dezembro de 2009, Antonio Maria Costa, então
responsável pelo escritório da ONU sobre drogas e crime, declarou que os ganhos
das organizações criminosas tinham sido, para alguns bancos, o único capital de
investimento líquido disponível para escapar da falência. A Faria Lima é a
versão brasileira dessa regra.
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Até onde o capital legal tolera o ilegal?
A zona
cinzenta levanta uma pergunta que a crítica moralista não formula: até onde o
capital legal convive com a acumulação ilegal? A tolerância não é moral, mas
condicional. Depende de quem paga os custos e de se o capital ilegal
complementa ou concorre com o legal.
Quando
o complementa, a tolerância é alta. O capital ilegal oferece liquidez, demanda
para a construção e o mercado imobiliário, disciplina sobre a força de trabalho
e “limpeza” de terras. Na Lombardia, a crise de crédito pós-2008 tornou o
dinheiro da ‘Ndrangheta atraente para pequenas e médias empresas sem acesso a
bancos. O custo recai sobre os trabalhadores das periferias, não sobre o
capital.
Quando
o tributa ou concorre com ele, a tolerância cai: a extorsão atinge empresas, o
roubo de cargas encarece a logística, concessionárias de energia e
telecomunicações perdem áreas inteiras para o “gatonet” e as ligações
clandestinas, postos ligados a facções derrubam preços sonegando impostos. Aí
as empresas legais passam a cobrar o Estado.
A
Carbono Oculto marcou esse ponto de virada. Numa sondagem da Transparência
Internacional – Brasil com o Datafolha, em dezembro de 2025, empresas apontaram
o crime organizado como ameaça crescente, mas só 57% disseram confiar que seus
parceiros comerciais têm controles específicos contra ele.
A
Itália conheceu os dois lados desse limite. Por décadas, o pizzo foi
custo operacional. Em 2007, a Confindustria siciliana passou a expulsar
associados que pagassem extorsão, na esteira do Addiopizzo, criado por jovens
de Palermo em 2004: a máfia passara a custar mais do que rendia ao
empresariado.
Uma
coalizão antimáfia pode nascer do próprio capital, mas é seletiva: combate o
crime que ameaça a concorrência e os lucros e tolera o que se limita a extrair
renda dos pobres. O confisco miliciano da renda popular é justamente a
acumulação ilegal que menos incomoda o capital formal.
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A eleição e a estrutura
O
primeiro turno de 4 de outubro de 2026 levou ao segundo turno Flávio Bolsonaro
(PL), com 47,03% dos votos válidos, e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com
45,16%. A disputa será decidida em 25 de outubro.
A
integração do crime territorial ao poder não se apresenta como caos, mas como
reorganização do Estado: confisco da renda popular legalizado na prática,
acumulação ilegal blindada pela política. Ela já se converteu em mandatos — a
CPI das Milícias de 2008 tinha entre seus alvos um deputado estadual e um
vereador. Na Itália, as marcas desta integração foram a pressão contra a
magistratura, as anistias fiscais e a desregulamentação das obras públicas; no
Brasil, são o controle sobre as polícias, o desmonte da fiscalização financeira
e territorial e a política de armas.
A
eleição não decide o fenômeno; apenas o encontra. Quem tomar posse em 2027
governará sobre milícias consolidadas, facções financeirizadas e polícias com
baixo controle civil. O que se disputa nas urnas não é a existência da zona
cinzenta, mas o grau em que ela se traduz em governo.
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O que a punição não alcança
A Mani
Pulite, “Operação Mãos Limpas” italiana, prometeu purificar a política e
abriu o vácuo ocupado por Berlusconi. A Lava Jato percorreu trajetória
semelhante: desorganizou o sistema partidário, relativizou garantias
processuais e preparou o terreno para a extrema-direita de 2018.
O
punitivismo territorial tampouco toca a estrutura. Operações de alta
letalidade, como a Operação Contenção, na Penha e no Alemão em outubro de 2025,
com 121 mortos segundo o próprio governo estadual, matam operadores
substituíveis e deixam intactos o fluxo de renda e os circuitos financeiros.
Segundo o Mapa, o Comando Vermelho cresceu quase sem interrupção ao longo de
duas décadas de megaoperações — e os grupos já não ocupam áreas vazias, tomam
territórios uns dos outros, numa disputa feita à bala onde mais gente mora.
A
experiência italiana mostra o limite da própria resposta penal. O combate às
máfias foi, em parte, duramente penal: o maxiprocesso de Palermo, o regime
carcerário 41-bis, a tipificação do método mafioso. E foi enquanto a Cosa
Nostra era desmontada nos tribunais que a ‘Ndrangheta se tornou a mais
poderosa das máfias italianas. O direito penal alcança o mafioso; a acumulação
se desloca para onde a lei não olha e sobrevive a ele.
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O que a milícia é
Quando
passou a confiscar o patrimônio mafioso, com a Lei Rognoni-La Torre, de 1982, o
Estado italiano descobriu que o poder da máfia era, antes de tudo, propriedade:
fazendas, imóveis, empresas, contratos. A violência era o meio; o patrimônio, a
substância.
O mesmo
vale para a milícia. Ela não é a ausência do Estado nas periferias, mas uma de
suas formas de presença: coerção pública, exercida por agentes públicos,
convertida em renda privada. O chamado “poder paralelo” não corre em paralelo a
nada; está cravado no orçamento doméstico do trabalhador, do qual retira uma
parcela fixa todo mês.
Daí que
parte dos moradores de áreas milicianas descreva a milícia como ordem
preferível à do tráfico. Não é engano. A milícia vende previsibilidade num
mercado em que o Estado é apenas mais um ofertante armado, e nem sempre o mais
confiável. A preferência reconhece que, ali, a proteção é mercadoria.
Milícia
e facção financeirizada são os dois polos de um mesmo circuito. Num extremo, a
renda é extraída no varejo da vida cotidiana; no outro, reaparece como cota de
fundo, ação de gestora, usina de etanol. A zona cinzenta não é a fronteira
entre os dois, mas o espaço em que a acumulação se realiza.
No
capítulo de Gomorra dedicado ao cimento, Saviano vai a Casarsa, ao
túmulo de Pier Paolo Pasolini, e retoma o célebre “eu sei” com que Pasolini, em
1974, acusou os responsáveis pelos massacres que ensanguentaram a Itália, num
texto que admitia não ter provas. Saviano articula o “eu sei” de seu tempo e o
completa: eu sei e tenho as provas. As dele eram as do testemunho, o que os
olhos viram nos canteiros de obra. No Brasil, as provas são também públicas:
estão nos mapas, painéis, inquéritos e sentenças citados neste texto.
A zona
cinzenta não é o que o Brasil pode vir a ser. É o que o Brasil já é: um país em
que voto, território e vida cotidiana se organizam, em parte crescente, segundo
a franquia do crime com carimbo oficial.
Fonte:
Por Marcelo Phintener, em Outras Palavras

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