O
que os modelos econômicos deixam de fora quando tentam enquadrar a vida
Há algo
da cama de Procusto em certas maneiras de pensar a economia. Na mitologia
grega, Procusto possuía uma cama à qual os viajantes deveriam se ajustar. A
medida estava estabelecida de antemão: eram os corpos que precisavam
corresponder às dimensões do leito, e não o contrário.
A
imagem oferece uma metáfora incômoda para pensar modelos econômicos. Toda
teoria necessita abstrair a realidade, selecionar variáveis e estabelecer
categorias. O problema não está, portanto, na abstração, mas em esquecer que
modelos são recortes e passar a tratar seus limites como se fossem os limites
da própria realidade. Nesse movimento, aquilo que não encontra lugar nas
categorias disponíveis pode ser considerado secundário, externo ou irrelevante
para a explicação.
Essa
imagem me ocorreu recentemente, ao participar de um seminário sobre
interseccionalidades e ser interpelada sobre os limites de uma análise
econômica que incorpora gênero, raça ou classe sem necessariamente questionar
as categorias utilizadas para definir aquilo que reconhecemos como economia. A
experiência suscitou uma questão aparentemente elementar: afinal, o que estamos
chamando de economia?
Para
respondê-la, o corrimão do meu pensamento nessa travessia será a Economia
Feminista. Não há uma data única que possa ser apontada como seu nascimento.
Debates feministas sobre a posição das mulheres na economia, o trabalho
doméstico e a reprodução social atravessaram diferentes momentos do século XX e
ganharam particular força nas décadas de 1960 e 1970. Nos anos 1990, a Economia
Feminista adquiriu maior reconhecimento como corrente no interior da ciência
econômica, tendo na criação, em 1992, da International Association for Feminist
Economics (IAFFE) um marco importante de sua institucionalização e
internacionalização. Na América Latina, a ampliação do campo pode ser observada
em autoras como Alicia Girón, que articula Economia Feminista, financeirização
e políticas monetária e fiscal, e em Valeria Esquivel, Corina Rodríguez
Enríquez e Alma Espino, cujos trabalhos abrangem cuidado, mercado de trabalho,
crises e políticas macroeconômicas.
No
Brasil, Hildete Pereira de Melo recupera como um de seus marcos a publicação,
em 1985, de um número especial da revista Literatura Econômica dedicado à
condição feminina. Décadas depois, a criação da Rede Brasileira de Economia
Feminista (REBEF), em 2020, ampliou a articulação entre pesquisadoras de
diferentes regiões e universidades.
Uma das
críticas formuladas pela Economia Feminista dirige-se à representação do
sujeito econômico presente em vertentes da economia ortodoxa, particularmente
na tradição neoclássica. O homo economicus tornou-se uma figura conhecida dessa
abstração: um indivíduo racional e individualizado. Uma ilustração
particularmente sugestiva aparece em manuais de microeconomia por meio da
chamada “economia de Robinson Crusoé”. Em Intermediate Microeconomics, de Hal
R. Varian, Crusoé é apresentado sozinho em uma ilha, desempenhando
simultaneamente os papéis de consumidor e produtor e decidindo como distribuir
seu tempo entre trabalho e lazer. O exemplo tem uma função didática legítima:
reduzir a complexidade para tornar determinadas relações econômicas
analiticamente tratáveis. Mas é justamente sua artificialidade que permite
formular outra pergunta: quanto da experiência social precisa ser suspenso para
que o indivíduo econômico possa aparecer como autônomo? A coletânea Economia
feminista no Brasil: contribuições para pensar uma nova sociedade (2023) chama
atenção para os limites da representação abstrata do sujeito econômico.
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Há trabalho antes do trabalho.
Antes
que alguém chegue a uma fábrica, a um escritório, a uma escola ou a um hospital
como trabalhador, houve atividades que tornaram possível sua existência
cotidiana. Alimentação, limpeza, proteção, educação e cuidado demandam tempo e
trabalho. A reprodução social tampouco se restringe à manutenção daqueles que
estão empregados: envolve crianças, idosos, estudantes, pessoas doentes ou
incapacitadas e outras pessoas que, por diferentes razões, estão fora da força
de trabalho. Produção e reprodução cotidiana da vida não constituem, portanto,
universos independentes.
O
cuidado interessa aqui pelo problema teórico que torna visível: atividades
indispensáveis à existência e ao funcionamento da economia podem permanecer nas
margens das categorias utilizadas para compreendê-la. Se a produção realizada
no mercado depende também de condições produzidas fora dele, onde exatamente
começa e termina a economia?
Essa
pergunta ajuda a distinguir duas operações que parecem semelhantes, mas não são
idênticas: incorporar gênero à análise econômica e interrogar a economia a
partir de uma perspectiva feminista.
É
possível investigar diferenças entre mulheres e homens nos salários, na
participação no mercado de trabalho, no desemprego, na renda ou na pobreza sem
modificar substancialmente as categorias utilizadas na análise. Essas
investigações tornam visíveis desigualdades que podem desaparecer nos
indicadores agregados. A Economia Feminista, porém, acrescenta outra ordem de
perguntas: o que reconhecemos como trabalho? O que consideramos produção? Quem
aparece como sujeito econômico? Que pressupostos estão contidos na ideia de
autonomia?
Gênero
deixa, assim, de ser apenas uma característica dos indivíduos observados e
passa também a funcionar como perspectiva crítica sobre epistemologias e
ontologias utilizadas para observar a economia. Por isso, a Economia Feminista
não pode ser reduzida ao estudo do trabalho doméstico ou do cuidado. Seu campo
inclui também estatísticas, mercado de trabalho, consumo, políticas públicas e
macroeconomia.
É
justamente na macroeconomia que a diferença entre acrescentar uma variável e
questionar pressupostos se torna particularmente clara. Crescimento, inflação,
emprego, tributação, gasto público, dívida e equilíbrio fiscal são grandezas
agregadas, mas não ocorrem em uma sociedade abstrata. Seus efeitos alcançam
grupos posicionados de maneiras diferentes no mercado de trabalho, na
distribuição da renda e do patrimônio e no acesso à proteção social. A questão
passa a ser, portanto, como os efeitos das decisões macroeconômicas se
distribuem socialmente. A tributação oferece um exemplo. Quando grupos ocupam
posições distintas na distribuição da renda, um mesmo sistema tributário pode
produzir incidências proporcionalmente diferentes.
Há,
contudo, um risco: questionar o sujeito econômico universal para colocar em seu
lugar uma “mulher universal”. Descolonizar a Economia Feminista exige recusar
essa substituição e reconhecer a pluralidade das experiências das próprias
mulheres. Na América Latina, isso implica pensar a economia a partir das
condições históricas e sociais da região, considerando como gênero se articula
a raça, classe e território em sociedades marcadas pela experiência colonial.
Em um
gesto de desobediência epistêmica, a produção de conhecimento econômico por
economistas negras promove um deslocamento importante: as mulheres negras
deixam de figurar apenas como objetos de análise e passam a ocupar o lugar de
sujeitas epistemológicas, formulando problemas, categorias e interpretações
sobre a própria economia. O Instituto NoFront lançou, em 2026, o primeiro
volume de seus Boletins Econômicos, dedicado ao tema “Mulheres Negras e
Macroeconomia”, reunindo análises sobre a inserção do Brasil na economia
mundial, o arcabouço fiscal e a política monetária.
É aqui
que Procusto retorna.
A cama
não representa “a Economia” como um bloco homogêneo. Representa o momento em
que uma construção analítica deixa de ser reconhecida como construção e passa a
funcionar como medida suficiente da realidade. Diante de fenômenos que não
correspondem às categorias disponíveis, podemos tentar acomodá-los às medidas
que já possuímos ou perguntar se essas medidas continuam adequadas ao que
pretendemos compreender.
É nesse
segundo movimento que reside uma das contribuições mais instigantes da Economia
Feminista. Não se trata de abandonar modelos, indicadores, estatísticas ou
abstrações, nem simplesmente de acrescentar mulheres, gênero ou cuidado às
categorias existentes. Trata-se de preservar a possibilidade de interrogar a
própria medida.
Talvez
seja essa, afinal, a pergunta que Procusto deixa para a economia: quando a
realidade não cabe nas categorias que construímos para compreendê-la, o que
precisa ser revisto – a realidade ou a medida?
Fonte:
Por Yoná dos Santos , no Le Monde

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