Regra
de 1968, ano do AI-5, embasa exonerações de professoras na rede estadual
paulista
Em
janeiro deste ano, Veruschka de Sales Azevedo passou pouco mais de uma hora
contando à Agência Pública como perdera o cargo de professora na rede estadual
de ensino de São Paulo. Ela chorou algumas vezes durante o encontro que foi
finalizado com certa esperança: “O meu retorno será triunfante”, disse.
Enquanto aguardava o desfecho do seu caso, ela organizava um livro com relatos
de professores também investigados por meio de Processos Administrativos
Disciplinares (PAD) na Secretaria de Educação de São Paulo (SEDUC). “A gente
precisa registrar isso em tudo quanto é lugar.” Doutora em história, Veruschka
tinha 24 anos de magistério, cerca de vinte deles na mesma escola de Guarulhos
onde estudara antes de ser exonerada em maio de 2024 num PAD que se iniciou em
2017. Entre a abertura do processo e a exoneração, passaram-se sete anos e seis
meses.
Em
março deste ano, num artigo no Le Monde Diplomatique, Veruschka escreveu que o
trauma da exoneração lhe causara uma doença crônica. Ela viria a falecer em
julho, seis meses após a entrevista para a reportagem. A família não divulgou a
causa da morte, mas a filha, Rayssa Sales, não tem dúvida sobre a origem da
doença: “Antes, a imunidade da minha mãe era perfeita, mas, depois da
exoneração, ela começou a ficar doente.”
As
acusações contra a professora na SEDUC apontam falta de comprometimento com os
estudantes, tumulto em reuniões pedagógicas, incitação de alunos contra a
direção e excesso de atenção a temas raciais e de empoderamento feminino nas
aulas.
Três
dias antes da demissão de Veruschka, também a professora Fabiana de Abreu, que
ensinava história na mesma escola, fora exonerada. Em agosto de 2025, chegaria
a vez de Maitée Nogueira, professora de sociologia em São Sebastião, no Litoral
Norte paulista. As três contestaram as acusações em entrevista à Pública. Os
processos se apoiam em um estatuto anterior à Constituição de 1988: o dos
servidores civis do estado, de 1968, ano do AI-5. Para Salomão Ximenes,
professor da Faculdade de Educação da USP e pesquisador do Observatório
Nacional da Violência contra Educadores (Onve), os estatutos escritos durante o
período ditatorial têm sido “ressignificados com o objetivo de dar mote a
processos administrativos de perseguição a educadores”.
Ele
fala em “lawfare educacional”: o uso de instrumentos jurídicos e burocráticos
para conter a mobilização de professores, a luta sindical e os avanços no
currículo. Além de São Paulo, outros estados regulamentam o magistério por meio
de normativas elaboradas durante o regime de exceção como Rio Grande do Sul,
Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Acre e Ceará, conforme
Ximenes identifica no artigo “Os anos que não acabaram; o uso de estatutos
jurídicos da ditadura militar na perseguição a educadores(as) no Brasil”, que
publicou na metade deste ano com a jurista Ligia Ziggiotti de Oliveira.
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Sarau criado por Veruschka incomodava a direção
Veruschka
nasceu em Sanharó, no interior de Pernambuco, e chegou a Guarulhos ainda
criança, com seis irmãos. A mãe era empregada doméstica; o pai, caminhoneiro.
Ela estudou na Escola Estadual Professora Maria Aparecida Rodrigues, no bairro
Pimentas, em Guarulhos, e cursou história na Unesp. Concursada em 2000, deu
aulas na cidade de Sertãozinho até pedir, em 2004, transferência para a escola
onde estudara. “Lá, havia professores que incentivaram os alunos a buscar a
universidade pública”, disse a filha Rayssa. “Daí ela veio com o sonho de fazer
o mesmo que fizeram por ela.” Ficou lá mesmo depois do doutorado, concluído em
2016 na PUC-SP.
Nas
aulas, discutia desigualdades, feminismo, direitos humanos e identidade negra,
e aplicava a Lei 10.639, de 2003, que tornou obrigatório o ensino de história e
cultura afro-brasileira. Militava na Associação Nacional de História (Anpuh),
no sindicato e na Marcha Antirracista do Bairro dos Pimentas. Na escola,
conduzia o Sarau Resistência: ao longo do ano, os alunos pesquisavam
personalidades negras e as homenageavam com apresentações. “No sarau do Milton
Nascimento, fizemos o Milton de açúcar, porque ele é uma pessoa doce”, lembrou
o ex-aluno Thiago Gomes, hoje estudante de filosofia na USP. “Eu via alunos
racistas mudarem de opinião depois do sarau.” No cursinho popular da UNEafro
Brasil que Veruschka coordenou na Unifesp, Thiago ouvia dela que era “um menino
de ouro”. Para ele, a professora Veruschka morreu duas vezes. A primeira foi
quando sofreu a exoneração. “Foi ali que perdi o brilho nos olhos. Eu
continuava tendo aula com a Veruschka no cursinho da UneAfro, mas não era a
mesma coisa”, afirma.
Os
atritos com a direção da escola começaram em 2008, segundo Veruschka, quando,
ainda no governo de José Serra, passaram a exigir o uso de apostilas. O
material, disse ela, “não tinha respaldo na diversidade das minhas salas de
aula, na realidade dos alunos”. Depois vieram suas cobranças por transparência
no uso das verbas e as queixas da gestão contra o sarau. “Esse projeto
incomodou tanto a gestão que, a todo momento, queriam acabar com ele, porque os
alunos começaram a se sentir parte desse movimento.”
Salomão
Ximenes, do Onve, diz que os estatutos preservam princípios como “a proibição
de manifestação e uma lógica hierárquica em relação às autoridades
administrativas”, incompatíveis com a democracia, que “continuam a persistir e
a servir de mote para processos de punição”.
O
advogado de Veruschka, Roberto Parahyba, chama a demissão de “arbitrária” e
“antissindical”: “não tenho dúvida de que o principal ponto foi ter participado
do ato sindical.” A defesa sustenta, ainda, que o caso estava prescrito com
base no próprio estatuto de 1968, que fixa em cinco anos o prazo para a pena de
demissão.
O
Procurador do Estado havia pedido a suspensão da professora por 90 dias, mas o
Secretário de Educação do Estado de São Paulo, Renato Feder, aplicou a pena de
demissão em maio de 2024, por considerar que Veruschka “teve conduta
incompatível com o cargo de professora, principalmente no aspecto da
moralidade” e agiu “de maneira desrespeitosa perante a gestão escolar”.
Para o
Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp),
“se o professor tem uma atuação mínima que seja de defesa da escola pública é
perseguido. Se for sindicalista então, a situação é ainda pior”, diz Roberto
Guido, presidente interino do sindicato.
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Exoneração fez Veruschka perder o acesso ao hospital
Com a
demissão, Veruschka perdeu o acesso ao hospital dos servidores estaduais. “A
gente sabe como o SUS é demorado e que ir buscar uma consulta particular é
caro”, disse a amiga Vera Aparecida dos Santos, assistente social. Em janeiro,
a professora contou ter uma úlcera gástrica e o intestino inflamado. “Eu quero
meu cargo de volta. Quero os meus 25 anos de contribuição. A gente nunca espera
parar de trabalhar”, disse, emocionada, à Pública.
Numa
pesquisa da Apeoesp divulgada em maio de 2026, 97,6% dos professores ouvidos
associaram o adoecimento mental às condições de trabalho na rede; 24,8%
precisaram se afastar da escola por esse motivo. Segundo Guido, depressão e
burnout já superam as doenças físicas, em razão da superlotação das salas, das
jornadas duplas ou triplas, dos conflitos e, mais recentemente, da
plataformização do ensino. A SEDUC afirma que, desde dezembro de 2024, oferece
atendimento psicológico e psiquiátrico aos servidores por meio do programa Viva
Bem.
Segundo
a mentora espiritual de Veruschka, a Iyalorixá Cláudia de Oyá, a demissão causou um sentimento de abandono
na professora diante de toda uma vida dedicada à educação: “ela começou a
perder muito peso e tinha um sentimento de solidão. Se sentiu muito perdida em
meio a todo o esforço de uma vida”, explicou.
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Fabiana tratou “repetidamente” de pautas raciais e indígenas
Fabiana
de Abreu foi exonerada em maio de 2024, também durante a gestão do governador
Tarcísio de Freitas. Em 2017, ela foi afastada por 90 dias, sem salário, após
conflitos com a direção da mesma escola de Veruschka em Guarulhos. A suspensão
de 2017 foi anulada e Fabiana voltou à escola após 39 dias. Segundo ela, o
prazo para punição já havia prescrito. “Mas quando eu retornei, começou outro
processo.” Nele, Fabiana foi acusada de falta de urbanidade, insubordinação,
tumulto em reuniões pedagógicas, falhas no lançamento de notas e de incitar
alunos a atos contra a direção. O processo registra ainda que ela trabalhava
“repetidamente questões sobre índios, negros e movimentos sociais para todas as
turmas, sob a justificativa de que tem liberdade de cátedra”.
A
defesa da professora considera as acusações “comprovadamente distorcidas” e
alega também a prescrição. A SEDUC diz que os processos de Fabiana e Veruschka
apontam interrupções reiteradas nas reuniões pedagógicas e conflitos com a
gestão, e que houve tentativas prévias de mediação.
Com o
avanço conservador sobre a educação, diz Ximenes, o estatuto que embasou as
demissões “passa a ser cada vez mais reivindicado como possibilidade de
contenção de educadores que propõem ações de educação democrática,
antidiscriminatória e mobilizações no âmbito da escola pública”.
Fabiana
diz que estaria “um pouco mais tranquila” se tivesse sido demitida sozinha. Por
causa do afastamento dela, em 2017, outros professores que foram ao ato
sindical, como Veruschka, passaram também a responder a processos. Com a
exoneração, ela também perdeu o direito de tratar o câncer da mãe no hospital
dos servidores. “Esses processos atrasam toda a nossa condição de existência. A
cabeça adoece”, afirma a docente, que recorreu à justiça sobre a demissão.
Fabiana
liga o caso dela à adoção de plataformas digitais nas escolas estaduais, a
partir de 2024: professoras como ela e Veruschka, diz, foram afastadas para que
as dirigentes pudessem “de maneira mais sossegada implantar o projeto do
governo”. Diego de Freitas, professor de filosofia que trabalhou com Veruschka,
vê o modelo como “uma educação enlatada, ultraprocessada”, na qual a colega não
se encaixaria. “Ela sempre estava defendendo uma educação democrática, a
liberdade de cátedra e isso causava tensão no ambiente.”
Para
Ximenes, o controle do currículo, a obrigação de alimentar as plataformas e a
cobrança de metas nas avaliações eliminaram a pluralidade pedagógica nas
escolas paulistas. “Tudo já vem dado, plataformizado e construído”, diz.
“Aqueles que não se plataformizam ou não performam se colocam em risco.” Uma
nota técnica da Rede Escola Pública e Universidade (Repu), de julho de 2025,
aponta que o tempo de uso das plataformas é monitorado, com possibilidade de
punição a professores e diretores.
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Caso Maitée: “debates polêmicos” sobre sexualidade e religião
Maitée
Nogueira dava aulas há mais de vinte anos quando entrou em conflito com a
direção da Escola Estadual Walkir Vergani, em São Sebastião, em 2023. O
processo a acusa de descumprir o horário de trabalho, de falta de urbanidade,
de condutas discriminatórias e de insubordinação grave, e menciona “debates
polêmicos” sobre sexualidade e religião. A Procuradoria-Geral do Estado
reconheceu não haver documentação oficial que comprovasse o descumprimento da
jornada de trabalho. A demissão foi determinada em agosto de 2025, também na
gestão de Tarcísio de Freitas.
“Está
na ordem do dia da Secretaria de Educação exonerar, pois qualquer investigação
séria teria parado quando comprovei que cumpri meus deveres como professora”,
afirma Maitée. Ela também explica que os supostos “debates polêmicos” são
inerentes à disciplina e que sempre seguiu o currículo. Os conflitos, diz,
deveriam ter sido mediados pela coordenação. Sua advogada considera as
acusações “frágeis” e “contraditórias” e afirma que a professora “era
perseguida, veladamente, pela gestão, tendo ainda de lidar com o preconceito
decorrente de sua orientação sexual”.
A SEDUC
afirmou à reportagem que o processo apurou agressões verbais contra estudantes
e servidores, linguagem ofensiva, intimidação de alunos, recusa em usar o nome
social de uma estudante e comentários discriminatórios, além de abandono de
atividades, atrasos frequentes e descumprimento de obrigações pedagógicas.
Demitida, Maitée não pode assumir outro cargo público, mesmo que aprovada em
concurso. “Não posso mais exercer a profissão em que atuei por 20 anos, na qual
estudei e me preparei”, desabafa.
A SEDUC
diz que os processos das três professoras citadas na reportagem garantiram o
contraditório e a ampla defesa, que os recursos das professoras foram
rejeitados e que nenhuma delas levou o caso à Justiça, o que contradiz as
informações das defesas das professoras enviadas à Pública. Nos três casos, as
professoras estão recorrendo contra as exonerações.
Ximenes
defende que os estatutos anteriores à Constituição de 1988 sejam atualizados
para incorporar as premissas de uma educação democrática. “Para mim é
escandaloso que a gente continue usando uma legislação do período da ditadura”,
diz. “Assim, é muito mais fácil para as perspectivas autoritárias se
desenvolverem, com essa infraestrutura jurídica à disposição.”
No
velório de Veruschka, decidiu-se que o Sarau Resistência passaria a se chamar
Sarau Veruschka de Sales Azevedo. Ela foi homenageada pela Associação Nacional
de História (Anpuh) e recebeu uma moção de aplauso na Assembleia Legislativa de
São Paulo (Alesp). A família tenta anular a exoneração, mesmo após o
falecimento. “Como filha, eu gostaria de algo impossível: ter minha mãe de
volta e que ela pudesse usufruir do cargo dela”, disse Rayssa: “O que a gente
gostaria é que, pelo menos, o caso dela se revertesse.”
Fonte:
Por Camila Borges, em Agência Pública

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